A Teoria das Cores
86 Rosa VIII
ESTIMULANTE
O grande problema dos segredos é a capacidade de, quando descobertos, caírem na boca de todos em questão de segundos. Nossa vida é exposta ao mundo repentinamente e nos vemos na obrigação de buscar uma reação, alguma desculpa, justificativa ou até mesmo fingir demência. Qualquer uma delas era excelente para Alisson naquele momento.
A pergunta de Sabine saiu como uma flecha, sentindo toda a sua casa de feno, preparada para conduzir as coisas do jeito que dava, desmoronar. Não caía na tentação de acreditar esconder por muito mais tempo, uma vez que, tendo agredido os rapazes para defender Dan, a intensidade de boatos aumentaria. No entanto, queria o Alisson do futuro resolvendo o pepino, não o do presente.
Seus dedos começavam a dedilhar em cima da mesa quando sentiu o toque de Gil em seu ombro pedindo desculpas por interromper, mas precisava da presença do menor. O ex de Ian teve de dar uma leve chacoalhada para o outro voltar a terra e lhe seguir. Foram parar perto da janela americana, pois, por pura ironia, realmente iria entregar as coisas de outra mesa.
Aproveitando o pedido de alguns de torta de morango e nata, Al viu a chance de explicar a Gil e, quem saber, receber uma luz em seus confusos pensamentos. Contou a ele enquanto tiravam a torta e fatiavam os quatro pedaços pedidos. Como imaginava, quase caiu para trás, mas não foi pretexto para abrir mão de sua ironia comunal.
— Eu pagava pra ver tu negar isso na maior cara de pau sabia?
— Se não vai ajudar, cala boca — sussurrou — É sério, não sei o que fazer! Aquela loira espinhosa vai às últimas querendo descobrir a verdade! — referia-se a Sabine.
— Então qual o dilema? Conta e pronto — deu de ombros — Olha, Al, se tu tá mesmo disposto a levar algum tipo de relação mais íntima com a potranca, que mal tem em assumir isso?
— Pros outros?!
— Aprende uma coisa: amigo de verdade é aquele que tá contigo na boa e na ruim. Caso contrário, vai que os outros já foram como diz minha mãe.
O frio na espinha de Alisson não lhe deixava em paz. Gil estava certo, porém, seria a primeira vez na qual confessaria com todas as letras aquilo que seu coração já tinha descoberto, mas que o de Dan, bem sabia, relutava em acreditar. Contara ao próprio Gil sobre a possibilidade de se envolverem, era incontestável, mas nunca falou em… amor.
Pegaram os pratos de torta e levaram aos respectivos clientes antes de retomar o assunto voltando para perto da cozinha. O mais velho escorou-se na parede e fixou seu olhar dentro dos seus aguardando uma decisão. Sentiu-se um coelho perante um tigre feroz e quis se jogar de uma ponte por isso. Tinha ojeriza de ser presa e não predador.
— E se a notícia chegar nele? — questionou, fugindo com os olhos — Com que cara eu vou olhar pra ele depois?
— É bem capaz daquela ameba acéfala fazer os dois neurônios funcionarem uma vez na vida e encarar essa situação — sorriu — Daniel pode ser tudo, menos tapado de já não ter sentido algo diferente quando estão juntos. Tá, ele pode ter um ou dois minutos de chilique, mas, sabe — riu com o pecado nos lábios — existe remédio para crianças muito birrentas como ele. E tu vai saber fazê-lo virar homem.
Al não segurou o riso, com compostura a fim de chamar o mínimo de atenção de seus amigos.
— Safado — foi sua última palavra antes da decisão de ir até a mesa onde o quarteto estava.
Caminhando até lá, lembrou da primeira vez em que se encontraram para decidirem qual seria a procedência de cola com Elis; as primeiras implicâncias; a descoberta chocante de Ian e Gil na sala de estar da casa dele; e, em especial, o beijo, tão descompromissado, cercado mais da pura maldade de ver Dan entrando em curto circuito à encanto de sereia.
Os passos seguintes calejaram seus pés, tocaram em feridas até então indolores, culminando justo naquele momento onde a verdade não mais seria ocultada ou velada pela comodidade de propósitos. Queriam uma resposta e lhes daria, ainda que, com isso, pudesse dar-lhe algumas noites de insônia. Fugir, para seu imenso desgosto, não era uma opção.
