FELICIDADE

Segunda feira nunca é um dia fácil. Voltar de seu descanso do fim de semana a velha rotina não é nada atrativo. Contudo no caso de Ian era diferente. Aliás, como tudo na vida do rapaz de olhos azuis. Ele começara a semana com ares renovados e com a esperança de que tudo iria melhorar.

Passar o fim de semana ao lado de Ágata também contribuiu para que ele ficasse eufórico. Gostava da companhia da garota, e ela era uma das poucas que o compreendiam de fato. Nem Dan chegava a esse nível. E cada dia mais se sentia bem de estar com ela. A única coisa que torcia era para não machucar nem ao coração dela, e nem o seu próprio.

Acordou com a morena abraçada em si. Sorriu e deu um selinho de leve para não acordá-la. Levantou-se, vestiu sua calça e camiseta e seguiu até a cozinha. Era um apartamento razoavelmente grande, cujas paredes mudavam de cor de acordo com o ambiente em que estava. Como a mãe da garota acreditava na chamada “Psicologia das cores” fez questão de adicionar a cada cômodo a cor que convém ao estilo do local. Falando em pais, os de Ágata adoraram o jeito extrovertido e descontraído de Ian. Fizeram até menção de que ele era o melhor namorado que a garota apresentara. O ato a fizera ficar vermelha, e teve de explicar que eles não eram namorados. Estavam apenas se curtindo.

Procurou pelos armários algum pote com achocolatado, porém não o achou. Fez na hora um semblante de decepção.

— Aqui gurizão – A voz de Ágata fez o garoto despertar – Sabia que manhã sem achocolatado pra ti não é manhã, daí comprei uma lata ontem.

Ian sorriu com o gesto e foi ao encontro da garota. Ambos deram um beijo rápido.

— Pensando em mim então? Que fofa – Mexeu o rapaz – Bom dia.

— Excelente dia né? Alguém tá bem próximo de conseguir um emprego.

Novamente um sorriso.

— Esse trampo já é meu. Tenho certeza.

— A princípio é mesmo. Mesmo assim tenta fazer o teu melhor pra impressionar os caras. Tudo bem?

— Por mim, tá tranquilo – Respondeu ele sincero.

— Quero ver esses dotes musicais em ação – Ágata falou, indo em direção ao mais alto e dando-lhe um beijo.

— Vai ver sim. Mas eu acho que tenho coisas mais legais a oferecer...

Ian sorriu malicioso. Levou sua mão a mão da garota, pegou-a e a levou até suas partes intimas.

— Ih, mas já tá querendo a essa hora? Vai se atrasar pra entrevista tigrão! – Exclamou a garota rindo.

— Ah, mas uma rapidinha não mata ninguém né? – O garoto fez cara de pidão.

— Negativo. O senhor agora vai ir pra sua casa e ficar um arraso pra deixar aquele diretor de quatro por ti.

— Tu acha mesmo que um tesão como eu não vai deixar alguém de quatro? – Ian disse passando a mão por seu tórax.

— Mas acordou convencido né?!

— Se amar gata – Falava ele sorrindo enquanto dava um beijo em Ágata – Se amar antes de tudo.

— Por isso te adoro sabia?

— Adora? Ainda não te conquistei?

A garota suspirou e encarou os olhos do mais velho.

— O que a gente tem é super bacana Ian. Sem cobrança, sem stress e tudo mais. E meu último namoro não terminou legal, sabe? Eu sei que tu pode dizer que já tem tempo porque afinal já fazem mais de oito meses, mas eu não... Me sinto preparada pra passar por aquilo de novo.

Ian sorriu e deu um forte abraço na menor. Sentia que ela precisava daquilo.

— Não vou te julgar. Cada um sabe de sua própria dor. Eu também tive um término meio chato, mas que, de uns tempos pra cá, eu consegui resolver. E tenho certeza que tu também vai.

— Então me passa a receita porque eu quero.

Ambos riram.

— No meu caso, só deu certo porque no fim queríamos a mesma coisa.

— O quê?

— Diversão.

Ágata encarou o mais alto com um olhar de surpresa.

— Tu ta me dizendo que...

— Que eu fiquei com meu ex, e que quase trepei com ele.

— Seu safado! – A garota riu e deu um leve tapa no ombro do garoto, que também começou a rir.

— O que posso fazer? Meus instintos fazem o que querem.

— E me diz: Foi bom? – Perguntou a morena maliciosa.

