FORÇA DE VIVER

Conforme o tempo vai passando e as experiências surpreendem ao trazer a monótona rotina um ar de novidade intragável, muito vamos aprendendo. Criamos força para perdoar, comemorar, chorar, amar e todo o leque de possibilidades sentimentais que se abrem a cada ousadia. De ínicio, recuamos, tentamos ir por onde a neblina da vida não atrapalha. Só que, no fim, acabamos sempre cedendo à curiosidade. E se tinha uma característica que definia Sabine bem era essa.

Desde quando sua mente era capaz de lembrar o novo era um imã pessoal. Queria sempre ir atrás de coisas das quais não entendia nada, tanto que, lembrava-se de quando encontrou um ossinho de um coelho que tivera e faleceu enterrado no quintal de sua antiga casa e associado a unha de um Tiranossauro Rex. Passou dias acreditando na farsa até que, após tanto insistir, a mãe lhe confessou a verdade. Ficou chateada, claro, mas não durou meia hora. Logo o mistério da meia que sumiu da máquina a atraiu.

Assistindo aquilo de fora enquanto divagava, parecia tão simples a maneira de se ver a vida. Até mesmo a forma como tudo se resolvia era mais fácil. De repente, tudo cresceu, e nada mais se tornou um divertimento. Sentimentos foram tomando lugar da inocência infantil, vontades fizeram as bonecas se aposentarem e a lupa companheira começou a fuxicar onde não devia. A brincadeira perdeu todas as cores. Como proceder diante disso?

Dançando com Jeff, perdeu-se em tudo o que vinha construindo até então. Viu apenas uma luz, o próprio rapaz com quem estava começando a estreitar os laços. Ademais, um breu tão estranho que ao mesmo tempo a assustava e provocava um ponto de interrogação enorme dentro de si sobre onde foi que havia perdido a curva da vida e seguiu reto pelo desconhecido. Seria natural caso este desconhecido fosse um terreno infértil, sem nada a oferecer, cuja insistência em semear algo só fazia a terra ter mais asco do que vontade de fazer aquela semente germinar. A semente era o amor de Al e Dan; já a terra, todo o lamaçal criado por ela e seu senso de justiça.

No instante em que se deu conta disso, parou a dança. O parceiro a encarou com certa surpresa, afinal nada havia dado errado. Questionou-a se passava bem, e, de forma sincera, respondeu a verdade: Não. As dúvidas começaram a brotar como água vertendo do solo, tanto internas quanto as feitas pelo rapaz. Sem ter condições de respondê-las, pediu que ele se calasse e a ajudasse a encontrar Alisson e Daniel pois precisava conversar com eles. Era inevitável que brotasse em Jeff uma aflição de vê-la mudar de humor tão rápido, e só aceitou para não criar caso.

Encontraram os rapazes um ao lado do outro. Enquanto Dan estava deitado sobre a mesa, Alisson tentava encontrar uma pose decente para fazer uma foto do não mais só amigo a fim de postar nas redes sociais. Ao chamar por eles, o olhar de ambos se voltou a sua pessoa e a de Jeff, parado a seu lado. Engoliu seco antes de começar a falar, uma vez que não se sentia confortável naquela posição vulnerável, ainda que nenhum dos presentes soubesse ou entendesse a situação. O jeito foi comer pelas beiradas para não acabar se queimando a troco de nada.

— Bom, guris, na verdade eu só queria saber se tá tudo bem entre a gente…

Al e Dan se entreolharam antes de voltar o olhar para ela de novo.

— Não entendi — Dan confessou.

— Para surpresa geral da nação, nem eu — Al complementou — Teria algum motivo para não estar tudo bem?

— Ah, vocês sabem… Os últimos tempos têm sido estranhos para todos nós. A gente às vezes se excede, fala alguma coisa da qual não tem muita certeza… Enfim, problemas que só acontecem quando a gente não pensa direito o que tá fazendo.

