A Teoria das Cores
74 Rosa VII
ESTIMULANTE
Quando se decide encarar o ofício corajoso e valioso de lecionar, imagina-se quantas pessoas, ao longo de uma vasta e sólida carreira, aquele docente irá encontrar. A sala de aula, no fim das contas, é um microcosmo das massas, onde crianças e adolescentes das mais diversas realidades, sexualidades, raças, até mesmo etnias. Tendo isso em mente, já se pode ver os conflitos se formando, culminando em atos violentos muitas vezes.
Em anos exercendo seu ofício como professora de Matemática, Elis, por sorte, só presenciou conflitos verbais. Ainda sim, quando olhava para as figuras de Alisson e Daniel, perguntava-se quais as razões a mantinham firme e forte a cada ano que passava dentro da sala de aula. Poderia se aposentar, tudo estava a seu favor. Precisava mesmo se sujeitar a isso? Quando entrou naquela sala e viu apenas ambos a encarando com cara enjoada, queria pegar o primeiro ônibus para a secretaria de educação do município de Nova Petrópolis e encaminhar seu pedido de aposentadoria. Não os odiava, claro, era profissional nesse sentido. Agora, seria forçar a amizade dizer que estavam entre seus prediletos.
Deu passos lentos até sua mesa, contando tantos carneirinhos quanto sua mente fosse capaz. Encarou bem as nuvens escuras do lado de fora, que faziam questão de mostrar o quão carregadas e dispostas estavam a continuar com o toró por mais um bom tempo. Suspirou, puxou a cadeira e sentou, olhando olho no olho seus dois pupilos daquela manhã.
— Seremos só nós três, pelo visto — comentou, abrindo já seus cadernos de chamada e caderno com anotações.
— Como assim?! — Dan pareceu indignado — Não tem mais ninguém na escola?!
— Desta turma, não. De outras, sim.
— Menos mal — deu de ombros — Era só o que me faltava. Ficar aqui preso a essa incrível aula quase sozinho.
— Falou bem. Quase — foi a vez de Al se manifestar.
— Não tô falando contigo — o menor disse. A réplica veio na hora.
— Mas eu tô.
Elis, vendo o perigo eminente. Tratou de aquietar os dois e lembrá-los de estarem em um ambiente escolar. Seguiram sem se encarar, mas, pelo menos, ficaram quietos, cada qual em seu canto. Não conseguia entender a lógica de duas pessoas que há poucos dias eram melhores amigas e, naquele momento, poderiam se matar se desse oportunidade.
Os rapazes sabiam (ou quase) o porquê de estarem assim, e sabiam também do tamanho daquela bobagem. Porém, eram orgulhosos, turrões demais para admitirem. Al jamais daria o braço a torcer, ainda mais lembrando a cada instante das palavras do amigo para si no dia da festa do “Wunder Bar”.
“ Não chega perto de mim, seu viado do c*r*lho!”
Ora, pois assim seria. Ficaria quieto, ou pelo menos o tiraria do sério a cada oportunidade. Faria-o se arrepender, tinha certeza disso, e não demoraria tanto quanto podia imaginar…
Dan, apesar da conversa franca com Ian, resistia em ceder. Desconhecia a razão para tal, apenas queria bancar o forte e destemido, como se fazer o oposto o fizesse parecer fraco. Seu coração persistia em ser teimoso.
Elis, no meio disso, apenas buscava a melhor maneira de fazer daquela manhã proveitosa, mesmo sem poder fazer nada (afinal, haviam dois alunos em sala. Nem por milagre conseguiria). Teve uma ideia, até mesmo para ter sua “vingança” acerca da prova. Pegou um giz e começou a escrever algumas coisas no quadro negro. Tratava-se de um exercício sobre equações binominais e trinominais. Os garotos se entreolharam, confusos.
— Vai dar aula de boa? Sem mais ninguém ter chegado? — Alisson questionou.
— Claro, afinal vocês vieram a aula para aprender, não é mesmo? — rebateu a docente, sorrindo, sádica.
— Ah… Sei. E vamos fazer isso daí e pronto?
— Faremos uma espécie de revisão. Será bom, assim nós vemos o quanto vocês dois absorveram das minhas aulas.
