A Teoria das Cores
85 Bege III
FLEXIBILIDADE
O ciclo que rege a nossa vida ganha novas proporções à medida em que desafios surgem diante de nós. Entusiasmada em nos ver crescer, evoluir enquanto enfrentamos suas adversidades, promove uma série de eventos (às vezes de caráter questionável) a fim de espantarmos a comodidade e partir na busca de novos ares. Nem sempre todos queremos. Daniel, ao menos, arrancava os cabelos só de pensar no assunto.
Algo no seu subconsciente sabia das desventuras vindo em sua direção desde o dia na cachoeira com Ian. Um sopro gélido e produzindo um som sinistro ecoou sob seus ouvidos naquela hora. Mesmo descoberta a sexualidade da atual ex namorada, o contato pele a pele pela primeira vez com outro garoto despertou um lado seu com o qual jamais pensou ter o desprazer de conviver. Era inconcebível a curiosidade reprimida dentro de seu peito em querer saber como seria, se poderia ter tesão notando as coxas desnudas do primo ou o tórax de Alisson. Tanta água havia passado por debaixo da ponte, mas o maquinário em sua cabeça continuava travando ao pensar.
As palavras do primo assombraram-lhe a noite inteira, culminando em ouvir os pássaros dando a primeira cantoria daquele domingo. Seguia deitado em sua cama encarando o teto enquanto mil imagens passava por ela como um filme. Tentava encontrar algo capaz de diferenciar as reações tidas com Ian e Alisson, afinal, de tudo, a única coisa certa para si eram como lidava quando sentia os corpos de ambos tão próximos ao seu.
Explicara a Vanessa que o primo tinha o mesmo efeito que estar chapado e em nada exagerou. Ele trazia uma ilusória calmaria, paz interior, ainda que cobrasse uns beijos e amassos em troca, nada importava. Acabando aquilo, o efeito passava e pronto, parecendo uma “negociação justa”. Já com o melhor amigo um incômodo constante na boca do estômago fazia-o tremer cada célula. Os minutos compartilhados com o mais velho arrancavam de seu inconsciente gritos histéricos, perturbando a razão de ser. Definia como um instinto selvagem, chegando a perder os critérios quando pensava em algo a mais.
Ainda que, num primeiro momento, essas coisas sem compromisso de Ian soassem mais interessantes, sabia a importância de não levar isso adiante muito tempo. Fazia o coração dele ser esmagado e ficava evidente quando jogava na cara seu descontrole por Al. Queria-o bem demais, mesmo, por maioria das vezes, tendo sido difícil demonstrar isso de forma eficaz. Seria monstruoso torturá-lo só por medo de não enfrentar as consequências de seus atos. Vinha então a pergunta: deveria tentar com Alisson outra vez e botar um fim naquele sofrimento absurdo? E sendo positiva a resposta, conseguiria sair ileso? Era a única solução que sua mente elaborou, nem de longe a que lhe agradava mais.
Seus pensamentos destoaram ao ouvir as vozes do pai e da mãe ecoando pelo corredor e descendo para tomar café. Acabou por levantar e ir se juntar à eles, afinal de contas teria tempo, poderia refletir com calma a respeito daquela pequena bomba residente em seu colo. Ainda vestindo apenas um short de dormir cinza e uma camiseta preta desbotada, chegou a cozinha quando a mãe mal começara a arrumar o café na cafeteira. A cara amarrada logo entregou que sua peripécia não fora esquecida. Com os olhos mirando o chão, acabou por sentando mais próximo ao pai. Isabel, por sua vez, ajeitou o coque de seu cabelo antes de se juntar aos dois no lado oposto ao deles.
Durante alguns minutos, apenas se ouvia o barulho vindo da rua. Com a batata de Dan virando carvão, a coisa funcionaria como em juízo: tudo dito poderia e seria usado contra si, para piorar, sem a presença de seu advogado de todos os males. Quis muito ter servido o fígado daquele atrevido para aprender a não lhe difamar, no entanto, acabou tendo o seu almoçado e sobrado um pouco para a janta de seus pais.