— Desculpa, Bine, mas não tô entendendo qual é a desse teu papo — Dan voltou a falar — Tu tá falando do quê? Daquele dia no trote da troca de roupas é isso?

— Também — ainda tateava muito sua fala — Ai, sei lá. É só que… De repente me veio uma sensação de ideia errada, sabe? Como se tivéssemos em pontos antagônicos, quando na verdade queremos a mesma coisa: um jogo limpo, sem margem a interpretações.

— Olha, loira, papo cheio de entrelinhas a essa hora da madrugada dificulta um pouco a interpretação. Mas a julgar pelo que tu disse, imagino que tu esteja pedindo desculpas por ter nos posto contra a parede em nome dessa “verdade” aí, certo? — Al respondeu, já lançando um questionamento direto.

— Isso! — agradeceu aos céus por aqui — Sinto que errei com vocês. Não devia ter saído por aí querendo provar ou não provar coisas com as quais não tenho a menor participação.

— Deixa pra fazer isso quando e se realmente tu for jornalista — o filho de Marisa sorriu — Até lá, curte e deixa que curtam.

Sabine sabia que Alisson tinha razão. Nada fundamentava uma justificativa plausível para sua atitude, vista como equivocada por todos os presentes. Ao se dispor a ir atrás de uma verdade com a qual ninguém tinha tanto interesse além de si mesma, via agora o olhar egoísta de seus próprios feitos. Era a primeira vez em muito tempo que se arrependia de ir atrás de um “furo” investigativo, afinal os resultados não trouxeram sequer um terço da dita felicidade ou justiça a qual tanto almejava. Entrou naquilo à toa.

O jeito foi prometer aos meninos se comportar. Soou um tanto quanto estranho a seu ego, mas engoliu com farofa. Seu coração estava em paz. Só então notou que Vanessa não estava presente e viu Dan estranhar sua saída sem avisar a ninguém. Al levantou a possibilidade da moça ter ido pra casa, enquanto recebia a confirmação de Jeff. Dan logo não deixou por menos, perguntando ao amigo se tinha se dado conta do quão óbvia era a hipótese. Lógico, a discussão foi certa, para a alegria dos demais.

Resolvida uma parcela de seus problemas, Sabine viu-se na obrigação de dar atenção a outro mais brando. Partiu da moça um novo convite para dançar a última música da noite, uma vez que, tirando o grupo, havia apenas mais um casal de amigos de Karen e Fernando os quais concentravam-se apenas em conversar. Dela também veio a iniciativa de dar o braço ao aniversariante, arrancando risos involuntários do mesmo. Via seus olhos ganharem uma nova cor cada vez que ela tomava as rédeas da situação e se mostrava confortável com tudo o que viveram e ainda estavam por viver.

Sabine se conhecia bem demais para saber que Jeferson estava a conquistando por sua maior falha, a qual havia acabado de se desculpar com os rapazes: curiosidade. Uma força do destino mostrava-lhe, dia após dia, o quão enigmático pode ser gostar de alguém de verdade. Não que fosse algo inédito em sua vida, apenas cada vez que surgia, ganhava uma nova tonalidade e forma de existir. Comparou o amor com a ave Fênix, ressurgindo das cinzas a qual foi reduzida para irradiar o céu com sua aura flamejante.

Foram de balada romântica mesmo para sossegar os ânimos após uma noite intensa. Dançavam colados um ao outro, desta vez com a loira conduzindo os trabalhos. Não conseguiam desfazer o sorriso formado em seus lábios, afinal motivos tinham de sobra para deixá-los como estavam. Pouco a pouco, construíam uma história de forma natural, sem pressão de ambos lados, e tinham certeza que viveriam cada segundo dela com toda vontade residente em seus corações. Podiam se dar ao luxo de fazer tudo devagar, pois o interesse mesmo (o de construir e sedimentar) já estava feito. O destino conseguiu alinhar seus caminhos com perfeição.

