CONFUSÃO

A vida é um vendaval misterioso, de interesses próprios e aparições repentinas. Por vezes, é sublime, quase não se nota suas ações minuciosas. Em outras, vem com tanta energia e força de vontade que nos carrega junto quando vai embora, levando um certo tempo até que saibamos o caminho de volta. Quando Vanessa terminou com Dan, a estrutura inteira que ainda lhe restava era o percurso de vida construído até então. O amor e as dificuldades todas pareciam ter ficado por debaixo dos escombros, sendo resgatadas pouco a pouco, conforme a necessidade.

A loira acordou naquele domingo com os pensamentos longe. Lembrava-se da conversa com o ex na sexta à noite e o jeito no qual parecia perdido. Não sabia mais qual rumo tomar, uma vez que não estava nem consigo tampouco com quem seu coração estava latente a querer. Pensava em todos os momentos vividos juntos e se nem mesmo o resultado do empenho deles o fazia refletir um pouco e tomar uma decisão. Preocupava-se por querê-lo bem. Preocupava-se por conhecê-lo bem. Preocupava-se por querer vê-lo bem.

Daniel nunca fora o símbolo da estabilidade nem quando viviam seus melhores dias. Desculpas, problemas, discussões… o terreno no qual haviam feito morada outrora era seco e custava a dar frutos. Com muito trabalho e empenho tiveram, por exemplo, sua primeira transa. O inusitado é ter ocorrido anos depois de estabelecerem a união. Ora, se aquilo tudo não tivesse ao menos feito de Dan alguém mais aberto, então nada valia a pena. O namoro deles não seria em vão apenas pelas poucas memórias. E só. Nada mais a declarar.

Olhou algumas vezes ao celular na ânsia de querer mandar alguma mensagem perguntando. Estava ligeiramente mudado, sabia disso, mas nunca nada era tão calmo quanto parecia. Principalmente no que tangia ao filho de Isabel. Escreveu a mensagem em sua conversa tantas vezes que até o corretor do celular já decorara a ordem das palavras, sem tirar nem pôr. Apagava sempre, temendo tocar de novo em uma ferida que, até onde tinha conhecimento, custava a cicatrizar.

Só pôs fim ao ciclo vicioso quando, cerca de cinquenta minutos de tentativas frustradas, viu uma mensagem chegar. Não era o ex, e sim Mia. Tratou de ver logo, uma vez que, com o combinado de ambas, pensou que poderia se tratar da surpresa para Ana. Enganou-se, todavia era um convite um tanto quanto inesperado: O casal lhe convidava para tomarem café fora, sem ser no ‘Wunder Bar’ por já estarem saturados da velha rotina. Concordou na hora, sugerindo irem a outro café colonial, sugerindo o recém aberto e com boas recomendações. Negaram-se por se tratar da mesma coisa em um ambiente diferente. Falaram em tomar café em alguma padaria ou algo do gênero, ideia a qual concordou. Quando o casal foi em busca de algum lugar e voltou com um link, quase desfaleceu: entre tantas opções, a ‘Padaria dos Anjos’, pertencente à família de Daniel.

Não era nenhuma boba a ponto de querer evitar apenas por uma questão tão ridícula quanto aquela. O problema era de que maneira ele encararia isso. Já tinha ido ao aniversário do amigo dele sem ser, de fato, sequer conhecida dele. Aparecer em seu local de trabalho poderia soar um disparate. A fim de ganhar tempo, respondeu ser uma boa alternativa, mas que havia se recordado de um compromisso, levantando a possibilidade de, quem sabe, irem à tarde. Por sorte, apesar de terem pensado no café da manhã, aceitaram se assim ficava melhor. Na realidade, não melhorava, apenas adiava um pouco qualquer problema possível.

