A Teoria das Cores
71 Azul IV
IMPRESSIONANTE
Desde o nascimento da humanidade, temos sempre a necessidade de impressionar quem amamos. Ao longo da história, isso se confirma através das construções, obras de arte, esculturas e todos registros concretos possíveis. Mas como fazê-lo quando o amor já está finito?
A resposta, para Vanessa, era muito simples: sair de cena. Não por puro ato de covardia — aliás, tratava-se justamente do contrário, afinal, aturar as migalhas do amor de Daniel por tanto tempo e sentir satisfação com isso merecia algum mérito. Seu coração havia escolhido o mais incompreensível dos homens — em todos os sentidos. Era duro admitir aquilo de forma tão crua, porém, se tornou o certo a fazer. A julgar pelo estado de ambos diante daquela frase, ficou clara sua infelicidade. Quais razões, então, a manteriam amarrada a ele?
Dan sequer a observava nos olhos. Durante os poucos minutos de silêncio entre eles, encarava os próprios pés. Um misto de vergonha, tristeza e solidão tornavam aquela conversa a mais difícil de sua vida até ali. Queria poder gritar até seus pulmões estourarem; podia vomitar todo o caos em sua mente; até mesmo começar a quebrar cada móvel da sala. Suas forças, no entanto, tinham acabado. Seus movimentos haviam levado tudo a xeque mate. Fim da linha. Cada dia até então parecia ter culminado naquilo de uma forma tão cruel, inconsistente. Como a vida podia ser tão ardilosa a tal ponto, que um relacionamento (em sua opinião) tão verdadeiro e sincero entrou em uma espiral decadente e não conseguiu se reerguer? Havia naquilo algum gesto de solidariedade?
Vanessa tinha no olhar um misto de curiosidade e espanto, pois ela também esperou um espetáculo em torno de sua revelação. Ou, pelo menos, qualquer cenário menos pacífico e atordoante do que aquele na qual se encontrava. Já diziam os antigos: a pior reação é o silêncio. Isso pode falar muito além de qualquer palavra, expressar muito mais do que gritos histéricos… ele mostrava a verdade. Esta, tão implícita nos versos e poemas mais elaborados de famosos poetas e poetisas, naquele momento, ficou nua diante deles. E isso era espantoso.
— Não vai falar nada? — questionou a loira, um tanto atordoada.
— É difícil falar algo já pregado há mais de um mês — falou, ainda de cabeça baixa
A loira suspirou, sentando bem a seu lado. Viu no rosto dele uma lágrima brotar bem ao canto de seu olho direito, escorrendo lentamente por sua face negra de tom claro. O golpe estava sendo duro a ele, disso sequer tinha dúvidas. Sua expressão, tão acanhada e reprimida, mostrava a força feita para entubar aquela dor horrível e não fazê-la transbordar.
— Eu… Não queria que isso acontecesse — a loira seguiu, encarando as próprias pernas — Mas acho o melhor a se fazer por hora.
— Isso é injusto, sabe? — o menino se manifestou, reguinhando — Um casal como a gente, com um começo tão feliz, alegre… Quando nos desentendemos desse jeito?
— Nossa base não era tão forte quanto pensávamos, Dan. Ela tinha falhas, pontos mal resolvidos. Isso, dentro de um relacionamento, tem o mesmo estrago de uma bomba atômica.
Mais alguns segundos de silêncio.
— Não sei se Deus existe ou se é lenda urbana. Mas, se existir, quando morrer, quero perguntar a ele quais critérios ele usa para colocar a gente nesses buracos negros da vida, de onde parece não haver uma saída.
— Fomos nós quem acabamos o nosso namoro, Dan. Deus não tem nada haver com isso.
— Mas eu não queria, Van. Juro pra ti!
— Essas coisas acontecem sem a gente perceber, até mesmo entender.
— Pois eu entendo, sim — afirmou, limpando uma lágrima — Eu não consigo mudar como te prometi. Essa é a verdade.
— E nem eu fui tão sincera quanto deveria ser — revelou — Por isso o término é importante. Não sabemos amar como pensávamos. Chegou a hora de encarar isso de frente e aprender as lições que a vida quer nos passar.
— A única lição pra mim é que tô perdendo uma guria incrível por ser um babaca. Só isso.
