ÁSPERO

(Protagonista: Ágata)

Quando acordamos de manhã e encaramos o céu acima de nós através da janela, podemos perceber exatamente se devemos ou não sair da cama. Vez ou outra, o universo nos manda mensagens, recados, como se ordenasse que evitemos certas situações, embates desnecessários. A grande chave aqui é a interpretação dos sinais, das miudezas responsáveis por compor cada peça do nosso dia e criar assim a dedução lógica perfeita. Mas e quando isso não acontece?

Se alguém conseguia responder bem isso certamente era Ágata. Não propriamente por aquele não ser seu dia, mas sim por estar presente em uma cena a qual teve a certeza que poderia ter sido evitada. Enquanto estava sentada na mesa aguardando Vanessa retornar da conversa, seus ouvidos foram aguçados ao notarem uma sinfonia de vozes bem conhecidas ecoarem da recepção do ‘Wunder Bar”. Quando Van surgiu ao lado de Alisson de dentro de uma salinha e parou estagnada feito um poste e com cara de gato escaldado não teve dúvidas — só podia ser Daniel e, consequentemente, Ian.

O estômago chegou a gelar. Não por si, pois estava com sua consciência mais do que tranquila quanto a Ian e o término deles, porém, para a amiga loira o processo se construía aos pouquinhos, com dias de luta e de glória, sem necessariamente se alternarem. Ver o ex ali podia ser péssimo. Num ato rápido, pegou sua bolsa e a dela e foi levantando, a fim de se mandar dali. Porém, a voz de Isabel chamando pela a ex nora, animadíssima com o feito, melou seus planos. A coisa seria pior do que sua mente foi capaz de imaginar.

Não tardou o restante da família de Daniel surgiu no salão principal. Todos sendo bastante educados e simpáticos — exceto, como previsível, o próprio, com sua cara de burro amarrado — Notou a amiga forçando uma simpatia, mas qualquer um com um pouco mais de noção saberia que aquilo ali estava mais falso do que nota de três. Ian, apesar de saber de tudo, encarou bem o teatro. O garoto parecia mais preocupado com sua bomba relógio de estimação do que qualquer outra coisa. Tinha razão para isso e ignorar seria burrice.

Com o plano de fuga melado, o jeito foi partir para a missão improvisada, mais conhecida como plano B. Levantou igual, desta vez para pegar a loira pelo braço e trazê-la de volta para a mesa delas. Para infelicidade geral da nação, outra intromissão. Isabel se negou a deixar sua, em sua mente, nora e a namorada do sobrinho em outro canto, afinal todos ali eram parte da família. Ian bem que tentou intervir, alertando o fato das meninas terem vindo provavelmente para uma saída de amigas e quererem privacidade. A tia insistiu, dizendo não ter problema algum, pois podem conversar, mas não afastadas como se fossem excluídas. Sem alternativas, elas acabaram por aceitar.

A ordem na mesa pouco colaborou: Isabel a frente de Bruno na ponta esquerda; Ian e Ágata frente a frente ao lado do casal, Ronaldo e Marcella, culminando em Dan e Van na ponta direita nas mesmas condições que os demais. Ágata notava as cabeças baixas do primo de seu ex ficante e sua melhor amiga. Conhecido por seus rompantes e devaneios, torcia somente para o garoto se controlar, pedindo a Ian, com o olhar, que cuidasse disso. Óbvio, sabia que seria difícil, mas tentar ainda parecia uma opção válida.

A morena viu Alisson, até então quieto, ir trocar uma ideia com o ex de Ian. Suspeitou, afinal de contas ele havia ficado responsável de sua mesa. Notou também quando ambos chamaram um terceiro garoto e apontaram com a cabeça para a mesa onde estava. Tão logo o rapaz pegou as coisas de Vanessa e Ágata e passou para ali, no entanto, no meio dessa troca, acabou por derramar um pouco de suco de laranja justamente no colo do temperamental ex namorado da amiga.