— Dando um spoiler: Quase nada — Dan ironizou.
— Ótimo! Assim terão tempo para sanarem quaisquer dúvidas sobre o conteúdo antes da prova — a outra manteve o tom — Lembrem-se de que a fiz para quem realmente aprendeu alguma coisa. Espertinhos não terão vez.
Ambos pareceram não ligar muito para a ameaça da professora, concentrando-se unicamente em copiar os exercícios do quadro. Porém, ao terminar veio a surpresa: Elis confiscou os celulares, prometendo entregá-los somente quando dessem por terminada a atividade. Tinha seus interesses com isso e os garotos sabiam bem quais eram, porém não cederam. Tentaram argumentar de todas as formas, incluindo ir à direção fazer uma ata se queixando de seu suposto comportamento antiético. Sempre bem armada, a mulher lembrou-lhes o fato de aparelhos eletrônicos não fazerem parte da lista de materiais exigidas pela instituição e que, portanto, eles seriam os irregulares. Sem alternativa, entregaram, mas com uma cara tão torcida que fazia uma criança birrenta parecer a mais amável das criaturas vivas.
Alisson perguntou se podiam usar seu material para consulta, tendo a confirmação em seguida. Para seu espanto, havia pouquíssimos registros escritos em seu caderno das aulas de matemática, algo que o fez soar frio. Teve de admitir: estava negligente com seus estudos. Pegou-se encarando, de canto de olho, Daniel. O garoto parecia esforçado e dedicado na realização dos cálculos. Ora, pois se Dan sabia fazer, por que ele não conseguiria? Tratou de pôr seu cérebro para funcionar. Nada seria motivo para dar o gosto da vitória a professora que mais detestava em todos os seus anos de escola.
Quanto ao colega, as impressões de Al eram, de fato, só impressões. Estava completamente perdido e quanto mais encava aquelas contas, mais raiva tinha da incapacidade de seu cérebro em assimilar qualquer coisa que saísse da boca de Elis. Odiava suas aulas, matemática, números complexos e qualquer coisa onde tivesse de encontrar valores. Mal e porcamente encontrava o rumo de sua vida, quanto mais valores numéricos. Por sorte, seu caderno era um pouco mais preenchido que o de Al. Não muito, mas o suficiente para se dar ao luxo de tentar achar uma resposta.
Quase como por instinto, olhou, tal como Alisson, de canto de olho para este, vendo o desespero estampado em seu rosto. Deu-lhe uma súbita vontade de ajudar, mas, além do orgulho ainda fazer questão de se mostrar firme, Elis os encarava como se esperasse o primeiro gesto em falso para cair matando. O jeito foi ficar quieto e esperar.
Enquanto isso, Al seguia tentando achar um meio de sair por cima daquela situação. Não era possível que, pela primeira vez, a professora de matemática fosse lhe vencer. Sua cabeça era incapaz de admitir tamanha barbárie. Com a desculpa de procurar alguma coisa, abriu sua mochila e começou a vasculhar lá dentro, como se buscasse por um milagre em meio ao pequeno caos daquele micro espaço.
Para sua sorte, o universo lhe mostrou os dentes.
Foi mexendo por entre as coisas que encontrou fotocópias amassadas no fundo dela. Quando abriu, notou que eram do caderno de Amanda (visto o número de corações rabiscados na parte superior da folha). Muito antes das férias, havia pedido o caderno da garota para copiar, mas não o fez, limitando-se a tirar as cópias mesmo e deixar para quando tivesse tempo. Agradeceu a menina de tantas formas quanto seu cérebro foi capaz de inventar.
— O que é isso? — Elis perguntou, intrigada.
— Xerox. Já ouviu falar ou ainda usa mimeógrafo? — Al ironizou, quase arrancando risos de Dan.
— Me referia ao conteúdo desses papéis, senhor Alisson — a mulher cruzou os braços e o fitou.
— É só a parte do conteúdo que não copiei ainda — deu de ombros — Algum problema?
— E ainda teve a petulância de falar sobre seus estudos em casa — riu, debochada — Estou vendo. Realmente, eles foram bem proveitosos...
— A senhora pode fazer silêncio? Muito barulho me desconcentra — Dan se intrometeu. Mesmo querendo alfinetá-la, era uma constatação real.
