A Teoria das Cores
17 Branco I
UNIÃO
Dizem que quando duas pessoas estão predestinadas a se conhecerem, nem quem conspira contra consegue interferir. O destino sabe muito bem como “organizar” com nossas vidas. Às vezes demora, mas nunca nada é feito ou acontece em vão. Tudo parece ser programado nos mínimos detalhes.
Quando Daniel conheceu Vanessa, por exemplo, fora em uma situação completamente inusitada: Seus fones de ouvido engataram na bolsa da garota e o fizeram andar uma quadra até que a garota percebesse o que ocorria (Ela também estava de fones de ouvido). Na ocasião, cada um foi para seu lado e a vida seguiu, porém não deu dois dias para a garota melecar o outro com sorvete enquanto andava distraído pelo centro de Nova Petrópolis. Foram juntos até a padaria dos tios do rapaz e Van fez questão de limpar como se deve, botando de molho e tudo. Aproveitando o ambiente, comeu um lanche qualquer ali e foi quando ambos engataram uma amizade, que viria mais tarde a ser um amor.
Daniel tinha a certeza que havia encontrado sua alma gêmea, e ainda tem apesar dos pesares. Mas ele não entende de destino. Ele não entendia que às vezes nosso coração nos engana. A vida trataria de lhe ensinar algumas lições valiosas...
No momento, ele estava a olhar fixamente a um ponto qualquer. O que faria agora? Sua mente tentava formular algo verossímil para contar aos tios do porque terá de faltar ao trabalho na tarde seguinte. O que mais lhe preocupava era isso, porque tinha certeza que Elis não teria como provar que ele colou. Se o tivesse, certamente já teria mostrado a supervisão e ele teria sido suspenso. Se ela o chamou, é porque quer uma confissão. Só podia ser isso.
— EI, DANIEL! Tá na terra? — Sabine chamou, na realidade, gritou por ele.
— Hã? O quê? — o rapaz voltou a si.
— Assim que a moça da secretaria saiu, tu ficou aí, vegetando. Estávamos quase te pondo dentro de um vaso.
— Tava tentando pensar em algo pra dizer para os meus tios. Eles não vão acreditar que vou estudar.
— Diz que vai vir aqui fazer um trabalho em grupo. Pronto. E em todo caso, tu não vai ficar sozinho aqui. Eu e o Jeferson estaremos contigo.
— Estaremos? — Jeff se intrometeu.
— Se tu não ficasse mandando cola pro Dan ao invés de mandá-lo estudar, isso não estaria acontecendo. E se existisse justiça nesse mundo, tu devia ter sido chamado também — alfinetou a loira.
— Estaremos — concordou, por fim.
— Valeu, gente — Dan agradecia a generosidade dos amigos — É tanta coisa pra eu pensar que me perco. Valeu mesmo.
— É pra isso que servem os amigos, né? — a menina surpreendeu dando, um abraço no garoto.
Jeff não deixou em vão e disse, sorrindo e sarcástico. Deixar uma brecha daquelas passar em brancas nuvens lhe parecia desperdício de oportunidade.
— É... Os amigos servem pra isso mesmo.
Sabine o encarou com um olhar fuzilante que o fez rir baixo. A fim de desviar o assunto, tratou de puxar outro completamente diferente.
— Borá jogar então pra animar? — convidou ela.
— O que esse povo tá jogando mesmo? – Jeff perguntou.
— Vôlei.
— Sou péssimo em vôlei. Toda vida o Erick bate com a bola na minha cara.
Os dois amigos riram. Dan, tal qual o amigo, viu a oportunidade e lhe alfinetou na maior cara de pau.
— Humm... Não sabia que o Erick batia as bolas dele na tua cara. É fetiche, viadão? — Dan provocou.
— Vai se f*der, Daniel!
— Pede pra ficar no time dele então, daí não leva bolada. Ele tem aquela cara de quem chupou limão no sol mas é gente boa — Sabine sugeriu.
— É... Pode ser — deu de ombros.
— Já ouvi os caras comentando que ele pega o Henrique. Será que é verdade? — O garoto negro de pele clara perguntou, curioso.
— O que eu sei é que eles são unha e carne. Agora, o que eles fazem entre quatro paredes... — a loira deixou no ar.
— Vamos jogar ou ficar aqui feito velhas fofoqueiras? — Jeff interveio.
Dan se levantou e foi logo em direção à quadra, deixando Jeff e Sabine para trás. De repente a loira beliscou o braço do outro.