Acabou passando o dia pensando no tal encontro. Não parava de procurar soluções rápidas, treinar frases como se estivesse fazendo testes para algum papel, formulando e reformulando diálogos. Para piorar, Ágata estava envolvida com o primo de Ian, o que a fazia ficar ainda mais ansiosa por não ter alguém que lhe puxasse para a terra. Era uma psicóloga, afinal, sabia que atitudes assim passavam longe de ser o mais racional. Entretanto, antes dos estudos da mente humana, era humana, tanto quanto qualquer futuro paciente. Sofria, chorava, se abalava, tinha angústias. Perdoava-se por isso.

Quando chegou a hora, vestiu sua calça legging preta, botas de cano curto, uma blusa rosa chiclete e foi ao encontro do casal com o coração na mão. Não sabia bem o que esperar, nem se Dan iria acabar se escondendo apenas para não vê-la. Caótico, assim definia seu estado naquele momento. Caminhou pelas ruas de Nova Petrópolis debaixo de chuva, torcendo para que o tempo ficasse feio apenas na rua.

Encontrou Mia e Ana quase chegando junto com si ao local marcado. Cumprimentaram-se com cordialidade e entraram enquanto a moça mexia no cabelo loiro. Mia desconfiou, claro, mas nada disse até pôr os olhos no rapaz do caixa e se dar conta de quem se tratava. Não conhecia-o pessoalmente, mas por foto, descobrindo a razão do desatino da moça e sua “resistência” em aparecer. Trataram de arranjar uma mesa rápido, acomodando-se e aguardando serem atendidos. Um tanto desligado, Ana não se deu conta até que Dan aparecesse em sua mesa. Parecia tranquilo, contudo, um ar de quem havia dormido mal o “assombrava”.

Foi instantâneo o pedido de desculpas do rapaz pelo constrangimento de fazer Vanessa encarar o filho de Isabel, mas claro que foi relevado. Aproveitou para esclarecer que soube na hora em que lhe mandou o link quem trabalhava ali, além de ser sobrinho do dono. Mia apenas riu, alegando que não deveria haver nada demais, uma vez que ninguém ali estava cometendo nenhum crime, só um pecado: gula. Diante disso, os demais não conseguiram manter a pose.

Minutos depois, o menino retornou com os pedidos, desejando bom apetite a todos e retornando para trás do balcão. A conversa do trio chegou a prosseguir, contando alguns causos e expectativas para o torneio do grupo de dança, mas ambos notavam as encaradas vez ou outra da loira ao ex namorado. Em determinado momento, quando Van ficou totalmente aérea ao assunto, Mia aproveitou a deixa para incentivá-la a ir atrás, caso fosse seu desejo. Lógico que a outra foi pega de surpresa.

— Mas não quero voltar com ele — esclareceu — São só… preocupações mesmo. Só isso.

— E já que tá aqui, por que não resolvê-las? — a outra insistiu — Van, tu não vai ofender ninguém querendo o bem estar dele. É só uma ou outra pergunta! Se ele se negar a responder, tudo bem, é um direito dele, mas acaba nisso. Pronto. Já livra teu coração desse peso!

— Ai, gente… Será?!

— Concordo com minha gata. Não dá pra ficar nessa aflição que não anda nem desanda. Vai lá! — o rapaz concordou, encorajando-a.

Mesmo um pouco receosa e sem saber direito quais palavras usar, a moça levantou e foi em direção ao caixa se perguntando desde quando havia tanto medo residente em seu coração. Enfrentou o mundo anos antes ao decidir mudar de gênero. Não conseguir enfrentar um ex um tanto temperamental, julgava, não devia ser seu pior momento. Tentou respirar fundo e erguer a cabeça, ainda que só quisesse voltar à mesa e fingir ter sido apenas um desatino.

Para piorar a situação, Marcella apareceu ao enxergá-la, chamando ainda Isabel, Bruno e Ronaldo para cumprimentarem. Mesmo a um passo de cavar um buraco na terra e se alojar dentro, fez questão de ser simpática com todos. Convidada a se juntar, negou, afirmando só ter se aproximado mesmo por precisar conversar com Dan. De prontidão, Marcella ordenou que o sobrinho assim o fizesse, pois aquele horário o movimento era tranquilo e conseguiria dar conta caso eles demorassem a conversar. O menino sequer contestou, sabendo que teria o mesmo efeito que tomar placebo.

