A Teoria das Cores
16 Dourado I
ORGULHO
Apesar de não ser exatamente um exemplo de aluno, Dan odiava quando os professores resolviam fazer um legítimo complô contra si. No caso, era formado apenas por sua professora mais unilateral, rígida, mas que valia pelo conselho escolar todo. Sabia (ou rezava para isso) que Elis não podia ter provas de sua cola — tinha apenas acusações, nada formal.
— O seu fim de semana deve ter sido um porre, né? – não queria deixar a docente perceber seu nervosismo – Pra voltar com esse assunto agora. Só espero que tenha argumentos dessa vez.
— Iremos discutir esse assunto mais tarde — e lá se foi à mulher até a sala dos professores.
Quando Elis já estava a uma distância considerável, Sabine beliscou o braço do amigo.
— EI! Tá andando com a minha tia por um acaso?! — resmungou.
— Tu tem demência, Daniel?! Colando de novo? Custa fingir que estuda pelo menos?!
— Olha, se tu vai defender aquela manga chupada que chamamos de professora é melhor encerrarmos o assunto.
— A questão não é a professora, e sim o que tu fez. E não vem dizendo que não, porque te conheço tempo suficiente pra saber que tu é desses.
— Eu fiz mesmo. Não entendo matemática!
— Eu também não e nem por isso pego cola do Jeff.
Dan olhou fixo aos olhos da outra.
— Que milagre chamando o Jeff de Jeff — tentou desconversar.
— Próxima vez, chamo ele de Madalena então — foi sarcástica — Isso é grave, Dan. Pode dar suspensão, chamar teus pais...
— Eu sei, eu sei. O que sugere que eu faça?
A garota suspirou.
— Negue até a morte. A não ser que ela jogue limpo e mostre provas. Mas não faz o tipo dela acusar sem provas.
— Pode deixar — tentou sorrir para tranquilizar a amiga — Vamos logo largar essas mochilas.
A verdade era que o garoto não estava tão tranquilo. Na verdade sua mente congelava ao pensar que tudo estava perdido. Como explicaria a seus pais e seus tios essa chamada a escola?
Assim que saíram da sala, Dan e Sabine foram à diretoria. O garoto queria se ver livre daquela situação o mais depressa possível. Seguiria o conselho da amiga até quando fosse possível, depois, ia usar o seu método.
— Mandei mensagem pro Jeferson e ele já tá vindo pra cá. Pensa num cara apavorado — a garota avisou.
— Como sabe disso se conversaram por mensagem?
— Talvez devido a uma invenção chamada áudio? Ele parecia minha mãe quando descobriu que ia ter liquidação de sapatos essa semana.
— Histérico?
— Muito.
Dan riu.
— Mas gay que isso, só ele começar a andar de vestido e salto alto.
Não demorou para ambos encontrarem um Jeff desesperado vindo atrás deles e os seguindo rumo à diretoria. O garoto parecia um papagaio de língua solta, já que não ficava quieto um minuto criando mil teorias sobre o que a diretora queria com o amigo.
***
Se há uma característica que Alisson não gosta em si mesmo, certamente é o orgulho. Já tinha perdido as contas de quantas vezes tal sentimento o impediu de ser feliz. Mas era parte de si. Não adiantava espernear nem implorar por mudanças.
Depois da conversa com Antero, tentou seguir sua vida e seu trabalho dentro da normalidade, mesmo que vez ou outra Gil lhe encarasse como se esperasse algum pedido de desculpas. Claro que isso não iria acontecer... Ou ia? Quando chegou a hora do almoço, é que o clima esquentou.
— Mesa sete está ocupada, Al? — Gina perguntou ao rapaz, que estava distraído — AL!
— Hã? Eu! — se recompôs.
— Perguntei se a mesa sete está ocupada. Esqueci de anotar qual a mesa que o último casal pediu.
— Deixe ver — O rapaz olhou em direção as mesas — É aquele casal formado por um tiozão e uma ruiva que tem idade pra ser minha irmã?