— Gostou da festa? — perguntou Jeff em dado momento.

— Foi a tua cara, né? Por favor! — ambos riram do comentário.

— Então foi maravilhosa?

— Talvez… — brincou ela enquanto o encarava fundo.

Um segundo foi o tempo recorde em que seus impulsos mandaram a informação de que deveria roubar um beijo dele. Porém, seguiu firme, resistindo à tentação. Aceitava e conhecia o fato de nada lhes impedir, mas o trato continua o mesmo: Esperar que tudo se ajeitasse.

Jeff também sentia ser a hora de deixar acontecer, só que o medo de estar interpretando errado os sinais o fazia querer fazer curso de interpretação para, quem sabe, aprender como funcionava a complexa cabeça da amada. Sabia do risco: um passo errado com ela e não seria sequer amigo em sua vida. A amiga sabia ser geniosa e difícil, tinha consciência disso. Por via das dúvidas, acabou questionando direto.

— Acha que já dá pra avançar o sinal ou…

— Tá com pressa, é? — ironizou, sorrindo — Relaxa, Jeferson. O mundo não vai acabar amanhã de manhã.

— No caso, hoje de manhã. Já passou da meia noite — corrigiu, em tom de deboche.

— Engraçadinho — mostrou a língua.

Como não era bobo nem nada, aproveitou o ato para lançar uma tirada e, quem sabe, acabar arrematando de vez.

— Nunca ouviu dizer que quem mostra a língua pede beijo?

— E tu já ouviu aquela que em boca aberta entra mosca? — replicou a loira, rindo — Sei que tu tá com vontade. Até de coisas mais… digamos… picantes. Espera só mais um pouquinho. Prometo que vai rolar.

— Dormir lá em casa hoje então nem pensar, né?

— Não fosse ter prometido de ajudar meu pai até pensava no teu caso — deixou no ar.

— E será que dá pra, depois que ajudar o teu pai, óbvio, a gente se ver? Ou será que existe uma manicure ou pedicure marcada também?

— Trouxa! — deu um beliscão rápido no braço do outro — Não. O horário tá vago. E eu também.

A música acabou poucos minutos depois. Ambos então pararam frente um ao outro, se encararam pela última vez antes da moça lhe dar um beijo na bochecha, agradecer por tudo e se despedir do pessoal. Era hora de retornar para casa. Em circunstâncias como aquela, Jeff não se arrependia da empreitada dada ao terminar o namoro com Cris para tentar a sorte.

Podia ter dado errado e as chances disso eram um tanto quanto assustadoras. O tempo, no entanto, passou, as dunas que o impediam de alcançar o coração da loira foram dando lugar a uma paisagem viva e florescente. Tudo começava a se encaixar. Até demais, em sua opinião, pois quando deu por si Al e Dan tiravam sarro de sua cara como se os próprios não estivessem num affair incontestável. Mostrou-lhes o dedo do meio, mas com um sorriso no rosto. Se existia algo do qual não se envergonhava era amar.

Logo que se despediu, foi dar um abraço nos pais e agradecê-los por terem feito daquela noite um marco em sua vida, algo pelo qual seu coração lutaria para manter aquecido toda vez que a tristeza batesse a porta. Fernando e Karen acabaram por elogiar de novo o filho, lembrando-o de sempre manter sua essência ante os desafios que a vida viesse a lhe impor. Jeff, claro, prometeu que seguiria à risca o conselho. Seu Antero chegou no meio da conversa, também para falar de agradecimento, mas a respeito da troca tão repentina de ambiente. Os pais teceram elogios, afirmando não terem se arrependido um minuto da escolha. Música para os ouvidos do sócio fundador do ‘Wunder Bar’.