Caminharam poucos metros afastado do lugar para ter a tal conversa, iniciada, para sua total surpresa, por Daniel.

— Legal te ver aqui — sorriu — Ana e a namorada estão bem?

— Estão sim. Eles me convidaram pra vir de manhã, mas… — dedilhou um pouco antes de falar — Bem, não sabia se era conveniente ou não. Já tínhamos nos visto na festa, então não tinha necessidade de outro encontro.

— Falando nisso, fiquei preocupado quando saiu sem dar notícia. Qualquer coisa… sei lá, chamava alguém por aplicativo e íamos juntos.

— Pra tu ver a coincidência. Só não fiz isso por ter encontrado eles naquela noite!

Dan ficou com cara de quem ouviu uma frase em uma língua a qual não dominava. Conhecia a tal história do lanche tarde da noite, até brincou com Al a respeito, mas não recordava daquela parte. Aliás, sequer havia menção de um encontro entre eles.

— Naquela noite? Tem certeza? — questionou.

— Sim — foi a vez da moça ficar a ver navios — Por quê?

— Nada não — coçou a nuca, mudando de assunto — Queria falar alguma coisa comigo? Tu parecia tão inquieta quando chegou.

— Na real, só estava um pouco aflita pela tua aflição — confessou — Aquele dia tu parecia não ter progredido muito em relação às conversas que tivemos…

— Vai gostar de saber então que progredi três anos em dois dias — coçou a nuca, rindo fraco — Tô melhorando. Dentro do possível, claro, mas já me sinto melhor.

— Que ótimo! Fico bem mais tranquila mesmo! — suspirou, aliviada.

Era bom saber que alguns passos foram dados, o que significava que algo acontecera e estava um tanto curiosa para saber maiores detalhes. Entretanto, esse sim sabia que seria um campo minado. Como Dan não fez maiores menções em comentar o que de tão especial ocorreu, engoliu a curiosidade e ficaria no aguardo dele tomar iniciativa para contar.

— E tu? Mal conversamos sobre as tuas novidades! Como anda a vida pós término da faculdade? — o rapaz puxou assunto.

— Até que tranquilas. Mentiria se dissesse que tá sendo tão caótica quanto os últimos meses — riu — Acho que vai rolar um bico como modelo por aí, nada certo, mas é uma graninha que entra, né?

— Com certeza! — tentou parecer animado, mas a curiosidade falou mais alto — Mas é modelo tipo… de roupa normal ou calcinha, sutiã, essas coisas?

Van não aguentou o riso.

— Não sei ainda. Acho que modelo normal, tipo pra campanha de alguma coisa. Quem sabe até aquelas capas de caderno, sabe?

— Ah bom. Entendi — coçou a nuca.

Por alguns minutos seus olhares se cruzaram e se reconectaram com quem, um dia, foram. Toda a encrenca do último ano pareceu se apagar num passe de mágica, restando apenas os momentos de ternura e afeto trocados ao longo de tanto tempo juntos. Lembranças que o tempo guardava no melhor álbum que tinha, e usando em ocasiões como aquela para lembrar de que, apesar de muita água passar por debaixo da ponte da vida, cada litro que passa carrega consigo um pouco de onde passou, seja o ardor por conhecer aquelas terras, ou o arrependimento de ter cruzado a linha. Se por vezes tinham se arrependido, agora gozavam do direito de mergulhar fundo na nostalgia.

— É estranho te olhar assim, de longe… Não só no físico, como no emocional mesmo.

— Real. Me sinto assim também — confessou — Que bom que conseguimos fazer isso, né? Tantos terminam e não conseguem se olhar na cara depois…

— Confesso que sempre achei que, se um dia terminássemos, seria assim como tu diz. Mas agora, vendo tudo que aconteceu, consigo ver que foi um mal necessário. Uma coisa que precisava acabar para outra nascer e desabrochar como uma flor na primavera.