Como já era de se imaginar, Daniel começou a dar um piti digno de madame em novela das nove. Gritou dizendo ser irresponsabilidade por parte do atendente cometer tamanho ato amador, e mais, que não tinha virado recipiente a ponto de depositar líquidos. O pobre garoto que atendia virou um tomate, pedindo mil e uma desculpas. Isabel até tentou dar uma chamada de atenção no filho, recebendo a réplica de estar certo e ponto.

Al apareceu segundos depois, desejando boa noite a todos e que, se possível, gostaria de falar com o rapaz. Dan negou, dizendo não precisar de conversa e sim de uma blusa. Ligeiramente estressado, o mais velho deu um leve tapa no pescoço dele, que reclamou do gesto. Tornou a insistir em conversarem naquele minuto, sobrando poucas opções de atitude para Dan se não acabar acatando mesmo.

O gesto deixou a mesa toda desconfortável. Cada um olhava seu celular para não precisar aceitar os olhares risonhos dos demais presentes ali. Ágata, esperta, mandou mensagem para Ian, perguntando se tinha mesmo o sangue do outro correndo em suas veias ou se era adotado. O garoto de olhos claros riu, tendo de concordar que o vexame foi desnecessário, mas que ele não estava assim quando chegou.

A colocação a deixou pensativa. Analisava todo o contexto da coisa e então notou o óbvio: Vanessa tinha se encontrado com Alisson segundos antes. Disso, surgiam duas possibilidades: ou o primo de Ian tinha entrado em curto circuito por conta da loira ou do rapaz. Considerando as probabilidades de ser a amiga, as quais eram até relativamente grandes, precisava ter a confirmação.

Mentiu avisando ir ao toalete quando, na verdade, foi direto na direção de Gil. Este terminava de atender uma das mesas ocupadas. Sua cara foi no chão ao ver a “amante” de seu eterno flerte parada ali como se fosse um poste. Questionada sobre o que queria, Ágata suplicou para ele dar uma brecha para ir ao encontro de Al e Dan. Gil, com seu jeito debochado, lamentou não poder ajudar, pois ambos estavam conversando no acesso restrito a funcionários.

— Só tô te pedindo pra me ajudar uma vez. Só hoje — a morena suplicou — É importante. Nem é por mim, é pela minha amiga.

— A loira ex do burro chucro? Sei… — o menino levou alguns meros segundos pensando — Tá. Tudo bem. Só entra devagar porque eles podem estar bem na entrada. Se te verem, te devoram viva.

— Se eu não soubesse, até te dava um beijinho de agradecimento — zoou a garota, arrancando um olhar de cão apavorado do moreno, o que a fez rir — Valeu.

Quando ela entrou, uma série de questionamentos começaram a aparecer em sua mente. Porque deu um dedo de prosa a ela se corroia por ela ser ficante de Ian e, mais do que isso, por qual razão havia permitido a entrada dela lá. De certa forma, sabia a resposta. Queria mais era o circo pegando fogo, com essas verdades todas expostas de uma vez e o fim da infinita — e chata — novela mexicana da vida daquelas duas mulas. Acabou por se perdoar, voltando ao trabalho como se tudo estivesse na mais perfeita paz.

Enquanto isso, Ágata agradecia aos céus por os garotos estarem na segunda fileira de armários, dando chance a ela de se esconder numa fresta mais ao canto direito entre o armário e a parede, evitando assim o possível flagra dos meninos. Agradeceu por haver uma, afinal, mesmo com o banco, seria difícil não vê-la esparramada embaixo dele e esperar uma resposta idiota qualquer. Assim poderia ouvir com tranquilidade, ainda que o estivesse por vr fosse mexer com os brios de muita gente.

Daniel até tentava parecer mais durão, falar grosso, agir como o grande rei da coisa toda. Contudo, Alisson nem se dava o trabalho de mandá-lo baixar a bola duas vezes para o menino voltar a sanidade. A garota não pôde deixar de ficar boquiaberta, afinal de contas o rapaz de pele bronzeada não era exatamente conhecido por ser domesticado. Pelo visto, apenas não havia encontrado oponente a altura.