Enquanto os mais velhos conversavam, a moça responsável pela cabine de fotos entregou-lhe o pacote com incríveis 700 fotos tiradas na “atração” da festa, aproveitando para dizer o quão admirada ficou com a decoração e a preparação. Jeff agradeceu, dizendo que, caso quisesse, poderia usufruir mais dos comes e bebes. Esta recusou, alegando tê-lo feito ao longo da festa e que já estava explodindo. Ambos caíram no riso. O menino, então, despediu-se dela e foi levar o pacote até o carro dos pais para, mais tarde e com calma, analisar. Nem lhe passava pela cabeça que uma sequência específica estava ali no meio…

***

Noite de festa é sempre uma alegria. Traz consigo uma vontade de jogar tudo pelos ares e curtir por meio segundo que fosse, para, quem sabe, deixar a vida um pouco mais animada, com boas lembranças e sem arrependimentos ou amarguras. Festas têm o dom de filtrar as impurezas do nosso humor e, em alguns casos, levar as dores da alma. Servem de remédio aos inconsoláveis e aventura aos caçadores. Todos os gostos e tribos se unem sem hesitar.

Quando acaba fica o gosto de ‘quero mais’, uma vontade estratosférica de continuar no êxtase da emoção para sempre. Infelizmente, nem sempre isso é possível, até porque o corpo humano possui limites. Amanda sentia que o dela, sem sombra de dúvida, estava pedindo socorro. Só queria um bom banho quente e uma cama gostosa para se aprochegar. E assim o fez. Tão logo o sono começou a engoli-la, cutucou Adrian para se despedirem de todos e tomarem seu rumo.

Primeiro foram os pais de Jeferson e o próprio, cumprimentando-os por tudo e agradecendo a confraternização incrível. Em seguida, Al e Dan. A moça sentia um formigueiro inteiro percorrendo seu corpo, afinal, do namorado nada conseguia esconder. Sabia que Alisson iria querer ateá-la na primeira fogueira caso aquilo lhe soasse maior do que de fato era.

— Até mais, gurizada! — o ruivo falou — Nos vemos segunda.

— Tchau, guris! Até mais! — Mandy complementou, recebendo um coro de ‘tchau’ de ambos.

— Ah, Al! — Adrian foi até o pé do ouvido do rapaz — Parabéns. Tu sabe o porquê.

Foi automática a revirada de olhos que o mais velho deu, só para encarar Mandy depois.

— Tu não te controla, né?

— Sorry!

O casal então riu e se foi, deixando para trás um Alisson inconformado e risonho e um Daniel perdido no assunto.

— O que rolou?

— Nada, pateta. Fica tranquilo aí.

Pouco depois, Al ouviu seu nome chamado por Seu Antero, assim que o senhor se liberou da conversa com os pais de Jeferson. O rapaz prontamente atendeu ao chamado, dizendo a Dan que iria embora em seguida. O menor pediu para lhe avisar pois gostaria de ir junto consigo. Alisson, já com ares de eterno apaixonado, aceitou, garantindo assim o fazer.

Foi ao encontro do chefe esperançoso. Via seus olhos brilharem tanto quanto um par de esmeraldas recém lapidadas. Tinha certeza que bons frutos viriam dali. Parou então à sua frente, questionando se estaria precisando de alguma coisa. Seu Antero sorriu, respondendo com franqueza.

— Precisar, eu estava precisando, meu guri. Queria ânimo para retomar meu negócio, esperança de que o ‘Wunder Bar’ aguentasse ao menos até esse velho abusado pegar o trem de ida pro além! — falava — E hoje ganhei uma injeção absurda disso, Alisson. E se deve ao teu esforço e competência. Sabia que tu iria me surpreender muito quando te dei uma chance aqui. És motivo da felicidade deste dono de restaurante e da continuidade da obra da minha vida. Obrigado, do fundo do meu coração!