Os dedos finos de sua mãe dedilhavam em cima da mesa enquanto a máquina do café fazia seu trabalho. Fitava o filho na esperança de arrancar algum fiapo sobre como havia se metido naquela enrascada. Já Bruno, mesmo com sua cabeça fresca, deixou seus olhos e ouvidos bem atentos aos dois. Não queria outro duelo de titãs entre sua esposa e o primogênito, uma vez que fugia das intrigas mais que galinha do abate.
Quando a máquina terminou, Isabel levantou, pegou a jarra e colocou um pouco nas três xícaras distribuídas e sentou de novo. Já que o método “Guerra Fria” falhou, tentaria o método mais direto.
— Quer contar sobre a Vanessa ou vou ter que perguntar a ela o que houve entre vocês?
O estômago de Dan deu uma volta inteira. Trazer um assunto daqueles sem qualquer precedente era insanidade pura em sua opinião.
— Por que a senhora quer falar dela? Não tem o que ser dito — limitou a resmungar num primeiro momento.
— Ah, tem sim. Caso contrário tu não teria aprontado!
— O que uma coisa tem haver com a outra?! — sua cabeça deu um nó.
— Daniel, não faz muitos dias e eu tinha a tua idade. Sei como são os jovens e os homens principalmente…
— Falou o Kid Bengala — mal terminou a frase levou um beliscão no braço — EI! Não se pode mais fazer uma piada?!
— Se ficar metendo o bedelho nós vamos cantar marchinha de carnaval, começando com a da pipa do vovô. Entendeu o recado ou prefere que eu seja mais explícita? — revidou a mulher, recebendo um olhar em chamas de resposta — A gente perde o controle, culpa o mundo pelo acontecido. Acaba acontecendo essas coisas.
O tal nó ganhou mais um apertado. Ainda não compreendia a ligação entre os dois fatos, mas ponderou, já que isso se devia a saber das reais razões. Mesmo sem ter a certeza da palavra de Rebecca quanto ao assunto, acabou por entrar na onda do pensamento equivocado para salvar sua pele. Ao menos, por algumas horas.
— Um guri quis tirar sarro da minha cara por não ter mais namorada. Só isso — a boa e velha tática da verdade mentirosa sempre vinha bem a calhar — Ainda tá tudo muito estranho, mas funcionamos melhor como amigos.
— Jamais vou entender o porquê. Uma guria tão bonita, bem educada. Tudo o que tua cabeça vulcão precisa. Ou eu tô errada? — na mesma hora Dan revirou os olhos.
— Nessa idade é bom não ficar amarrado, campeão. Logo essa tristeza aí passa. É só a gostosinha da sala te mandar um zap que— Bruno entrou de novo na conversa, levando outro beliscão da esposa — Mas que… Virou crime eu abrir a boca dentro de casa pelo visto!
— E fora dela também porque já passo vergonha que chegue com tu sendo colorado! — revidou — Bom, filho, se vocês se acertaram assim. Tudo bem. Só acho triste, mas a vida é de vocês.
No fundo o garoto sentia também. O vazio deixado pela falta da loira em sua vida como primeiro grande amor, aquele cujo corpo conseguiu ceder ao menos uma única vez em prol da felicidade deles, incomodava. Muito pelas circunstâncias atuais, como de rotina, tumultuadas.
Ian juntou-se ao trio minutos mais tarde, sendo apontado pelo tio como exemplo de como curtir a liberdade. Nessas horas Daniel questionava se o pai sabia das proezas e variedades de aproveitamento feitas pelo primo mais velho, e, caso soubesse, qual reação teria sabendo que o único filho ajudou a cometer algumas delas.
Ficaram ali ouvindo os pais trocarem farpas enquanto riam e terminavam o café. Em seguida, lavaram a louça e foram até o quarto do mais novo. Mesmo por vias duvidosas, Ian continuava sendo um grande suporte quando o teto ruía sob sua cabeça, além do que sabia enxergá-lo até do avesso. Seus mistérios não passavam de notícia velha para ele.
Sentaram sob sua cama desarrumada lado a lado, estando o mais velho próximo à porta e Dan atirado enquanto se ajeitava no encosto da cama. Ficou de olho na proximidade das mãos dele e suas pernas pouco cobertas, ainda que, na prática, pouco pudesse fazer se os brios do primo resolvessem tentá-lo. Virou hábito de rotina, quase provocando nele a sensação de acostumar-se com as tiradinhas.