Parou de novo frente ao grupo. Este, cessou os cochichos na mesma hora, voltando os olhares a figura do mais velho. Al conseguiu sentir algumas gotas de suor escorrendo por sua testa e suas pernas endurecerem antes mesmo que pudesse sair correndo e não olhar para trás. Por um momento, o mundo pareceu emudecer, afoitos pelas palavras prestes a serem proferidas.
Abriu-se um breu a seu redor, cujo holofote se dava sobre a mesa dos amigos. Sentiu-se um mágico a começar seu espetáculo. Torcia, no entanto, para não se voluntariarem a serrar-lhe ao meio. Tomou fôlego, apertou os olhos por alguns segundos, tornando-os a abrí-los em seguida, dando aos abutres famintos a carniça que escondia.
— Que se f*da. Não vai mudar nada mesmo — começou, na tentativa de se esconder pela pose de parede inabalável — Eu… não quero que ele seja só meu parceiro de dança. Quero que a gente crie juntos uma sonoridade que nos caiba bem, e, quando o mundo virar inteiro de cabeça pra baixo, a gente aumente o volume para espantar os nossos medos. Quero que, quando ele ouvir, se sinta feliz por fazer parte dela e me ajude a criar a coreografia…
Os quatro ficaram da cor da neve. O sangue pareceu ter se esvaído do corpo num piscar de olhos. Por conseguinte, Al começou a sentir seu estômago embrulhando uma segunda vez. Só não lhes chamou atenção por saber que ouvir uma coisa daquelas soava surreal até para ele mesmo, deixando que os pontos se ligassem no tempo necessário.
Enquanto isso, voltou a fazer seu trabalho, ainda que sua mente não o deixasse em paz. Culpa mesmo não sentia, afinal quem havia procurado eram eles. A verdade podia esperar a ser dita, mas a ânsia de tê-la em suas mãos falou mais forte. De repente sentiu até um certo dissabor terem ido até ali, pois, se as suspeitas eram assim tão evidentes podiam concluir sozinhos, sem lhe obrigar a dizer para depois agirem como moscas depois de um jato de inseticida.
Gil dava umas encaradas vez ou outra a fim de descobrir a quantas andava, mas nada teve de concreto. No fundo, seu eu interior deitava de rir. Se soubesse que sua mentirinha de ter tido uma noite com Alisson acabaria naquilo, faria de outro modo, convencendo-o de fato a terem uma tal qual acontecera em sua casa no chuveiro. Não se arriscava muito no jogar verde para pegar héteros, sentindo até preguiça em fazê-lo, mas tinha algo em Al que lhe fez cogitar a tentação. Orgulhava-se de estar certo.
O outro atendeu o máximo de mesas que pôde antes de ir até lá pela terceira e, suplicava, última vez. A vontade de acabar a novela lhe pedia para dar jeito na resposta. Escorou seu braço esquerdo a mesa e encarou um por um dos rostos ali e aguardou quem seria o primeiro a pronunciar algo, ainda que fosse lhe mandando bem longe. Para seu espanto, Amanda foi quem fez o contato.
— Bem, eu acho que nenhum de nós esperava algo tão… poético talvez?
— Ou profundo — Jeferson acrescentou — Não achava que fosse tudo isso. Na real mesmo, sem frescura.
— Não acham que seria bem idiota da minha parte querer bancar o aventureiro de carnaval em pleno Agosto? — ironizou — Se isso tá acontecendo é porque tinha que acontecer. Pronto. Qualquer coisa além disso é paranóia, ouviu vendaval loiro?
A menina em questão ficou da cor de um tomate, ajeitando até uma franja de seu cabelo sempre acompanhado de um chapéu.
— Talvez… tenha acontecido algumas falhas de comunicação — a cadeira por um momento parecia incomodativa — Mas não me culpe por achar estranha a sucessão de fatos que uniu vocês dois.
— Nem por ter um crush mal resolvido no Da— Jeff sequer terminou quando um pescotapa atingiu sua nuca — EI! Se é pra abrir o jogo, vamos abrir, c*r*lho!
— Língua de sapo! — exclamou virando a cara para o ficante.
— Isso explica muita coisa — revirou os olhos — E aí, vão ficar admirando minha beleza a tarde toda ou vão dar uma resposta que preste?
Os quatro então trocaram olhares tumultuados, como se um novelo enosado tivesse caído sob seus colos e não soubessem como proceder ou ao menos começar. Um novo horizonte surgiu sobre suas faces atordoadas ante a revelação. Mesmo os fatos mais óbvios impactam quando se confirmam. Ali não foi diferente.
