A Teoria das Cores
72 Cinza II
SÓBRIO
Quando certas notícias caem no colo da gente sem um preparo, a sensação de seu potencial de destruição se iguala à de uma bomba nuclear. Não temos estrutura emocional (por vezes, nem física) de comportar a complexidade de uma revelação. Sabine ficou imobilizada diante daquele fato tão curioso e cheio de coisas mal explicadas.
Deixou até para trás a vontade de ir ao toilete. Algo grave havia sido descoberto. O mistério por trás de Vanessa tinha vindo à tona e pontos tentavam ser ligados. Nunca lhe passou pela cabeça ver Daniel pegando alguém que, em algum momento da vida, teve as feições de um homem. O garoto era uma mula, como ela própria definiu em sua cabeça, quando se tratava de sexualidade e comunidade LGBT num panorama geral. Como podia ter se envolvido com uma menina daquelas? Teria ele noção da verdade ou foi enganado também? O término foi por isso? Cada pensamento, uma nova pergunta. Vários arcos sem seus desfechos.
Não podia aguentar aquilo sozinha. O peso de uma informação daquelas era para duas pessoas carregarem. Tratou de levantar rápido dali, deixar tudo como estava e sair com calma para passar despercebida. Precisava ser discreta, afinal, entendia e respeitava a dor da garota. Todavia, havia uma grande mentira a ser resolvida e precisava da verdade o mais depressa possível.
Tentaria falar com Daniel, já que, apesar de um bom começo de amizade, Sabine e Vanessa se encontraram pouco depois daquilo, ficando difícil arrancar qualquer confidência dela. E também, seu estado lhe apiedou. A loira estava realmente no fundo do poço. Seria covardia demais usar das circunstâncias apenas para saciar seu ego investigativo. Já Daniel não escaparia. Seria bem direta, por conhecer a sinuosa pessoa e a revolta ambulante quando algo lhe desagradava.
Chegando no quarto, Vitória passava suas mãos pela cabeça da filha enquanto esta encarava o vazio com um rosto fechado. O pai seguia aflito e chateado — via-se em seus olhos — Jeferson parado observando a cena sem saber direito como agir ou se portar. Parecia constrangido diante dos pais da garota, talvez até da própria, afinal cruzou com ela poucas vezes na vida, e de repente se via dentro de sua casa ajudando sabe lá por qual motivo.
Sabine foi até perto da menina e segurou sua mão. Pela primeira vez desde sua ausência, a garota parou para prestar atenção em alguém.
— Nós vamos indo. Qualquer coisa, é só descer ali em casa, ok? — disse a menina.
— Obrigada — deu um sorriso fraco — por tudo.
— Que isso. Só fizemos nossa obrigação. Vamos, Jeff?
— ‘Bora — respondeu o garoto — Melhoras, Vanessa.
— Obrigada — repetiu o gesto.
Ambos então foram para fora do apartamento, deixando os três sozinhos de novo. Jeferson, por mais apiedado que estivesse, não entendeu a saída repentina da amiga.
— Tudo bem, Bine? — perguntou, intrigado.
— Sim — mentiu — Por que não estaria?
— Achei que ficaríamos mais pra dar apoio.
— Tenho um assunto urgente pra resolver e preciso pensar em como fazê-lo.
— O que seria?
— Outra hora eu te conto — garantiu — Vamos pra casa. Amanhã será um longo dia…
O garoto ficou mais confuso do que antes. Não compreendia o raciocínio da amiga, tampouco suas conclusões e razões — mesmo tendo suas habilidades puxadas para a área de exatas. Seu cérebro buscava deduzir qual situação tão importante essa, pois, até segundos antes, estava tranquila apenas atendendo à Vanessa. Algo estranho permeava o ar e sentia um aroma estranho de desconfiança, ciúme ou até mesmo amor. Daniel era ex da moça e isso podia ter criado uma certa alegria talvez… Teria Sabine saído apenas para falar com Dan?
Suas desconfianças tinham algum fundamento. Depois de deixá-la em seu apartamento, a primeira coisa feita pela garota foi mandar mensagem ao rapaz. Dividiria a informação com Jeff só quando tudo se confirmasse. Queria respostas e as teria. Precisava ouvir da boca dele as justificativas e sua versão para aquela surpreendente revelação em contraste com sua maneira antiquada e ultrapassada.