Elis murchou na hora devido à irritação. Já Al se divertia com suas caras e bocas. Foi por pouco, mas saiu vencedor.
Cerca de dez minutos depois, Daniel concluiu o exercício, para o espanto do colega e da professora. Visto sua aparência confiante e séria, a princípio, deveria ter feito todas as questões e acertado. Enquanto fazia, Alisson observava a reação de Elis corrigindo o exercício, e, tal como antes, tornou a rir de sua faceta espantada.
Dan acertou todas as questões.
Aquilo chocou até mesmo ao próprio, afinal fez unicamente tendo suas anotações como base, não foi nenhum talento com números. Só seguiu as fórmulas e explicações registradas em seu caderno, nada mais. Parecia surreal, a seu ver, mas, de fato, havia acontecido. A professora, tão surpresa quanto ele, o liberou para ir tomar água, ir ao banheiro ou fazer qualquer coisa até que Alisson terminasse também. O garoto deu de ombros e saiu da sala, sem dar maiores explicações de para onde iria.
Passado os problemas de matemática, voltou a focar nos de sua vida. Queria entender quais os motivos que o levaram a seguir ignorando Al, sendo que havia conversado minutos antes com o primo sobre sua frustração em não tê-lo por perto. Aquele misto de contradições, a falta de referências de como proceder diante de tantos acontecimentos… tudo, absolutamente tudo lhe afetava e o deixava ainda mais perturbado. A resposta parecia tão perto de si a ponto de pensar que, se esticasse a mão, conseguiria tocá-la. Então, por que não o fazia? Que medo era aquele, possante e resistente, a ponto de lhe imobilizar por completo? Era medo da verdade? Pavor de encontrar sua verdadeira face, sem máscaras ou maquiagens?
Andava pelos corredores da Presidente Lincoln a observar os pingos caindo em velocidade incrível por causa do temporal. Via em cada partícula daquela seu próprio eu: conflitouso, revolto, possuído de uma ira incontrolável, cuja maior ironia, era estar sempre em busca de paz de espírito. Até mesmo seu coração foi capaz de ouvir; cada batida, falha… Como se, por um instante, tivesse entrado para dentro de si; uma verdadeira viagem introspectiva para muito além de onde os médicos conseguiriam examinar.
Viu, nessa perspectiva, um breu, tão estável e sem reação, enquanto caminhava e ouvia seu coração pulsando em ritmo normal. A caminhada não tinha destino certo, sequer uma direção ou coisas do gênero. Olhava para todos os lados em busca de alguma coisa que o trouxesse de volta para sua resposta, mas nada. Só depois de algum tempo —não sabia quanto— conseguiu ver uma fagulha de luz branca. Era pequena, quase um pontinho minúsculo, em meio à imensidão escura a sua volta. Foi seguindo até ela, deixando a calma de lado e correndo desesperadamente. Corria tanto que sua respiração chegava a ofegar, ainda sim o pontinho custava a aumentar. Suas pernas foram ficando cansadas de tanto esforço e acabou caindo de vez, ao mesmo tempo em que a luz se apagou.
Voltou a realidade rápido, vendo estar a um palmo da porta da biblioteca. Para sua surpresa, estava entreaberta, apenas com um leve feixe de luz sendo emanado para dentro. Quase abriu com “brutalidade”, mas, ao ver a cena ocorrendo lá dentro, deu dois passos para trás. Dois rapazes, não reconhecia, se agarrando com verocidade em cima de uma das mesas do lugar. Apenas beijos, não atos mais profundos. Ainda sim, a forma com a qual passavam suas mãos e se esfregavam um no outro era tão ou mais intensa. Um deles estava sentado à mesa, com as pernas abertas, agarrando outro que estava entre elas, de pé, com as mãos por entre as vestes do tórax de seu parceiro, deixando-as, inclusive, expostas à visão de Dan. Demorou a encontrar o foco para observar com propriedade o acontecido, porém, quando o fez, seu corpo reagiu na hora, ficando completamente assustado.