— Gente. qual é, Dan e Al continuam nossos amigos! — Amanda deixou claro.
— Tá, mas é que — Adrian tentou contestar, mas a namorada o interrompeu.
— Mas nada! Tem nosso apoio — sorriu.
Alisson retribuiu o gesto, muito grato pela atitude positiva da amiga.
— Valeu, Mandy. Só que quero ouvir deles também — pediu — Qual vai ser?
Adrian, Sabine e Jeff encararam-se de novo. Cada olhar suplicava mais por alguma resposta capaz de dar sentido a tudo aquilo. Entretanto, pouco podiam fazer. As memórias por eles vividas junto aos rapazes pesavam mais aos prós do que contras. Jeff lembrou-se das tardes de folga jogando videogame na casa dos meninos; Sabine do dia em que Dan quebrou sua régua sem querer na quarta série e, desde então, jamais deixaram a amizade sucumbir; e Adrian dos treinos que teve com Dan no futsal da oitava série, das birras por ele sempre querer desistir e dos momentos divertidos daquela ocasião. Coisas simples, histórias domésticas, mas que faziam toda a diferença. Naquele momento, entendiam o porquê.
— Eu falo pelos guris também quando digo que seremos a mão que ajuda, não a que dá o tapa. Já falei isso uma vez e torno a repetir — disse Sabine.
— Tipo, isso é… Wow! Mas tranquilo — Jeff deu de ombros — Tudo é uma questão de costume.
— Isso aí — Adrian sorriu — Só diz o que precisamos fazer agora. Se a gente puder ajudar…
Al suspirou. Na realidade pouco poderia ser feito a partir dali. Conseguia sentir o arco se fechando, e todas as possíveis saídas com as trancas se fechando.
— Olha — começou — Eu sugiro que vocês apertem bem os cintos. Se pra vocês tudo isso é o caos, não quero nem ver a tempestade se formar quando o Daniel tirar a venda dos olhos…
As expressões faciais de cada um não esconderam a preocupação com a possível reação do garoto bomba. Assim como poderia ocorrer tudo sem um arranhão, tapas, socos e gritos não causariam espanto. Tinha a força de um terremoto e temperamento de um vulcão. O improvável ou impossível não passavam de palavras em sua mente. O desejo de Alisson era que, quando chegasse o momento, acontecesse rápido, para, quem sabe, terem a chance de tentarem alguma coisa juntos…
***
Em uma das poucas vezes num período bastante longo, Ian não conseguiu desgrudar do lado de Daniel. Seria hipocrisia alegar desprazer, afinal voltar a ter importância na vida do primo era fundamental em sua plena existência. Fazia parte de seu DNA cuidar e proteger daquele pequeno e desgovernado ser. Ao mesmo tempo em que era útil, acalentava seu coração.
Eram por volta das três da tarde quando conseguiu sair para tomar um copo d’água e voltar em seguida, aproveitando-se do sono pesado dele. Mal acomodou-se na cadeira frente ao notebook e ouviu seu celular vibrando. Sua boca abriu um largo sorriso deduzindo de quem seria, mais ainda ao confirmar. A passos de bailarina, foi até a porta, girou a chave e voltou a seu lugar. Não podia correr o risco de ser pego na lata pela tia ou tio (de novo!).
Posicionou a câmera de tal forma que conseguisse pegar o corpo todo, sem poupar esforços para os melhores ângulos lhe valorizarem. Tirou a camisa, a calça e os demais itens os quais cobriam seu corpo cor de areia molhada e começou a se esmerar nas fotos. Estimulou, inclusive, seu pênis para o receptor ter pensamentos mais vívidos. Como pouco lhe importava, tirou algumas de costas também, casos os dias de ativo do outro estivessem a flor da pele.
Seu azar foi, pouco depois, o olhos do primo fazerem força para abrir. Até pensou em se vestir e ir tirar no seu quarto, porém, conhecia bem como ele ficava ao ser picado pelo bichinho da curiosidade. Podia reprimi-la, mas antes de assim agir, aproveitava a tal ponto de quase pedir ‘bis’. Onde estava foi onde permaneceu, dando de ombros ao notar já estar sendo pego em flagrante.
— A gente não pode nem acordar em paz mais — resmungou o menor, coçando os olhos.
