A Teoria das Cores
5 Azul I
CONSERVADOR
— E foi isso, mano — concluía Al — Aquela imbecil achou que eu ia ficar na aula dela depois daquilo.
Aquela altura, ele e Jeff já haviam se encontrado e estavam a caminho da casa do garoto de pele negra clara.
— Cara, e tu acha que ela vai fazer alguma coisa? — questionava o rapaz enquanto caminhavam.
— É claro que vai. Era tudo o que ela mais queria: Me pegar em flagrante.
— Certeza que ela não queria te pegar de outro jeito? — Jeff falou malicioso.
— Eca velho! Que nojo! Sai fora! — exclamou o outro.
— Imagina aquele maracujá de gaveta nu na tua cama dizendo ‘Vem Al, vem pra vovó’.
— Para velho! Vou ter pesadelos!
Jeff riu da cara de desespero que o amigo fez. Seguiram conversando sobre coisas aleatórias até a casa do primeiro. A casa era de cor salmão, tinha dois andares e um quintal da frente que era basicamente um canteiro de plantas dos dois lados com uma escada que levava a porta no centro. Logo que entraram, Al se sentiu em casa. Tirou seus tênis e foi em direção à cozinha assaltar a geladeira da casa de Jeff.
— O que tem de bom nessa casa pra comer? — gritou para Jeff. O mais alto tinha ido ao seu quarto trocar de roupa.
— Tu tem dois olhos, guri! Te vira! — retrucou.
Al revirou os olhos e sorriu. Viu que havia torta de limão na geladeira. Não era sua preferida, mas na hora da fome (Mesmo tendo comido anteriormente, já tinha fome).
— Tu a recém saiu da mesa e já tá com fome? — Jeff questionou, quando apareceu na cozinha minutos depois. Usava uma calça forrada azul forte, uma camiseta branca por cima de um blusão de lã e um casaco. Andava de meias e chinelo pela casa.
— Na vida passada fui um avestruz – o menor ironizou, fazendo Jeff rir.
— Tu não toma jeito mesmo, né cara?
— E tu não aprendeu que andar de meias e chinelo é coisa de velho né?
— Babaca.
— Trouxa.
Jeff pegou um pratinho de sobremesa e serviu um pedaço de torta. Sentou-se do lado do amigo.
— Vi que na festa tu ficou com a Jaque né? Cara, mina ‘mó’ gostosa mano! — comentou.
— Ela tava muito na minha fazia tempo — Al contava — Só que ela é meio nojentinha pra certas coisas na hora ‘H’ sabe. Então não foi nada de outro mundo.
— Nojentinha? Como?
Al levantou a cabeça olhando se ninguém estava vindo para poder contar.
— Ninguém tá em casa, mané. Fala logo!
— Só por vier das duvidas.
Chegou perto do ouvido e cochichou algo que fez o garoto o olhar admirado.
— Sério que ela não curte isso?!
— Sério. Mas se tu quiser só uma coisa pra aliviar o stress, ela pode te ajudar – Sorriu malicioso.
— Cara, se é pra aliviar o stress eu bato uma. Se eu quero comer alguém, eu quero fazer a p*rra toda, entende?
— Sei lá. Por mim, f*da-se.
— E como tu descobriu que ela não curte fazer aquilo?
— Como tu acha? Pedi pra ela fazer e ela ia fazer com uma cara de nojo. Daí desisti e só fiz o que tinha que ser feito.
— C*r*lho... — Jeff ficou pensativo — Um desperdício aquela boquinha não realizar uma boa ação.
— Verdade. Mas tá de boa. Se ela não aceitou, teve quem aceitasse.
— Um garanhão desses, bicho — mexeu Jeff.
— Ué. Não tenho culpa se elas me querem — exibiu-se, colocando as mãos atrás da cabeça e sorrindo.
— Ui, ui... p*ca das galáxias então?
— Claro — Al sorriu. Como era bom ter a liberdade de falar do assunto que quisesse com Jeff. Sabia que ele era um amigo de verdade.
— ‘Bora jogar FIFA?
— Tava esperando tu perguntar isso.
Terminaram rápido de comer e foram para a sala jogar o jogo de futebol.
