A Tela Atrás do Espelho

1 Gravità dell'amore


Notas iniciais
Esse epílogo surge um pouco da frustração em não ter maiores detalhes no final de Vento Aureo, e o que exatamente os personagens fazem a partir dali. O que não significa que eu ache um final ruim!
Essa também é a primeira história que sinto que fui feliz em terminar, e apesar de todo o meu medo e insegurança, acho válido tentar compartilhar ela de alguma forma.

Nápoles, Itália, 2001.

É um dia ensolarado, com ventos abafados e um mormaço exaustivo. Mas a sede da Passione tem ares-condicionados espalhados pelos cômodos. Também tem aquecedores, para quando o tempo fica mais gelado. Esse é um luxo que nem todo morador da cidade tem condição de ter. Pouquíssimos tinham. Entretanto, a zona mais pobre de Nápoles não pecava em sua beleza, que contraditoriamente era manchada pela desgraça daqueles mais miseráveis, desde moradores de rua, vendedores ambulantes, golpistas, ladrões, pedintes, até traficantes.

Talvez o mais revoltante era o fato de muitas crianças serem uma, ou todas essas coisas. Por muito tempo essa era uma realidade deprimente. Mas, de vez em quando, as pessoas certas eram tocadas por ela. Pessoas dispostas a mudarem esse cenário, não importando o quão alto seja o preço a se pagar, e o quão difícil seja o caminho. Pessoas com uma determinação de ouro.

— Mista, pode me fazer um favor?

— Mas é claro, chefe. Fala aí!

— Já disse que não precisa me chamar assim...

— Ai ai, viu. Fala logo, Giorno!

— É que eu estou pensando em dar uma atualizada no visual. Você pode agendar uma visita com alguma costureira na região? Mas ela precisa ser boa. Seja amigável e deixe claro que cobrimos qualquer preço.

— Ah... Quer que eu faça uma ligação? Sério? Qual é, eu sou o braço direito do mais novo chefe da máfia! Achei que iríamos fazer altas missões de... Bem, de chefes da máfia!

— Ah, não, não. Quero que vá pessoalmente. Vá com a Trish! Vocês se dão tão bem. E talvez ela conheça alguém bom para o trabalho — Giorno retira alguns papéis da gaveta de seu escritório, e os estende para Mista. E então, continua:

— Aqui! Já fiz uns rascunhos do que tenho em mente, e já listei as cores de que preciso — Mista observou o desenho, mas tudo era confuso demais para ele.

— Oh… tudo bem. Vou falar com ela e já vamos partir, então! — E ele sai do escritório, animado e sorridente.

Giorno torna a olhar para a sua janela com um leve sorriso, observando o belo jardim do quintal da sede da organização. Não era uma tarefa fácil recriar a imagem da gangue, mas quase todo o pessoal já fora substituído por pessoas que simpatizavam com o novo objetivo da Passione. Claro que tiveram aqueles que se recusaram, mas para eles, uma conversa não muito civilizada era imposta, e então, eram aposentados de suas funções. Funções como ser um cidadão vivo. Ainda é uma máfia, afinal. E mesmo os soltando, uma hora eles iriam se encontrar com os novos membros durante as missões de limpeza e receberiam o mesmo tratamento. Porém, a chance de fazer uma escolha era sempre oferecida, assim, alguns acabaram se juntando à nova causa. Giorno se perguntava quantos subordinados não estavam satisfeitos com o que faziam, assim como seu antigo Capo. Ficou feliz de poder ajudar esses que estavam sendo prisioneiros do sistema.

Momentos depois, alguém bate à porta:

— Boa tarde, chefe. Os convidados chegaram.

— Ah, bem. Obrigado.

A sede era grande e luxuosa. Era a maior e mais poderosa da cidade, seus serviços conhecidos por todos. Enquanto Giorno caminhava por corredores e passava por salas, quadros, esculturas e todo tipo de decoração podiam ser vistos, todas de altíssima classe. Enfim, ele chega à sala onde é a entrada principal.

— Sejam bem-vindos. Por favor, fiquem à vontade. Vou pedir para trazerem algo para vocês comerem. Alguma preferência?

— Ah, você teria biscoitos? Com um copo de leite seria ótimo. Eu ainda não comi direito depois da viagem, sabe...

O pequeno estudante se arrependeu de fazer tal pedido, assim que percebeu o olhar desaprovador de seu acompanhante, um homem alto e forte, de trinta anos, em suas vestes brancas. Mas Giorno não reparou, e o homem disse que estava bem e não queria nada.

— Sem problemas. Em breve estará pronto. Venham, por aqui — Giorno sinaliza para seu empregado, que se retira em direção à cozinha. Enquanto isso, ele guia os visitantes pelo caminho que acabou de fazer quando foi recebê-los.

Os três se sentam no escritório, e Koichi fica muito impressionado com a aparência do lugar.

— Então, vamos logo com isso. Por que nos chamou aqui? — Jotaro encara Giorno com uma expressão séria, mas não rude.

