CONFUSÃO

Não é exagero afirmar o quão frágeis e sensíveis ficamos quando entramos em um relacionamento. Estes têm o dom de serem, ao mesmo tempo, o sétimo céu e a mais pesada das cruzes. Conviver com alguém vindo de uma criação (por vezes) oposta nossa, valores, opiniões, maneiras de agir; às vezes até mesmo hábitos corriqueiros, manias, TOC’s, vícios… Sempre é uma grande aventura, ou até mesmo, uma experiência das mais complexas.

O grande “x” da questão é sermos humanos. Tal atribuição, muito além de ser mera constatação científica, nos torna mais vulneráveis e expostos a diversas sensações as quais nenhum outro ser vivo pode sentir. Nosso corpo reage de formas desconhecidas, criando sonhos, ilusões, planos, ou até mesmo de formas mais físicas, comprovadas por nosso comportamento biológico. É um mar de mistério onde somente os mais corajosos sobrevivem, mesmo assim, apostando todas as suas fichas, vontades e desejo de ser feliz ao lado de alguém. Infelizmente, não era o caso de Daniel e Vanessa.

Lutaram por muito tempo. Talvez até além de onde muitos chegariam ou aguentariam, mas, quando não há vontade na luta, um objetivo a ser alcançado, os ventos da vida carregam os véus que cobrem os dois amantes e os leva para seus próximos e futuros amores.

Isso, de alguma forma, consolava Daniel. Ver um relacionamento de anos acabar de forma tão rápida e sem maiores delongas doía, porém, seu coração, já passado do primeiro momento de choque, parecia ter entrado em um novo estado: o de regeneração. Pouco a pouco, as feridas, cortes e machucados iam sendo costurados pelas linhas do tempo e do pensamento. Refletira muito, principalmente depois da conversa com Sabine. Foi essencial botar pra fora um pouco de verdades renegadas por tanto tempo, Pareceu um peso saindo das costas, mesmo a ferida sendo a mais difícil de cicatrizar. Pelo menos podia agradecer por ter parado de sangrar — achou um bom começo.

O pior de tudo era não ter outra pessoa além de Ian em quem confiasse plenamente para poder se sentir seguro. O amor e o carinho do primo por si eram essenciais, sem dúvida, mas alguém capaz de ser sincero e, ao mesmo tempo, se importar com seus sentimentos enquanto tinha uma certa distância afetiva parecia bom. E sabia bem quem poderia fazê-lo. Alisson podia ter todos os defeitos do mundo; criado um caos do tamanho do universo dentro de sua vida outrora tão organizada e perfeitinha; ainda sim, fora um parceiro inigualável nos últimos tempos. Conseguia tirar sua cabeça dos ares e pôr de volta à terra apenas com aqueles olhos castanhos mirando fixamente dentro dos seus, tendo quase habilidades de um toureiro e a esperteza de uma raposa. Mesmo sendo ele a cereja do bolo responsável por seu término, como fazia falta… Dan o via como um veneno capaz de curar sua doença. Só não entendia o porquê…

Levantou da cama saudoso naquela manhã de quarta feira. Cada gota caindo do lado de fora da janela, parecia aumentar ainda mais o aperto em seu coração. Teria o céu se apiedado de si? Aparentemente sim. Queria deixá-lo a vontade para mergulhar dentro de sua mente e buscar no passado as respostas tão almejadas. Às vezes isso se fazia necessário.

Notou, pela primeira vez em alguns dias, seu trevo de quatro folhas no vasinho em cima da mesinha. Ao contrário da última vez, estava mais murchinho, caído, abatido. Com pena, abriu a janela e o pôs onde a água caía para ver se trazia de volta a alegria de viver. Por um momento sentiu inveja daquela plantinha: meras gotas seriam o suficiente para reanimá-la, já ele próprio precisaria de coisas bem mais complexas…

Arrumou-se e desceu até a cozinha. Qual não foi a surpresa ao encontrar seu belo primo de olhar tão vivo e brilhante tomando seu café, sempre com seu sorriso grudado nos lábios. Aquilo impressionava Dan de verdade.