Enquanto isso, Vanessa seguia com seus pais ao seu redor prestando apoio. Aguentar aquilo sozinha doía mais que qualquer ferimento que tivera na vida. Toda história construída durante aqueles dois lindos anos, finalmente, ganhara seu ponto final. E não fora tal como nos livros de contos de fadas, onde príncipe e princesa se casam felizes e vivem o tão almejado felizes para sempre. Bem já se diz: a felicidade é eterna enquanto dura. Ela era a prova viva disso.
Abraçava a mãe como se com aquilo fosse alentar suas mágoas e dores. Tantas coisas boas ainda iam de lhe acontecer — a começar pela formatura após anos de dedicação — e não tinha mais seu parceiro para lhe dar apoio, prestigiar a cada novo passo rumo ao sucesso. Sua felicidade e alegria não dependiam dele, claro, mas tornavam-se melhor com ele. Durante todo o tempo desde quando se conheceram, tinha sido um bom companheiro. Por isso terminou: Manter os créditos acima dos déficits.
Vitória pediu ao marido para lhe deixar a sós com a filha desamparada. Queria ter a típica conversa “de mulher para mulher”, já que sempre foi muito ligada a ela desde criança e poderia saber com maior propriedade quais sentimentos atormentavam seu jovem coração a recém saído das fraldas para o amor.
Vanessa sentou-se a cama assim que seu pai fez o solicitado, encarando a mãe olho no olho. Sua vontade era apenas pedir quietude, paz, mesmo por alguns instantes. Todavia, seria apenas alguns instantes sem contar a verdade. Conhecia bem a mãe e sabia que não desistiria fácil.
— Eu fico me perguntando quantas histórias de amor acabaram hoje — comentou com a mãe — Infelizmente, sei que não sou a única sorteada na roda da vida. Não é só o meu coração que tá em pedaços.
— Filha — a mulher ajeitou-se à cama — Quando se tem vinte anos, a vida é sempre uma caixa de Pandora. Quando abrirmos, nunca sai a mesma coisa. Ela se renova, reinventa e nos tira do lugar. Isso tem um propósito: não nos deixar estagnados como postes telefônicos.
— Mas algumas mudanças são muito bruscas, mãe.
— Sim, mas tão necessárias quanto a própria felicidade que vem depois delas — sorriu — Com certeza muitas histórias acabaram hoje, mas isso não implica a todos os finais terem sido tristes. Muitos deles foram felizes, garanto isso.
— Como alguém pode ser feliz deixando quem se ama?
— Tem mães hoje, por exemplo, que, infelizmente, faleceram a dar à luz a um filho ou filha. Existe forma mais bonita e generosa de concluir uma história de amor?
— Isso não é final feliz, e sim, trágico e até um pouco mórbido.
— Marcado por boas lembranças, momentos passados juntos… — ponderava — O filho crescerá sem mãe, sim, mas lembrará sempre da heroína que lhe deu a vida. O pai ou responsável contará sempre com saudade e entusiasmo sobre ela. Existem formas diferentes de lidar com a perda ou o término de algo. Nós é quem decidimos o que fazer disso.
Aquelas palavras sentaram como uma peça faltando em um quebra cabeças enorme montado na cabeça de Van. A garota começava a ter uma outra visão dos fatos, talvez menos sentimental e mais realista, não deixando o lado humano de fora. Sua mãe tinha esse dom — educar sem agredir, usando a realidade de forma sutil e tão verdadeira.
— Eu lido como se tivesse tirado um peso dos ombros, mas, ao mesmo tempo, era algo bom, entende? Daniel tá muito confuso, sem saber quais caminhos tomar. Penso nisso como um aprendizado pra ele.
— O que acontece? — passou a mão pelos cabelos da filha, acariciando-a.
— Eu acho… Aliás, tenho certeza, que ele tá passando por uma fase turbulenta de entender quais desejos vivem dentro dele, sabe? Tá um turbilhão de coisas acontecendo e ele não tá sabendo lidar.