Seguiu escutando quando Al questionou qual o motivo daquela birra de criança do jardim de infância. Dan, revoltado, revidou perguntando se aquilo era sério e se não tinha noção mais da realidade. Teve de ouvir que, se alguém tinha o dom de entrar na casinha na mesma velocidade que saía, era ele próprio; diante disso, deveria olhar mais para suas próprias atitudes antes de julgar o alheio.

— Por um acaso tu tava aqui quando ela chegou? Não né? Então deu de chilique por hoje! — ordenou o mais velho.

— Ela queria o que contigo? Posso saber? — pressionou, em nada afetando o outro.

— Olha, se tu quer saber se a gente ficou, transou, deu uns amasso, pergunta na lata! Não fica aí comendo pelas beiradas achando que a queimadura vai doer menos. Cresce, Daniel! Assume o que quer!

Ficou sem fala diante daquilo, acabando por sentar no banco ali disposto. Estava exausto, cansado de carregar tantos fardos. Por que era tão difícil perceber isso antes de apenas dizer que dava chiliques? Sua cabeça fazia semanas que não dava um descanso depois de tantos ocorrido inimagináveis até então.

O grande problema era conseguir transpor isso sem parecer o óbvio, talvez como forma de evitar o que julgava ser o ápice de sua loucura. De fato, estava certo. Amar consegue unir as mais mistas sensações em um mesmo momento: ira, alegria, raiva, medo… tudo depende de como lidamos com sua chegada, por vezes, tão impensável.

Encarou o amigo bem fundo em seus olhos antes de tomar coragem para perguntar. Ainda que fosse duro, estranho, se bastava já tinha um passo de vantagem no controle da ação.

— Só queria saber se… vocês tiveram alguma coisa…

— Olha só! Ele sabe ser educado! — tinha um tom sarcástico na voz — Tá mais do que na cara a resposta: um ‘não’ bem explícito na nossa testa!

— Fala isso como se eu tivesse obrigação de saber o que tu pensa — revidou.

Mesmo arriscando estar completamente errado, ou até mesmo a ir às vias de fato com ele, se perdesse a oportunidade de ao menos lhe colocar no seu lugar por dois minutos que fosse, consideraria uma vitória. Foi sua vez de revidar os olhares prufundos do rapaz e proferir as palavras jamais pensadas em saírem de sua boca…

— Se tu não sabe até agora, é porque não quis saber… Só lamento… — deu de ombros.

Os olhos de Dan por pouco não saíram do rosto, tamanho susto da frase. Mal conseguia acreditar algo daquela magnitude ter sido dito assim, do nada. Ouviu cada uma das batidas de seu coração, cada vez mais rápidas, enquanto suas mãos pareciam estar na água corrente da pia. Como lidar com isso agora? Teria de agir, pensar em algo ao menos razoável.

Infelizmente foi sem sucesso. Sua cabeça ficou atordoada como a de alguém alcoolizado para resolver coisas assim. A solução mais prática que encontrou foi dar as costas e voltar para sua mesa, deixando o mais velho ali, suspirando fundo na dúvida do que viria a seguir depois disso. Nunca foi capaz de imaginar que a resposta viria tão depressa.

Sentiu até a pressão cair quando Ágata surgiu a sua frente após a saída de Dan. A morena lhe encarava como se tivesse sido testemunha de seu crime, tendo-o agora sob sua custódia. Ao menos, assim se sentia. Sequer conseguiu dirigir uma palavra a ela num primeiro momento, deixando a cargo dela começar a explicação. Falou sobre como havia entrado ali e se escondido, podendo ouvir a conversa sem que ambos percebessem.

Indignado com a invasão dela na intimidade alheia, botou-a contra a parede a respeito de seus ganhos ouvindo aquilo ali. Com calma e paciência, a menina cruzou os braços e tão logo deu sua justificativa.

— Olha, na boa, não vim aqui na intenção de dar flagrante ou julgar ninguém. Afinal, quem sou eu pra isso, né? O caso é que Van é minha melhor amiga. Eu a vi passar pelas piores coisas que um ser humano pode sentir só por querer ser quem é. E, bem ou mal, ela tem vínculo com o Daniel ainda, mesmo depois do término…

— E isso justifica tudo?! — replicou — Não me interessa os vínculos dela com ele. Aliás, essa história aí não me interessa. Fui eu quem terminou com alguém? Eu que namorava? Então! Não me sinto obrigado a dar satisfação!