— Tu só pode ter essa boca costurada assim — debochou.

— Como? — o outro perguntou, rindo.

— Fica igual uma hiena o dia inteiro.

— Ah! — deu uma mordiscada em seu sanduíche de presunto defumado com queijo e maionese — Tem alguma razão para estar de outro jeito?

— Esqueci. Tô falando com o Dalai Lama gaúcho.

Dan foi até o armário, tirando de lá uma xícara e preenchendo-a com o leite fervido pelo primo. Colocou seu achocolatado e depois foi se sentar ao lado de Ian, quase como um gesto de querer se sentir seguro.

O outro, como não era de se estranhar, percebeu algo diferente. Os tios haviam comentado por alto algumas coisas, suas preocupações e temores, mas sem saber de fato as causas. Ciente dos últimos acontecimentos, tinha quase certeza de Vanessa ser uma delas — senão a principal. Estava na dúvida se perguntava ou deixava a poeira baixar e Dan acabar contando tudo. Porém, ver a infelicidade fazendo morada em alguém tão importante para seu coração o deixaria pior do que o mais novo.

— As pessoas falam tanto da vida, de sua suposta injustiça, seu fazer sofrer, suas causas de dores, tristezas. Só esquecem de como toda energia que emanamos pro universo volta pra gente da mesma forma — comentou.

— Por que isso agora? — Dan ficou sem entender.

— Fico triste de ver como muitas vezes viver parece supérfluo por conta dessas pequenas decepções. Todo mundo quer curar a dor da tristeza, mas nunca as causas dela. Imagina se um médico curasse os sintomas, e não a doença. O que aconteceria?

— A doença… Voltaria? — respondeu, ainda confuso — O que tu quer dizer?

— Pra gente poder aproveitar cada momento, precisamos estar com o coração puro, aberto a tudo. Isso dificilmente acontece quando estamos doentes emocionalmente. Por isso eu procuro sempre ter um motivo pra me alegrar, sorrir por estar aqui, tomando café contigo.

— Pra mim isso é ilusão. As pessoas ficam tristes, cara. Sofrer, ter momentos melancólicos… qualquer um ter isso. Fingir que não acontecem não parece a coisa mais coerente a se fazer.

— Sim. Isso é verdade — concordou o mais velho, tomando um gole do café com leite — Por isso eu não finjo demência pra tristeza. Eu aprendo com ela.

— Sinceramente, Ian, até agora esse teu papo não teve início, meio e fim. Quer sintetizar, por favor?!

O maior então levou sua mão ao queixo do menino, fazendo-o encarar bem ao fundo de sua íris. Queria deixar seu coração falar, assim conseguiria tocar a alma rebelde e a mente tumultuada de Daniel. Tinha certeza disso.

— Tu tá certo quando diz que todos sofremos — começou — Eu também sinto meu coração apertar várias vezes quando algo me machuca na alma. Principalmente tu.

— Ah, que ótimo. Mais um pra lista de pessoas que eu faço sofrer —foi irônico, ainda triste — Se isso é pra me animar—

— Tá vendo? Tá se apegando de novo no ponto errado. E deixa eu terminar — pediu — Tu me faz sofrer, Dan, porque a gente sente por dois quando gosta de alguém. Qualquer dor em ti, dói muito mais em mim. Não tô falando isso pra pesar na tua consciência, e sim, porque eu aprendo todos os dias o real significado de se importar.

— Como assim?

— Dan — levou sua mão esquerda à dele — Quando a gente quer o bem de alguém, precisamos ser honestos, transparentes para nós e para quem se gosta. Eu sei perfeitamente onde me encaixo no teu coração. Isso não quer dizer que eu não vá ligar pra nada da tua vida amorosa ou querer saber como tu tá, quais tuas alegrias... Somos primos, amigos, irmãos acima de tudo. Vou me importar contigo não importa quem eu serei pra ti.

Daniel pôde finalmente entender o ponto do primo: queria dele uma confissão, abrir todos os cadeados de seu machucado coração para, quem sabe, ele lhe ajudar a dar um rumo. Estava tão cansado de carregar tudo aquilo sozinho. Sentiu ser uma boa oportunidade para tirar de seus ombros um peso enorme e compartilhar seus anseios de seguir em frente. Ian era bom nisso.