Novamente, Vitória ajeitou-se na cama. Pôde compreender o ocorrido com maiores possibilidades de entender tudo. Lamentava o próprio não estar ali para poder se explicar, e nem sabia se o faria, mas, para sua menina, sabia bem qual conselho dar.
— Lembra da primeira vez que fomos a um terapeuta? — recordava — Tu ainda estavas em processo de transformação, tínhamos nossos desentendimentos, brigas…
— Sim… — baixou o olhar e a cabeça. Vitória fez questão de erguê-los. A finalidade ali passava longe de ser remoer coisas antigas, e sim, simplesmente ensinar a lidar com o presente.
— Qual foi a conclusão dela no final da consulta?
— Devíamos buscar as coisas que nos unem com mais força do que atraíamos as desavenças.
— Ela estava certa — seu sorriso se alargou pelo rosto, orgulhosa do feito — E cá estamos. Amigas, com laços muito mais resistentes.
— Acha que… eu devia fazer isso com Daniel?
— Qualquer apoio emocional a ele nesse momento fará bem — garantiu — Imagine o quão assustador é para um rapaz da idade dele lidar com a descoberta de desejos sexuais novos!
Tinha de admitir: a razão estava do lado da mãe. Pouco se espantou com isso, afinal, como dito, Vitória tinha uma compreensão e visão muito além das capacidades normais. Era uma mulher de fibra, garra, agindo sempre buscando a sabedoria e racionalidade.
— Nem eu, nem seu pai ficaremos contra o Daniel. Será muito bem vindo aqui quando quiser. Vimos no olhar dele o quanto ele te quer bem, tem uma estima por ti verdadeira. Se o amor não pôde prosseguir com vocês, tudo bem. Mas isso não impede de uma amizade bonita nascer em meio ao caos e fazer da tristeza o primeiro passo para a felicidade.
— Eu te amo, mãe. O pai também. Os dois — puxou a mulher para o abraço — Vocês são os melhores do mundo.
Vitória retribuiu, contente por poder ajudar. Suas palavras eram filtradas uma por uma na cabeça tão confusa de Vanessa. Teria ela condições de ajudar o ex namorado a quebrar barreiras para alcançar o amor verdadeiro, seja lá com quem fosse?
***
A terça feira havia chegado e com ela um vento seco e temperaturas tão baixas quanto as de um iglu no ártico. As nuvens escuras ajudavam a criar um clima pesado, baixo astral. Assemelhavam-se ao rosto de Daniel, marcado pela desilusão e completo abatimento. Tristeza não era nem perto de seu real sentimento. Seu coração despedaçado tentava encontrar forças vitais para se manter na linha e ativo. Porém, pouca coisa lhe convencia. O choque dos acontecimentos não estava lhe fazendo bem.
Precisava do seu momento, aquele onde todos os pensamentos se reúnem para, enfim, serem filtrados. As dores, traumas, desentendimentos… tudo havia ganho seu ponto final. Mesmo assim, as feridas, com sempre acontece quando se machuca, demoram um pouco a cicatrizarem e nos deixarem totalmente revigorados. Ou… talvez não.
O caso, de fato, era Daniel não ter exatidão em seus sentimentos em relação ao término. Na hora, tudo pareceu tão dolorido, amargo, como se todos os sonhos de uma vida tivessem ido parar na lixeira da vida. Passado o primeiro momento de choque, seu coração estava despedaçado sim, mas pelas circunstâncias tão imprevistas e impensadas (apesar de, no fundo, terem sido previsíveis, ainda que ambos não tivessem se dado conta). Toda sua luta parecia ter sido em vão — isso o magoava.
Chegou na escola calado — e bem cedo para seu horário rotineiro. Sentou-se numa mesa mais afastada de onde comumente os amigos ficam. Queria quietude e paz. Só havia ido para ficar em dia com a matéria. Além do mais, a aula de Educação Física seria uma excelente distração para seus problemas pessoais.
Pouco a pouco seus colegas iam aparecendo e preenchendo as classes. O barulho lhe incomodava, pois, havia momentos em que só a solidão lhe compreendia. Para seu azar, todos pareciam empolgados em vir para escola. Dadas as circunstâncias, cruzou os braços na mesa, aumentou o volume de seu fone de ouvido, fechou os olhos e esperou alguém lhe chamar atenção quando a professora finalmente convocasse a turma para o pátio.