— Uma delícia – O outro respondeu no mesmo tom.

— Devia ter gravado pra me mostrar. Tenho uma curiosidade imensa em te ver agarrando um boy.

— Quem sabe um dia não tentamos algo à três? Seria f*da.

— E põe f*da nisso – Ágata comentou – Podia até convidar teu ex. Acho excitante pegar o boy e o ex do boy.

— O Gil é gay. Dificilmente iria querer te pegar porque tu não tem o material que ele curte – Ian mexeu.

— Eu uso um strap-on. Relaxa tigrão.

Ambos riram e deram um novo beijo.

— Vamos só vivendo a vida. E se tivermos que ser um casal, seremos e pronto. Pode ser? – Perguntou ela enquanto alisava o rosto do garoto de olhos azuis.

— Por mim, beleza – Ian sorriu.

Assim, o quase casal concluiu seu café da manhã de maneira rápida, e depois tomaram banho em conjunto na mesma velocidade. Ian e Ágata foram depois até a casa de Daniel, para que o rapaz pudesse se vestir de maneira adequada para a entrevista. Eram 08h33min quando partiram da casa rumo à escola de música.

O garoto vestiu-se com uma calça skinny preta com uma camiseta de mesma cor, contudo havia uma nota musical customizada nela. Usava também seu tradicional e fiel companheiro All Star de cano curto. Levava em uma das mãos um casaco cinza, para o caso de sentir frio (Não que não estivesse frio, mas Ian não tinha exatamente maiores problemas com isso). Já Ágata ia com calça legging preta acompanhada de uma bota de mesma cor longa, uma camiseta roxa com alguns detalhes e uma blusa de mesma cor. De acessórios, usava apenas brincos de argola e maquiagem.

— Só tu mesmo para vir pra uma entrevista de emprego como se fosse ir num shopping passear – Mexeu ela.

— Esse sou eu de verdade. Me acharia um Mané de terno e gravata. Fico muito tiozão não acha? – Respondeu ele sorrindo.

— Um sugar daddy da melhor marca.

O rapaz riu do comentário.

— Viu?!

— O importante é tu convencê-los do teu potencial. E duvido que isso tu não tire de letra.

— Bah, eu treino sempre que posso. Um tempo atrás eu tava trabalhando direto numa música pra... Uma pessoa.

— Uma pessoa?

— Aham.

— Olha, aposto que deve ser muito especial pra merecer uma música não acha?

Ian riu.

— Todas as pessoas mereciam alguém cantando uma música pra elas. Acho que é a maneira mais f*da de se demonstrar amor.

Foi então que Ágata pegou a mão do rapaz e entrelaçou seus dedos nos dele.

— Já te falaram o quanto tu é especial?

O garoto sorriu com o gesto.

— Sim, mas não sei por quê. Sou só eu.

— É porque tu é o Ian. Podem tentar te clonar que não vão criar outro igual.

Ian continuou a sorrir até que concluíram o percurso até a escola de música. Tratava-se de um prédio laranja, com uma arquitetura antiga e portões cumpridos de mesma cor. Havia uma placa escrita “INSTITUTO MUSICAL CLAIRE DE LUNE” bem na fachada do lugar. Os jovens adentraram o local e então perceberam que as paredes internas eram preenchidas com várias figuras relacionadas ao mundo da música: Desde notas musicais à nomes renomados do ramo. Na parede que ficava atrás do balcão da secretaria ficava uma réplica da guitarra de Slash, ex-membro da banda Guns N’ Roses, e que aparentemente continha a assinatura do mesmo. Ian não podia ter ficado mais animado vendo aquele lugar.

Não tardou a ir ao balcão de informações.

— Com licença moça? – Falou educado.

— Em que posso ajudá-lo? – Uma mulher de cabelos castanhos com franja e usando óculos de grau atendeu-o mostrando ser simpática.

— Aquela assinatura ali... É de verdade?

— A da guitarra?

— Isso.

— Sim – A moça mostrou um largo sorriso – Nosso diretor conseguiu aquela assinatura dele no último show da banda completa. Quase foi a falência pra pagar os custos daquela viagem, mas ele diz que não se arrepende.

— Caramba – Ian tinha os olhos brilhando.

— Margot, temos visita? – Um homem de boné cinza, usando uma camiseta de banda e calça skinny vermelha perguntou à recepcionista.

— Já ia atendê-los na verdade senhor – A garota explicou.