Tomou mais um gole de seu achocolatado antes de prosseguir. Seria difícil, mas necessário. Precisava tomar coragem de onde não tinha.

— Eu não sei o que fazer da minha vida agora… — disse, com a mente confusa.

— Quanto a Van?

— Não. Isso… Nós já resolvemos — engoliu seco.

— Terminaram?

— Aham… — coçou a nuca — Ela quis assim. Não pude nem impedir, até porque da última vez que o fiz foi pior.

— Sensato da tua parte — elogiou o mais velho, sorrindo de canto — Sei o quanto isso deve tá sendo dolorido pra ti, mas pensa nisso como um ponto final em uma história cujo enredo já estava esgotado.

— Mas terminei diferente de quando comecei…. — pensou alto — A m*rda toda é essa. As perdas foram maiores do que deveriam.

— Terminar um relacionamento nunca é fácil, Dan. Ficam as memórias, objetos, fotos… Temos de aprender a lidar com isso.

— Não tô falando de coisas. Aí é que tá — confessou, para a surpresa do maior — Falo de… pessoas. Ou melhor, uma pessoa.

É claro que Ian não era nenhum tolo. Percebeu bem a quem o primo se referia. Foi quase automático lembrar da visita de Gil a sua casa e seu aviso de algo não estar certo entre Daniel e Alisson. De repente, se via diante daquilo e sequer conseguia pensar em uma reação maior além da surpresa. Jamais pensou em ver Dan admitindo aquilo em voz alta, e de forma tão doída. O fato de terminar com Vanessa, no fim das contas, curou a cegueira dele? Essa conclusão lhe parecia muito com a mais próxima da verdade.

Curioso, precisava esclarecer isso, até mesmo para dar bons conselhos. Queria ter tempo para sentir aquele sentimento incômodo de ver Dan correndo para os braços de outro rapaz, todavia, seu coração o impedia. Precisava ajudá-lo, não recriminá-lo e criar mais problemas. Para sua surpresa, nem precisou se dar ao trabalho de perguntar.

— Eu acabei brigando com uma das poucas pessoas, além de ti, que consegue me entender e ajudar

— O Alisson? — mesmo ciente da resposta, resolveu arriscar.

— Sim… — encarou a xícara com olhar baixo — Por que eu afasto as pessoas? Ele não tinha nada haver e eu fui… tão idiota com ele.

— Confesso que tô surpreso. Tu admitir isso é um sinal de progresso.

Dan gargalhou, fraco, com ares notáveis de chateação.

— Eu demoro a aprender as coisas. Elas custam a entrar de vez no meu cérebro.

— Aprender é como uma sementinha, Dan. Tu precisa regar todo dia pra ela florescer e ficar firme. Caso contrário, nunca geminará. Se tu acha que errou com o Alisson, reconheça teu erro e segue em frente. É mais um passo na direção certa.

— Mas é que… — suspirou — Parte de mim não perdoa, muito menos esquece, a cena dele beijando a Vanessa entende?

De todas as coisas esperadas por Ian, aquela frase não estava nem cogitada. Jamais pensou na possibilidade do primo realmente estar tão mexido com alguém como estava naquele momento. O dia da festa no “Wunder Bar” já havia dado os primeiros sinais sobre o comportamento. Agora, sem Vanessa, nada mais impedia seu coração de seguir em frente. Isso, ao mesmo tempo que fascinava o garoto de olhos claros, o envolvia em um temor inexplicável.

— Tem certeza disso, Dan? — questionou, ainda não confiante na resposta — O problema foi ele ter beijado a tua namorada… ou ter beijado alguém na tua frente?

O menor sentiu um frio lhe percorrer a espinha, quase como se tivessem posto um gelo para descer pelas costas. O primo sugeria mesmo algo absurdo como aquilo?

— Não tô te entendendo — fingiu.

— Aquele dia, lá no Wunder Bar, tu surtou igual um chimpanzé chapado só porque o cara tava beijando uma mina lá — recordou — E não era a Vanessa.