Não pôde tirar da loira sua razão. Ainda que o ocorrido tenha sido uma punhalada cruel do destino, os conseguintes, à medida em que foram acontecendo, deram sentido ao caos, promovendo uma mudança além do esperado, capaz de transformar confusão e certeza, tortura em prazer, ódio em amor. Um mix de reações que tornavam tudo mais colorido, dando a vida justamente o que ela mais gosta: reinvenção.

Despediram-se por hora e retornaram a seus postos depois de um abraço aconchegante, daqueles que recuperam nosso fôlego. O coração de ambos estava limpo das impurezas de ações mal resolvidas e discutidas, mesmo com a omissão de Ana quanto ao encontro com Vanessa. O céu de seus horizontes, pela primeira vez em muito tempo, estava limpo e pronto para ser preenchido com belos arco íris.

***

Voltar para Nova Petrópolis depois de ter finalmente dado às caras frente a seu passado foi, no mínimo, renovador. Todas as angústias possíveis e imagináveis quanto a construção de um vínculo familiar com aqueles que jamais conhecera começavam a sumir, levadas pela força do vento imperceptível do tempo. Não lhe restavam dúvidas: ali nascia um novo Alisson, ciente de suas escolhas, com maior riqueza em seu passado e pensando sempre no futuro. Sentia que poderia vencer a fúria da mantícora mais poderosa, derrotando-a apenas com seu pensamento.

Pensava muito nas palavras do avô e no desejo de perdão de Marisa. Não era de seu conhecimento até onde ela sabia do interesse do namorado em que ela retomasse as relações com a própria família, então se perguntava se a reação dela seria tão tranquila quanto a sua. Na realidade, sabia que não tinha o direito de exigir coisa alguma, afinal a dor de ambos era uma cicatriz que até meia hora antes estava aberta e fechando aos solavancos. Se Natanael queria poder dormir com a consciência tranquila e colocando esta decisão nas mãos de sua mãe, tinha lá seus motivos para ficar com o pé atrás.

Chegaram em casa ainda debaixo de chuva, mas com uma paz interior que destoava dos ideais de São Pedro. Edu respirou fundo assim que girou a chave do carro, desligando-o. Virou-se para encarar o enteado.

— E então? Feliz? — questionou.

— Por essa eu não esperava — confessou o menor — Com a rejeição da minha mãe em tocar no assunto da família, acabei me convencendo de que era o melhor a se fazer.

— Isso é questão de ponto de vista. Quando a família mantém relações por conveniência, aí sim. Mas o caso ali foi outro. Mágoas criadas por pura ignorância. Acho que todos aprenderam a lição.

— Tu acha que minha mãe vai mesmo aceitar ir lá depois de tanto tempo?

— Marisa tem um coração de ouro. Vai sim — foi otimista, enquanto sorria — Obrigado pela oportunidade.

— Eu que te agradeço. De verdade — foi sincero — Só… vamos seguir o nosso acordo. Tranquilo pra ti?

— Como o oceano pacífico — Al não se aguentou e caiu na risada.

Assim que entraram em casa, foi difícil inventar alguma desculpa capaz de justificar a paz entre eles. Marisa pressionava-os para ter absoluta certeza de que não houve nada demais, que o filho soube se comportar, coisas do gênero. Sem saber o que dizer, deixou a cargo de Edu explicar sobre a tal surpresa e o que ela envolvia, mentindo sobre, como era de se esperar. A mãe não ficou muito convencida, mas diante de voltarem sem arranhões e olho roxo, obrigou-se a engolir aquele sapo até descobrir a verdade.