— Se tivesse me deixado ir pro meu quarto, né? Mas preferiu que eu ficasse… — foi a desculpa perfeita.
— Abobado.
— Ranzinza.
Um pouco mais desperto, Dan viu seus olhos percorrerem o corpo do primo mais vezes do que pretendia. Algo nele criava uma série de pensamentos compulsivos pela necessidade de entrar dentro da masmorra onde lhes prendia e domá-los uma única vez, só para sentir como era a sensação de realizar seus prazeres culposos.
Ian, sempre com instintos de água, comemorou o “sucesso” de sua travessura por dentro. Bem ou mal, conseguia tirá-lo da toca onde se escondia quando queria o mundo bem longe de si. A tarefa, àquela altura, não era das mais complicadas, mas, com certeza, a que exigia mais criatividade.
— Não sei quem tem menos o que fazer: Tu ou a Ágata — revirou os olhos.
— Só eu então, porque a Ágata certamente tá fazendo alguma coisa nesse momento e não é receber as fotos — rebateu.
— Ué. Então quem é o desocupado?
— Jonathan. Lembra dele?
— O que parecia ter um skate grudado nos pés? — seus olhos quase soltaram para fora da órbita terrestre — Como assim? Ele é viado?
— E foi meu primeiro namorado. Olha que fofo — ironizou.
— C*r*lho… A gente não conhece mesmo as pessoas…
— Na real, só tem uma pessoa que eu conheço que faz questão de não se conhecer… — alfinetou.
O olhar de Dan fugiu, buscando qualquer coisa capaz de distraí-lo o suficiente. Sabia das razões dele e sequer podia contestá-las. Tudo ainda se organizava a passos de formiga, vivendo um dia de cada vez e torcendo para findar o mais breve possível. Infelizmente, a solução desejada, nem de longe fazia seu coração feliz. Bem oposta a que resistia, cuja existência dava uma sensação de descanso imenso para seus ombros.
Entretanto, sua carne era fraca. Podia até tentar criar barreiras na mente, convencer ser tudo uma farsa para a alma. Contudo, seu corpo sabia responder a altura das provocações, sentindo seu próprio membro criar vida enquanto via o primo simular uma penetração com o dedo, ou deita-se na cadeira, erguendo as pernas para mostrar sua “entrada”. Controlava a língua e a mão, pois ambas enchiam de tremeliques para começar os trabalhos.
Conseguiu resistir pouco tempo. Quando deu por si elogiou o dote do primo em voz mais alta do que gostaria, atraindo o sorriso malicioso dele. Odiava quando lhe fazia de bonequinha sexual com a suas caras e bocas. Inibia-se de sua parcela de culpa em reagir segundo o desejo da natureza, atribuindo aos olhares, sorrisos e gestos feitos pelo mais velho.
Ian contribuía ao mau juízo com honra ao mérito. Percebendo estar sendo dissecado pelos olhos castanhos de Daniel, percorria as mãos por seu tórax, deslizando-as até alcançar seu membro pulsante, ansioso por um toque que, pensava, jamais conheceria. Permitia-se ao menos querê-lo causar “arrependimento” de suas escolhas. Corria também por entre suas coxas, finas, porém firmes, voltando a estimular o pênis no fim.
Mirou nas pernas do mais novo e viu-o forcejando esconder a reação natural de seu corpo e balançou a cabeça em sinal negativo. Não havia justificativa no mundo capaz de lhe fazer compreender o medo saindo pelos poros dele.
— Tá com vergonha de eu ver se teu pintinho cresceu? — debochou — Esqueceu do banho de ontem? Da cachoeira? De todo o resto?
— Eu deleto coisas inúteis no momento seguinte em que acabam — revidou, gaguejando e fechando bem as pernas — Não é por ter um dote legal que—
— Que vai te fazer sentir tesão, já sei — imitou o jeito “bravo” dele — Mas quem tá falando do meu dote se tem todo o resto pra aproveitar?
— Sabe o que eu fico impressionado? Te conheço desde sempre e nunca pensei na possibilidade de tu ter fogo no r*bo desse jeito.
— Porque tu não me conhecia como eu te conheço — sorriu, sentando na cama de Dan, ainda nú — Sempre soubesse lado teu, só não tinha certeza quando ia desabrochar.
Este então sentou quase face a face, com milimetros de distância impedindo de cometerem um incêndio devastador. Até Ian foi obrigado a dar um recuo, pela incredulidade de tal atitude. Seu coração chegou a falhar uma batida enquanto seu rosto lutava para não perder a cor.