— Sim — Gina riu, discretamente.
— Estão na mesa dez. A sete tá livre.
— Ah tá. Valeu — a garota parecia constrangida com algo e o outro notou isso.
— Algum problema?
— N-não é nada não. Só... Tô curiosa.
— Com o quê?
— Ai, fico com vergonha de perguntar sobre tua vida particular. Afinal nos conhecemos há tão pouco tempo.
— E tu já se apaixonou? Nossa, é um recorde! — brincou o rapaz.
— Trouxa! Claro que não é isso — parecia escolher as palavras — Bem... É que tu e o Gil estão bem esquisitos hoje. Até sábado pareciam unha e carne aqui, e hoje estão desse jeito...
— Ah... — Al tentou não fazer uma cara de desgosto — Não é nada. É só que... Bom, pessoas se desentendem né?
— É. Mas é que sei lá—
— Quero uma mesa, por favor — Amora interrompeu a conversa.
Ver a figura da menina foi o suficiente para sentir uma confusão se formando. Só estranhou aquela atitude tão arrogante. Era um imã para meninas fora de si, disso não tinha dúvidas. Mil vezes falar de sua vida com Gina, do que meia hora atendendo à rebeldia em pessoa. Pelo tom de voz, faria de tudo para encrencar. Preparava seus ouvidos (e um pouco de sua paciência) para enfrentar a batalha a sua frente. Infelizmente, era seu trabalho, tinha de dar um jeito.
— Mesa pra um? – Gina perguntou, educada.
— Está vendo outra pessoa comigo? – Amora perguntou ríspida.
— Não, senhora... Perdão.
— Tá tá, que seja.
— Mesa três para a senhora.
A outra consentiu com a cabeça e foi até a mesa indicada. Gina, óbvio, ficou fervilhando por dentro, querendo voar no pescoço da farota.
— Grossa — comentou baixo para Al.
— Tô bem surpreso, na verdade. Ela parecia tão legal quando saímos juntos.
— Porque vocês dois estavam saindo juntos, né! Ela queria um brinquedo novo para usar por dois minutos e jogar fora. Não conhece a fama dela, não?
— Na verdade, nem a conhecia muito bem até uma festa do meu colégio.
— Considere-se privilegiado. Ela consegue ser bem antipática quando quer. Tu viu aqui agora.
— E o pior é que imagino o motivo... — o garoto falou pensativo.
— Qual?
— Outra hora eu te conto — desconversou — Para todos os efeitos, vou pedir pra alguém atender ela no meu lugar.
— Na verdade, só tem o Gil e outro garoto que servem as mesas de manhã. Porém, o outro não veio hoje.
Procurando evitar um confronto direto com Amora, ele resolveu encarar o outro leão: Gil. Sabia que o garoto iria provocá-lo e não faria nada que o solicitasse, mas não custava nada tentar não é? Foi indo ao encontro dele com o coração gelado e uma cara amarrada. Esperava que o outro não fosse totalmente louco para não perceber o quanto ele fazia aquilo “obrigado”.
— Podia fazer o favor de atender a mesa três?
— Bom dia antes de tudo, né Alisson? — Gil foi irônico, o que fez o outro revirar os olhos.
— Pode atender ou não?! — insistiu.
— Claro que não.
— E eu posso saber por quê?
— Eu poderia citar aqui o fato de como tu me tratou no fim de semana, mas, como aquilo foi de cunho pessoal, eu prefiro dizer que é porque tu não é o meu chefe.
— O que te custa atender ali?
— Custa o mesmo que pra ti: Nada. Mas acontece que na hierarquia desse lugar, nós estamos lado a lado — Gil tinha um sorriso sádico nos lábios — E põe lado a lado nisso.
O mais novo se encheu. Percebeu que não poderia mais contar com Gil para nada, ou pelo menos até se acertarem. Decidiu então não prejudicar seu emprego e atender Amora de uma vez.