Comovida pela verdade na reação de Daniel, a loira abraçou-o com calma, serenamente. Um abraço abrigo, para mostrar o carinho e a empatia ainda restante entre eles. Seria loucura afirmar que passou a odiar o ex. Ao contrário, queria-o bem demais. Infelizmente, a situação exigia mais dela: ou queria o bem dele ou o seu. Preferiu o seu para, quem sabe, no futuro, poder querer o dele também.
Como gesto simbólico, deu um beijo na testa do menino, mesmo seu coração sangrando tanto ou mais que o dele. A perda é amarga, tem cara feia e golpes brutais. Pouco faz das situações. Ali era assim. Estava presente em cada minuto, cada movimento.
Antes de começar a chorar também, a loira levantou. Nada mais precisava ser dito, ou, assim pensava. Quando se aproximou da porta, ouviu a voz de Daniel lhe chamar outra vez.
— Tu… disse que não foi tão sincera quanto gostaria. Por quê? — questionou ele.
Sem maiores temores de alguma reação exagerada, Vanessa respondeu.
— Eu fiquei com a Ágata na festa do teu primo.
— E... — engoliu seco — Gosta dela?
— Tanto quanto gostava antes — sorriu, envergonhada — Não tô saindo daqui pra ir ficar com ela, Dan. Tô saindo daqui e… não sei, indo pra casa pra pensar em tudo isso.
Daniel levantou do sofá, e foi rápido em direção a loira e lhe abraçou tão forte quanto podia. Estava assustado, com medo. Seu olhar se assemelhava a de uma criança diante de um desconhecido. Não sabia qual passo dar em seguida.
— Não quero te perder, Van… O que vou fazer da vida sem minha namorada?
— Quer mesmo prolongar isso, Dan? — a garota mantinha serenidade na voz — Quantas traições mais terão de acontecer pra chegarmos no limite? Quantos meses até tu decidir assumir que ama uma transsexual? Quantos anos até eu ser considerada um membro da tua família?
Diante daquela fala, tinha de admitir — Vanessa estava certa. Seu medo, orgulho, preconceito e egoísmo tornaram daquilo uma taça de cristal, sensível ao mais suave toque. Um grão de areia se transformava em um rochedo na relação deles. Bancar o dissimulado não fazia sentido algum.
— Muda — pediu ela, passando a mão pelo rosto dele — Só assim tu vai conseguir ser feliz. E… Sobre nós: foi melhor assim, acredite.
Vanessa então desfez o abraço e saiu pela porta sem olhar para trás. Foi a passos largos em direção a saída, parando só para se despedir (de forma muito rápida) dos tios do seu, agora, ex. O menino, entretanto, ficou parado na porta, com uma esperança descomunal de ver a loira voltando e dizendo ser tudo uma piada de mau gosto. Mas, pelo visto, podia esperar uma vida inteira ali. O destino havia tomado sua decisão e batido o martelo. As lágrimas desenfreadas em seu rosto naquela tarde, seriam transformadas em brilhantes logo mais. Só que ele não sabia disso.
Ficou ali por alguns minutos, somente na companhia de seu soluço, da tristeza e do sentimento horrível de solidão. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se completamente abandonado, como se nem uma alma do mundo fosse capaz de lhe estender a mão uma única vez, no meio daquele caverna escura e assombrosa onde sua vida resolveu fazer morada.
No entanto, precisava voltar ao trabalho. E bem, de preferência. Com certeza, Marcella e Ronaldo lhe encheriam de perguntas o suficiente, caso tivessem prestado atenção no jeito no qual sua ex saiu dali. Correu até o banheiro jogar uma água em seu rosto, esfregando-o na toalha o máximo possível.
Inútil.
Cada traço demonstrava nitidamente sua tristeza. Seus olhos, inchados e avermelhados. As evidências contrariavam qualquer argumento que fugisse do óbvio. A grande questão era: queria mesmo disfarçar, ou queria disfarçar por enquanto? Só queria sossego para pôr sua cabeça no lugar e sentir sua dor em paz. Para não desapontar os tios, iria disfarçar o máximo de tempo possível.
Deu sorte. Retornou ao seu expediente, Marcella (como previsto) perguntou algumas coisas, deu respostas muito objetivas e monossilábicas. A tia, para seu desgosto, não tinha radar bom para identificar quando não está agradando. Foi preciso seu tio dar alguns sinais para ela, enfim, ficar quieta. Apesar disso, nada de muito grave aconteceu. As perguntas eram só curiosidade da visita. A tarefa de encobrir sua dor se cumpriu com êxito.