— Quer dizer que tu vai desmentir a frase polêmica que tu disse? “Se não sabe até agora é porque não quer saber”? — o contra argumento fez o coração do rapaz falhar uma batida — Eu acredito que tu não tenha mesmo forçado a barra com ele ou ela, juro pra ti. Quero só que tu entenda que vocês não estão sozinhos no carrinho da montanha russa. Outras pessoas estão também e podem saírem tão machucadas quanto em caso de dar ruim…

As palavras soaram como uma pedra sendo colocada sobre seus pensamentos. Até então não havia lhe passado pela cabeça que sua vida e suas decisões acabariam por criar uma enorme teia de aranha, cujos efeitos Ágata acabara de falar. Ficou ainda pior, sentindo como se tivesse que definir se matar alguém rápido ou devagar.

Sem condições de argumentar ou tentar achar um norte, apenas ordenou a ela que saísse dali pois era ambiente para funcionários e seu Antero poderia dar-lhe uma advertência grave se a visse ali. O ato não serviu muito, afinal tudo ficou transparente. Se havia alguém capaz de ter pego o coração de Daniel, era Alisson.

Voltou para a mesa como se nada tivesse acontecido. O pessoal estava se fartando com as delícias já dispostas à mesa. Quase todos, ao menos — Van tentava comer um dos salgadinhos fritos enquanto Dan mal erguia os olhos sob a mesa para avaliar. Isso afetava Ian, lógico, sempre de olho vivo nas atitudes do primo. Um grande efeito dominó.

Não demorou muito para ela mandar mensagem à loira. Num primeiro momento até pensou em recuar, inventar um assunto aleatório visto nas redes sociais, mas para que fugir mais? Vanessa merecia e precisava saber da verdade, ainda que ela fosse desconfortável. Sempre pensara assim e mudar aquela altura era tolice. Digitou então o fato do atendente do “Wunder Bar” estar notoriamente se apaixonando pelo rebelde coração do ex namorado dela. Escreveu e reescreveu mil vezes, a fim de deixar a falar menos impactante… sem sucesso. A verdade nua e crua venceu pelo cansaço.

Vanessa ficou branca como a neve ao ler a mensagem. Claro que a desconfiança já rondava seus pensamentos fazia algum tempo. Inclusive, lembrava-se de, no dia do término, ter sido esse um dos motivos pelos quais decidiu que Dan não a faria mais feliz. Ainda sim, era mais fácil acreditar ser uma suposição a um fato consolidado. Levantou-se da mesa, dizendo por alto que precisava tomar um ar e já indo em direção à saída do lugar.

Daniel, o qual nem desconfiou de Ágata ou mesmo sua presença no vestiário, achou esquisita aquela atitude. Conhecia bem a ex namorada, sabendo quando dizia uma mentira descarada. O jeito foi ir atrás dela, até porque os olhares de Ágata sugerindo ficaram evidentes mais do que o constrangimento do fiasco dele minutos antes.

Isabel, estranhando aquela confusão toda, chegou a questionar a morena se havia algo errado e a menina limitou-se a indagar que apenas tiveram uma pequena discussão. A mulher desconfiou, afinal essa história de briga havia chegado a seus ouvidos através do próprio filho, julgando então não ser tão simples quanto a amiga de sua nora queria passar. Ficou quieta, esperando o que viria daquela conversa.

Enquanto isso, a morena tentava organizar um pouco os atos recém acontecidos. Informação demais para sua cabeç, aliás, sobre assuntos os quais não tinha sequer envolvimento direto. Fazia tudo por Vanessa, em consideração aos anos de amizade e apoio incondicional que tinham uma pela outra. A única coisa que gostaria muito de fazer por ela era lhe dar as respostas para seguir em frente. Doía seu coração vê-la desbaratinada, sem saber o próximo passo. Agora, ao menos, tinha um norte, ainda que ia fosse dolorida.