A cada passo que dava em direção à mesa da garota, sentia um bolo se formando em seu estômago. Visto à maneira que ela adentrou ao lugar, não estava a fim de jogar conversa fora. Veio ali para afrontar. Al se perguntava quantas pedras ele jogou na cruz para tanta coisa estar acontecendo em sua vida. Só torcia para não surtar de vez.
— O que a senhorita deseja? — manteve a educação, mas seu tom era ríspido.
— Não sabia que trabalhava aqui. Se soubesse, certamente iria a outro lugar — Amora disse no mesmo tom.
— Comecei na sexta, na verdade. Enfim, a senhorita tem algum pedido especial?
— Tenho sim, mas duvido que vocês tenham aqui — sorriu com o canto da boca — Por um acaso vocês tem homens que saibam defender suas pretendentes no estoque?
Al revirou os olhos.
— Temos sim. Quando a senhorita for pretendente de alguém, pode vir aqui e buscar um. Era só isso?
— Vai me dizer que tu não queria mais?
— Não. Justamente por isso eu te disse que eu queria algo sem qualquer compromisso.
— E só por isso tu deixou aquela garota me tratar daquele jeito?!
— Que jeito? Tu é quem fez aquele escândalo todo.
— Eu tenho o direito de ficar brava, correto?
— Eu sei lá que direito tu tem. Só sei que se eu soubesse que tu era tão dramática tinha arranjado outra mina pra ficar.
Furiosa, Amora levantou e foi em direção à saída com passos pesados. Al só deu de ombros. Dava um dedo para não se incomodar, e uma mão para se manter em uma. Se o jogo fora uma farsa, não sentia remorso. As regras estavam bem claras.
Gina, aproveitando o movimento fraco, foi até Al para checar o que houve.
— O que a metida queria?
— Encher o saco. Mas botei ela no lugar dela... Eu acho.
— Alguém tinha que fazer, né? – Gina sorriu e voltou ao seu posto.
Por pior que tenha sido, um problema tinha sido controlado pelo menos por hora. Claro que Alisson dormiria melhor sabendo que tudo ia ficar como estava e pronto. Infelizmente seu pressentimento dizia que a partir de agora é que o verdadeiro show de horrores ia começar.
O restante da tarde passou rápido. O rapaz tentava se concentrar ao máximo no seu trabalho, mas era difícil com a figura de Gil lhe encarando o tempo todo. Já não bastava o que tinha feito, ainda ficava lhe encarando daquela maneira como se tivesse o testando? Bom, talvez estivesse mesmo. Talvez quisesse repetir a dose. Não entendeu bem como funcionava a cabeça de Gil, todavia teria de tentar decifrar para saber a verdade sobre a suposta noite.
Assim que chegou em casa, foi direto ao banho e lá ficou por mais ou menos meia hora. Era assim quando decidia pensar sobre a vida e o que fazer com ela. Quando terminou, vestiu-se e foi até seu quarto se atirar em sua cama. Passou a encarar o teto.
“— Tá difícil imaginar o que foi? — Gil dizia sorrateiro – Deixa eu te dar uma dica: tua boca faz ma-ra-vi-lhas...”
Só podia ser castigo. Ele não encontrava outra alternativa para tal ato ter acontecido. Mesmo que sua cabeça insistisse em afirmar que nada ocorreu, o benefício da dúvida lhe deixava apavorado. Sempre se interessou por garotas, e agora se via naquela situação. Cogitou ter sido praga de alguma ex namorada ou ficante que guardavam mágoa dele (Que não eram poucas, diga-se de passagem).
— Filho? — a voz de Marisa o tirou de seus pensamentos.
— Fala, mãe.
— Tudo bem?
— Tudo dentro do possível.
— Chegou com uma cara. Aconteceu algo no trabalho? Fala pra mamãe que eu vou lá e ponho o cadeledo no lugar deles.
— Não, mãe, não precisa — riu — São só uns probleminhas mesmo. Mas vou resolver.