— Isso não vai acontecer — atestou — Entendeu?
— Já ouvi isso tantas vezes… não tem mais credibilidade — desdenhou, provocativo.
— Tu nem é louco de… — nem conseguiu terminar, pois seus sentidos começaram todos a baixarem a guarda — Nem é louc… — tentou uma segunda vez e nada.
Quando deu por si estava selando seus lábios de forma calma, mas tímida, como se todas as vezes anteriores tivessem sido invalidadas. Toda vez era diferente, sentia isso. O misto confusos de desejo, curiosidade e medo saía com o gosto adocicado da boca dele. Pareciam cobertos do mais puro mel; uma vez grudado era difícil sair.
Levou suas mãos a nuca dele, puxando com tanto ardor que acabaram caindo para trás, com o mais velho por cima deixando suas mãos percorrerem o corpo do primo. Esfregar seu corpo no dele causava faíscas internas as quais tomavam propriedade astronômica. Dan sentia o mesmo, mas impedia suas mãos de seguirem o mesmo curso que as do alheia.
Ian estava levantando sua camiseta quando três batidas e uma voz alegando estar com uma pilha de roupas solicitou entrada urgente. O menor quase teve um troço, querendo dar um jeito de explicar sua estadia ali. Já o menino de olhos claro, mais paciente, apenas o mandou ficar frio. Vestiu sua camiseta e a calça em tempo recorde, escondendo a cueca embaixo das cobertas ainda dispostas sobre a cama caótica.
Isabel entrou quase em seguida quando Dan, trancando a respiração, levantou e abriu a porta, tentando agir como se nada tivesse acontecido. Sua mãe tagarelava sobre o estado deplorável do ambiente, ordenando que ambos limpassem ao invés de só ficar no celular. Colocou as roupas em cima da cama, vendo então, em virtude do movimento das cobertas, a tal cueca escondida. Pegou-a e ergueu no ar fazendo ambos trocarem de cor. De repente, começou a dar no filho com ela aos gritos podidos ser ouvidos até em Marte.
— PORCO! NÃO É CAPAZ DE LEVAR UMA CUECA PRO CESTO BANHEIRO! GURI RELAXADO!
— Ei! Foi mal! — tentava se justificar — Eu esqueci! Desculpa!
— VAI VER ESQUECER QUANDO TUA CAMA ESTIVER CHEIA DE ARANHAS FAZENDO TEIA NO TEU SACO!
Saiu porta fora com a dita cuja cueca espraguejando todas as futuras gerações de netos que poderia vir a ter, ao passo que Ian caiu na gargalhada pela cena enquanto trancava a porta outra vez. O primo, ao contrário, torcia a cara mais do que pano de chão sendo secado.
— Fedeu pra ti, hein! — debochou o maior, levando um tapa no braço — Ei!
— Isso foi tudo culpa tua! Pervertido! — exclamou.
— Fala mais alto pra tia Isa e o tio Bruno ouvirem e ficarem mais p*tos ainda — provocou — Ah, qual é! Foi divertido!
— Porque não foi contigo, né demente?! — revidou, dando mais um tapa — Tá me devendo uma cueca!
— Mas era minha!
— F*da-se! Considere indenização por danos morais.
Apenas riu, sentando de novo na cama e já passando a mão pelas coxas carnudas de Dan. Sorriu com o canto da boca antes de prosseguir.
— Falando em danos morais, que tal fazer mais alguns?
O outro não conseguiu ficar inerte, acabando por acompanhar também o primo no ato. Entretanto, levou sua mão a mão em sua perna, tirando-a devagar de cima.
— Não vou ter como explicar outra cueca nas minhas cobertas — brincou — Mas… valeu.
Ian ergueu as sobrancelhas.
— Sério? De boa assim? — indagou, encarando-o sem crer nas palavras por ele proferidas.
— Se acontecer de novo, manda me internar.
Ambos se uniram na gargalhada de novo. Ainda que os ventos soprassem contra, ou os mares tentassem lhe afogar, ter o apoio de Ian tinha um papel para além de necessário: era fundamental, como uma lei vigente em sua vida sem chance de revogação. Quando lhe dava rompantes de querer se aventurar por caminhos estranhos, lá estava para ajudar no que fosse necessário. Não valorizava como deveria muitas vezes, reconhecia, mas nunca conseguiria ficar muito tempo longe dele. Seria como surrar seu coração à chibatadas.