— Pensou no que eu disse? — a voz dele, apesar de encorpada, saia de sua boca de maneira tão leve quanto um violão bem afinado.
— Se eu for perder meu tempo com cada bobagem que tu fala — tentou enrolar — Tõ bem como eu tô. Só preciso arranjar algo pra ocupar a cabeça.
— Se tu tivesse bem, estaria com ele — jogou na cara — Olha, Dan, não me importo no que rola entre a gente. Eu curto demais. Acontece que tu sabe a verdade e ela não me inclui.
Engoliu seco enquanto passou a mão por seu rosto.
— Não sei qual droga eu tô tomando pra te deixar ser tão mão boba comigo. Eu já disse—
— Ah, não! Qual é, Dan?! Vai começar essa novela outra vez?! Já não passamos dessa fase de ‘sou hétero, macho top, blá ,blá, blá’?! — pela primeira vez pôde ver o mais velho realmente ouriçado.
— Tá, desculpa! Força do hábito! — explicou — O que rola entre a gente é… sei lá! Delírio meu, Eu caindo igual um pato na lagoa nessa tua lenga lenga de p*u com p*u também é legal; essas coisas.
Ian nem segurou o riso. Ainda que todas as evidências estivessem postas a mesa, o mais novo procurava um culpado. Qualquer mínima contestação capaz de comprovar ter sido apenas o externo agindo sobre sua imaculada figura era suficiente para fazer os dois passos em direção ao sucesso virarem sete ao fracasso. Soava tão cômico às vezes que ria sem saber se de nervoso ou do absurdo tamanho acabado de ouvir.
— Olha, primo. Quem decide como quer aceitar essa situação é tu. Não posso fazer por ti, até porque, no teu lugar, já tinha aberto o jogo até pros meus velhos.
Daniel sentiu o coração falhar uma batida. Uma hipótese daquelas, nem nos melhores, tampouco piores momentos havia sido cogitada. Chegou a engasgar com a própria saliva, começando a bater rápido no peito para ver se desafogava enquanto levantou, andando de um lado pro outro em passos apertados.
— Tá de brincadeira, né? Foi uma piada?! — seguia incrédulo.
— Ué, eles são teus pais, não juízes. Tu vai se sentir até melhor sendo honesto com eles.
— Tu acha que eles vão soltar foguetes quando descobrirem que o filho deles — sequer conseguiu continuar a frase. Sua garganta pareceu se fechar por completo, impedindo as palavras de serem profetizadas ao vento.
Ian respirou fundo. Via nos olhos deles o velho e conhecido turbilhão se formando e levando tudo com ele. Infelizmente, precisava tocar no assunto, senão se culparia o resto da vida por não ter nem tentado convencê-lo a vencer uma por uma das muralhas avessas a felicidade.
— Existe a opção de não contar, mas pensa bem. Vamos dizer que eu esteja errado e o Alisson e tu seja só coisa de fanfic. Aí só de birra namora uma guria, não dá certo, conhece outro guri e vocês resolvem ficar juntos. Tu consegue viver dentro dessa gaiola o resto da tua vida? Se consegue, meus parabéns, porque eu não dou um passo sabendo que tô acorrentado no meu medo.
— Ok, seu espertinho. Só que, se eu sou… — de novo travou, reformulando a fala — Caso eu goste dos dois, pode dar certo com gurias.
— Claro que pode, mas tu vai ter que ser honesto contigo — levou sua mão bem ao ponto onde começam a ouvir o coração pulsando com ardor — Vai preferir gurias porque gosta ou por comodidade?
A pergunta lhe pegou de surpresa. O primo tinha razão. Fugir dos fatos doía tão ou até mais do que a possibilidade de aceitá-los. Tentar de novo com Alisson fazia cada pêlo seu arrepiar, sim, mas parecia menos incômodo que uma vida cheia de desilusões. Seu emocional era frágil, ainda que em raros momentos se desse conta disso. Admitir igualava-se a aceitar o imutável, e, por conseguinte, seus desejos mais íntimos.