***
Já eram 3 da tarde da segunda feira e Daniel trabalhava como um louco. Surpreendentemente, o movimento ali ficava mais intenso após uma da tarde. O garoto era uma espécie de faz tudo do local: Limpava, entregava pedidos nas mesas, ficava no caixa, anotava alimentos que estavam em falta e fazia sua reposição, algumas (Não raras) entregas de café da manhã por encomenda em sua bicicleta... Gostava de trabalhar ali. Ocupava sua mente por algumas horas que fossem e ainda ganhava ajuda financeira dos tios.
— E a escola? Como foi? — Marcella perguntou para o rapaz enquanto colocava uma bandeja de sonhos no expositor. Dan estava ao lado, cuidando do caixa.
— Foi um saco. A vaca da professora de matemática descobriu que eu colei e— Nem conclui a fala, Marcella já beliscou seu braço — Pô, tia, qual é! — reclamou.
— O que eu já falei sobre colar nas provas?— advertia ela — Eu já te falei que malandro só da com os burros n’água nessa vida cara! Ser honesto ainda é a melhor opção!
— Mas não sou só eu e ela implica só comigo! — justificava.
— Que ótimo! Vai que tu aprende né? Boa tarde, seu Anísio — concluiu sorrindo.
— Boa tarde, Marcella — Respondeu o senhor.
Dan suspirou. Até sua tia apoiava a insuportável professora — na sua opinião, claro. Assim que terminou de atender o senhor, retomaram a conversa.
— Olha pra mim, querido — estava de cara emburrada, contudo, olhou fixamente nos olhos da tia — A malandragem só é bacana agora, enquanto tu tá na escola. Mas na vida, meu filho, malandragem só atrai coisa que não presta. Por enquanto, tu tá colando na prova, mas amanhã pode tá roubando bancos.
— Que exagero, tia! Não vou ser ladrão, não. Tô aqui cuidando do caixa e nunca peguei um centavo — sentiu-se ofendido com as palavras da tia.
— Mas tu acha que não é assim que começa? Ou acha que todo mundo nasce assaltando bancos ?!
— Tia, pelo amor de Deus, eu não vou assaltar um banco — frisou.
— Acho bom, senão eu tua mãe quebramos dez vassouras na sua cabeça — advertiu, brincando — Pensa um pouco. Estudar e se dedicar não faz de ti nerd ou cdf. Faz de ti uma pessoa determinada. Agora dá licença que vou ali pegar os risoles pra por aqui. Mas pensa com carinho ok?
Deu um beijo na bochecha do sobrinho e foi realizar suas tarefas, deixando o garoto pensativo. Seria mesmo a hora de repensar suas atitudes? Seria hora de fazer nascer um novo Daniel?
***
— Quatro a zero p*rra! Ganhei de ti TRÊS FUCKING VEZES por quatro a zero! — Jeff gritava de alegria.
— Mano, que jogo ladrão! P*TA QUE P*RIU! — Al explodia de raiva. Não tinha muito senso esportivo — No meu videogame eu sempre ganho! Esse teu ai tá com defeito! Porque ganhou 3 vezes com a mesma quantidade de gols?
— Não adianta querer disfarçar, seu noob! Perdeu, playboy! — o rapaz mais alto apontava o dedo na cara do amigo.
Bufou. Como pôde perder num jogo no qual é viciado?
— Isso foi trapaça! Confessa! — Tentou intimidar o amigo.
— Cara, aceita que perdeu logo — Jeff sorria maliciosamente.
O menor pegou uma almofada e jogou no amigo.
— Nunca mais jogo essa m*rda! Quando quiser jogar, vai lá em casa!
Foi indo até a cozinha, quando Jeff chamou:
— EI! Onde pensa que vai?
— Comer torta. Tá boazona.
— E a aposta?
Alisson começou a rir da cara do amigo.
— Tu tava de zoa, não tava? — Questionou, ainda rindo.
— Não — Retrucou, incrédulo.
— Como assim não? — O outro parara de sorrir e começava a ficar nervoso.
— Foi uma aposta e tu concordou com os termos.
— Concordei porque eu que ia ganhar se tu não tivesse trapaceando! Nem sobre tortura vou fazer isso!
— Mas se fosse eu tu ia querer que fizesse né?!
— Claro! Tu tem ‘mó cara de viadão! Aposto que ia até gostar — maliciou Al com um sorriso cínico.