— Óbvio. Ele fez pra me irritar.

— Pra te irritar… ou... provocar?

Daniel não gostava nada do rumo das coisas. Uma hipótese daquelas fazia seu corpo estremecer todo. Já não era a primeira vez que Ian, ou alguém, chamava sua atenção naqueles termos. Tentava se convencer de um surto de loucura, porém, algo no seu coração alfinetava sua mente para ser mais atento, como se o puxasse de volta para a realidade. Esta, para seu azar, doída demais.

Optou por não falar mais do assunto, mudando para a escola de música. Apesar de lamentar, o mais velho acabou contando sobre seus progressos com a turminha a qual era responsável, e do pedido de Manolo (seu chefe) para fazerem uma apresentação ao vivo. Contou também sobre a sugestão de tocar em sua escola, durante o intervalo. Dan ficou animado, claro, incentivando primo a seguir por este caminho.

Ficava genuinamente feliz por ele, afinal, Ian tinha tudo em sua vida muito bem resolvido. Já a si mesmo, tinha o próprio caos nas costas para carregar e mal sabia como fazê-lo....

***

A música é e sempre será um alimento para a alma. Ela nos inspira e leva a lugares dentro de nós mesmos até então completamente desconhecidos. É como uma viagem, onde descobrimos mais sobre nós ao invés dos lugares para onde vamos. Por isso Ian tinha verdadeira paixão por ela. Poderia ser, viver, viajar, fazer tudo que lhe ocorresse dentro de alguns versos.

Tinha muita sorte com seus pupilos. Aprendiam rápido, suas mentes agéis pareciam pegar a explicação no ar (mesmo nos dias onde estavam mais agitados) e praticavam nas aulas com muita força de vontade. Desde o início das aulas com canto então… fora uma verdadeira febre para um querer cantar melhor do que outro. Ian se divertia com aquilo, acolhendo ainda mais suas convicções e valorizando-as como nunca. Tinha todas as manhãs a confirmação de ter escolhido o caminho certo para seu coração.

Quando terminou sua primeira turma do primeiro horário (das 08 às 09:00), parou para tomar um café, já que a próxima turma ainda não havia chegado. O aroma do café, por si só, já foi um verdadeiro combustível para encarar mais uma hora ensinando e aprendendo (como todo bom professor). Ouviu de Manolo algumas ideias para sua apresentação na escola, preparação de comunicado aos pais e todos os detalhes mais burocráticos desse evento tão importante — tanto para seus pupilos quanto ao próprio Ian. O chefe aparentava entusiasmo cada vez a qual fazia citação à preparação de seus “artistas mirins” como nomeou. Notava-se de longe seu igual amor pela música e, só por isso, valia a pena cada minuto gasto ali.

Terminada a “reunião”, o garoto de pele bronzeada passou pelos corredores que levavam da cafeteria da escola até o corpo principal da escola, passando por algumas salas. Parou em uma em particular quando algo lhe chamou a atenção: Diógenes, ficante de Ágata, praticava arduamente seus solos de guitarra junto a um dos colegas docentes. Era um guitarrista com todas as boas características de um, praticamente um fato inquestionável. Realizava os acordes da música em questão com maestria, não errando um tom das notas. O professor, ao término do exercício, elogiou barbaramente seu aprendiz.

Porém, algo estranho começou a ocorreu. Ian notou quando, ao parar, Diógenes paraceu ficar meio zonzo, tonto, girando inclusive a cabeça de forma bem suave. Quando levantou então foi a confirmação — caiu ao chão mais rápido do que uma pinha de uma árvore. Não chegou a desmaiar, mas estava em processo de. Ian foi rápido, correndo para buscar um copo d’àgua e jogando alguns pinguinhos no rosto do outro. Isso fez com que ficasse um pouco mais desperto, mas não deixando o professor e o “rival” menos preocupados.

O docente levou o garoto no colo até o sofá, deitando-o de pernas esticadas para descansar enquanto fora avisar Manolo. Ian também pediu para avisar sua turma de seu atraso para dar a próxima aula, a fim de ficar de olho no rapaz. Este parecia envergonhado do ato recém cometido, pois seu rosto fervia como uma maçã, criando, inclusive, uma contradição entre o mal estar e o vexame.