— Obrigado, mas pode deixar que agora eu cuido deles – O homem falou sorrindo – Pela fisionomia, tu deve ser o Ian e essa rockeira adorável a Ágata.

— Como o senhor sabe? – A morena questionou.

— Primeiro, senhor está no céu e olhe lá, porque nem a comprovação da existência dele foi comprovada — O homem disse irônico — Segundo, respondendo a tua pergunta, Diógenes me avisou que vocês viriam.

— Diógenes? Quem é? – Ian perguntou confuso.

— Aquele ali – Ágata apontou o dedo para um rapaz que vinha na direção deles.

Tratava-se de um garoto com o tom de pele um pouco mais escuro que a de Ian, cabelos cacheados e castanhos e olhos da mesma cor. Vestia uma calça jeans azul forte, com um casaco xadrez preto com vermelho e um tênis qualquer. Ian o reconheceu na hora: Era o garoto que vira com Ágata no dia em que a encrenca com Gil retornou.

— Fala ai carinha! – Ágata disse animada enquanto fora abraçá-lo.

— Hey! Vejo que tu trouxe o famoso Ian pra tentar a sorte como instrutor! – O garoto falou animado.

— O que o capitalismo não nos obriga a fazer né? – Ian tentou ser agradável, mesmo sentindo-se um pouco desconfortável com o outro – Brincadeira. Adoro música e tenho certeza que vou me dar bem aqui.

— Começando bem hein meu guri?! – O chefe falou – Com garra e determinação. Gostei de ver.

— A Ágata me disse que ele manda ver com a guitarra, Manolo – Diógenes comentou.

— Na verdade, eu manjo um pouco de tudo saca? Eu canto, toco bateria, guitarra, teclado-

— O peito das gurias – Manolo mexeu, fazendo Diógenes rir. Ágata e Margot que não ficaram lá muito satisfeitas com o comentário assim como Ian.

— É, quando estamos juntos né... Ai não vejo problema – Ian disse passando a mão na nuca.

— Muito bem – Manolo bateu as mãos – Vamos ver então do que é capaz. Me acompanha até o estúdio?

— Já é! – Respondeu ele animado.

Quando Ian e o chefe foram para a sala em questão, Ágata e Diógenes sentaram no sofá a sua espera.

— Valeu por ter conseguido essa vaga pra ele, Dio. Ele tava precisando.

— Eu imagino. Tu tava querendo que ele arranja-se esse emprego logo.

— Sim! Os pais dele estão tendo dificuldades pra pagar a faculdade dele, e esse trampo como instrutor paga bem e é numa área que ele gosta.

— Acredito que tenha outras áreas que ele também curta né? – Dio falou colocando sua mão sob a coxa da garota, que se esquivou deixando o outro confuso – O que foi?

— Precisava rir daquele comentário machista que o cara fez?

— Machista? Era só uma brincadeira gata!

— É por causa dessas brincadeiras que o mundo tá o que tá, Dio. Por favor, não repete isso na minha frente de novo.

O garoto bufou.

— Até parece que o bonitão dos olhos azuis não riu também.

— Tu sabe muito bem que ele riu sem graça, por que ficou desconfortável e falou algo pra tentar não ser indelicado.

— Uhh, defensora dele então é?

Ágata revirou os olhos.

— Dio, é sério. PARA de agir como se fossemos namorados. Do contrário, desculpa mas vamos ter que nos afastar.

— Mal nos vimos e tu já quer discutir? Tava um clima tão bom.

— Eu quero deixar tudo em pratos limpos, só isso – A morena esclarecia.

Alguns minutos de silêncio.

— Tá. Desculpa – O garoto falou entre os dentes.

— O quê? – Ágata ouvira, todavia fingiu que não para que o garoto falasse corretamente.

— Eu falei desculpa – O outro repetiu.

— Desculpas aceitas – A garota se aproximou e beijou a bochecha do garoto sorrindo – Só não faz mais ok?

— Pode deixar.

E assim continuaram a conversar por algum tempo, ansiosos pelo resultado de Ian.