De repente, Ian questionou se ela não queria ir buscar um pedaço de torta com ele no estande das mesmas, onde havia uma diversidade de sabores para agradar a todos os gostos. Claro, ficou nítido como o dia, seu desejo de falar consigo. Levantou com um pratinho e foi atrás para não criar desconfiança, podendo assim descobrir as intenções do menino de olhos azuis.

Ele foi direto, comentando sobre seu envolvimento óbvio no cenário esquisito formado há pouco. Motivos para isso tinha, aos montes, só precisava saber do mais especial — aquele cuja realização assombrava até sua mente, outrora tão calma e tranquila. Ágata, sempre atenta a tudo, acabou deixando escapar o quão diferente estava. O comportamento dele lembrava o de um ator, representando um personagem até o fim. Estranhou, claro. Ian tentou disfarçar, dizendo ser apenas mera impressão, no entanto, ela insistiu.

— Te conheço, tigrão. Posso até não te conhecer há mil anos, mas sei quando tu tá sendo verdadeiro e quando não — apontou — Por isso tu me chamou.

O maior suspirou. Inútil seria lutar contra a obviedade de uma situação daquelas. A pior parte, talvez para a menina, já havia há muito sido digerida — desde o aniversário de Micael! Tratar daquilo, depois de tanta água ter corrido debaixo da ponte, era inútil.

— Como ter paz vendo o caos se formando, né? — sorriu, de canto, ainda que nele brotasse a infelicidade.

— Caos não sei dizer, agora uma avalanche de novidades com certeza — indagou — Te ver assim é uma delas.

— Pra mim também… — confessou — O término com o Gil foi barra, punk. Agora nunca chegou perto dessa bola que se formou no meu estômago sabe? Parece que a cada dia que passa, e tudo ficando ganhando evidência, fosse me sufocando. F*da isso…

— A gente nunca tá pronto pra ver quem amamos viver uma vida nova. Só que, mesmo assim, precisamos ser fortes, justos, e deixar a vida tomar seu curso.

— Então… Tu também sabe que… O Dan tá diferente…

— Óbvio, né tigrão?! — exclamou — E, se fosse tu, me preparava mais, porque foi só o começo…

As palavras foram ecoando por seu subconsciente, como um aviso ao dilúvio prestes a acontecer. De repente, uma sensação esquisita brotou dentro do seu peito, semelhante a um desespero, mas com menor intensidade. Como uma premonição dada justamente por aquela fala tão significativa e verdadeira. Sabia que precisaria de um ombro amigo; conhecia-se bem demais para admitir quando encararia algo de boa e quando alguém para lhe afanar os cabelos faria bem. Era feliz, ao menos, por uma coisa: ter com quem contar.

Desde quando fora a festa com Daniel e acabou esbarrando em Ágata, viu nela algo novo, uma intuição de que se dariam bem. No momento, nada aconteceu, pois ela estava agarrada a um outro menino lá que, nunca lembraria, era Diógenes. Meia hora depois a vida lhes uniu de novo, agora livres para se divertirem. E aproveitaram cada segundo como se fossem os últimos. O tempo passou, veio a sensação de ter encontrado sua parceira ideal, só que a cachoeira trouxa à tona a verdade que ele quis omitir de si mesmo a vida inteira: Seu primo era seu amor!

Era estranho ver alguém tão livre negando isso sem nem saber justificar a razão! Estava longe de ser um menino retrógrado, incapaz de jogar fora as amarras sociais apenas para viver de bem consigo mesmo, então aquilo era uma tortura. Tanto para si, quanto os demais a sua volta — até mesmo a Dan. Teve sorte da menina, com seu bom coração e generosidade, lhe acalentou, tranquilizou seu espírito e permitiu que fosse atrás de seus sonhos. Infelizmente, não tinha sido suficiente. E Ian sabia que tinha jogado fora a oportunidade de ser feliz.

— Que bizarro — riu, fraco — Alguns meses atrás não me veria nessa situação. E cá estou…

— A vida nos surpreende a cada dia — complementou — De certa forma isso é bom.

— É, mas seria melhor ter deixado a surpresa de lado e ficado com quem eu tinha — encarou bem ela, ao fundo dos olhos, entregando seu sorriso mais sincero e lindo de ver — Seria um cara de sorte hoje.