O mesmo não ocorreu quando chegou em casa ao fim do expediente. A fim de evitar outro deslize seu com os pais como o da última briga com Vanessa, Daniel correu para seu quarto sem dar uma satisfação sequer. Precisava da solidão. Alguns momentos sem ver ninguém parecia uma boa opção para compreender e deixar sua dor se esvair em lágrimas e abraços no travesseiro. Só queria isso. Para o resto, o dilúvio.
Isabel e Bruno temeram pelo filho, claro. São pais, é uma reação natural de instinto para proteger sua cria. Entreolharam-se enquanto estavam sentados a sala, sem saber qual rumo tomar. A mãe bem quis ir até lá conversar, porém o marido a repreendeu com o olhar. Se algo de grave havia ocorrido, o filho lhes contaria.
A aflição de não saber nada superava qualquer outra preocupação naquele momento. O eco de choro vindo do quarto só fazia seus corações se partirem ainda mais...
***
Poder jantar fora para comemorar é sempre visto como um gesto amigável e excelente para reunir pessoas queridas com um único propósito: divertir e celebrar. A vitória do time e a conquista de mais uma taça ao colégio Presidente Lincoln ia além de algo importante para a instituição: era a realização pessoal de todos os envolvidos. Os treinos, os gritos, os momentos de tensão, de alegria… tudo tinha valido a pena.
A festa no dia do retorno foi excelente. Porém, Adrian e Amanda queriam poder ter um momento só deles com suas respectivas famílias. Uma comemoração mais enxuta, cordial, sem tanta loucura como naquele dia. Namoravam, mas pouco sabiam da familia um do outro! E o”Wunder Bar” era um ambiente família, para aqueles momentos quando estão todos em sincronia e harmonia com a felicidade. Por isso a ocasião se fazia muito especial.
Como não haviam feito qualquer reserva, foram no susto, torcendo para ainda haver lugares a todos. Precisavam de seis lugares no total. Chegaram ansiosos com seus pais à recepção, verificando com Gina sobre a possibilidade de ter lugares sobrando. E tinha! Uma mesa no canto esquerdo foi a escolhida. Alisson, ao avistar os amigos, fez questão de atendê-los. Depois de anotar os pedidos, não pôde deixar de agradecê-los pela ajuda.
— Que isso, cara. ‘Tamo aí pra isso — comentou Adrian, feliz.
— Aqui é maravilhoso. Capaz que iríamos a outro lugar! — Amanda replicou.
— Acho bom mesmo, hein? — brincou o atendente e amigo — Já volto com os comes e bebes. Fiquem à vontade.
— Valeu — o casal respondeu em conjunto.
Seu Antero observava feliz a cena. Seus longos e árduos anos de investimentos ali foram revertidos um a um, fosse em dinheiro ou alegria de ver clientes satisfeitos com o serviço ali prestado, o retorno veio. Ainda que a crise, presente com uma série de gastos pessoais imprevistos e a inauguração de um café colonial mais ‘contemporâneo’, abalasse ou ameaçasse o funcionamento, ver aquela alegria preenchia seu coração por inteiro.
Alisson foi até o patrão quando o viu, sorrindo tal qual o próprio fazia. Ambos genuinamente felizes, em sintonia com o clima maravilhoso e harmonioso daquela noite gelada.
— Dias assim fazem o trabalho de uma vida valer a pena, meu guri — comentou, em tom de emoção — Por mais difíceis que tenham sido meus dias nos últimos meses, jamais perdi a esperança de chegar aqui e ver essa imagem bonita. Família reunida, comendo, se divertindo, como se estivessem em sua própria casa. Essa é a melhor das sensações.
— Muita gente gosta daqui, seu Antero. Nem periga de fechar — tentou animar o patrão, mesmo sabendo a verdade. O próprio, aliás, frisou isso.