Do grupo do rapaz, Alisson foi o primeiro a chegar, notando o afastamento do amigo. Seu cérebro deduziu na hora: algo havia acontecido, e, dadas as últimas confusões, tinha certeza do motivo ser Vanessa. Soou frio, porém nada fez. Ajeitou-se na cadeira e fingiu estar entretido com seu celular, mesmo seus pensamentos focados só no rapaz e no quão arrependido estava do momento com sua possível ex namorada.
Os demais amigos foram chegando e se deparando com o afastamento. Amanda e Adrian se entreolhavam, perguntando-se qual fora a nova birra. O primeiro pensamento, claro, foi Alisson, afinal há dias estavam nesse vai-e-vem de amigos. Poderia ser mais um? Não tinham certeza. Já Jeff e Sabine sabiam bem o que levara àquela atitude. A loira ficou decidida — sanaria ali qualquer dúvida.
Com a cara e a coragem no rosto, levantou-se e foi até a mesa onde Dan permanecia de cabeça baixa. Cutucou seu ombro para ele perceber sua presença. Revirando os olhos, o menino tirou seus fones de ouvido e encarou-a.
— Precisa de alguma coisa? — resmungou.
— Queria conversar contigo.
— Se eu quisesse conversar, eu teria — começou com suas grosserias. Sabine foi mais rápida, dizendo logo a que veio.
— Sobre a Vanessa e seu… segredo peculiar.
Daniel pôde sentir quando um frio lhe percorreu a espinha. Como Sabine podia saber de algo guardado a sete chaves por ele durante tanto tempo? Ficou intrigado, criando mil perguntas em sua cabeça. Só lembrava da amiga conversando com a ex uma única vez — e fazia tempo! Se Sabine soube disso, havia sabido recentemente. Mas pela boca de quem? Alisson talvez? Encarou o rapaz só por curiosidade, vendo o mesmo conversando algo com Jeff e parecia animado. Podia estar espalhando a notícia…
A fim de descobrir todos os mistérios da situação, Dan deu espaço para a loira se sentar e começar suas explicações. No entanto, antes mesmo de fazê-lo, Rebecca, supervisora da escola, apareceu na sala comunicando a falta da professora. Mesmo assim, os alunos deveriam se encaminhar a quadra esportiva e se manter lá até o fim do tempo de aula. Todos vibraram, realizando exatamente o ordenado.
Dan também agradeceu. Teria mais chance de conversar a sós com a amiga e esclarecer todos os pontos cegos daquela súbita informação que surgiu na vida dela sem sua interferência. Trataram de sair logo e buscar um lugar mais reservado para conversarem.
Al é quem teve outro destino quando saiu. Rebecca o chamou e já tinha até conhecimento do motivo. Como não havia escapatória, tratou de acompanhar a moça até sua sala para trocarem algumas palavras. Ao entrar, sentou-se e esperou o sermão começar.
Qual foi o seu espanto quando isto não ocorreu.
— Tudo bem, Alisson? — questionou a mulher, com um largo sorriso preenchendo seus lábios.
— Pra eu tá aqui, sinto que não — deu de ombros — Qual advertência vou tomar hoje? Ou já vão me expulsar?
— Nem um, nem outro — cruzou os braços, seguindo encarando o rapaz rebelde — Quero conversar. Só isso.
— O que a Elis quer dessa vez? — revirou os olhos — Isso tá ficando chato. Ela me irrita, tu me chama aqui, tu diz que vai atenuar as coisas, nada acontece… Por que não marcamos um bolinho lá em casa com minha mãe e vocês não resolvem me mandar pra um reformatório?
— Ei, Alisson. Calma — manteve o tom ameno em sua voz — Não estou aqui como sua inimiga. Por favor, não me veja assim. Tanto é verdade que quando pude te ajudar, ajudei.
— Mas ninguém me deu garantias de que o vídeo foi excluído definitivamente — replicou.
— Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. Não temos autoridade necessária para averiguar com maior profundidade a vida dos alunos. Conseguimos muito chamando os pais aqui. Quero que leve isso em consideração no teu julgamento a nosso respeito.
Teve de concordar com Rebecca. Bufou de raiva.
— Pode me dizer então pra que me chamou, por favor?
— Na semana passada, soube de outro embate com a professora Elis. É verdade?
— O dia que for mentira, vou engravidar.
— É uma boa oportunidade tu refazer a prova, Alisson — tentava ponderar — A professora está te dando uma nova chance. Isso não é feito em nenhuma circunstância! Mas, mesmo diante disso, ela insiste. E nós acatamos.
— Ela quer provar que eu colei numa prova feita há um mês atrás e tu sabe disso — sorriu, malicioso — Se eu gabaritar significa o quê? Que eu colei? Não posso mais ter me dedicado? Houveram uma penca de trabalhos depois daqui e me fui melhor. Qual desculpa ela vai dar?
— Caso a tua nota aumente, não vamos questionar mais — assegurou — Podemos combinar assim?
— Olha, Rebecca — passou a mão em sua testa — A minha vida tá virada de cabeça pra baixo. Tem um monte de coisa acontecendo e não tô dando conta de vencer. Se eu tiver que parar a minha vida por causa de uma prova de Matemática por implicância da Elis, é mais um problema pra resolver. Entende isso?
A mulher encarou fundo nos olhos castanhos claros de Alisson. Viu neles toda sinceridade possível. Como negar algo diante disso?
— Tudo bem — suspirou — Não será obrigado a fazer a prova.
— Valeu — sorriu, agradecendo — De verdade. Significa muito.
— Quanto a turma. Melhor?
— Muito — afirmou, contente — Tá bem mais tranquilo.
— Ótimo. Fico feliz — retribuiu o gesto — Está dispensado. pode retornar para aula.
Alisson saiu da sala da moça com os ombros mais leve de quando entrou. Sem o problema de Elis em sua vida, podia cuidar de coisas muito mais urgentes e importantes de se resolver. Daniel era uma delas…
***
Quando Dan resolveu sair com Vanessa, dois anos antes, tinha uma vaga ideia sobre como era difícil manter relações com alguém mais velho. Mesmo poucos anos lhes diferenciando, a loira estava já cursando Psicologia, dando um passo importante rumo à sua formação profissional; já ele, um mero calouro do ensino médio. Nada demais. Quis mostrar seu valor à garota, provar ser digno de sua atenção e seu amor. Conquistado isso, a garantia de um amor longínquo e duradouro pareceu certa.
Antes fosse.
2017 conseguiu ir do céu ao inferno naquela relação sem saber nem explicar o motivo. Tantos segredos revelados, mentiras descobertas, traições, amores roubados… fatores internos e externos ajudaram a fazer do namoro de ambos um campo minado, onde, no primeiro piso em falso, tudo ia pelos ares.
Havia prudência na atitude de Van em terminar o namoro antes de outras feridas aparecerem e mais bombas irem explodindo até não restar nada além de cacos no lugar de seus corações. Aquilo mostrou maturidade e respeito pelos sentimentos de seu amado. Daniel, de uma forma ou outra, valorizava e entendia isso. Tal consciência se mostrava no próprio fato da renúncia conjunta em desfazer à relação, por mais que, nos momentos finais, Dan tivesse tentado, já sem fôlego, reatar.
Namoro terminado, jogo às claras. Pensou que nada mais poderia surpreendê-lo a respeito desse assunto e só queria “curtir” sua dor em paz, respirar um pouco daquele sufocamento por onde viveu nos últimos tempos. Para seu infortúnio, a vida tinha seus planos e estava-os colocando em prática. Sabine surgiu com a indireta (ou direta, tamanha forma explícita como atirou a informação em seu colo), indicando ter informações à respeito de sua ex namorada. Teria ela alguma descoberto algo que Vanessa está fazendo e achou necessário lhe contar? Ou realmente havia descoberto “o segredo’? Esta última lhe pareceu a resposta mais correta.
Para conversarem, escolheram sentar em alguns bancos à frente da quadra esportiva da escola. Por mais indiscreto que fosse, aquele horário a circulação de pessoas era mínima. Poderiam esclarecer tudo sem o perigo de serem interrompidos.