***

O resto de domingo tinha sido um verdadeiro tédio na vida de Alisson. O rapaz atendera basicamente moscas o dia todo, o que causou um espanto nos funcionários e no próprio seu Antero, que decidira fechar mais cedo. O rapaz aproveitou para ir para sua casa e tentar relaxar, depois de uma conversa com a mãe. Conversa essa que não existiu, já que quando chegou Marisa não estava em casa de novo. Ficou preocupado de ter acontecido algo a ela, e foi visitar seu perfil nas redes sociais. E preferia não tê-lo feito: Numa atualização feita poucos minutos antes, Marisa postara uma foto jantando em um restaurante em Gramado. Al revirou os olhos. Decidiu apenas tomar seu banho e deitar até a manhã seguinte. E foi o que de fato fez.

Na manhã daquela segunda feira, nada de novo sobre o sol. Algumas discussões, reunião com os amigos no intervalo, mais discussões com os professores... Por muitas vezes Al não tinha expectativas na sua vida. Achava tudo uma monotonia infernal, onde nada de bom acontecia: Eram só desgraças sucedidas por desgraças que conseguiam ser maiores que as primeiras. Seria o resto da vida assim? E quando acabasse a escola, iria somente trabalhar até morrer e pronto? Sentia-se um lixo total, o que o fazia ficar deprimido como naquela manhã. Os amigos estranharam vê-lo tão quieto (Daniel até mostrou-se solidário perguntando se havia algo errado e o rapaz delicadamente respondeu “Tudo, mas f*da-se”), porém não tinha nenhuma previsão de melhoras.

Quando a tarde chegou, foi sem muito ânimo para o “Wunder Bar”. Em dias comuns, até gostava de trabalhar no local, contudo hoje era um dia excepcional. Só queria sua casa e sua cama, nada mais.

— Olá Al. Olha só, tavam comentando que parece que abriu um café novo. Por isso que on- Gina falava quando notou o estado do amigo – Nossa Alisson! Que caminhão que passou por cima de ti guri?

— Só não to muito legal, sei lá. Acordei meio deprê. A vida tem disso né?

— Tu tá precisando de ajuda pra algo?

— Olha Gina, sinceramente, hoje tá sendo um dia tão c*, mas tão c*, que a única coisa que eu queria era um abraço da minha mãe...

A garota ficou um tanto assustada ao ver Al naquele estado. Não sabia exatamente o que falar para ele.

— T-tu quer ir pra casa descansar? O Gil cancelou a dispensa dele, então vamos ter pessoal pra te cobrir.

— Ele cancelou é?

— Aham. Pode ir tranquilo Al. Eu aviso seu Antero que tu não tá muito bem.

— De que adianta ir pra casa? Só vai me deixar pior. Ficar trabalhando vai me ocupar a cabeça.

— Mas Alisson-

— Fica fria Gina. Eu to bem, só sei lá... Tô mal. Entende?

— Nem um pouco – A garota falou sincera – Mas olha, seja o que for que te deixou tão pra baixo, lembra que na vida toda tempestade é passageira! Nem sempre as coisas serão assim. Quando tu menos esperar, a vida vai te dar o teu arco íris.

Al sorriu fraco.

— Meu arco íris tá vindo de carroça então, só pode.

— Ó, já tá até fazendo graça – Mexeu ela – Mas sério, não fica assim não. Tu é um cara legal demais pra se deprimir.

— É... Quem sabe?

Mal ambos terminaram a conversa quando Gil entrou.

— GIL! Fiquei mega feliz quando soube que desistiu da asneira de férias! – Gina foi ao encontro do amigo e lhe deu um abraço.

— Também senti saudades Gina – O garoto falou sorrindo – Bem, é que resolvi a maioria dos pepinos da minha vida num tempo hábil.

— Que ótimo! Por que sem tu aqui não é a mesma coisa! Al, concorda?

— Isso ai Gil! – O rapaz tentou se mostrar motivado – Tu faz a diferença aqui velho.

— Valeu gente. De coração – Gil respondeu – Enfim, agora é hora de voltar as funções né?

— Pra ontem! – Gina ordenou, fazendo-o rir – Tu também Al! Bora mexer esse esqueleto!

— Sim senhora – Al respondeu rindo fraco ainda e foi até o vestiário.

Como da última vez, ele e Gil ficaram sozinhos no vestiário. Contudo, o segundo não fizera nenhum comentário sobre o primeiro. Aliás, ficaram em silêncio por algum tempo até que Al quebrou o gelo.

— Que bom que tu voltou Gil.

O mais velho parou terminou de vestir sua calça quando encarou o outro.

— Por que tu acha bom? – Questionou.

— Bem, vai ter mais gente pra me ajudar.

— Imaginei que fosse por isso.