— Nunca mais faça insinuações, sacou? — intimidou.
— Tá bom. Foi mal, mas não resisti.
— Ainda bem que o Dan não é o símbolo da inteligência, senão...
E a aula foi seguindo no ritmo normal. Quando finalmente acabou, Dan e Jeff foram caminhando e conversando sobre bobagens diversas até a confeitaria dos tios do primeiro. Jeff foi embora pouco tempo depois, visto que a namorada tinha conseguido um dia de folga e passaria o dia com ela.
— Até que enfim o Jeferson foi embora — Marcella confessou — É muito querido, mas quando ele vem aqui tu só quer saber de conversa e as coisas ficam todas por fazer.
— Nem vem, tia! Tô fazendo tudo direitinho — rebateu o sobrinho.
— Ah é? Então cadê o suco da mesa dois?
— Já tá na mão — literalmente. Dan já estava com o copo de suco solicitado para tal mesa.
Ele foi indo até lá tão distraído, que acabou por não reparar que seu tio estava passando um pano úmido no chão. Não deu outra, o rapaz escorregou e derrubou o suco em cima da garota que estava sentada.
— F-foi mal aí — tentava se desculpar.
— Não foi nada. Caiu mais em cima da minha mochila do que em mim —explicou , rindo.
Marcella foi quem ficou preocupada, afinal de contas, um desastre como aqueles poderia espantar clientes. Sem clientes, sem renda. Além disso, havia o pequeno detalhe de sempre ver Dan desatento, algo que lhe tirava do sério, principalmente quando situações como aquela aconteciam.
— Eu já não falei pra tu não andar com a cabeça nas nuvens, guri?!— Advertiu Marcella, puxando a orelha do sobrinho.
— AI! Doeu, tia!
— É pra doer mesmo! Vamos ver se deixa de ser boca aberta né? Desculpa, mocinha.
— Não foi nada. Não precisa se preocupar — a garota ria da situação.
— Busca um paninho úmido pra passar aqui. Anda, Daniel!
— Já vou! Já vou!
O garoto largou o copo com uma certa brutalidade em cima do balcão e foi até o pátio interno do lugar buscar o tal pano. Passou um pouco de água nele, torceu e voltou até a garota. Foi quando percebeu que aquele rosto não lhe era estranho.
— Escuta, de onde eu te conheço hein? — perguntou, direto.
— Da escola — lembrou — Não somos colegas, mas já te vi andando pelos corredores. Inclusive nos encontramos esses dias, lembra?
— Ah, sim! A guria do 3A!
— Amanda. Prazer.
— Daniel. E desculpa aí. Sério, não vi que o chão tava molhado.
— Não foi nada, que isso. Acontece — sorriu.
— Aqui o pano — entregou à moça — Pode passar aí, só pra não manchar.
O rapaz esperou ela passar o pano na blusa e foi fazer um novo suco. Desta vez, não houve acidente. Levou até a mesa dela e retornou para o balcão. O olhar da tia sobre si indicava bem o que se passava por sua mente dúbia. E foi tiro e queda.
— Se tu não estivesse com a Vanessa, certamente te aconselharia a ficar com aquela menina ali — Marcella sussurrou — Aliás, vocês continuam namorando, né? Tu e a Van?
— É... Se pá sim.
— Como assim “se pá”? Quer falar português que eu não entendo tupi guarani.
— Talvez eu esteja namorando com ela. Foi isso que quis dizer.
— Ah bom — estranhou, mas sabia que o sobrinho jamais comentaria a respeito. Mudou o foco para não se tomar de curiosidade — Mas aquela guria ali parece ser um bom partido também.
— Se eu dependesse da senhora pra arranjar uma mina, já tinha ficado com toda a cidade.
— O que é muito comum na tua ida... AI! — Ronaldo surgiu falando, quando levou um pescotapa da esposa — Tá doida, mulher?!
— Comum na idade dele é ESTUDAR! Mais nada. O resto são benefícios — corrigiu a esposa
— E precisava me agredir?
— Tava influenciando nosso sobrinho a ser um galinha. Merecia dois só pelo desaforo.
— Ué, mas na idade dele eu... AI!! — outro pescotapa.
— Vai caçar o que fazer, Ronaldo!
Daniel riu. Queria, no dia que se casar, ter um relacionamento igual o dos tios. Por mais que o de seus pais fosse bom, não era a mesma coisa. A convivência entre eles parecia uma eterna piada. A tia sempre durona, e o tio sempre brincalhão. Um completava o outro e faziam uma harmonia perfeita. E era isso que desejava.