— Tu falou de um segredo da Vanessa… Qual seria? — foi direto.
— Nós… — engoliu seco — Jeff e eu encontramos a Vanessa aos prantos na praça ontem a tardinha. Achávamos que algo muito grave tinha acontecido e resolvemos ajudar. Levamos ela pra casa, ainda meio abalada, e ficamos um pouquinho fazendo companhia.
— E como ela tá?
— Se eu dissesse bem, estaria mentindo — foi sincera — Tá muito triste com essa situação toda. Saí de lá ela tava com os pais no quarto.
Na hora, o olhar de Dan baixou. Doía em seu peito fazer a garota sofrer daquele jeito. O amor podia até ter se partido, mas o carinho ainda era forte demais para seguir inerte a uma coisa daquelas.
— Eles devem tá p*tos comigo. E com razão — comentava, em voz baixa — Decepcionei todo mundo ultimamente.
— Do que tu tá falando? — a garota não entendia o ponto em questão.
— Quando dormi lá, eles foram super legais. Me trataram bem… virei quase um filho. Eles depositaram em mim a esperança de fazer a Van feliz. O que eu fiz? Não apresentei ela pra minha família, escondi como se fosse um bicho anormal e— quase deixou escapar sobre os “meninos” de sua vida — fora… outras coisas. Óbvio que devem tá querendo minha caveira.
— Não se te dizer. Eu saí eles ainda estavam com a filha. Pareciam ocupados demais com ela pra falar de ti ou qualquer outra coisa.
— Nem seu Ralph?
— Aham — confirmou a loira.
O menino se ajeitou no banco, escorando-se no encosto com as mãos para trás. Suspirou, não em tom de alívio, e sim, de alguém cuja covardia em assumir para si e para o mundo seus próprios sentimentos já tinha feito sua morada. Pela primeira vez, sentiu-se incapaz. Em todos os sentidos, formas e situações possíveis. Antes suas mãos estivessem atadas, pois, pelo menos assim, poderiam ser desamarradas. Mas como reviver uma semente nunca geminada em seu coração?
— Me sinto mais triste por ser inútil do que por não ter namorada. Acredita? — riu, fraco, mostrando sua fragilidade — No fim das contas, eu tô p*to comigo mesmo por não ter feito uma guria tão bacana feliz. Tudo por estupidez, burrice.
— É uma pena que tenha percebido isso tarde demais… — não resistiu em comentar, mas era verdade. Tapar o sol com a peneira surtiria tanto efeito quando jogar neve no gelo — E isso aconteceu por tu ter descoberto que ela foi um—
— Ela nunca foi nada além daquela menina que tu viu — antes mesmo de Sabine cogitar falar aquela asneira, Dan foi rápido e corrigiu — Eu que fui idiota e não valorizei isso.
— Tem razão. Desculpa — ajeitou uma mecha em seu cabeça — Eu tô a tua disposição, Dan. Tanto tua quanto dela, pra conversar, se distrair. É importante.
— Valeu, mas, agora, só preciso ficar no meu canto com meus pensamentos entende? Se puder falar com a gurizada, agradeceria um monte.
— Aviso, sim, Pode deixar.
O garoto, retribuindo a parceria da amiga, deu um beijo em sua bochecha e foi à caminho da sala, deixando-a ali, pasma, sem ter palavras para expressar seus sentimentos diante daquele relato tão verdadeiro, sincero. Conheceu ali um Daniel bem diferente do habitual — pareceu racional, compreensivo, ciente de seus erros, acertos e talvez até capaz de mudá-los. Um choque. De todas as frases esperadas para aquele momento, Daniel não havia falado uma prevista. Seguiu completamente fora da linha de roteiro traçada na cabeça da loira, deixando-a mais instigada a descobrir como isso aconteceu.
Daniel ia em silêncio para a sala quando, no meio do caminho, seu olhar cruzou com o de Al. O garoto parecia vir do corredor da direção da escola — provavelmente resolvendo suas pendências. Encontrar aquela figura tão conhecida e, ao mesmo tempo, tão distante de si naquele momento, deu um certo refúgio à seu mar revolto. Sabia do potêncial de Alisson lhe entender num momento daquele, mas nunca, em hipótese alguma, daria o braço a torcer antes dele. Se eram tão amigos assim, ele que procurasse.