Sem alternativa, Diógenes acabou por puxar assunto, para quebrar aquele iceberg que estava se formando diante deles.

— Não tinha te visto… — ajeitou-se um pouco melhor no sofá vermelho.

— Parei faz pouquinho com a última turma e resolvi assistir teu ensaio — explicou — Tá melhor?

— Um pouco…

— Sabe se isso foi só uma tontura passageira ou já vem acontecendo há dias?

O outro suspirou. Odiaria ter de confessar algo daquela magnitude justamente para aquele com quem a garota alvo de seu flerte se relacionava. Porém, seu corpo já havia lhe cravado o próprio punhal nas costas. Negar ou fingir qualquer coisa seria inútil, em seu ponto de vista. Resolveu ser sincero de uma vez e acabar com aquilo logo.

— É a terceira… ou quarta vez que ocorre…

— Em quanto tempo?

—… Hoje.

— Hoje?! — Ian ficou impressionado com a revelação. Foi quase tão assustador quanto ser surpreendido em uma rua escura — Por que isso?

Novo suspiro.

— Dedicação exige um preço alto — começou — Qualquer grande artista da música fez sacrifícios dos mais diversos pra chegar ao topo, ser reconhecido em cada canto do mundo.

— Como é?! — não podia acreditar nas palavras que ouvia.

— Ué, é verdade! Fazer música, saber cada nota pertencente dentro de uma melodia, o tempo dos acordes, o tom das notas… Isso exige tempo e muita dedicação. E é só isso que tenho feito ultimamente.

— E o que isso tem haver com tua tontura?

— Bem… — coçou a nuca — Na real, eu tenho… prestado muito mais atenção nos ensaios em casa. Isso acabou afetando algumas refeições e—

— Ei, cara! Como assim? — cada vez mais aquelas informações faziam menos sentido — Velho, não tô querendo me intrometer na tua vida. Tu faz o que bem entender, livre arbítrio existe por uma razão. Mas paixão nociva só faz mal pra gente, mesmo sendo com algo e não alguém. Nem sempre estarmos nos expondo a riscos é sinal de coragem.

— Se fosse assim, ninguém sairia do lugar, não é mesmo? — replicou — Foram através dos riscos que hoje se sabe sobre como funciona a relação da Terra com a Lua e o Sol, por exemplo. Alguém se deu o trabalho de se dedicar anos e anos a fio num estudo para chegar nessa conclusão.

— Concordo. É verdade. Só que nenhum deles quase desmaiou de fome para chegar a perfeição. Ficando doentes, então, não conseguiriam saber o peso de uma ameixa.

Diógenes ficou calado. Como podia argumentar diante disso? No entanto, tinha suas razões para tal atitude. Podia parecer supérfluo, exagero, mas seu coração pedia para fazê-lo.

— Um dia, eu serei um vencedor — parecia convencido — Serei grande. Tenho certeza disso.

— Eu também — foi otimista — Tu tem talento, potencial pra ser. Só não faz isso de novo, tá? Não tem necessidade.

— Pensei que.... — respirou fundo — assim a Ágata ia ver o quanto realmente me dedico quando quero algo.

— Pera — a ficha então caiu — Tu só fez isso… por causa dela?

O rosto incendiou como se estivesse se consumindo em fogo e brasa numa grande fogueira. Falando em voz alta, pior, admitindo com um sinal afirmativo da cabeça, parecia sentir o olhar reprovador do garoto sob sua face. Xingava todos os santos possíveis por lhe terem feito passar uma vergonha daquelas justo a frente do garoto “rival”. Com tantos outros para lhe acudirem, até mesmo seu professor, por que ele tinha de estar ali?

— Eu te falei isso aquele dia da confraternização e vou te falar de novo, mas de boa, sem agressão — ponderou o outro — Não tô em uma competição, porque, pelo menos pra mim, o grande mal da vida é as pessoas se verem como inimigas e não aliadas. E, se tu realmente ama a Ágata e tem sentimentos por ela, não vou te impedir de correr atrás. Não serei um obstáculo. Só lembra que ela já sofreu um baque muito grande de um namorado cabeça fraca.