No entanto, havia de resolver um problema maior ainda: A história da reunião no colégio. Sequer fazia ideia se Marcella iria aceitar a desculpa ou não, afinal, ela era uma raposa, sabia farejar alguma armação e uma mentira. Pegava-o no pulo sem nem perceber, mas precisava arriscar.
— Tia – chamou ele.
— Fala, querido.
— Amanhã vou ficar na escola de tarde. Tem trabalho em grupo pra fazer e a gente vai se reunir. Tem problema? — torcia para a tia engolir. Tentou ser o mais verdadeiro possível.
— Claro que não. Quero mais é que estude, mesmo! Que bom que decidiu tomar partido. Fico muito orgulhosa.
Dan sorriu, mas com um sorriso de semblante triste. Se a tia descobrisse a verdade, é claro que lhe daria um sermão que permaneceria vivo até o Ano Novo Chinês. Queria ser um orgulho verdadeiro dela, mas parecia que nunca conseguia tomar as decisões certas.
Suspirou. O jeito era se conformar.
Quando deu exatas 18h00min, foi a hora do garoto se despedir dos tios e da confeitaria: O dia de trabalho havia acabado. Como por milagre, não foi tão corrido nem tão desesperador quanto poderia ser. Foi até agradável.
Mas se o trabalho havia o deixado livre, suas obrigações pessoais não. Revirou os olhos quando, na metade do caminho, lembrou-se de Ian. Rezava para o garoto não ter faltado aula, só para ficar em casa e conversarem.Perguntava-se quantos pecados cometeu para a vida lhe castigar com um percalço atrás do outro. Quando um se resolvia, outro surgia no horizonte. A caminhada rotineira até sua casa parecia um martírio que antecedia as possíveis situações que aconteceriam.
Não tardou a chegar ao seu destino. Abriu o portão lentamente, entrou e o fechou. Olhou para o céu. A noite estava chegando de mansinho, ao passo que as primeiras estrelas já davam sinal de vida.
— Vamos encarar isso de uma vez — pensou alto.
— Deu pra falar sozinho agora?
O que ele temia aconteceu. Ian estava lá, parado na porta, esperando-o. A julgar pelo modo como estava vestido, ele iria sim para faculdade. Só estava ali ainda por causa do primo. Era a única explicação que Dan conseguia arquitetar. O mais velho foi chegando mais perto, e olhou para o céu, bem ao lado do primo.
— Noite bonita, né? — mostrou interesse em puxar assunto. Em vão. O mais novo não queria conversa — Olha — insistiu — Só queria que tu soubesse que eu sinto muito, falou? Já me arrependi de-
— Eu vou entrar. Dá licença? — Dan foi seco.
O mais velho suspirou, mas deu passagem. Tinha consciência que não iria reconquistar o primo de maneira tão fácil. Não tinha sido uma briga qualquer; Ian chegou perto de ficar com o próprio primo. Dan, como heterossexual que era, obviamente não iria acatar isso como apenas um deslize. Até porque, o mais velho não considerava aquilo assim: Queria aquilo e queria poder ter avançado mais ainda. Ágata estava, sim, tomando conta de seu coração, mas nunca ninguém tomou o lugar de seu querido primo.
Ian entrou em casa, com os olhos cabisbaixos. Estava completamente desanimado. Não sabia como proceder ou agir diante daquela situação tão infeliz. Queria arranjar forças para conseguir argumentar com o menino, mas como o faria? Dan era resistente como uma rocha. Dificilmente vinha a ceder.
— Tia, tô indo pra faculdade — avisou, sem muita motivação.
— Tudo bem, querido — Isabel respondeu, chegando a sala. Ela batia a massa dentro de um recipiente. Provavelmente estava fazendo um bolo.
— O Dan cumprimentou a senhora e o tio?
— Teu tio ainda não chegou, mas ele me cumprimentou sim. Por que a pergunta?
— Ele mal falou comigo.
Claro que Isabel viu no olhar claro do rapaz seu desapontamento. Era triste ver uma coisa daquelas e não poder fazer nada para impedir… Ou poderia?
— Oh, querido — a mulher foi até o sobrinho e o abraçou — Ainda estão nesse embate? Ontem já chegaram estranhos.
— Ainda não nos acertamos, mas tudo bem — Ian sorriu, de canto.