— Queria que as contas do mês concordassem contigo — sorriu, mas era um sorriso triste, abatido, de alguém quase sem esperança — Mas tudo bem. O pior dos baques já passou… no dia do enterro de minha irmã…
Al pôde ver o quanto aquilo ainda machucava. Pudera, tão pouco tempo aquilo havia ocorrido. Era natural a ferida não ter fechado por completo. De certa forma, até o compreendia — não perdeu uma irmã, mas um pai, este talvez um dos piores castigos da vida à alguém. Isso que nem bom sujeito o tal homem era....
— Ela tá num lugar melhor — foi otimista, colocando a mão no ombro do senhor.
— Ela sempre foi contra eu continuar trabalhando depois que me aposentei. Dizia pra eu fechar isso aqui e ir curtir a minha vida antes que fosse tarde.
— Nunca pensou nisso?
— Jamais. Isso aqui é minha vida, meu orgulho, tudo que tenho. Sem “Wunder Bar”, seria como se não tivesse vivido nada. Agora então, sem minha única parente viva…
O garoto começou a pensar em mais estratégias para conseguir alavancar um pouco mais renda bruta do estabelecimento. Sua mente pensou muito, porém nada lhe ocorreu, até ouvir uma cantoria. As mesas quatro e cinco, unidas para uma outra família da região, cantava ‘Parabéns’ a uma linda menina de cabelos loiros e olhos azuis, tal como seus pais. Uma ideia veio em sua mente na mesma hora.
— Jeff! Claro! — exclamou, animado.
— Como? — o senhor não havia entendido.
— Tenho um amigo, que aliás veio aqui no dia da festa do time, e ele fará aniversário mês que vem. Se conseguisse falar com ele para fazerem a festa aqui…
— Esplêndida ideia! — mal se conteve de felicidade — Tente conversar com ele, sim? Me dê um retorno o mais rápido possível para fazer um orçamento.
— Pode deixar, seu Antero!
O homem então voltou para seu escritório mais animado com o mundo. A hipótese realmente o deixou em êxtase. Alisson só contava que Jeferson pudesse, de fato, remarcar tão em cima da hora. Ele, jovem tão descrente, pediu a todos os santos que lembrou o nome para dar certo. Gostava dali, de seu trabalho no geral. Era um serviço calmo, tranquilo. O ambiente também ajudava. Onde mais encontraria algo naquele estilo em uma cidade tão pequena quanto Nova Petrópolis?
De repente, um dos membros da cozinha o chamou, avisando sobre o pedido da mesa de Adrian e Amanda. Al foi a passos largos para entregar o pedido no horário. Mal terminou de fazê-lo quando, para seu espanto, uma voz ecoou pelo salão. Atraindo todos os olhares para si.
— FILHO! ALISSON! — Marisa exclamou, animada.
Um frio percorreu toda espinha do menino. Suas mãos soavam frio e seu estômago sentiu um aperto. Para piorar a situação, Edu, naquelas circunstância, seu padrasto, estava com ela. Pelo pouco que percebeu, ele tentava contornar a situação da companheira.
Limitou-se a cumprimentar nos altos, sem muito interesse em ir puxar assunto com todos a seu redor o encarando como se tivesse se tornado a estátua da liberdade. Saiu da mesa dos amigos se despedindo, constrangido, e foi até Gil. O rapaz, parado em frente a janela da cozinha, controlava cada músculo de seu ser para não cair na gargalhada.
— Dá um riso idiota pra ver se não te ponho dentro de alguma panela com água fervendo — ameaçou Alisson, ainda sem saber onde se enfiar, tamanha vergonha sentida.
— Ah, qual é? Foi engraçado — justificou o outro, ainda mantendo controle — Tua mãe parece aquelas de série americana. Bem animada, pra cima—
— Extrovertida ao quadrado. É, essa é minha mãe — complementou, sendo irônico.
— Ao contrário de ti. Quem te conhece te acha avô dela se quer saber.
— Vai tomar no teu c* e atende eles. Não tô afim de resolver dramas familiares com aquele cara aqui.
— Tá falando daquela placa de ‘f*do gostoso’ que tá acompanhando tua mãe? — perguntou, malicioso — Quem é a figura? Teu padrasto?
— Namorado dela. Existe uma grande diferença.
— Não me lembro de vê-lo quando estive lá—
— Vai atender logo, c*r*lho! — exclamou, baixo, perdendo a paciência.