Uma hora e meia depois de ter retornado, Alisson ia em direção ao ‘Wunder Bar’ pensando na explicação que daria por ter sumido no dia anterior. Conseguia ouvir desde sua casa os xingos de Gina e a vontade de pegá-lo pelo pescoço por ter deixado o pessoal na mão. Para piorar, nem o direito de contestar tinha. Com Gil em Pelotas orientando o pessoal da nova filial, havia só duas pessoas para dar conta de tudo, sendo uma delas ele próprio. Sabia do risco de movimento grande do fim de semana, então a tentativa de homicídio por parte da recepcionista e assistente de gerente era uma possibilidade tentadora.

Não contava, porém, que outra armadilha com possível culminância em desgraça também estivesse sendo armado, só que por outra pessoa. Depois de dar explicações bem qualquer coisa e retomar suas funções, quase uma hora depois Ian adentra ao ambiente, cumprimentando Gina e conversando com a moça que não decifrar. Tinha em mãos um envelope amarelo. Pensou em como o colega de trabalho ficaria saltitante caso estivesse ali, rindo com o pensamento.

A graça só se esvaiu quando a recepcionista veio lhe chamar dizendo que o primo de seu ficante estava a aguardar sua presença, sem revelar o motivo. Estranhou, afinal de contas sequer tinha pendências com o dito cujo, mas foi atender para ver se algo tinha acontecido a Daniel. Julgou ser a única razão para aparecer ali. Foi a seu encontro tão logo concluiu o atendimento em uma das poucas mesas ocupadas naquele horário. Convidou-o para irem até o vestiário para terem mais privacidade.

— Desculpa. Sei que é teu horário de serviço. Não vou tomar muito teu tempo — começou o mais velho, coçando a nuca.

— Rolou alguma coisa grave? — perguntou.

— Acho que tu deve saber melhor que eu o que rolou — esticou a mão direita, na qual tinha o envelope — Teus amigos me entregaram isso pedindo pra entregar pro Dan, mas acho que tanto faz pra ti ou pra ele.

Não compreendeu de início o que poderiam ter Sabine, Jeff, Adrian ou Amanda que precisasse ser entregue a ele ou a Dan. Quando abriu e viu uma porção de fotos, sequer precisou olhar para entender do que se tratava. Engoliu seco, não sabia como reagir. Seu olhar começou a fugir do dele, numa tentativa desesperada de não precisar encarar aquilo como real. Entretanto, tinha plena consciência de que fugir de nada adiantaria. Precisava ser forte e enfrentar, nem que fosse puro fingimento.

— Eu… nem sei o que te falar. Foi mal — foi honesto.

— Tranquilo — sorriu, de canto de boca — Afinal, era meio óbvio que cedo ou tarde isso aconteceria.

— É…Só não dentro de uma cabine de fotos pra registrar várias e várias vezes — tentou levar na esportiva, ainda que os olhos de Ian indicassem a luz interna tentando tomar fôlego para sobreviver — Loucura dele, mas enfim…

— Sabe quando tu vê uma tempestade se armando, corre pra fechar as janelas, se enfia embaixo do cobertor na convicção que tá preparado, mas quando ela chega tu vê que não? — exemplificou o mais velho — Acho que é um dos malefícios de se deixar levar pelo coração. O mesmo coração que ama, é capaz também de iludir, ainda que lutemos contra o tempo todo.

— Imagino que tudo isso deva ter te deixado bem… aflito, pra dizer o mínimo.

— Na real, fico feliz por ver o Dan saindo desse casulo minúsculo no qual sempre viveu. Só… Acho que esperei que fosse diferente. Só isso.

Al não era ingênuo. Qualquer palavra que disse não iria tirar o mais velho da tristeza por ver o garoto que ama amar outro. Respeitava seus sentimentos, como também a postura tão protetora a qual sempre teve com o, agora, seu ficante. Conseguia se ver nele de certa forma, e entender por quais razões Gil foi (e ainda era) tão apegado nele. Sua aura angelical perpassava os limites da fantasia e ia de encontro com a realidade. Por esta razão, era tão estranho vê-lo sem forças perante o desafio que os unia.