— Tudo bem coisa nenhuma! Eu vou subir pra conversar com o teu primo. Enquanto isso, vai pra faculdade sossegado.
— Não sei se a senhora conseguirá ajudar...
— Isso foi uma aposta? — perguntou, brincando — Deixe comigo. Não vai passar dessa semana, o Daniel estará implicando contigo de novo.
— Tomara mesmo — Ian beijou a tia na bochecha e saiu apressado para o ponto de ônibus.
A mulher não teve dúvidas. Subiu a escada, ainda batendo o bolo. Com cuidado, bateu três vezes na porta do filho.
— Espera aí! — gritou o menino.
Passou-se dois minutos, Daniel abriu a porta. Já estava com suas roupas de dormir.
— Não sente frio usando esse calção tão curto pra dormir? Fica com as pernas de fora, aí depois fica doente, né?!
— Ele é confortável, mãe. — respondeu — Mas a senhora não veio aqui só pra falar do meu calção, né?
— Claro que não — foi direta — Vim aqui pra falar do Ian e de como estão agindo estranhos desde ontem.
O garoto revirou os olhos.
— O que aquele boca grande já falou pra senhora?
— Dá pra eu entrar e conversar? Isso aqui não é mercado de peixe pra dizer as coisas no meio da casa.
Dan deu passagem para a mãe entrar e se sentar-se na sua cadeira, que ficava em frente a uma mesa desktop marrom envernizada que tinha ali.
— Esse seu quarto só não tá um chiqueiro porque até os porcos teriam vergonha de dormir aqui. Cruzes.
— Mãe, fala sério. Eu vou limpar! — queria encerrar aquele tópico o mais depressa possível — Mas o que foi que o Ian falou pra senhora?
— Nada. Só que está triste com o teu comportamento em relação a ele.
— Ah, ele quem faz burrada e fica chateado? Eu é que tô chateado com ele!
— Por que, filho? Vocês dois são primos, se gostam tanto...
— Há certas coisas que não podem ser perdoadas, mãe. E mesmo que possam, não sei se vou conseguir.
— Que tipo de coisas?
Dan suspirou. Por mais tentador que fosse contar, não o faria. A mágoa da atitude de Ian não o fizera perder a razão, tampouco o carinho pelo primo. Sentiria-se horrível fazendo mal a ele, então, limitou-se a responder:
— E-ele aprontou uma coisa que eu não gostei. Foi isso.
— E que coisa tão hedionda ele cometeu para ficar esse clima?
— Pergunta pra ele, ué. Eu é que não vou dizer.
— Filho, por favor. O Ian faz parte da família. Ele gosta e se preocupa muito contigo e com o teu bem estar. Se lembra como ele ficou assustado quando tu chegou contando que tinha sido assaltado?
O garoto sentou-se na cama, com as pernas cruzadas.
— Sim. Claro que eu lembro — respondeu, baixo.
— Ele queria andar essa cidade toda pra bater no cara, e dormiu aqui no teu quarto, num colchão no chão, pra te fazer companhia. Lembra disso também ou se esqueceu?
— Lembro, mãe...
— Então, filho. Não deixa essas bobagens adolescentes estragar a amizade e o amor fraterno que vocês tem um pelo outro. Tu mesmo chamava o Ian de "mano" quando era pequeno.
— Eu sei...
— Se tu não quiser fazer as pazes com ele hoje, tudo bem. Mas pensa com carinho, tá? — deu um beijo na testa do menino.
— Tá bom. Vou pensar, mas pela senhora.
— Já tá ótimo pra mim — Sorriu.
— Tá batendo massa de bolo, né?
— Sim! Vou fazer pra comermos mais tarde.
— De quê?
— Baunilha.
— Meu predileto — foi a vez do rapaz sorrir.
Isabel deu um último beijo no filho, antes de sair e deixar o garoto no quarto refletindo. Valia a pena sacrificar uma relação de anos por conta de uma situação desagradável?
***
— C*R*LH* INFERNO P*T* QUE P*RIU! — foi exatamente assim que Jeferson ficou quando soube que Alisson também fora chamado para uma reunião.
Assim que soube da notícia, na noite anterior, Al mandou mensagem para Jeff o avisando. Como o rapaz estava com a namorada, só pode visualizar a mensagem pela manhã. Ordenou então que Al fosse para a escola bem cedo para conversarem a respeito. Deu a sorte do garoto ter acordado um pouco antes de seu horário normal e visualizado a mensagem solicitada.