O que pôde fazer naquele momento foi se atirar na cama e agarrar seu travesseiro. Ian, coçando a nuca, levantou-se para retornar aos seus aposentos quando a voz de Dan lhe pediu para ficar. Sorriu, questionando ao menos se poderia buscar seu celular, recebendo a resposta afirmativa. Voltou minutos mais tarde, desta vez fechando a porta com chave a pedido do mais novo, deitando-se bem à seu lado. Começando a se irritar, Dan tomou seu celular e colocou em cima de sua mesa.
— Oi. Tô aqui. Tá me vendo? — questionou, sarcástico.
— Tá carente é? — o primo não deixou por menos.
— Cala boca e me dá um abraço. Mas com a boca bem fechada, entendeu?
Não era nenhum bobo. Sabia que para ceder daquele jeito ele precisava de alguns segundos se sentindo seguro, sem o mundo desabando sob sua cabeça. Diante disso, deu o que sempre esteve disposto a dar a vida inteira. Colocou-o bem próximo a si e começou a afagar seus cabelos bem de leve. Sentia, assim, estar protegendo-o do mundo, ainda que sofresse por não fazer o mesmo contra os demônios dentro dele.
***
Aguentar os dois sem noção e não poder fazer nada foi quase tão ruim quanto perder uma aposta de descer a rua sem roupa — esta talvez até com memórias mais interessantes, capazes de serem recordadas com ardor. Os meninos, apesar de quietos, arrancavam seu fígado com o olhar toda vez que se dava conta de estar sendo observado. Sua sorte foi a chantagem ter dado certo. Apesar da história da foto ser falsa, o risco valeu a pena.
Acordou aquela manhã ouvindo seu celular vibrando. Pensava ser a líder de turma avisando pela enésima vez do trabalho de Literatura e Língua Alemã, preparando mentalmente o áudio mandando-a lavar a calçada de sua casa, quando percebeu ser na verdade de sua rede social. Quase caíu para trás ao notar ser um dos rapazes que atendeu. Resmungou um ‘que lixo’ antes de pôr o celular de volta à mesa.
Numa hipótese mais razoável, aquilo soava absurdo. No dia anterior, desconsiderando até mesmo quando lhes flagrou no banheiro, já queriam distribuir grosserias. O que ganharia lhe adicionando? Estaria dispostos a levantar a sua história com Daniel? Seus punhos chegaram a tremer só de pensar. Não era difícil que a surra dada no garoto metido ter se espalhado junto a suas causas. Ter uma arma dessas na artilharia de frente seria seu maior erro, disso tinha certeza. Caçaria um álbum de fotos íntimas deles se preciso fosse e vazaria sem dó.
Disposto a ver até onde iria, acabou aceitando a solicitação do tal Esdras, seu nome, cujo perfil, por uma lamentável casualidade, tinha nada menos do que doze pessoas em comum. Deu uma olhada pelo feed até, cerca de meia hora depois, um ícone de bate papo surgir na sua tela. O tal sujeito havia lhe chamado. Sua vontade foi de bloquear na hora, mas, por um minuto, a história de manter os amigos perto e os inimigos mais ainda lhe ocorreu. Perguntava-se qual idiotice teria inventado agora para chegar nesse nível.
Estranhou ao ver só um ‘eai’ assim descrito, sem qualquer emoji ou semelhantes. Sequer cogitou responder, entretanto, mais uma mensagem apareceu. Sua mão já começava a coçar. Ninguém merecia ser assombrado daquele jeito em pleno domingo.
‘Tu não vai apagar a foto, né?’
Riu-se. Só então se deu conta da lógica, afinal de contas, na hipotética história, tinha mais controle sobre eles do que o contrário. Precisava ter o controle de suas palavras e sabia bem disso, confirmando e com o adendo de dizer que havia enviado para três pessoas de confiança sua caso porventura ela sumisse de sua vista.
O áudio de súplica entre um choro desesperado, dizendo ter sido apenas uma vez, onde o outro rapaz que ficou com tesão e acabou lhe convencendo a ser seu passivo veio em seguida como um foguete. Quis até ter pena, contudo, que as tem são galinhas. Seu desconfiômetro apontava um certo tom melodramático, a lá Daniel, impedindo-o de acreditar naquela cena digna de Dama das Camélias.