Seus pensamento só desfocaram do amigo quando ouviu a voz de Rebecca lhe chamando. Aparentemente, era sua próxima vítima. Tinha mais absoluta certeza — Elis estava envolvida até o pescoço.
Tiro e queda.
Ao chegar na sala da moça, viu sua professora de Matemática parada ao lado da mesa de madeira nobre, coberta por um verniz que a deixava num tom vinho forte. A docente, por sua vez, vestia um longo vestido roxo com um casaco preto para reforçar devido ao frio. Por um momento, pensou estar vendo a bruxa do episódio A vassoura da Bruxa do desenho animado Pica Pau. E, tal como dizia a personagem: E lá vamos nós! Outra vez teria de olhar para a cara de poucos amigos que ela fazia toda vez na qual tinham o desprazer de se encontrarem.
— Pra senhora tá aqui, não preciso nem perguntar — começou o garoto — Até quando essa lenga lenga de cola vai durar, hein?
— Tanto tu quanto seu amigo Alisson estão bem agitados hoje — Rebecca riu da situação, sem temer ou mesmo se irritar com o deboche do aluno — Querem resolver tudo assim, do nada. Calma, meu rapaz. Estou aqui pra ajudar.
— Quem? Ela só se for!
— As circunstâncias ditam o lado que merece ser apoiado, meu caro Daniel dos Anjos — Elis se intrometeu, ajeitando seu óculos — Casualmente, elas me favorecem.
— Estava aqui analisando suas notas, Daniel — Rebecca tomou a palavra — Vi que, não graças a esta prova, mas sim, a outras avaliações feitas, a tua média baixou dois pontos além do esperado.
— Que pena — foi sarcástico — Olha minha tristeza.
— Escute — a moça negra cruzou os braços em cima da mesa — Meu trabalho aqui é resolver conflitos, de qualquer natureza, a fim de tornar a escola um lugar mais saudável, justo a todos.
— Não vejo justiça numa professora que cisma que colei só porque quase gabaritei a prova dela — deu de ombros.
— O seu desempenho durante as minhas aulas foi fraco, Daniel! — exclamou — Como pode ter ido bem numa prova, sendo que, nos momentos oportunos, não tirou uma dúvida, não foi bem nos trabalhos…
— A senhora acha que todo mundo mofa em casa pra fazer trabalhinhos? Caso não saiba, tenho algo chamado vida social. E trabalhos de escola me impedem de viver, me obrigando a fazer uma escolha.
— E essa escolha te leva a nota alta na prova e péssima nos trabalhos?!
— Sim, ué!
A docente estava visivelmente transtornada com o cinismo no qual Daniel parecia encarar toda aquela situação. Podia ver, dentro de si, seus olhos pulando de alegria de vê-la explodindo como um vulcão. Rebecca nada falou, agradecendo aos céus por ter presenciado só a reunião com Daniel e Elis juntos, e não a de Alisson.
— Ouça, Daniel — Rebecca fez uma nova tentativa — Nós queremos aqui criar uma oportunidade para ti e pro Alisson provarem a inocência de vocês diante dessas alegações. Fazendo uma nova prova, fica constatado, pelo resultado, se estavam de má fé ou não.
— Baseado em suspeitas… — revirou os olhos — Agradeço a chance, mas dispenso. Prefiro a última prova do trimestre.
— Espero que esteja estudando para ela, então — Elis sorriu — Está… maravilhosa. E caso hajam dúvidas, as provas são aprovadas pela supervisão da escola. Ou seja…
— Complô — provocou — Beleza. Não tô com medo. Posso ir.
— Pode — ambas falaram.
O garoto simplesmente levantou e foi embora, deixando-as transtornadas com suas respostas tão afiadas. Daniel era duro na queda, e o fato de ter terminado um namoro recentemente o deixou ainda mais “sensível” a perder seu senso. Mesmo assim, estava feliz — algo de bom havia conseguido, no fim das contas. Calou a boca da temível professora.
CONTINUA
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