O rapaz virou e continuou seu trajeto despreocupado. Lavou o prato e a colher que usou antes, serviu à torta, sentou-se e começou a comer tranquilamente. Jeff foi até o lado dele novamente, sentou e abaixou sua calça e sua cueca mostrando seu pênis flácido.
— Bate uma pra mim — ordenou, autoritário — Agora.
Alisson olhou para o amigo ainda com uma cara blasé.
— Já disse que não p*rra!
— Por quê não?
— Porque não encosto minha mão em pau de macho!
— E quem é que precisa saber? É só uma aposta, cara!
— Aposta pra viados como tu se aproveitar dos caras.
— Como tu é infantil — Jeff disse. Recolocou sua cueca e sua calça e voltou para a sala.
O menor ficou o encarado. Continuou a comer sua sobremesa bem devagar. Não ia mais tocar naquele assunto. Nunca mais.
***
Seis horas da tarde em ponto, hora de fechar. Daniel trabalhara o dia inteiro e já estava exausto. Ainda, em um determinado momento, teve de ouvir desaforos de uma determinada cliente idosa que era julgou muito arrogante. Por ter errado na hora do troco, ela falou em sua cara que ele tinha mesmo cara de ladrão. Por míseros cinco centavos... Por conta de um erro... Fora chamado de ladrão.
Aquilo o deixou sem forças pra nada. Marcella e Ronaldo tentaram convencer o sobrinho a descansar um pouco, mas o garoto insistiu dizendo que estava bem e que fazia parte ouvir algumas coisas.
— Não deixa o comentário maldoso daquela múmia te chatear, meu amor — Marcella tentava animar — Tu é um bom menino. Só é meio espertinho pra algumas coisas, mas não é para tanto também.
“Pois é tia, mas a senhora mesmo veio com uns papos semelhantes antes. E ai? Como fica?” Pensou.
Por educação e por estar sendo vencido pelo cansaço, limitou-se a agradecer o apoio da tia. Foi até a casa dos tios para pegar a mochila e então se lembrou do trevo. Notou sua tia olhando o trevo.
— Trevo de quatro folhas... Quem diria hein? — questionou ela, alegre.
— É tipo bem improvável, mas aconteceu — coçava a nuca.
— Querido, eu não quero te chatear com esse assunto, mas teu tio me falou que tu teve um encontro sexta a noite... Aconteceu algo de errado?
O sorriso do rapaz se desfez.
— Desculpa tia, mas não to muito a fim de falar sobre isso...
— Tudo bem — Marcella sorria timidamente — Leva o teu trevo. Tenho certeza que vai te trazer muita sorte ainda.
— Valeu, tia — o rapaz deu um beijo na bochecha da moça — Até mais, tio.
— Até mais, meu guri! — exclamou Ronaldo.
Agora era hora de voltar para casa. Suspirou ao lembrar que encontraria Ian e os pais lá, mas foi seguindo seu trajeto normalmente. Passava pelas vitrines de lojas admirando o movimento que havia naquele horário. Fazia três anos que trabalhava com o tio, e há três anos era sempre assim.
De repente, sentiu seu celular vibrando: Uma mensagem havia chegado. Estranhou. Quem poderia ser?
‘Oi. Queria conversar contigo hoje... Será que rola?- Enviado por Vanessa’
Surpreendeu-se com a mensagem. O que a loira pretendia aquela altura do campeonato? Como não estava a fim de ir pra casa, topou.
‘Te encontro na frente do labirinto verde. Até – Enviado por Vanessa.’
Estaria a sua sorte começando a mudar? Ficou esperançoso com aquela conversa, por mais que não entendesse os motivos. Será que ela iria pedir desculpas, ou se arrependeu e mudou de ideia? Tinha sofrido por causa dela, mas pelo mesmo motivo a sua esperança era renovada em questão de segundos, entregue ao romance com ela... Mas o amor é assim mesmo, não é? Faz a gente perder os sentidos e noção de tempo e espaço.
Começou a acelerar o passo com medo de Vanessa mudar de ideia e ir embora. Não demorou cinco minutos quando chegou ao local indicado pela moça. Quando lá chegou, lá estava a dita cuja, com vestido preto de mangas longas, um salto e maquiagem gótica. O que estava acontecendo?
— Por que tá vestida como se tivesse voltando de um velório? — Não tardou a perguntar.
— Primeiro, Boa noite pra ti também — começou — E bom... Porque é assim que estou me sentindo desde que—
— Não sei porquê — o outro interrompeu, seco — Tu é quem acabou com tudo. Tínhamos um lance legal e tu estragou.