— Queria agradecê-los — responde o menino, sorrindo de leve.

— E qual seria o motivo?

Giorno muda a direção de seu olhar para encarar Koichi.

— Bem, posso dizer que não teria chegado até aqui sem a visita de seu amigo. Ele podia ter me impedido, ou até mesmo me eliminado. O pequeno rapaz se espanta:

— Eu nunca faria uma coisa dessas!

Jotaro volta a encarar o menino.

— ...a não ser que fosse extremamente necessário.

Giorno percebe o nervosismo na fala do menino. Imagina que seu parceiro deva ser bem rigoroso. E então, continua:

— Mas não fez nada disso. Conseguiu enxergar meu lado e me entender. Você é uma boa pessoa, e também pôde ver isso em mim. Por isso, sou grato.

— Ah... É verdade! Mas apenas segui as instruções do Jotaro, hehe.

E nesse momento, o amigo de Koichi apresenta uma feição pesada e ranzinza:

— Dá um tempo. Agradecer? Poderia ter feito isso com uma ligação. Diz logo o que você quer com a gente.

Até mesmo Giorno ficou surpreso. Alguém bateu à porta, avisando que o lanche do menino estava pronto.

— Muito bem. Koichi, pode ir, por favor — Disse Giorno enquanto se inclinava mais à frente na cadeira.

Os olhos do pequeno garoto passearam pelos rostos dos outros dois, e então ele decidiu que era melhor ir para outro cômodo, mesmo. Ele não sabia o que seria discutido ali, mas pensou ser algo realmente importante. O som do funcionário fechando a porta após Koichi se retirar foi seguido por um momento de silêncio, juntamente com uma tensão que pairava no ar.

— Por que mandou o garoto me encontrar? — Começou Giorno.

— Hm. Como eu imaginava. Mas isso realmente importa a essa altura? — O homem disse, rispidamente.

Giorno se ajeita na cadeira, colocando as mãos sobre a mesa, que o separava de Jotaro.

— Eu, Giorno Giovanna, tenho um sonho. E mesmo o realizando, ainda sinto conflito em mim. Coisas que preciso compreender para poder me libertar totalmente e me dedicar ao trabalho.

— E você acha que eu tenho algo a ver com isso...? — Jotaro cerra seus olhos, e o garoto volta a relaxar, com um olhar esperançoso.

— Exatamente. Na verdade, eu apenas torço para que sim.

Jotaro também fica confortável em sua cadeira, e então começa a olhar ao redor, enquanto respirava fundo, até retornar o olhar para o jovem mafioso. Ele levanta seu braço e aponta para o rosto de Giorno:

— Seu cabelo. Nem sempre foi assim, não foi?

O garoto esboça um sorriso, subitamente aliviado.

— Heh, eu sabia. Você sabe de alguma coisa, não é?

Jotaro faz uma pausa. E então, continua:

— Conheci seu pai.

O rapaz mudou completamente de postura. Boca e olhos bem abertos por alguns instantes, enquanto quase saltava para frente, dizendo em um tom alto de surpresa:

— Meu pai? O biológico?!

O homem continua:

— Exatamente. Mas não se anime, não pode conhecê-lo. Ele está morto.

O garoto volta a relaxar um pouco mais e olha para baixo, lentamente.

— Oh... sim. Eu já suspeitava disso.

— Suspeitava?

— Minha mãe nunca o mencionou. Mas tive um pai adotivo, que por sinal, não fazia bem seu papel. Nunca consegui contar para minha mãe sobre as coisas que ele fazia comigo. Até que eu não precisei mais contar.

— Sinto em dizer, mas seu pai também não era um exemplo de pessoa. Era um assassino. Se aproveitava das pessoas para poder realizar tudo o que almejava. Hm… Ele realmente mudou a vida da minha família por completo. Mas não precisamos mais nos preocupar com isso, depois do fim dele.

— Esse é o tipo que eu mais odeio. Espera, mudou a vida de vocês? Como? — Disse Giorno, muito curioso.

— Não passei muito tempo com ele, mas meu avô me contou tudo o que o melhor amigo do avô dele lhe contou. Eles eram meio-irmãos.

O jovem novamente se espantou.

— Meu pai e seu trisavô? Então quer dizer que também sou da família, em parte?

— Talvez mais do que apenas em parte, garoto.

— Agora estou realmente ficando confuso.

— Seu pai, Dio… Ele tinha certas habilidades. Muito peculiares e incomuns.

— Já entendi! De alguma forma isso foi passado para mim. Sei que posso confiar em você, então estou sendo sincero. Minha equipe também tem poderes. Este é o meu.

E então, Jotaro teve o vislumbre do ser humanoide que suavemente surgiu ao lado de Giorno, esguio e com sua beleza dourada incontestável. Jotaro estava visivelmente impressionado.

— Koichi havia me contado sobre você ser um usuário de stand.

— É... Ainda não sei exatamente como é possível, ou porque pessoas conseguem tê-los naturalmente, apesar de alguém ter me explicado suas origens. Mas existem vários deles por aí.