O garoto só riu de canto e fez o que o colega/amigo/ ex amante pediu. Marisa pareceu mais animada ainda, puxando Gil para conversar um pouco. Edu também foi simpático e cordial, como de costume. O atendente se controlava muito para não babar diante do homem. Até porque era namorado da mãe de seu amigo. Seria chato, afinal, gostava da mulher. Edu não pareceu ser malicioso em nenhum sentido, então matou de vez seu crush momentâneo. Colhido o pedido, Gil deixou-os sozinhos e foi para a cozinha.
Marisa parecia realmente orgulhosa de ver seu filho trabalhando, progredindo. Viu ali os reflexos e os frutos de sua dedicação sendo colhidos um a um. Acabou por falar mais do que sua boca podia aguentar sobre Alisson, e Edu pacientemente escutou. Tinha admiração pela mulher com quem se envolvia, e torcia para, no futuro, conquistar a amizade e o carinho daquele a quem tanto ela amava.
***
Esclarecer pontos de qualquer relação é um ato extremamente necessário. A partir do momento em que duas pessoas pretendem, de alguma forma, pertencerem a vida uma da outra, precisam estar na mesma sintonia, seja de amor, amizade, carinho, afeto… qualquer que seja.
Desde o retorno de sua viagem, Sabine viu a necessidade de conversar com Jeferson e expôr a ele todo e qualquer sentimento existente dentro dela. Foram grandes companheiros de viagem, era ridículo ignorar. Daí a dar um passo gigantesco — tal como Jeff queria — parecia imprudência. Resolveu colocar tudo em pratos limpos.
Marcaram de se encontrar à frente do portão do prédio onde a loira morava. O garoto chegou pontualmente, como esperado. Principalmente em momentos de ansiedade iguais a aquele, queria resolver logo e se livrar de qualquer bomba possível vinda de sua amada. Começaram a andar, com a loira tomando frente da palavra.
— Bem, como eu te expliquei na mensagem, precisava muito falar sobre a gente, quem somos no meio dessa história toda.
— E então? — Jeff brincava com os dedos para disfarçar seu nervosismo.
— Vivemos muita coisa bacana lá. Coisas maravilhosas e lembranças que serão eternas. Como toda boa viagem, ela me marcou profundamente e tenho certeza que a ti também.
— Mas…
— Ainda não tô preparada pra isso — foi sincera — Percebi isso quando dancei com o Dan aquele dia.
— Sabia que ele não devia ter feito aquilo — xingou de mil formas o amigo em seus pensamentos.
— Foi bom, assim mostrou o quão frágil seria investir numa relação agora — justificou — Não gosto de usar pessoas como tapa buracos, Jeff. “Ah, não deu certo com o Daniel, então vou pro colo do Jeferson”? Não! Que se f*da se os outros fazem isso. Eu, Sabine, me sentiria horrível de não resolver toda essa questão do Daniel antes de encarar namoro com alguém.
— Eu entendo e respeito isso. Só que eu fico bem sabendo disso e mesmo assim quero investir em ti — parou no meio da calçada, pegou a mão da loira (fazendo-a parar também) e subiu a outra mão até seu rosto tão delicado — Quero te fazer feliz. Só isso. Acho que ainda sou esperto suficiente pra entender que tu ainda tá superando o Dan. Mas queria que tu soubesse que tô aqui, do teu lado, e quando isso passar, tu pensasse com carinho.
— Vou pensar — sorriu — Poder ficar certo disso.
O menino deu um beijo na testa da loira, como forma de mostrar o quão importante era sua felicidade para ele. Podia insistir, implorar, entretanto, tinha plena consciência de ser uma luta perdida. Quando o coração da loira estivesse livre, aí sim, podia ir para a guerra com todas as armas para conquistá-la.
Algo estranho atrapalhou a rota dos amigos. Estavam indo em direção ao “Wunder Bar”, logo, tiveram de passar pela Praça da República. Um choro baixo, porém agudo, era emitido por um dos bancos dali. O primeiro a ouvir foi Jeff, chamando a atenção de sua amiga para a ação.
Mostrando-se solidários, foram devagar caminhando pelos bancos até encontrar o ponto onde uma jovem loira estava sentada. Sua maquiagem estava toda borrada, e seu rosto com manchas devido a isso. Sabine a reconheceu na hora: tratava-se de Vanessa. Amiga do rapaz, claro que iria ajudar a moça. Foi correndo até ela tentar conversar, porém, ela preferiu abraçá-la e chorar em seu ombro. Estava visivelmente abalada.