Ergueu então sua cabeça, sorriu o melhor que conseguiu, e lhe assegurou:

— A promessa que fiz ainda tá valendo. Vou cuidar dele sempre que me for possível. Fica tranquilo.

— Vou tentar — buscou sorrir também, ao mesmo tempo em que uma lágrima escorria de seu delicado rosto — Sei que ele tá em boas mãos. Não são as minhas como pensava que seriam, mas tá seguro. Isso que importa.

Sem querer prolongar muito mais, despediram-se brevemente antes de Ian retornar para a casa, uma vez que deixou Ágata e Micael sem uma explicação decente antes de sair. E se o mais velho tinha explicações a terceiros para dar, Al queria explicações também, mas era do universo. Questionava-se a razão da felicidade nunca ser universal, pois os sorrisos de alguns brotavam sobre as lágrimas de outros.

Qual razão teria o destino para dar um castigo tão severo quanto amar e não ser amado, mesmo a pessoa que ama tendo um coração no qual cabia o mundo? Pergunta difícil, sem resposta pronta nem por parte dele,, nem por ninguém. Julgou que talvez nem o universo fosse feliz com as próprias escolhas, uma vez que sequer conteve um milímetro da chuva daquele dia para esconder, por menor que fosse, a tristeza de tê-las feito.

***

O mês passou rápido e logo dia 15 de setembro havia chegado. Com ele, toda o preparo para a apresentação sobre o trabalho de sexualidade tratado há semanas. De forma combinada, Al e Dan resolveram chegar cedo e ensaiar bem as partes de cada um, intervindo na parte alheia caso tivessem alguma contribuição relevante a fazer. Dan, entretanto, conseguia notar no maior um olhar perdido. Há dias estava assim. Demonstrava seu carinho e afeto, mas ao mesmo tempo parecia um tanto triste fazendo-o. Naquela manhã, não fora diferente. Depois de concluir o ensaio, Alisson foi ao encontro do menor sobre o pretexto de desejar ‘boa sorte’, culminando em um beijo. Este, fraco como café mal passado, o que atiçou ainda mais a curiosidade do menor.

Mais tarde, já em aula, acabaram pedindo à professora para serem os primeiros a apresentarem. Jeff, Sabine e Mandy desejaram a ambos sorte, uma vez que Adrian saiu para tomar um gole d’água. Posicionaram frente a turma, colocaram o pen drive em seu note e começaram a exibir então o material pesquisado e elaborado sobre a sexualidade no século XXI. Al começou a fala levando os colegas a uma provocação: Se, passado tanto tempo desde a criação das primeiras civilizações, ainda poderiam falar de sexualidade com tão pouco tato. Seguiu a discussão comentando sobre as primeiras manifestações dessas discussões nos fóruns de internet, as comunidades nas primeiras redes sociais, até o dia de hoje onde movimentos como Parada Livre ganharam forte adesão por conta da globalização, fazendo as minorias abrirem os olhos da sociedade para seus problemas.

Dan ficou com a outra parte, comentando justamente das conquistas realizadas ao longo do século para agregar aos direitos de quem não tinha voz até então, falando das perseguições e problemas que tomaram força. O trabalho, bem como sua construção, gerou burburinhos, comentários e risadinhas maldosas, as quais a professora se viu na obrigação de intervir praticamente o tempo todo. Quando acabou, silêncio, quebrado apenas por algumas poucas palmas de alguns que não se importavam com a ignorância dos colegas.

A docente agradeceu a participação dos rapazes, pedindo que retornassem a seus respectivos lugares. No trajeto, alguns colegas mais atrevidos se puseram a mandar beijos debochados a ambos, com Al se controlando a todo instante para não voar no pescoço de nenhum. Dan sequer deu bola, já que estava focado em outra coisa para dar atenção a babaquice dos colegas.

— Tá acontecendo alguma coisa? — perguntou o maior.

— Esses f*lhos da p*ta tirando uma. Nada demais — revirou os olhos.

— Não tô falando deles. Tô falando de ti tá meio avoado ultimamente.