Mesmo sem chorar propriamente, Al não deixou de se comover. Ao escolher trabalhar ali por acaso, em virtude de um modesto comentário de Amanda sobre um cartaz no vidro da frente do estabelecimento, jamais pensou em crescer tanto como pessoa e funcionário. Não tinha vergonha de dizer que fazia parte do ‘Wunder Bar’, de como gostava de estar ali, ainda que passasse por perrengues como a primeira vez que Amora lhe encontrou ali ou os dois rapazes que flagrou aos beijos no colégio. Meros farelos quando comparados àquele elogio tão íntegro e verdadeiro. Seu esforço e vontade valeram a pena.

— Poxa, seu Antero. O senhor tirou até as palavras que eu poderia dizer com isso — confessou — Só vou dizer obrigado, mas queria que soubesse o quão forte a minha relação com este lugar se tornou. Se já amava vir aqui como cliente, imagina como funcionário. Eu só tenho a agradecer pela oportunidade.

— E outras ainda virão, meu guri! Tenho certeza disso!

Na hora aquilo não fez muito sentido, mas sabia que só podia ser coisa boa. Conhecendo o senhor tal qual conhecia, sabia da grandiosidade de seu coração e da boa vontade que tinha. Esperou, então, que o tempo viesse lhe contar do jeito dele: na hora mais improvável e com muita esperança.

Ao retornar a mesa, chamou Dan para se despedirem de todos e irem para casa. Assim fizeram. Logo que se despediram, resolveram ir caminhando até suas residências. Dan esperneou, justificando com cansaço e violência poderem pedir um motorista de aplicativo. Al, sempre provocador, perguntou se Dan não queria uma charrete para chegar em casa com mais delicadeza. A resposta veio a jato: um tapa que chegou a estalar no ombro do mais velho, que gargalhava do ato.

Ainda nos primeiros passos da caminhada, Al tratou de comentar sobre seu Antero e o elogio feito. Gabou-se, jogando a modéstia fora, só para deixar o menor constrangido. A medida, no entanto, não deu em nada. Sacando ser apenas uma armadilha do mais velho, respondeu a seco que ele não havia feito mais do que sua obrigação. O filho de Marisa percebeu que, se quisesse sair vitorioso, a artilharia precisava estar bem afiada. Respirou fundo antes de dar a resposta.

— Sabe o que eu acho, pateta? A gente tem que rever nossos conceitos — começou — Sim, porque tá bem nítido pra mim que mereço alguém à minha altura.

— Como é que é? — o menor parou e encarou fundo no seus olhos. Al sorriu feito criança arteira.

— Pois é — usava um tom irônico na voz — Já que me tornei um funcionário modelo, preciso de alguém do mesmo porte. Ah, e literalmente também, viu? Onde já se viu uma coisa gostosa como eu trocar saliva com banquinho de sapateiro?

— Ah, seu! — exclamou — REPETE ISSO NA MINHA CARA SE TU FOR BEM MACHO!

— BANQUINHO DE SAPATEIRO! MUDINHA DE PLANTA! VÍRUS DA DENGUE!

Daniel não teve dúvidas. Começou a correr como uma onça atrás de Alisson, na expectativa de pegá-lo e fazê-lo engolir aquelas palavras, as quais considerava ridículas. Al, para seu azar, tinha uma agilidade maior, obrigando-o a tentar usar o máximo que sua capacidade permitia. O mais velho se deliciava com isso, afinal de contas sempre foi bom em corridas e não seria uma mera provocação a responsável por mudar isso.

Dan percorria pelas ruas feroz na expectativa de pegar a gola da camiseta de Al e, então, se dar por vitorioso. Chegou perto algumas vezes, até causando um certo espanto no mais velho, mas seguiu sendo o menos veloz. Só pararam mesmo quando se deram conta do tanto percorrido.