Ele estava se preparando para retornar a seu quando ouviu a voz de Dan lhe chamando. Virou seu rosto para enxergá-lo melhor. Com um pouco de gaguejo, questionou o que havia acontecido ali. Sorriu, prática conhecida sua, antes de responder.
— Foi um chamado da natureza — assegurou — Vê se começa a prestar atenção nela e tu vai se entender bem mais.
Entender-se. Tornava-se repetitiva aquela frase pela quantidade de vezes as quais já havia lhe ouvido ou até mesmo sua mente lhe cobrava solucionar. Era uma verdade horrível de ser digerida, ainda quando aconteciam momentos como o recém vivido e regressava a algo tão pífio. A comoção não era tão permanente; sua vida útil questionável. Uma das únicas saídas era, de fato, aceitar e deixar seus ombros mais soltos. A grande questão: valeria a pena?
— Valeu… por tudo — foi o que conseguiu dizer antes de vê-lo sair pela porta e o deixando sozinho para processar tudo aquilo e, quem sabe, tomar um passo à frente na tomada de rédeas de sua vida.
***
Gil precisou controlar o som ansioso para sair de suas cordas vocais e ecoar pelo salão do ‘Wunder Bar’ ao ser informado da confissão pública feita aos amigos por Alisson. Poucas foram as vezes em que realmente sentiu perder a linha de raciocínio frente a um desafio, e aquele, com certeza, era o melhor que seus olhos já haviam presenciado.
Muito se devia ao jeito bronco dele de lidar a vida. Chegava a se perguntar qual dos dois havia se criado em estábulos por mais tempo. O destino havia sido bastante irônico criando entre eles um laço mais forte, para além dos limites metafísicos os quais suas mentes eram capazes de imaginar. Ver Al entregue a vontade e a ânsia de ter um rapaz despertava uma curiosidade quase natural, dadas as circunstâncias.
No fim de mais um dia de trabalho, conversavam tentando adivinhar quais seriam os próximos passos e se Daniel daria algum deles. Nesse ponto, o filho de Marisa obrigou-se a ser um pouco mais pessimista. Ímprobo imaginar um cenário onde ele iria conseguir prosseguir sem medo do futuro e nem preso ao passado. Haviam alguns pontos cegos os quais, por razões desconhecidas para si, a resistência continuava como um muro entre eles.
Gil não resistiu ao alfinetar sobre a forma na qual Al iria afogar as mágoas saindo dali. Levou um dedo médio como resposta, crente na possibilidade de ser apenas armação dos garotos, roendo-se pelo que aprontou para eles. O mais velho achava balela, lembrando o fato de ambos poderem se encrencar feio caso fizessem algo mais grave, mas Al garantiu que não baixará a guarda até se certificar a barra limpa.
Acabou indo caminhando. Temia tomar um ônibus ou pedir carro particular e trombar com figuras conhecidas, o que não era muito difícil visto o tempo que sua mãe trabalho no salão de beleza e dos êxodos trabalhistas por ela cometidos antes disso. Além do mais era bom para deixar sua cabeça se refrescar enquanto os momentos tumultuosos daquele dia infernal eram processados.
Embora consumisse boa parte daquilo tudo, havia momentos nos quais se perguntava onde aquela versão sua esteve para nunca sequer tê-la percebido. Viveu aventuras com as mais variadas garotas, das morenas as loiras, das lisas às cacheadas; levou algumas para cama quando descobriu uma brincadeira bem mais interessante que jogar videogame e assistir animes; o corpo jamais lhe deixou na mão, respondendo aos estímulos com maestria e deixando todas implorando por mais. Quando se deu conta, era si mesmo quem o fazia… e por homens!
Acreditava ter sido a mágica da diligência provocada quando seus lábios encontraram os de Gil pela primeira vez. Um beijo masculino tinha testosterona embutida em altas doses, acarretando em um ato sem melindres ou pegajosos. Garotos preocupavam-se mais com seu bel-prazer e, com isso, despertavam o seu. Odiou sempre ter de conduzir a ação toda com meninas. Óbvio, não era egoísta, pensando apenas em quando iria gozar, curtia abrir seu leque de truques para fazê-las gemer. No entanto, ao transar com o ex de Ian, percebeu na praticidade e agilidade nas quais o menino o envolveu, soube achar pontos nos quais nem sonhava que tinha sensibilidade. Mundos completamente opostos, mas que se uniram para satisfazer suas vontades.