— F*deu, cara! Completamente! — Alisson também não estava exatamente a calma em pessoa.
— Pior é que tu e um parça da minha turma vão nessa reunião! E pelo mesmo motivo!
— O quê? Tem mais gente metida nisso?!
— Óbvio, né cara?! Se quando eu soube dele já afrouxei o intestino, agora, então tô todo c*g*do.
— Larga mão de ser medroso, Jeff! Aquele dia pra me pedir aquela nojeira tu não tava com medo de levar umas porradas, né?!
— Fala baixo! Alguém pode ouvir— baixou o tom da voz e ficou visivelmente constrangido.
— Então para com isso e me diz: O outro guri sabe se ela tem provas?
— Contra ele não, mas a múmia te pegou em flagrante. Não tem nem como contestar.
— Ela não me pegou em flagrante. Eu errei a prova — corrigiu — É diferente.
— Mas, se tu tivesse acertado, ia te explicar como, se tu ama cabular aula? Dizer que o vento te ensinou?
— É hora de soluções, Jeff, não de mais problemas.
O garoto de pele negra clara concordou. Já que o enfiou naquela roubada (mesmo indiretamente), precisava lhe dar um apoio. Por várias vezes, Al também havia lhe estendido a mão, por motivos até mais bobos. Por que agora lhe daria as costas?
— Independente do que rolar, cara, ‘tamo junto. Eu sei que tu vai tirar essa de letra.
— Tô torcendo por isso também...
Jeff deu um leve tapa nas costas do amigo.
— Tu é tri inteligente. Dribla aquela lá fácil.
— Fica tranquilo. Não vou contar a verdade.
— Eu sei que não. A gente sempre se ajudou como pôde. Não tem nem porque mudar isso agora.
O garotos ficaram conversando mais alguns minutos, quando Mandy chegou: Estava realmente satitante, além de um sorriso que ia de orelha a orelha. Algo realmente bom devia ter lhe acontecido.
— GENTE! — exclamou, alegre.
— Nossa. Se drogou pra tá nessa felicidade toda? — mexeu Al.
— O Adrian me pediu em namoro e eu tô surtando! Tipo, cara, eu finalmente tô namorando o cara mais gato dessa escola!
— Há controvérsias — Jeff e Al disseram juntos.
— Calem a boca, seus invejosos — disse a garota, rindo feito criança.
— Achava que vocês estavam namorando sério, já — Al comentou.
— Éramos ficantes fixos, digamos assim. Fomos nos conhecendo, trocando muitas mensagens, aí teve aquela tua festa — Alisson sentiu um arrepio ao se lembrar — E aí a gente tá firme e forte agora.
Era bom ver uma amiga constando alguém a quem tanto gostava. Ver um casal se unindo após saber que teve participação nessa união, fazia-o se sentir bem, como se tivesse feito uma boa ação.
— Fico feliz por vocês. Sério mesmo.
— Vamos lá comprar um café pra comemorar?!
— Opa! Tá na mão!
E assim o trio foi, feliz, para o food truck de lanches estacionado no colégio para fazer a pequena comemoração. Al, inclusive, queria aproveitar como se fosse o último segundo de sua vida. Afinal, poderia ser, ainda mais se a professora insistisse. Torcia para tudo dar certo, e daria mais do que poderia imaginar.
***
Se ir para a escola, em circunstâncias normais, já era um saco, imagina ir sabendo que a tarde terá reunião. Nem o dia estava colaborando: O céu estava acinzentado por conta das nuvens. Daniel tinha em sua mente que criminosos no corredor da morte deviam se sentir assim, como ele se sentia. No entanto, reparou que, bem ao fundo, estava se formando um arco íris. Não pôde deixar de sorrir. Ao menos algo naquele terrível dia tinha surtido esse efeito.
Começou a dar passos apressados até a escola. Quanto mais cedo começassem, mais cedo terminariam. Era essa motivação que fez com que ele resolvesse encarar a situação de frente. Não demorou muito para chegar ao lugar. Chegou relativamente tarde: faltavam cinco minutos para o sinal bater.
Encontrou Sabine e Adrian parados, um pouco antes da porta da sala. Era bom ver rostos conhecidos naquele momento tão tenso.
— E aí, cara — Adrian falou.
— Fala aí! — O garoto cumprimentou.
— Estávamos te esperando pra dizer que, se precisar da gente, a gente vai estar no colégio — Sabine avisou, abraçando forte o amigo.