Escreveu apenas um ‘hm’. Qual a finalidade de saber daquilo? Seus problemas já eram bem semelhantes para precisar resolver os alheios, ainda mais tendo a tarefa de ajudar alguém em situação bem mais conflituosa — o primo de Ian. Caiu naquela cena de circo mera curiosidade, tanto de sua parte quando da de Dan. Não fosse o chilique de quererem enfiar a cara deste último na privada, seria como ter assistido a um pornô amador no Twitter.
Esdras não desistiu, mandando uma série de áudios menores suplicando para acreditar e apagar aquilo, que tudo não passou de um mero engano e não tornaria a se repetir. Já sem muito saco para atender a ladainha terceirizada, mandou a real.
‘Amigo, tô nem aí. Se vocês se comem ou pedem para outros comerem vcs, minha mais sincera c*g*neira. Vou ficar com essa foto sim, até vcs aprenderem a não irem torrar meu saco no trabalho. Estamos acertados?’
Colocou o celular em cima da cama, espreguiçou-se e levantou. Antes de descer, molhou seu trevo de quatro folhas e logo depois foi encarar seu segundo desafio do dia. Por vezes se perguntava se não era um sinal do destino ser atleta olímpico dada a quantidade de vezes na qual precisava ter obstáculos a ultrapassar.
Não tinha muita certeza de como agir. Como ter outro homem dentro de casa sempre lhe pareceu algo inimaginável, pisava em solo arenoso, até porque, antes de tudo, priorizava a felicidade de sua mãe. Só por isso havia engolido seu orgulho e vontade de mentir que ela tem doença contagiosa para vê-lo fugir mais rápido que um foguete.
Deu de cara com ambos sentados à mesa comendo pão e tomando café. Chegou a dar um passo para trás, perguntando se havia possibilidade de descer mais tarde. O estômago chegava a tremer, com as mãos acompanhando. Não dava para adiar o inadiável, era sua nova realidade. Estralou os dedos, respirou fundo e foi dando passos nada apressados em direção à cozinha. Notando a presença do filho, Marisa não tardou a exclamar ‘bom dia’, já apontando para seu lugar a mesa.
Mesmo com ela exalando felicidade, o silêncio deu as caras. Alisson chegava a baratinar procurando os talheres e coisas dispostas, além de evitar o encontro de seu olhar no de Edu. Ambos pareciam estar em um cômodo espremidos, encarando até as paredes para disfarçar a constrangedora situação. Se para si já estava sendo uma chateação, deduziu que para o mais velho não deveria estar por menos.
Para sua infelicidade, a geléia de morango estava bem ao lado do namorado de Marisa. Quis pegar o anjo sacana que lhe colocava naquelas enrascadas e dar-lhe umas boas bifas para aprender a ser menos estúpido. Sem opções, acabou obrigado a dirigir-lhe a palavra.
— Pode me passar a chimia? — esticou a mão para que o outro assim fizesse, e faria, não fosse sua mãe ter impedido.
— Como é que dizemos quando precisamos da ajuda de alguém? — questionou, recebendo uma ofegação como resposta — Búfalos respondem assim. Gente fala o que?
— Que isso, querida. Não há necessidade— o homem até quis intervir, porém foi cortado na mesma hora.
— Há necessidade, sim! Ensinei tudo caprichadinho pra essa flor de pessoa aí — ironizou — Como se fala, Alisson?
Respeitava sua mãe. Sem sombra de dúvidas, até quando ela lhe deu um tapa no rosto pela primeira vez na vida ao desafiá-la. A diferença na ocasião foi ter procurado aquilo, ali só queria tomar seu café em paz. Parecia ter prazer em lhe ver transtornado.
— Por favor — enfatizou bem — pode me passar a chimia de morango?
Edu assim fez. Ao terminar, ainda não satisfeita, Marisa insistiu.
— Esqueceu de alguma coisa, filhinho? — dedilhou sobre a mesa.
— O...brigado — quase sobre murmuro respondeu.