— Não tenho cabeça fraca! — contestou.

— Será? Tu tá me dizendo agora que deixou de COMER por conta dela? Acha isso saudável?

O outro se calou de vez, mesmo porque seu professor retornou com outro copo d’àgua para que tomasse e se recompusesse. Ian ouviu quando foi liberado das aulas, mas deveria chamar algum responsável para buscá-lo, a fim de evitar acidentes durante sua ida para casa. Feito isso, o garoto de olhos claros retornou para cuidar de sua turma e foi assim até dar o horário de término das atividades. Devido ao atraso, as aulas acabaram poucos minutos mais tarde.

Quando estava saindo, viu Ágata lhe esperando no sofá da recepção, alegre e animada conversando ao celular com alguém. Achou coincidência a menina estar ali. Nada falou de imediato, apenas a cumprimentou, despediu-se dos colegas e foram embora. Só pelo meio do caminho tocou no assunto, deixando a garota de cabelos negros como a noite bem diferente de quando a viu minutos antes.

— Não dá pra ficar protelando isso mais, gata — o garoto comentava.

— Não dá pro Diógenes ficar agindo desse jeito babaca, isso sim! — reclamou — Ele pensa exatamente o quê?! Agora vou ir lá dizer “Meu herói” por ele tá tentando se matar por uma bobagem dessas?!

— Tenta conversar com ele, fazer ele entender que—

— Tigrão, chegou de conversa com ele — estava determinada — Passou do ponto legal e não preciso disso.

— Só… pensa bem tá? Ele gosta muito de ti, de verdade.

— O Bryan também e olha que fez…

De fato, a garota estava certa. Contra os fatos, poucos argumentos realmente salvariam Diógenes da forca do coração da menina. Porém, mesmo pensando no lado dela, via também o seu. Odiava esse clima pesado, como se dois egos estivessem travando uma luta até a morte. Só queria paz e sossego, e, caso fosse necessário dar um tempo a Ágata para pensar, faria isso sem pestanejar.

***

Mesmo com as finas gotas fazendo questão de dar mais desgosto em levantar da cama, Alisson se manteve firme. Precisava encarar de uma vez alguns problemas escolares seus com a professora de Matemática e faria isso naquela manhã. Queria por um basta nessa situação e se concentrar em terminar o ano letivo o mais depressa possível.

Porém, conforme foi andando pelas ruas ao som de Shape Of You, Ed Sheeran, notou uma mudança na forma das nuvens, até mesmo uma diferença no movimento pelas ruas. Estava quase deserto, uma ou duas vivas almas cruzavam por si no trajeto. Estranhou. Para piorar, a chuva engrossou mais rápido do que caldo de carne, fazendo-o apressar o passo. O guarda chuva já fazia aniversário, mesmo assim, não era exatamente o símbolo da eficiência.

Chegou na escola, o mesmo marasmo encontrado pelo caminho. Ali, diferente de andar pela cidade, não era de total espanto — dias como aquele costumavam afugentar os alunos e dar-lhes uma desculpa de ficar em casa. Tinha de concordar também que havia chegado mais cedo. Isso era outro fator.

Ficou enrolando para chegar a sala de aula, passando primeiro pelo banheiro, bebedouro, até mesmo observando dois garotos do time fazendo um passe de bola para passar o tempo na quadra fechada. Porém, foi entrar no 3B, a surpresa: Daniel era o único até então lá dentro.

Ambos se encararam com certa surpresa, mas nada disseram um ao outro. Nem ‘bom dia’, para mostrar cordialidade. Al sentou duas carteiras a seu lado direito, enquanto Dan fixava seu olhar ao quadro para não encarar nem de canto de olho o outro rapaz.

Um grande ruído se emitiu nos céus. O tempo havia fechado lá fora e a tempestade, antes dando suas caras devagar, agora tinha toda a força do mundo só para si. Ao que parecia, teriam algumas longas horas para se entreterem ali...

CONTINUA