Pensou em fugir, gritar, até mesmo invadir e soltar todos os cachorros em cima deles, porém, que argumentos teria? Sua moral estava abaixo de qualquer expectativa, então seria perda de tempo. Para ajudar, seus olhos ficaram estáticos olhando os meninos enfiando, mais tarde, suas mãos dentro das calças e masturbando-se ferozmente sem qualquer temor. Soou frio, mais ainda quando pôde sentir seu pênis sendo sufocado pela calça jeans que vestia. Começou realmente a ficar apavorado.
Só realmente se preocupou quando ouviu um dos garotos pedir para retornarem a sala antes da professora suspeitar, então se enfiou no primeiro buraco onde conseguiu se esconder para não ser flagrado. Esperou uns três minutos e saiu de dentro da sala onde havia entrado (esta, por sorte, vazia e destrancada).
Entrou na biblioteca com temor, pensando ter sido apenas uma desculpa dos rapazes para colocá-lo contra parede. Deu graças ao perceber ser apenas coisa da sua cabeça — estava sozinho. Caminhou devagar até a mesa onde os garotos se agarravam com vontade. Deslizou sua mão sobre ela, notando estar quente ainda. Sua mente fervia com milhões de pensamentos somados à estranha sensação de querer repetir aquilo.
Sem pensar muito, encaixou seu corpo exatamente na mesma posição que o rapaz sentado fizera. Suas mãos, úmidas devido ao nervosismo, passaram por cima de sua calça, bem onde seu pênis lutava pela liberdade. Brincou com ela por algum tempo; faltou a coragem de pôr pra fora e satisfazer logo sua vontade. Os motivos eram claros: estava assustado com o tesão súbito que lhe atingiu; e tinha medo de um flagra pior do que o que fez com o “casal”. Se ele tinha pego alguém fazendo coisas obscenas, podiam muito bem o descobrir também. Limitou-se apenas a ficar passando a mão por cima da calça enquanto pensava no calor momentâneo de ambos, se amando e desejando imensamente um ao outro como bichos em meio à selva. A mente trabalhava com mil e uma fantasias, pensando nas mais variadas formas de terem prazer naquele lugar tão errado, inadequado, mas tão excitante devido ao perigo.
Só parou quando ouviu o ranger da porta abrindo de novo. Quase deu um berro, mas tapou a boca antes. Não sabia se agradecia ou espreguejava a figura que lhe apareceu segundos depois: Alisson estava com a cara mais deslavada do mundo, apenas estranhando a face assustada do outro.
— Que tu tá fazendo aqui? — perguntou Al, curioso — De luz apagada ainda?
— O que te importa? — tentou se recompor, descendo da mesa — Tô de bobeira um pouco. Só isso.
— Sei... — ficou longe de estar satisfeito com aquela resposta.
— Eu é quem devia te perguntar isso. Tu não tava fazendo aquele c*r*lho de trabalho?
— Terminei. Aí o limão azedo mando te procurar e chamar pra sala de volta.
— Mas a recém cheguei! Ela que vá se f*der!
— Só tô cumprindo ordens. Sei de nada — dei de ombros.
Ambos ficaram em silêncio. Dan tentava se manter normal diante de tanta coisa ocorrida em meros minutos, enquanto Al buscava uma maneira de se redimir pelas atitudes e confusões tão arrebetadoras para a amizade deles. Ficaram de costas um pro outro, como se com vergonha de encararem seus rostos e, quem sabem, serem sinceros.
— Acertei todos também… — Alisson puxou assunto.
— Parabéns, mano — Dan tentava se manter indiferente.
Novo momento de mudez. Porém, o mais velho precisava falar, colocar todos os pontos em pauta e concluí-los de uma vez por todas. Só assim seu coração iria sossegar, ou, pelo menos, assim desejava.
— Dan… — chamou.
— Fala — o outro respondeu, com voz rouca.
Alisson virou de frente para Daniel, mesmo este seguindo de costas para si.
— Queria te pedir desculpa… Pela história do beijo lá.
— Aquele que tu fez de propósito?
— Eu não fiz — começou se alterando, mas depois suavizou. Não queria discutir, e sim, resolver um problema —... de propósito. Estávamos bêbados. Acontece.
— Qual desculpa tu tem pra ter beijado a Vanessa então? Bebeu no trabalho?