— Eu também seria uma guria de sorte — retribuiu — Mas eu tô aqui. Sempre. Podemos não estar mais ficando, só que agora tu já fez morada aqui dentro. Só vai embora se quiser.

— Não quero. Tenha certeza!

Ambos então sorriram, provando que o amor era algo com muito mais vertentes do que se imaginava. Quando um sentimento tão forte e poderoso entra dentro da gente, vai se desenvolvendo e criando sua própria face à medida em que tudo vai acontecendo e o tempo vai mostrando quais caminhos seguir. No caso deles, começou como uma fogueira acesa, mantida com intensidade por um bom tempo. Agora, essa mesma fogueira continuava viva, agora com um fogo mais brando, contido, mas capaz de aquecer. E isso era o que importava.

Estavam retornando a mesa ao avistarem Daniel e Vanessa juntos. Suas expressões nem de longe pareciam das mais agradáveis ou confortáveis, só que, com este cenário novo surgindo no oriente, para que omitir e causar mais momentos infelizes como aquele por eles vividos? Soava impróprio, nocivo a seus jovens corações. Queriam, de algum modo, o bem um do outro, mas precisavam desse tempo para reavaliar quem era e como seguiriam. Diante disso, Dan parou a ponta da mesa e anunciou para seus pais e tios ouvirem, sem maiores rodeios.

— Eu e a Vanessa não estamos mais juntos, a quem interessar.

Dito isso, ambos se sentaram na mesa como estava antes, mas sem trocar maiores olhares devido ao constrangimento. Isabel, claro, ficou horrorizada, exigindo uma explicação do filho enquanto o marido suplicava para ela ficar quieta e resolver aquilo em casa. Ficaram assim um bom tempo, nesse bate volta sem lugar algum a se chegar. Ágata via o semblante da amiga, pedindo urgente por socorro. Seria horrível obrigá-la a aguentar aquilo mais um tempo.

Nem se deu o trabalho de comer o pedaço de torta de Nutella(até porque não o queria mesmo). Despediu-se do pessoal todo, agradeceu pela noite e arrastou a amiga para fora dali o mais depressa que conseguiu. Pagas as comandas, foram embora sem nem olhar para trás.

— Nunca mais vamos vir no Wunder Bar num sábado. Pelo amor de Deus! — exclamou a menina, em tom de deboche, arrancando risos da amiga.

— Só tu mesmo, né, pra me ajudar? Valeu — a loira agradeceu.

— Que isso! Te conheço tempo demais pra te torturar daquele jeito. Aliás, achei que devíamos ter ido embora quando a mulinha surgiu no salão, se quer saber.

— Sabe que eu discordo? Foi bom ele ter ido ali na rua — esclarecia — Conversamos, trocamos meia dúzia de palavras engasgadas e… foi isso.

— Contou a ele do Alisson?

— Se tivesse, com certeza ele teria implodido. Achei melhor a vida tratar de juntar eles de uma vez e acabar com esse sofrimento logo…

Empática, Ágata segurou sua mão de leve, prometendo ficar ali para o que viesse a frente, fosse a batalha que fosse, para lhe trazer de volta um sorriso no rosto. Van agradeceu, dizendo não saber quem seria se não tivesse sua mão sempre estendida.

Enquanto estavam andando juntas, o celular da menina vibrou: havia recebido um email. Ágata questionou se era o tal fotógrafo outra vez, recebendo a confirmação em seguida. A outra explicou sobre um banner de um evento de mostra de fotos que haverá e do convite recebido dele para ir assistir.

A chuva de incentivos foi praticamente acontecida no mesmo momento, afinal de contas, sempre disse a ela seu potencial de modelo e seu belo charme para estampar campanhas publicitárias. Van lembrou de que será psicóloga e que, diante disso, precisa de uma imagem minimamente respeitosa. Foi só a deixa para A morenta lembrar que Geisy Arruda ficou famosa por um vestido rosa e notar onde ela está agora para arrancar gargalhadas histéricas da menina.

Por isso eram amigas: sabiam fazer bem uma a outra, independente do tempo ruim!

CONTINUA