— E também... – O outro prosseguiu – Se eu to me dando bem aqui, é por tua causa. Mal ou bem tu me ensinou muita coisa. Bah, se eu tivesse que aprender por mim mesmo tava quebrando altos copos.

Gil riu do comentário.

— Eu só fiz meu trabalho, Alisson.

— E fez bem feito. Parabéns.

O mais velho estranhava aquela sutileza de Al. Era tão diferente não ser tratado com repúdio pelo mais novo...

— Quer dizer que aquele ódio todo por mim sumiu? – Não podia deixar de questionar.

— Tu me sacaneou legal sim, tu me fez assistir pornô sim, mas sei lá... Tô vendo que existem outras coisas com que me preocupar. Se tu não me fez nada, só liguei um “f*da-se” só isso.

— E a mudança repentina veio de onde?

Al suspirou e demorou alguns segundos para responder.

— Veio de quando eu percebi que minha existência é tão b*sta que até minha mãe tá fugindo de mim.

— Ei! De onde tu tirou isso?

— É a verdade. Olha pra isso velho! Olha pra figura patética que eu sou!

— Tu me desculpa Al, mas não todo entendendo esse teu drama.

— Não é drama é só que – Alisson não conseguia explicar – C*r*lho, eu não consigo progredir! Não consigo melhorar! Eu vejo todo mundo indo pra frente e parece que eu fico ali, estático. Quando comece a trabalhar aqui, jurava que ia me senti melhor. E me senti, só que por um tempo. Queria me sentir assim sempre.

Gil então foi em direção ao colega e colocou a mão em seu ombro. O gesto fez com que o mesmo ergue-se a cabeça e o encara-se.

— Nenhum de nós é perfeito cara. Toda e qualquer pessoa na face da Terra tem defeitos, e isso não é ruim. Só precisamos enfrentá-los pra vencer e progredir como tu quer. E olha, tu já fez isso! Lembra do dia que eu dormi na tua casa?

— Sim – O rapaz recordava-se.

— Então. Naquele dia, tu aprendeu algo e tá tentando melhorar. A vida não é só de fracasso Al, a vida é baseada na tentativa e erro. E uma hora tu vai tentar e acertar. Só precisa se acalmar e focar no que te faz bem.

— O que me faz bem é ter minha mãe me apoiando sempre... Mas nem isso tenho mais.

— E por quê?

— A gente brigou e-

— AH AL! É por causa disso que tu tá assim?! – O garoto acenou a cabeça em sinal positivo – Velho, brigar com os pais é tri comum. A gente sempre volta a se falar e tudo se conserta. Por que agora seria diferente?

— Sei lá.

— Viu como teus argumentos não tem sentido? – Gil mostrava ao rapaz – Acalma esse coração guri! Tudo pra ti é um cavalo de batalha. Relaxa que as coisas vão se resolver no tempo certo.

Al sorriu com o gesto solidário do colega.

— Olha como eu te tratei e olha a situação que a gente tá agora – Não pôde deixar de comentar.

— Esquece isso e ‘bora trabalhar que hoje a casa é cheia – Gil então foi concluir de vestir seu uniforme.

— Tomara né, porque ontem foi bem fraco o movimento.

— Sério?

— Aham. Teve até uma hora-

Bateram papo até concluírem a vestimenta e então foram trabalhar. Seria um recomeço de amizade?

***

Acordar de um sonho em geral costuma ser bastante desagradável. É como se aquele mundo perfeito que imaginamos, nunca fosse sair da imaginação. Todavia, Dan sentia como se acordar depois do fim de semana que julgara ter sido perfeito fosse apenas o primeiro passo em direção ás mudanças. Não entendia o porquê de sentir-se assim, mas o fato era esse.

No dia anterior, viveu praticamente um conto de fadas ao lado daquela que tanto amava. Passearam, tiraram fotos, riram, se divertiram e o principal: Se amaram. Aquela fora a primeira noite desde que ele e Van terminaram que ele dormira com a consciência tranquila. Porém até quando aquilo duraria?

A segunda feira, dia que sucedeu, passou tão rápido que mal percebera. Naquele dia, evitou confrontos diretos com os professores, foi trabalhar com alegria e determinação e chegara em casa abraçando os pais. Era incrível como a mudança em si fora tão radical – no bom sentido. Conversara com a namorada pelo app de mensagens o dia todo, e prometera a Marcella e Ronaldo (E a noite a seus pais também) que em breve a apresentaria a todos.