— Eu estraguei? — a garota o encarava, pasma — Olha, quer saber? Eu não vim aqui para brigar, mas se tu veio acho melhor eu ir beleza?!
Daniel segurou seu braço rapidamente, mas não de maneira que a machucasse.
— Eu vim aqui pra te ouvir — explicou — Pela última vez eu quero ouvir a explicação absurda que tu me contou. Quero ter certeza que aquilo que tu disse é verdade.
— E por que eu falaria aquilo se não fosse verdade, Daniel? Caramba, tu parece que duvida da minha inteligência!
— E tu não duvida da minha né?! Falando aquilo com aquela tranquilidade!
— E tu queria que eu fizesse um escândalo, é isso?
— Se o que tu disse for verdade, é um escândalo por si próprio!
— Ah é? Por quê?
— Porque não é normal! Ai, velho — Daniel tentava se controlar. Algumas pessoas que passavam por ali estavam notando o clima tenso — Só fala que foi trollagem e a gente segue as nossas vidas pronto. É só isso que quero ouvir.
— Como eu pude imaginar ter um relacionamento bacana com esse babaca que tu é, Daniel? Eu devia tá fora de mim.
— Só fala logo! — ordenou.
— Eu não vou falar NADA, Daniel! A realidade é aquela, doa a quem doer!
— Cara... Não pode. Tu é linda... Não é possível que—
— Que o quê? — reagiu — Eu seja trans?
Um silêncio se firmou no local por alguns minutos. Aquilo estava se repetindo. A mesma cena da sexta anterior acontecia... Então era real. Na sua cabeça, a informação se processava de forma muito rápida, passando longe de ser digerida da forma mais prudente e eficaz. Isso acabou por deixar ainda pior a situação já delicada.
— Não fala isso — pediu o namorado.
— Não falar a verdade? É isso?
— Como? Só me fala! Como isso é possível se tu parece uma mulher?!
— Eu SOU uma mulher, Daniel! — a garota falava com lágrimas nos olhos — Poxa, eu fiz a cirurgia, o tratamento hormonal... O que me falta?
— O que eu gosto numa mulher, guria, guri, seja lá o que for — Respondeu, seco — Abrir um buraco no meio das suas pernas não vai te fazer mulher. Tu tinha a mesma coisa que eu não tinha? Então.
Vanessa limpou a lágrima que insistia em cair.
— Quer saber? — falou, decidida — Graças aos céus que eu não fiquei contigo. Mereço coisa muito melhor.
— Merece sim — Daniel foi irônico.
— Só uma última coisa que quero te dizer, guri — falou, olhando fixamente em seus olhos — O mundo dá voltas... Se tu tá achando que isso termina assim, tá bem enganado. A vida ainda vai te mostrar o quanto tu tá errado.
E lá se foi ela. Dan torcia para não ter que cruzar com ela nunca mais na vida. Com a cara amarrada, foi até em casa com passos agressivos. Demorou cerca de dez minutos para chegar em casa. Não quis falar com ninguém, correndo direto para seu quarto. Ian, que estava na sala e ficou preocupado, resolveu ir atrás do primo. Chegando perto da porta, o garoto de pele negra clara, alto e olhos da cor do mar entrou devagar no ambiente.
— Tá tudo bem, mano? — Perguntou.
— Depois a gente conversa — Responde Dan, seco.
— Tu chegou com uma cara...
— Depois a gente conversa, c*r*lho! — exclamou, voltando a afundar a cabeça no travesseiro.
Ian não gostava de ver o primo assim. Cresceram juntos praticamente. Eram irmãos de pais diferentes, só ele podia mexer com Dan. Se alguém o fazia, puxava para briga sem dó. Resolveu respeitar a vontade do outro. Bagunçou seus cabelos e disse:
— Tô te esperando lá embaixo, quando tu quiser conversar.
Mal concluiu a frase e saiu do lugar. Antes iluminado pela luz no corredor, agora o local estava num breu completo. Daniel abraçou seu travesseiro. Estava com ódio... Ódio de ter perdido a garota mais perfeita que conhecera. Por puro preconceito. Permitiu-se chorar em silêncio, para ver se junto com as lágrimas, a dor da perda de Vanessa também fosse embora...
CONTINUA
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