Não demorou a voltar a Terra quando viu em seu celular estar próximo do local indicado cerca de vinte minutos após ter saído do trabalho. Notou algumas luzes piscando através das cortinas brancas de uma janela, além de alguns vultos dançando de um lado para o outro. Não convenceu, podia muito bem ser apenas uma farsa. continuou indo a passos curtos e no lado oposto da rua de casa, com o eco da música sendo sua única companhia. Nem vozes vindas de dentro ouvia. Começou a acreditar em sua hipótese, e estava se preparando para dar no pé quando notou Esdras e mais três amigos voltando com algumas garrafas de bebida em mãos. Quis que o santo com ódio de sua persona aparecesse ali mesmo para acertarem as contas por um piso em falso daquele tamanho.
Ao contrário de si, Esdras tinha um sorriso largo em seus lábios. Perguntava-se a possibilidade de ser o diabo mostrando sua cauda.
— Não vai se arrepender de ter vindo. Garanto — disse, seguindo o tom.
— Olha, se quer trocar socos, vamos fazer logo que quero ir dormir — foi direto e reto.
— Trocar socos? Dormir? Não acha que tem coisas bem mais legais de se fazer que isso?
Al arqueou as sobrancelhas.
— Quer mesmo me dizer que isso aqui não foi feito só pra me ferrar? Jura? Depois da história da foto vai tudo passar em brancas nuvens?
O mais alto, ficante de Esdras, já com o pavio curto, resolveu se intrometer na conversa.
— Quem soca três, soca cinco, sete, nove… Tá quase virando o Bruce Lee de Nova Petrópolis. Não te falaram?
— Relaxem, vocês dois. Tem coisa bem mais interessante rolando lá dentro — pediu Esdras, atraindo o susto de Alisson, afinal sempre pareceu o mais recatado deles — Se quiser, pode ir embora. Caso contrário, é nosso convidado.
Os quatro amigos com as caixas então foram para dentro, deixando-o pensar como proceder. Não conseguia achar um pretexto para quererem sua presença ali que fugisse do fato de se vingar. Entretanto, arranjar uma confusão a mais em meio a tantas quase nem surtiria efeito. O máximo seria ser obrigado a partir para ignorância caso se fizesse necessário.
Foi entrando a passos curtos, encarando tudo no entorno. Ao abrir a porta de entrada, a surpresa: as luzes piscando faziam jus a sua função, bem como os vultos mexendo de um lado por outro ao som de uma música a qual não soube reconhecer o nome. Procurava o que de tão especial podia haver numa festinha daquelas, julgando a vida social dos rapazes ser morta para acreditar no potencial daquilo.
Seguiu pela casa indo até os quartos onde, realmente sua cara foi no chão com o que viu. Em um deles, no mais completo breu, pôde ver pela única fresta de luz da porta corpos de rapazes nús cometendo coisas das quais jamais pensou. Mais a frente, no segundo quarto, já era uma salada mista. No último, no fim do corredor, porta trancada. Até tentou girar a maçaneta rápido para ver se alguém atendia e nada. A voz de Esdras atrás de si lhe fez dar um pulo.
— Esse é vip. Só para os que eu e o Deivid quisermos — sorriu — Parabéns. Tu está entre os premiados.
— Foi mal, surubas não fazem meu estilo. Nem com mulheres, muito menos com homens.
— Saquei…
— É do tipo que come um por vez para aproveitar o gosto — o tal Deivid, o garoto alto, comentou.
— Ganhou um balão, gênio da lâmpada — Al ironizou — É isso quem tinham pra me oferecer? Uma festinha água de salsicha e um surubão louco?
— Tu não é tão esperto se pensou que isso aqui é o auge — alfinetou — Não chegou a galera master ainda. Espera.
Ambos passaram por si, entrando dentro do quarto. Nem quis ficar pensando no que iriam fazer, saindo da porta tão rápido quanto um relâmpago. Achava aquilo tudo um tédio, tendo certeza de já ter se envolvido em coisa de bem mais alto calão. Foi em direção à saída querendo chegar em casa, até vir uma pessoa bastante peculiar parar em sua frente.