Eram 22h34min quando Ian retornou da faculdade. Dan estava na sala, assistindo a um programa qualquer, quando o fato se deu.

— Fala ai primo! – Falou animado.

— Grande Dan – Ian sorria e fez o cumprimento com as mãos – Velho, tu nem sabe.

— O quê?

— Adivinha quem é o mais novo instrutor de guitarristas da escola de música?

— Mas olha ai – Num gesto surpreendente, puxara o mais velho para um abraço – Parabéns! Agora vai poder fazer a faculdade que tu quer né?

— Isso é o melhor de tudo – O outro retribuiu ao abraço – Meu sonho é viver de música cara. Não me imagino em outro ramo.

— Sim. Agora tu tá no teu chão.

— A única coisa que me deixou um pouco constrangido foi que-

— PERA, Ian constrangido? Como assim?

— Pra tu ver né? – O garoto coçou a nuca — Enfim, o que me fez ficar assim é que o guri que a Ágata fica também estava lá.

Dan então ficou confuso.

— Como tu sabe desse guri?

— Eu vi eles ficando na praça um tempo atrás. Mas sabe, não temos nada sério. Então tá tranquilo.

— Eu... Também já sabia disso.

— Como?

— É, eu vi eles ficando e eu ia te contar. Mas acabou que teve aquele camping e toda aquela briga e tal.

Ian sorriu.

— Já passou cara. Vamos viver o presente.

— É. Tu tem razão. Mesmo assim desculpa não ter falado nada antes.

— Capaz velho. Como eu disse, eu e ela estamos nos curtindo por enquanto. Não há com o que se preocupar. Até eu esqueci essa bobagem do tal Diógenes para poder ter uma convivência sabe?

— Aham. E acho isso muito maduro da tua parte.

— A vida é feita de escolhas Dan. Eu sempre opto por ser feliz e depois encaro as consequências disso de boa. Tudo faz parte de algo grande no fim das contas.

Foi a vez do mais novo sorrir.

— Verdade.

— Agora me conta ai essa história! Tu realmente superou teu medo de transar com a Van?

— Sim – Contava animado – Velho, eu nem acredito que aconteceu mesmo! Depois de tudo que a gente passou, pensava que nunca mais ia rolar.

— Nunca é uma palavra muito definitiva. Eu sabia que uma hora tu ia enxergar as coisas com mais clareza.

— E finalmente essa hora chegou né?

— Sim primão – Ian deu um largo sorriso – E tenho muito orgulho de ti por isso.

Dan, por alguma razão, ficou constrangido com o comentário do primo.

— Valeu Ian – Respondeu educado.

— MENINOS! – Um grito ecoou do andar de cima.

— FALA MÃE! – Gritou Dan de volta, fazendo o mais velho rir.

— NÃO MARQUEM NADA PRA SÁBADO QUE VEM PORQUE NÓS VAMOS IR NO ANIVERSÁRIO DO MICAEL! OUVIRAM?

— JÁ É ANIVERSÁRIO DELE?!

— NÃO GURI! MARCARAM A FESTA PRA SÁBADO PRA SEREM DIFERENTÕES. CLARO QUE É, NÉ?!

— TÁ BOM! A GENTE VAI!

— ACHO ÓTIMO!

Ambos riram. Achavam hilário o fato de Isabel literalmente gritar pela casa. Quanto a Micael, tratava-se de um primo meses mais novo que Ian, que morava com a família em Porto Alegre.

— VAI SER EM PORTO TIA? – Ian perguntou.

— NÃO! VAI SER NO SÍTIO EM TAQUARI. ACABARAM DE POSTAR NO GRUPO!

— VALEU!

Novos risos.

— Micael... Faz um tempo que não vejo aquele trouxão. Como ele está? – Dan questionou curioso.

— O mesmo leonino de sempre.

Dan riu.

— Ele se acha às vezes né?

— Mas é ‘mó delicia. Aliás, Deus caprichou nos primos dessa família hein?!

— Ih, fala por ti mesmo. Não entendo de homem não.

— Ah Dan, qual é! Vai dizer que nunca admirou nossos primos?

O garoto pensou um pouco antes de responder.

— Pra não dizer nenhum, eu digo que te admiro bastante.

— Viu? Já é alguma coisa – Ian sorria – Bem, vamos dormir? Eu to quebradão da faculdade.

— Vamos sim. ‘Bora lá pros quartos.

— ‘Bora.

CONTINUA