— Valeu, Bine. Significa muito pra mim. Mas não sei em que vocês seriam úteis... — Dan estava visivelmente desanimado.
— Podemos dizer que não vimos nada, ué — Adrian sugeriu.
— Ela não é idiota. Sabe que vocês e o Jeff são meus amigos. Claro que não vai acreditar numa palavra que disserem.
— A gente fala com outros colegas, sei lá. A única coisa que não pode, é tu se ferrar por culpa de uma idiotice como colar em prova — a loira comentou.
— Não vou me ferrar. Ela não tem provas. Relaxem. Só tô assim porque... Bem, é uma barra ouvir sermão, né?
— Vê se aprende a estudar então, pra não precisar passar por isso.
— Tá bom! Juro que vou tentar.
— Acho ótimo isso!
— Galera, vou ir encontrar a Mandy e depois a gente se fala. Tão ligados né que eu e ela estamos namorando?
— Quem é Mandy na vida? — Daniel perguntou.
— Uma garota do 3A. Tem um cabelo preto, um metro e meio mais ou menos de altura, tem um visual meio gótico assim.
— Fala sério! — Dan recordou — Eu derrubei suco nela ontem!
— Tu o quê? — Sabine e Adrian perguntaram juntos.
— É, ela foi lá na confeitaria dos meus tios, pediu um suco e quando fui levar pra ela eu escorreguei e derrubei nela.
Os outros dois não se aguentaram e caíram na gargalhada.
— Tinha que ser tu, né Daniel?! — a menina ria.
— Foi ridículo, isso sim. Mas a culpa não é minha se meu tio entope o chão de cera e depois quer que a gente se equilibre.
— Ai, velho, só tu mesmo — Adrian falou, ainda rindo — Vou lá. Aproveito e pergunto dessa cena idiota ai.
E assim foi. Adrian deixou Sabine e Daniel sozinhos ali, rindo. Aos poucos foram controlando o riso e a garota se manifestou. Uma curiosidade lhe tomou conta:
— Já que estamos falando de namoro, e a Vanessa? Como está?
— Bem, eu acho. Falamos pouco ontem a noite porque ela foi na casa dos tios e pegava mal pra c*ralho o sinal lá.
— Hum.
— Por que a curiosidade?
— Nada. Só queria saber se vocês estavam bem. Afinal eu quero a tua felicidade, né Dan? — a loira sorriu.
— V-valeu — o outro ficou encabulado — Mas tá tudo certo, sim. Acho que mais adiante já vou conseguir superar meus problemas com ela.
— Tomara — A garota se esforçou, mas não fez uma cara animada com o fato. Sua sorte era que Daniel se distraiu.
Nos últimos meses, a garota lutou com unhas e dentes para não demonstrar seu ciúmes com relação ao amigo. Porém, os últimos acontecimentos a deixaram atordoada, dificultando assim um controle maior sob suas ações. Torcia para encontrar uma saída para isso. Não queria aborrecer Dan com esse problema, tampouco acabar com sua felicidade.
A manhã que sucedeu esse fato passou como num passe de mágica. Dan inclusive agradeceu mentalmente por isso. O nervosismo o fez ficar inquieto a manhã toda. Sabine se viu obrigada a comprar uma barra de chocolate para acalmar o amigo. Era tiro e queda: Dan comia chocolate, se acalmava.
Quando deu o sinal ele, Sabine, Jeferson e Adrian saíram e foram a passos largos até a sala indicada no bilhete. Pararam um pouco antes do corredor que dava acesso a tal sala.
— Cara, tô sentindo meu coração saindo pela boca — confessou Dan.
— Relaxa, cara. Tenta manter o foco. Estaremos torcendo por ti — Adrian foi solidário.
— No meu caso, por ti e pelo Al né. Mas vocês se viram — Jeff deu apoio, sorrindo.
— Por mais nervosa que eu esteja, também te desejo sorte, Dan — Sabine abraçou o garoto.
— Bem... Lá vou eu.
E assim o rapaz se foi ao encontro de seu destino. Colocou seus fones de ouvido, e colocou Wherever You Will Go da banda “The Calling” pra tocar, e seguiu. Foi olhando para o seu celular que, distraído, não viu que o balde de limpeza estava bem na frente da porta da sala. Foi inevitável: Ele tropeçou no balde. Só que na queda, agarrou-se na calça de um garoto a sua frente, e caiu. E foi levantar, bateu a cabeça em suas partes íntimas. E ali começava o encontro que mudaria ambos para sempre...
CONTINUA
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