— Esse é meu gurizinho bem educado — levou sua mão até uma das bochechas dele, apertando-a.
Pouco conhecia de Edu para ter uma opinião concreta a seu respeito. As poucas vezes nas quais cruzou com sua figura dentro de casa ou não lhe disse nada ou fez pouco de suas tentativas de aproximar-se. O problema se dava ali pela total falta de optar por agir daquela forma. Faria o que lhe desse na telha caso morasse sob seu teto, ditando suas regras e pagando suas contas. Até lá, engoliria o sapo até quando fosse possível.
— Marisa me contou sobre as aulas de dança urbana. Achei interessante. A arte precisa mesmo de bons representantes.
— Contou pra ele quais as cores das minhas cuecas também, mãe? — alfinetou — É bom pra gente não confundir.
— Alisson! — exclamou.
Mais uma vez o barulho dos carros vindo da rua foi sua única companhia. Tentava com todos os esforços resistir aquelas reações impensadas. No entanto, quando Marisa vinha com aquelas fofocadas de vizinhas sobre sua vida era o cúmulo do absurdo. Nesse ponto seu senso de justiça ainda não lhe permitia se cegar: Edu fora uma vítima e nada mais. Até por isso, quatro longos minutos depois, resolveu reverter o quadro criado e fazer uma nova tentativa.
— Eu gosto. É divertido e pratico algum esporte ao mesmo tempo.
Edu sorriu com a resposta.
— Quando tinha a tua idade gostava muito de skate, mas era caro. Andava com os dos meus amigos.
— E hoje tem condição de comprar uma loja de esportes se quiser — suspirou Marisa.
— Não exagera, mãe! — recriminou o filho.
— É… trabalho pra isso, na verdade — coçou a nuca — Não somos nenhuma grande empresa de viagens, o caminho ainda é árduo.
— Boa sorte — foi a única coisa mais positiva que sua mente foi capaz de arquitetar.
No fim, valia ao ver os olhos da mãe ensolarados. Imaginou o tempo bolado por ela para tomar a decisão de deixar um estranho morar com eles, ainda que, com isso, pudesse comprar uma briga feia. O esforço tinha valido a pena e só por isso aguentaria o que precisasse. Por Marisa.
Terminado o café, a louça foi lavada e ele retornou para seu quarto para começar a se organizar. Precisava ir trabalhar e rezar para, ao menos lá, ter alguns minutos de paz. Surpreendeu-se quando notou a tela de seu celular com notificações de mensagens de Esdras. Questionava se ele não se importava de verdade. Enfatizou de novo que não, vendo o digitar aparecer. Estava prestes a mandar um áudio bem feio quando leu a nova mensagem.
‘Então não vai se importar de aparecer aqui em casa hoje. Festinha legal, vai gostar’
Sua cara quase caiu. Além da encheção, seria obrigado a deitar numa cama de gato daquelas? Digitou um ‘não’ recheado de emojis zangados, mandando-o dar o c* e parar de mandar trocentas coisas pois tinha uma rotina muito ocupada. Desligou o telefone em seguida, para não acabar atirando-o pela janela ao invés de socar o malandro sedento por lhe passar a perna. Ficou jogando videogame até chegar o horário do trabalho. Arrumou-se e foi, não sem antes agradecer pelos votos de um bom dia de trabalho dado por sua mãe e o companheiro.
Agradeceu pela movimentação do ‘Wunder Bar’ estar satisfatória, o que lhe garantia mais alguns dias empregado. Claro, esforçava-se o dobro dos últimos dias, mas valia a pena. Notou também o retorno de Gil, supondo que sua enxaqueca deu uma trégua, ato que lhe ajudava muito com a clientela. Trocou de roupa, cumprimentou os colegas e foi ao encontro do mais velho, o qual lhe passou as coordenadas das mesas que estavam sendo servidas.
Baixada um pouco a poeira, escoraram-se perto da porta do vestiário e começaram a bater papo. O ex de Ian explicou sobre a crise terrível tida no dia anterior, a qual lhe impediu até de levantar da cama pois chegava a lhe embrulhar o estômago. Com os remédios, a crise aliviou e tão logo sentiu-se melhor resolveu voltar.