Sabine se viu obrigada a chamar Jeff e pedir para ele auxiliar para levar a moça para casa, pois, no estado no qual estava, somada às baixas temperaturas daquela noite, poderiam acabar definitivamente com sua saúde. Como sabia para onde tinham de ir, tudo ficou mais fácil.
Foram o mais depressa possível para o prédio onde moram, mais ainda para chegarem no apartamento da menina. Como a garota já estava um pouco mais calma, pôde abrir a porta sem ajuda. Ainda sim, os amigos de seu ex insistiram em entrar e lhe fazer companhia. Ralph e Vitória, pais dela, assistiam televisão quando viram o estado da filha. Ficaram preocupados, é claro, mas, a pedido dela, não fizeram perguntas. Os amigos foram direto ao quarto, já na companhia dos pais.
Lá, Vanessa deitou em sua cama e começou a encarar o teto branco. Estava tal como sua vida — vazia e sem propósito. Nenhuma alegria de seu dia pesava a favor. Tudo veio abaixo com a conversa triste que teve com o garoto que foi seu primeiro grande amor. Mal tinha forças para falar qualquer coisa, todavia, a ansiedade e aflição daqueles a seu redor ansiavam por respostas.
— Foi horrível acabar assim… — começou — Ver tudo indo embora por conta de uma simples frase dói demais.
— Brigou com o Daniel, filha? — perguntou Vitória, aflita — Mas isso é tão comum entre casais. Não precisa se preocupar com—
— Quem dera tivesse sido só uma briga — limpou uma nova lágrima disposta a cair — Teria sido muito melhor. Mas.... Não. Dessa vez foi definitivo.
— Por que isso agora? — Sabine ficou intrigada — Digo, vocês se dão tão bem, parecem se amar tanto e—
— Esse é o ponto. Parecemos… Mas não somos. Infelizmente — comentou, triste — Desde quando o conheci, pensei que seria pra sempre, igual nos filmes que assisti a vida toda. Aí teve outro erro: acreditar em um “felizes para sempre”. Não existe isso, existe o “felizes enquanto durarmos”. E é isso.
Todos se entreolharam sem saber o que falar diante daquilo. Jeff, entretanto, arriscou.
— O negócio é a gente fazer de cada momento eterno. Nós fazemos a nossa felicidade continuamente. Só não podemos achar que ela ocorre do nada. Isso é errado. Felicidade não é acaso, é acontecimento. Um momento na qual temos o alívio no meio de uma tempestade. Por isso, precisamos ser felizes quando há possibilidade de ser. E tenho certeza que vocês foram.
A garota agradeceu com o olhar pelas bonitas palavras ditas. Ralph e Vitória também aliviaram seus corações, afinal, a cena de minutos antes foi de aterrorizar o mais relapso dos pais. Sabine perguntou, então, onde era o banheiro, pois precisava retocar um pouco de sua maquiagem escorrida devido às lágrimas de Vanessa. Vitória então explicou, indo sentar bem ao lado da filha.
Infelizmente, acabou errando a porta, entrando em um quarto um tanto quanto curioso para ela. Um ambiente com ar de masculino, cheio de fotos e pôsteres de carros e coisas do gênero. Sabine se perguntou se seria de algum irmão, até encarando atrás para ver se não havia ninguém chegando. Encarou o livro com certa curiosidade. Pensou muito antes de tocar nele, já que estava invadindo a privacidade de alguém. Porém, sua curiosidade falou mais alto e acabou por abrí-lo lentamente.
Passa as fotos com certa curiosidade. O livro de fotografias mostrava um garoto pré adolescente em diversos cenários: praia, piscina, restaurantes, morros e até ali, no próprio apartamento. A menina não entendia: onde estava Vanessa naquela foto? Ela não deveria estar ali?
Algo mais bizarro ainda foi quando, por acaso, encontrou uma frestinha de uma cueca embaixo do travesseiro em cima da cama. Reconheceu na mesma hora: havia dado aquela cueca, da mesma marca e no mesmo estilo a Daniel, no Natal do ano anterior. Observou de novo o livro, as fotos e a roupa íntima e ficou esbranquiçada quando entendeu.
Aquele menino era Vanessa.
CONTINUA
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