Com muita calma, Al colocou sua mão esquerda no ombro do mesmo lado de Dan, fazendo-o tremer de susto e surpresa.
— Jamais pegaria a mina de um amigo comum — começou — Quem dirá de um especial…
Só então o menor se virou e encarou no fundo do olho o mais velho. Via nele a sinceridade mais pura e simples, algo jamais visto por si em dezessete anos de existência. O arrependimento lhe estava estampado no rosto, somado ao pesar em suas palavras.
— Mas… eu vi — tentava argumentar, já mais calmo, quando foi interrompido.
— Foi ela quem me beijou. Tava carente, desamparada. Não foi a primeira e nem será a última pessoa com quem fico nessas condições.
Baixou a cabeça, entristecido.
— Doeu muito ver aquilo.... — confessou, ainda cabisbaixo.
— Foi mal mesmo. Sei que tu ama muito ela e—
— Não foi só por causa dela — ficou vermelho como um pimentão.
Foi a vez de Al ficar um tanto quanto surpreso com aquela confissão. Pôde sentir seu coração falhando a pulsação por um instante ao ouvir aquilo. Esperava de tudo, até uma troca de socos, jamais algo tão… estranhamente peculiar.
— Como assim? — falou, com as palavras saindo trêmulas de sua garganta.
Dan passou a mão pela nuca, começou a andar um pouco para tentar organizar as palavras na mente para não soar ainda mais esquisito.
— Eu sempre tive vários amigos. Me queixar disso seria idiotice. Sempre tinha alguém pra ir dar um rolê comigo, jogar videogame, comprar tênis… Companhia nunca foi problema. Mas… — engoliu seco — melhor amigo? Não fazia ideia de como era ter um até algum tempo atrás.
— Tu tá dizendo que — foi interrompido.
— Por alguma razão, a vida meio que te impôs dentro da minha. Do nada, tu sabia um monte de coisas a meu respeito, conhecia as mesmas pessoas que eu, me acompanhou quando briguei com o Ian na casa do ex dele, descobriu sobre a transsexualidade da Vanessa e aceitou manter em segredo, curtimos juntos… tudo isso, e tantas outras coisas, foram muito bacanas, sabe? Eu mal te conhecia e já podia contar contigo — Al se sentia a pessoa mais feliz do mundo ouvindo aquelas palavras — Te ver com a Van ali não foi tão puxado por causa dela. Tipo… Não só por ela. É que já estávamos tão escorregadios um com o outro… mas… ver a tua amizade escapando pelos dedos foi barra…
O coração de ambos pareciam estar aquecidos diante daquelas confissões. Indescritível, para Dan, a sensação de um peso sendo aliviado de suas costas tendo a coragem de falar aquilo assim, tranquilo, sem a cegueira da revolta momentânea. Já Al, pela primeira vez, gozava da sensação de ser querido por alguém. Tentava se convencer disso, mesmo com esse mesmo coração insistindo em algo muito mais profundo.
— Nós dois temos nossa cota de erros um com o outro — dizia — Ou, por um acaso, tu acha que foi fácil engolir aquilo tudo da última vez? Foi uma m*rda aquilo. Acabou com a minha noite…
— Eu… peguei pesado — coçou a nuca — Eu tava nervoso, c*r*lho. Era muita coisa pra administrar e processar em tão pouco tempo. O beijo, tu dizendo que curte guris… Foi demais pra mim.
— Não foi o melhor momento pra contar, mas foi o que me ocorreu — justificou — Queria que tivesse sido com mais calma, serenidade, pra tu entender bem.
— Então me conta — pediu, para o espanto de Al — Eu quero e preciso saber como isso começou. Por favor…
Tentando ser breve e, ao mesmo tempo, falando com todos os detalhes como todo o processo de aceitação de sua sexualidade ocorreu era tarefa complicada. Fez o possível e o impossível para deixar o menor a par de toda a situação. Contou do primeiro beijo com Gil (arrancando algumas risadas devido a história do vômito), das experiências sucessoras, de gestos e coisas feitas as quais nem se dava conta até, de fato, aceitar como válida e coerente o fato de ser bissexual. Lembrou dos momentos de confusão, conflitos internos ocorrendo até mesmo naquele momento… A história ficou completa.