— Aqui é bom para dar uma fugida dos problemas — confessou — A gente passa o dia levando coisas de um lado pro outro e o externo não nos afeta.
— Nem me fala. Tô regando uma plantação deles ao que parece — desabafou — Além de agora o namorado da minha mãe estar lá em casa, recebi mensagem do escrotinho que soquei uns dias atrás.
— O dos três patetas depois da escola?
— Não, esse que me chamou foi antes. E foi dentro da escola — riu — Me convidou pra ir na casa dele, não iria me arrepender. Deve ter ele e mais uns trinta pra distribuir as trakinas. Covarde.
— Ué, mas não é o “Alisson, o novo Golias?” — ironizou, recebendo um dedo do meio de resposta.
— Ele quer se vingar porque vi o amiguinho metendo o salame nele — deu de ombros — Até encaro, mas que seja justo.
Gil ficou encucado com a colocação.
— Ele mandou o endereço?
— Deu, ué. Mora lá onde o vento faz a curva. Óbvio que é cilada.
— Qual o nome dele?
— Esdras. Uma mãe tem nove meses pra pensar e coloca esse nome de bulldog.
Só então ocorreu. O menino então explicou conhecer o tal sujeitinho de algumas festas que foi logo depois do término com Ian. Contava sobre como ele mal respirava, com os olhos esbugalhados de ver tantos como si num mesmo ambiente. Chegaram a trocar algumas palavras, mas beijos nem de longe. Só quando deu de cara com outro mais alto é que relaxou um pouco. Encontrou-os se agarrando horas depois. Al não se surpreendia, a história de ter sido a primeira vez não se sustentava ao ponto de resolverem ter relações sexuais.
— Acha que ele tava me cantando? É isso?
— Se ele não assumiu que gosta, é possível que esteja querendo botas o pingos nos “is’. Acho difícil, com o boato da surra nas três marias correndo solto.
— Tendo mais cães pra ajudar, não tem porque estar com medo.
— É, pode ser. Mas tu acha que ele correria o risco de se encrencar só pra te deixar gemendo no chão? E outra, se eu peguei a onda dele, é muito borrabotas. O guri dele só tem pose, caso contrário tinha te metido uma. Pensa bem.
A famosa pulga atrás da orelha veio lhe mordiscar. Gil podia ter vários defeitos, mas se meter com gente falcatrua passa longe de ser um deles. Tentou-se , ao menos, dar uma passada na frente sem importância. Sendo alguma armadilha, sairia ileso e teria o imenso prazer de vê-los comer o abacate temperado a ódio. Acabou confirmando a presença, sem especificar o horário no qual chegaria. Esdras respondeu animado, falando que iria gostar.
Gil é quem também distribuía sorrisos. Jamais cogitou presenciar algo daquela natureza vindo de Alisson. Mérito seu, mesmo sobre vistas tortas. Contentava-se em ter aberto o mundo para o rapaz, outrora, de pensamentos tão estreitos e acinzentados. Comentou a respeito, recebendo uma revirada de olhos somada a um sorriso.
— Não tem muito o que fazer. É isso. Me resta ir aceitando.
Logo reparou rostos conhecidos adentrando na recepção, sendo encaminhados por Gina a uma das mesas. Adrian, Jeferson, Amanda e Sabine sentaram-se, sinalizando para que Alisson lhes atendesse. Só então o menino lembrou da combinação com Adrian de conversar pela manhã, querendo enfiar-se num buraco. Havia esquecido.
Chegou à mesa deles já desculpando com o ruivo sem inventar nenhuma desculpa. Ponderou, revelando nem ter mandado nada por conta da reunião deles na casa da loira resolvendo como falariam sobre. Al franziu o cenho.
— Tão decidindo qual música de formatura vamos usar? — debochou — Sinto muito, não escolhi ainda.
— Na verdade, Al, a gente quer saber como a música vai tocar de agora em diante — Amanda explicou, atraindo a curiosidade do outro.
— Ué, que papo é esse?
— É bem simples — Sabine se manifestou — Tu quer que Dan seja teu parceiro de valsa ou não?
CONTINUA
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