— Tem haver com a escola então?
— Talvez... Sei lá. A princípio, tava tudo ok lá. Vamos ver amanhã.
— Eu acho que não está bem, não — Marisa deduzia — Estão te chamando amanhã à tarde na escola para uma reunião com a tua professora de matemática.
Al revirou os olhos e encarou o céu.
— É castigo mesmo, né? O que ela quer agora?
— Eu não sei, Alisson. Eu não estudo lá. Tu sim. Então me diga o porquê ela te chamou lá.
— Porque ela é louca.
— Muito original.
— Eu não sei também, mãe. Tô sabendo agora. Sei lá, essa velha tem implicância comigo.
— Aham, sei — ironizou, desconfiada — Ai de ti se tu faltar com respeito com ela. Não se destrata professores em nenhuma circunstância.
— Professores, sim. Mangas secas, não.
— Alisson...
— Tá, tá. Vou me controlar.
Marisa sorriu e deu um beijo de boa noite no filho. O garoto nem imaginava o dia louco que lhe aguardava...
***
— E foi isso. Eles não têm provas da cola, mas, baseados nos trabalhos anteriores, só com muita reza eu poderia ter ido bem nessa prova — Dan falava.
Ele já havia ido a diretoria. Lá a supervisora educacional insistia em acusar sem provas, se baseando apenas em trabalhos e avaliações anteriores. Como não usava cola todas às vezes, era nítida a diferença em uma prova feita por ele e uma feita por cola.
Agora estava o trio sentado nas arquibancadas do ginásio. Era a aula de Educação Física.
— Eles podem acusar assim? — Jeff perguntou.
— Se eu fosse um aluno padrão, não. Mas do jeito que eu sou podem.
— Ai, Dan, para com isso! Tá tu já colou algumas vezes, ma isso não te torna menos aluno que qualquer um daqui. Mesmo porque ninguém é santo — Sabine consolou.
— Eu tô tipo “f*da-se” pra isso tudo. Sinceramente. Esse lugar só não é o c* do planeta porque não tem m*rda que chegue ainda.
— O que pretende fazer agora?
— Sei lá — atirou um pedregulho mais adiante — Se pá até saiu daqui.
— COMO É?! — Sabine e Jeff dizem juntos, surpresos.
— Por que essa cena? Não posso sair do colégio?
— Óbvio que não, guri! — a garota repreendia — Além da tua mãe te matar, teus tios também aliás, hoje em dia não se consegue nada sem ensino médio.
— Eu trabalho com meus tios, ué.
— E quer ser atendente o resto da vida? Tu não tem nenhum sonho, não? — foi a vez de Jeff intrometer-se.
O garoto pensou um pouco.
— Nem sei o que quero da minha vida. Sério mesmo.
— Que desânimo pra vida. Só porque deu ruim com uma professora, tu vai se condenar o teu futuro todo?
— Mas eu já me enchi com isso aqui faz tempo! Isso foi só a cereja do bolo!
— Nós também estamos e nem cogitamos desistir. Qual é, Dan, pensa bem antes de fazer qualquer coisa.
De fato, a loira tinha razão. Ainda que toda a situação escolar o levasse a pensar na desistência, seu futuro dependia daquilo. Se já se considerava um fracasso sem estudar, sequer podia pensar em como se sentiria sem um diploma.
Enquanto pensava a respeito, uma moça de cabelos crespos apareceu, chamando seu nome. Pelo que lembrava, era a secretária da escola.
— Com licença, senhor Daniel dos Anjos?
— Sou eu aqui — o garoto respondeu.
— Aqui, pegue esse bilhete. É para comparecer aqui amanhã à tarde para uma reunião com a Professora Elis. É de suma importância que compareça, do contrário, seus pais serão chamados.
— Tá. Valeu, eu acho.
E a moça se foi, deixando mais um pepino em suas mãos. Dan não sabia, mas aquela reunião seria a mais marcante de sua vida...
CONTINUA
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