Foi importante para Daniel ouví-la, ainda que, no fim das contas, tivesse mais medo dela do que qualquer outra coisa. Sabia o quão próxima sua vida estava de cada um dos passos citados pelo mais velho. Tinha tremeliques só de pensar, controlando-se para não deixá-los tão à vista. Até por isso pouco fez pergunta — quanto menos abrisse a boca, melhor.
Aproveitando o clima de confidências, Alisson aproveitou para esclarecer a história no beijo em um desconhecido — fato este vivido por Dan. Foi totalmente inesperado por ele, mas falou sobre. Poucas opções eram viáveis aquela altura dos acontecimentos. Não tinha nada a perder. Al ouviu com atenção e guardou cada palavra sobre a experiência de Dan, só para tentar confirmar as hipóteses correndo em sua mente a mil por hora.
Ao fim dos relatos, suspiraram. Tantas coisas mal explicadas pareciam ter ganho um sentido enfim. Por mais sem resolução que fossem, já se encontravam melhor depois de terem alguém com quem compartilhar. Talvez fosse esse o remédio tão almejado durante tanto tempo por eles — desabafar. Daniel mal sentia sua cabeça lhe perturbar e a mesma coisa acontecia com Alisson. Pareciam livres de suas pragas, ainda que a guerra demorasse um pouco mais para terminar.
A pergunta que teimou em ficar na mente de Dan pelo menos foi: Como mudaram tanto?
Culminaram suas confidências com um aperto de mão. Constrangido, por ambas as partes, mas verdadeiro. Pouco compreendiam do quão importante fora aquele momento tão íntimo e recheado de sentimentos e situações jamais vividas em dias comuns. Precisavam daquela conversa e estavam cada minuto mais cientes disso.
Quando saíram da biblioteca, Al alegou vontade de ir ao banheiro. O amigo sugeriu irem no mais próximo das salas de aula, a fim de não irritar ainda mais a megera que os aguardava, porém o mais velho insistiu para ir no próximo da sala fechada mesmo — era mais perto e não daria tanto problema. A contra gosto, Dan o acompanhou, ficando na porta aguardando.
De repente, começou a ouvir gemidos sendo omitidos pelo banheiro oposto (o feminino), que ficava bem a frente do masculino. Não pôde identificar no primeiro momento, mas teve a impressão de serem gemidos de garotos. Ao notar Al se aproximando, fez sinal com a boca para ficar em silêncio e chamou para averiguar. A princípio, não entendeu nada, só depois, quando também ouviu os barulhos é que seu raciocínio compreendeu onde o menor queria chegar.
Andavam a passo de formiga, com a máxima calma possível. Qualquer barulho seria fatal. Entraram no banheiro feminino sem dar um único “piu” sequer, entrando nos banheiros dos lados onde ficava a cabine dos pegadores. Com muito cuidado, Al ficou ajoelhado em cima da tampa da privada e, por sorte, as divisas não era muito bem coladas na parede, ficando uma fissura para poder enxergar.
Qual não foi a sua surpresa ao ver o garoto que deu em cima de si enquanto aguardava para falar com Rebecca e outro rapaz aleatório numa cena digna de filme pornô. O galanteador tinha as calças abaixadas até os joelhos, enquanto apenas roçava seu pênis (de espessura larga e comprimento médio) rígido no orifício anal descoberto do parceiro. Mantinha os olhos fechados, para benção de Al, assim era mais certo de não ser visto.
Mandou mensagem para Daniel avisando sobre a coincidência(tinha conseguido os celulares de volta ao fim da atividade de Elis). Foi mais chocante quando o garoto respondeu confirmando ter os visto pouco antes de entrar na biblioteca.
Começaram a comentar sobre cada detalhes que viam. Os gemidos, roçadas, toques e até alguns tapas! Valia tudo. Sem nem se darem conta, acabaram por ficar excitados também, ficando nervosos com tal. Para não se meterem no assunto (e acalmarem seus nervos) resolveram apenas ir embora e deixá-los em paz. A curiosidade havia sido saciada.