Tratava-se de uma menina a qual teve um certo crush no fim do último ano do ensino fundamental. Foram juntos em a viagem as Canavieiras em Santa Catarina. Alisson chegou a impressioná-la, contudo, desdenhou-lhe, achando muito “pirralhinho” ainda. Vê-la ali, uma moça mais encorpada e de visual deslumbrante, lhe fez perceber que o tempo não havia sido generoso só consigo. Nem pensou duas vezes, aproximando-se para trocar uma ideia.
Ela ficou incrédula do homem o qual havia se tornado, afirmando agora ser uma versão bem mais interessante. Pegando a deixa, lançou a possibilidade de testarem para ver, arrancando risos dela. Não deu certeza de imediato, deixando no ar a resposta. Aquela foi a razão perfeita para esquecer o inferno todo e dar felicidade a seu “eu” de quinze anos.
Esdras havia sido sincero ao dizer que a festa sequer começara. Conforme as horas foram passando, mais pessoas chegaram e serem feições conhecidas deixaram Al pasmo. Até Denis, o garoto coração da festa do dia dos namorados, estava presente e com duas garotas a tiracolo. Esses não eram o que atraía tanto seu espanto, mas sim, a quantidade de rapazes de sua escola que começaram a tirar as camisetas e avançar sob os mamilos de outros rapazes ali mesmo, sem qualquer pudor.
Ao encher a sala e o som na caixa a todo volume, deixou-se levar pela onda e dançou até perder o fôlego, tirando algumas moças e também poucos rapazes para lhe fazer companhia. Um deles, ousado, colou seu corpo no de Al, passando as mãos por dentro de sua camiseta e fazendo-o sentir seu membro enrijecido atrás de si. Estranhou o penico, mas não acabou com o clima por conta de uma bobagem daquelas. O ritmo continuou.
Para sua felicidade, a tal crush da oitava série lhe puxou para o canto depois que saiu da sala, prensando-lhe contra a parede e arrancando beijos regados à luxúria e tesão. Fazia algum tempo no qual não tocava lábios femininos, sentindo a diferença na hora, o que não diminuiu a vontade de prosseguir fazendo. Ela sugeriu irem para um lugar mais reservado e concluírem aquilo. Alisson negou, dizendo que aquela noite seria de pegação e nada mais. A moça riu, afirmando estar tudo bem e seguindo a linha de beijos.
Os pares se alternaram a noite toda, até o fim da festa as quatro da manhã. O pessoal já ia embora exausto, suados devido a tanta euforia. Por ter ficado com a moça, só começou a fazer menção de sair ao ela fazer o mesmo. Encontrou Esdras e Deivid agarrados em um canto, sem camisa, aproximando-se para agradecer o momento de alegria que deram a seu passado. Ambos riram, lembrando terem avisado que ele não iria se arrepender. Curioso, questionou como sabiam de seu interesse nela e foi quando veio a resposta mais improvável.
— A gente não sabia — Esdras riu — Achamos que tu ia curtir, sim, mas com os guris da festa. O boato de tu e o esquentado lá tá forte pela escola…
— Mas não estamos. Veja só que coisa! — foi sarcástico — Só pra não dizerem que sou mal agradecido…
Num rápido movimento, tirou Esdras das mãos de Deivid e, prensando-o na parede, pegou-lhe no colo e deu um beijo demorado e cheio de desejo. Para Deivid, o tratamento foi igual, ainda que ele fosse o menor da situação.
— Valeu, seus otários. Vê se nunca mais me provoquem ou o Dan. Caso contrário…
— Já sabemos, Bamm Bamm Rubble. Já sabemos — Deivid ironizou — Agora cai fora e te vemos na escola.
Riu, despedindo-se deles e indo em direção a sua casa. De fato, seu corpo iria reclamar quando levantasse mais tarde. Valeria a pena. Precisava de uma válvula de escape antes de sentir o terremoto tomando conta de sua vida. Por pura ironia, ela foi promovida pelas duas pessoas mais aleatórias possíveis. Devia a eles aquele beijo, pois, finalmente, deixou seus medos de lado e pôde curtir um pouco.
Perguntava-se por quanto tempo mais teria de passar por aquelas provas, uma vez que todos, de uma forma ou outra, tomaram conhecimento de seu envolvimento e sentimentos relativos a Daniel. Vendo Esdras e Deivid teve a certeza de que conseguiria enfrentar a todos eles, ainda enfim a felicidade tanto almejada. Só esperava Dan querer fazer por eles tanto quanto, após aquele alívio, ele próprio estava. Suas baterias haviam sido carregadas.
CONTINUA
Fale com o autor