— Mas não tá rolando nada. Juro pra ti!

— Bebezão, não me enrola. Eu sei que tem. Me fala.

— Sabe que não sou teu primo, né? Não adianta fazer birra comigo — riu, fraco — Aliás, ele já sabe da gente. Como tá reagindo?

— Tá passando uns dias na casa da Ágata. Pediu pra ter esse tempo pra ele. Eu fui contra, né? Mas enfim… Quem sabe da vida dele é ele.

— Será que ele tá p*to com a gente?

— Acho que ele entende melhor que a gente, isso sim — riu — Posso saber por que esse interesse repentino?

Quase abriu a boca para retrucar falando que ele também deveria estar, já que era seu primo, mas logo viram alguns alunos correndo em direção a quadra e começaram a atentar para a fuzarca. Claro que os burburinhos, já grandes ao longo da apresentação dos meninos, aumentou, tornando a professora a intervir. Para deixar ainda pior, Amanda ficou agitada na cadeira, levantando para pedir à professora que fosse até a quadra, pois Adrian precisava dela. A mulher liberou, questionando como soube disso, ela explicou que um colega da antiga turma pediu que fosse lá por saber que era namorada do jogador. Não deu maiores detalhes, apenas saiu correndo, deixando todos sem entender nada.

Jeff, Sabine, Alisson e Daniel começaram a se entreolhar pensando em que bulhufas alguém tão sereno quanto Adrian poderia ter passado. Concluíram que poderia ser alguma coisa um mal estar, algo do gênero, aguardando novas informações. Minutos depois, Amanda mandou um áudio avisando que Adrian havia se envolvido em uma briga com um rapaz. A informação deixou o grupo incrédulo, fazendo Dan perguntar o que poderiam fazer. Al, de forma rápida, disse que poderiam fazer o óbvio: ir lá ajudar o amigo a surrar quem quer que fosse. Sabine e Jeff quiseram ir juntos, porém Al os impediu, alegando que o que fariam deixariam todos com os nervos atiçados, então pediu que ficassem para não se queimarem.

De repente, ambos levantaram de suas cadeiras e, sem dar explicações, foram saindo porta fora, mesmo com os berros da professora para retornarem. Correram a quadra o mais depressa que suas pernas aguentavam e o fôlego permitia. Já não encontrando ninguém, deduziram que os envolvidos foram conduzidos a direção da escola. Ao chegarem lá, viram os brigões completamente bagunçados e atirados nas cadeiras. Mandy retornava da rua com um copo d’água para o namorado, chamando os rapazes para fora a fim de esclarecer o que houve.

— O Adrian tinha vindo beber água quando ouviu uns guris da nossa antiga turma, Al, debochando perguntando se tu ou o Dan estava usando calcinha na hora de transar. Lógico que o Dri foi defender vocês. E aí…

— Bando de f*lhos da p*ta! — exclamou, irado — Aquele catarro em forma de gente ali foi quem disse isso? Com quem?

— Não sei. Quando cheguei ali a Rebecca já tava com os dois pelo braço carregando pra cá.

Não podiam acreditar que estavam mesmo virando piada interna do colégio. Al começava a sentir seu rosto virando um pimentão, querendo pegar o desaforado pelo pescoço. E assim faria.

— Se eles tão achando que vai ficar assim, tão bem enganados — jurou — Querem a lei de Talião? Pois terão.

— Al, pelo amor de Deus! Violência gera violência! Segura o pagode! — Mandy suplicou.

— Ué, mas quem pediu foram esses dedos no c*, arr*mbados! Eles vão aprender comigo. Anota aí. E vai ser hoje! Se tem algo a dizer, vão dizer na minha cara.

Conhecendo o amigo, ele assim o faria. Fariam os delatores abrirem a boca até arrancar palavra por palavra daquelas disse por eles. Se pudesse defini-lo como alguma força da natureza naquele momento, seria um vulcão em erupção.

CONTINUA