Alisson conseguiu sair sem maiores problemas e ficou aguardando Daniel, virado de costas para a porta, a fim de evitar um clima desagradável e constrangedor por sua excitação. No entanto, o mesmo não pôde ser dito dele: Acabou por pisar em um rato e o pobre bichinho deu um grito escandaloso que o fez falar “xiu”. Foi o suficiente para os pegadores se apavorarem com a presença de alguém e partirem para o ataque.
Ao ver a confusão se formando, Al acabou por se esconder no banheiro masculino e ficar quieto — seria inútil tentar ajudar e ser pego também, como deduziu que aconteceria com o amigo. E estava certo.
Mesmo com Dan tendo começado a correr, o galanteador conseguiu reerguer suas calças rápido e sair do banheiro com a agilidade de um coiote. Conseguiu reprendê-lo no meio do caminho, puxando-o de volta para dentro do banheiro e o pressionando contra a pia. Seus olhos estavam tomados por uma fúria horrenda, todavia, Daniel se recusou a baixar a bola para ambos.
— P*rra, ainda bem que não era um morto — o parceiro do galanteador agradecia.
— Cala boca e me ajuda com esse otário fofoqueiro aqui — ordenou.
— O que a gente faz com ele?
O menino encarou então uma das privadas, sorriu e lançou a ideia.
— Que tal tu fazer largar um barro ali e o nosso amiguinho ter a cara enfiada nele? Hein?
— Vai ser a última coisa que vai fazer na tua vida. Pode ter certeza — Dan enfrentou, levando uma torção no braço ainda mais dolorida.
— Eu te trouxe aqui facinho. Enfiar tua cara na b*sta vai ser como entupir uma pia.
— E dizer pra todo mundo a p*taria de vocês dois na biblioteca e nos banheiros vai ser como espalhar gripe suína — levou mais um puxão no braço, recusando-se a gemer de dor.
— Eu te falei pra gente não fazer isso aqui, cara! Te disse que tinham visto a gente lá e tu falou que era paranóia! — o parceiro do galanteador reclamou.
— Já mandei tu calar a boca e me ajudar aqui! — ordenou mais uma vez — Ele não vai fazer nada se dermos uma lição nele.
Os pegadores então seguraram os braços de Daniel enquanto o rapaz se debatia mais do que ave indo para o abate. Não iriam fazer as necessidades ali como a ideia original pedia, mas puxariam a descarga nele sim, como forma de punição. Pararam bem a frente da privada, agacharam Dan enquanto o galanteador disse, sarcástico.
— Vai ter uma experiência de filme americano, língua comprida.
Foi o tempo de terminar a fala para Alisson o puxar pela gola de seu casaco e o jogar com tudo no chão, fazendo a mesma coisa com o parceiro. Este ainda tentou revidar, indo para cima, mas Al chutou sua coxa com toda sua força, jogando-o em cima de seu peguete.
O galanteador pareceu surpreso de vê-lo ali, encarando-o estático. Al aproveitou o “choque” para ajudar o amigo a se levantar. Dan queria socá-los violentamente, mas o impediu, dizendo que já tinham aprendido a lição. Antes de sair, só deixou no ar uma coisa quanto ao menor.
— Se eu te pegar atrás dele de novo, aliás, qualquer um dos dois… Podem ter certeza: Andar vai ser uma mera lembrança pra vocês.
Saíram com ar de vitoriosos vendo os rapazes desavergonhados morrendo de dor no chão. Dan revivia os momentos com euforia, tal qual uma criança contando sobre suas grandes aventuras pelos mundos mágicos. Alisson só ria da situação, observando a criancice sem tamanho do amigo. Pararam apenas para tomar água e se acalmar depois do momento de tensão.
Como era de se esperar, o menor se sentiu na obrigação de agradecer pela ajuda.
— Valeu — sorriu — Não queria ter que tomar banho enquanto tiro xixi de mim.
— De nada, pateta — o outro retribui.
Sem querer, Dan acabou por notar algo completamente desnecessário: a ereção na calça de Al permanecia firme e forte. Roxo de vergonha, virou e começou a andar a passos largos para a sala de aula, sem pensar em olhar para trás. Já Alisson, mais desinibido, aproveitava a visão. No fim das contas, ganhara esse bônus: Dan tinha uma bunda e tanto…
CONTINUA
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