Estavam a poucos metros do labirinto verde onde toda a onda de emoções havia começado a tomar forma para culminar ali, com ambos dispostos a, pelo menos, se deixar levar pelo sentimento forte que preenchia seus corações. Ambos ouviram os próprios baterem mais forte enquanto observavam em silêncio o ponto turístico. Nada havia além deles dois e a aura forte de atração entre si. Negar àquela altura seria imprudência. Sabendo disso, Alisson virou de costas e questionou se Daniel não estaria disposto a ir lá dentro por alguns minutos. Viu brotar um sorriso sincero antes de ouvir o “Bora lá”.

O que quer que o destino quisesse lhes dizer, o filho de Marisa sabia do valor imensurável daquela lição desconhecida. Todos os pequenos passos dados até ali, começando pelo beijo estranho com Gil até o beijo proposital de Dan, tornavam aquela trajetória uma história capaz de perpassar a lição de amor. Falava sobre coragem de encarar seus sentimentos, assumir posições e ter a audácia de ir contra o que o mundo esperava de si enquanto homem. Isso, para si, era valioso demais. Conseguia já ter orgulho da caminhada.

Já o filho de Isabel sabia que aquele mar era profundo demais e que não daria pé sem uma boia que o aguentasse. Tudo dentro daquele universo surgindo na sua frente representava um breu que turvava seus sentidos. Se tomara a decisão de enfrentar a escuridão e acender uma vela ao beijar seu melhor amigo, foi por querer encontrar o sossego dentro de seu tão ferido coração. E, sorte sua, havia conseguido. Ainda dava passos tímidos, mas ao menos já se mexia, o que considerava um progresso e tanto quando comparado a tão pouco tempo antes.

Sentaram lado a lado no centro do labirinto verde em silêncio. Puseram-se a observar o céu estrelado enquanto viam neles o reflexo de suas próprias vontades. Era um legítimo filme, estrelado e escrito por eles e pela vida. Sorriram quando, pouco depois, seus olhares se encontraram.

— Sabe que se alguém me dissesse em Janeiro que em Setembro estaria pegando um guri, eu sairia no soco de boa — confessou o mais velho. Claro que Dan acabou rindo.

— Não preciso ir tão longe assim pra dizer que sairia no soco por conta disso. É só lembrar do caso do guri que levei uma suspensão… — coçou a nuca.

— Real — Alisson sorriu — Mas o que importa é tu ter conseguido chegar até aqui.

Dan então seguiu observando a firmeza com que o amigo falava, fazendo tudo parecer um barquinho de papel flutuando. Em seu coração, porém, o medo ainda habitava. Existia certas coisas com as quais não sabia se tinha estrutura para suportar.

— Será? — questionou — Será que cheguei mesmo?

Al, com a mão direita, entrelaçou-a com a esquerda do outro e ficou assim por poucos segundos, trazendo com isso um alento para todas as dores e dúvidas. Para Dan, Al tinha esse poder incrível de transformar pedra em ouro.

— Se não chegou, agora tu não tá mais sozinho pra subir até o topo — garantiu, arrancando mais um dos inúmeros sorrisos que Daniel lançava estando perto de si — ‘Bora pra casa? Tá tarde e temos ensaio de dança.

— Nós vamos?

— Já fui pra aula até de porre. Não vai ser uma noite sem sono que vai me matar. E nem a ti, antes que fale.

— P*rra… — revirou os olhos — Tá. Vamos então.

Estava se erguendo quando Al segurou sua mão, a qual seguia entrelaçada.

— Ei! — chamou — Vamos lutar junto nisso, né?

Dan riu, abrindo um largo sorriso no rosto.

— Claro que sim, bebezão.

Ambos levantaram e deram seguimento à caminhada de volta ao lar. O coração ficou mais brando, claro, afinal precisavam de um momento só deles e sabiam disso. O destino era incerto, os caminhos poderiam ser espinhosos, mas ouvir da boca de Daniel a confirmação tão almejada deu a Alisson uma energia dobrada para fazer com que dessem certo. A partir daquele dia, suas mãos não se desgrudariam mais. Disso o mais velho tinha certeza.

CONTINUA