— Sei muito bem como é — Jotaro consentiu, e imediatamente depois, em um pulo, disse:

— Espera… Alguém te explicou?

Giorno não respondeu. Ao invés disso, o encarou, com uma expressão duvidosa. O que um homem adulto, aparentemente comportado e que age dentro da lei saberia sobre essas habilidades, tão usadas pelos gangsters? Por algum motivo, entretanto, Giorno nem pensou na possibilidade de Jotaro não enxergar seu Gold Experience. Apenas parecia algo natural.

— Sabe mesmo? Porque eu tive bastante experiência com...

Nesse momento, sua fala é interrompida por Jotaro, que revela seu próprio stand ao menino, que então diz:

— Eu devia ter imaginado... Como é bonito! O que ele faz?

Enquanto perguntava, Giorno pegou uma caneta em sua mesa e a transformou em uma linda e delicada borboleta, com asas lilás.

— Criação de vida? Interessante. Bem útil também. O meu é forte. E rápido. Muito.

— Só isso? — Imediatamente depois de terminar sua pergunta, Giorno é surpreendido por Jotaro, que aparentemente se teleportou para atrás da mesa, logo ao seu lado. Então, ele se inclina, apoiando uma mão no encosto e a outra no braço esquerdo da cadeira de Giorno. Perguntou com autoridade:

— Quem te fez a explicação sobre os stands?

Depois de alguns segundos de silêncio, Giorno responde, tranquilo:

— Impressionante. Já tive grandes problemas com manipuladores de tempo.

O garoto subitamente desvia o olhar para o canto, abaixando seu tom de voz ao fim de sua fala. Curiosamente, Jotaro reproduziu uma expressão extremamente parecida, demonstrando um novo peso em seu olhar, com um semblante melancólico, e então se afastou. Giorno não percebeu essa mudança, ambos presos em seus devaneios momentâneos. Após essa ligeira pausa, recolheram seus stands. Jotaro permanecia de pé, agora observando o lado de fora pela janela do escritório.

— Mas... É mais complicado do que isso. Dio realmente tinha um stand, mas não era seu único poder. Não achou estranho ele ter conhecido meu trisavô, que viveu no século retrasado?

— Oh, achei que era o poder do stand dele.

— Não, isso veio muito, muito tempo depois. Se importa de ouvir uma longa história?

— Foi para isso que os chamei aqui, senhor Kujo — e sorriu de leve. — Mas antes, deixe-me responder sua pergunta. Um amigo me fez a explicação. Ele está aqui, mas em condições especiais.

Jotaro se vira para o garoto:

— Especiais? Como assim?

Giorno se levanta, e se aproxima de Jotaro, o encarando.

— O senhor acredita em fantasmas?

— Mostre-me.

***

Jotaro se sentou enquanto Giorno foi em busca de alguma coisa em outro cômodo. Alguns minutos se passaram e Jotaro começou a olhar seu relógio, quando o garoto retorna ao escritório, carregando algo em suas mãos.

— Aqui está — disse ele.

Depois de esperar alguma informação a mais que não veio, Jotaro pergunta, visualmente confuso:

— Um jabuti? Esse é seu amigo?

— Não exatamente — respondeu Giorno. — Ele está dentro dele, na verdade.

O garoto ergue os braços e os estica na direção de Jotaro, o jabuti tranquilo. Então, ele percebe algo estranho. Podia jurar que via algo com uma cor diferente saindo da chave presa ao animal. Chave presa ao animal? Mas antes que pudesse se questionar sobre isso, esse algo toma forma. Uma forma familiar.

— Céus... Eu não acredito! Giorno, você disse a verdade! Eu tive que ver com meus próprios olhos! Jojo!

Jotaro estava totalmente chocado. Levantou num pulo, quase derrubando sua cadeira, perdendo um pouco do equilíbrio. Ficou um tempo assim, observando o pequeno fantasma em sua frente, que o encarava com um grande sorriso.

— Jean... Pierre... Polnareff — E fez uma pausa antes de completar, sorrindo: — Desgraçado sortudo.

O fantasma assentiu, cruzando os braços e dando uma gargalhada:

— Você não deve ter mudado nada, não é?

— Hm... — Jotaro não conseguiu disfarçar sua felicidade. Mostrava um sorriso sincero, que raramente tinha oportunidade de expressar. Ele não imaginava que veria o amigo novamente, depois de tanto tempo. Ele ajeita o boné:

— Não sou o único com uma história para contar aqui, pelo jeito. Então começarei logo.

Giorno começa a voltar a seu assento, sem fazer nenhuma pergunta sobre o aparente reencontro que acabara de presenciar. Teria tempo para isso depois. Ele se senta no lado oposto da mesa, e deixa o jabuti sobre ela, com o fantasma parecendo ansioso pelo que escutaria a seguir.

— Isso vai ser bem esquisito. Mas acho que você já está um pouco acostumado com coisas assim, certo? — Perguntou Jotaro. O garoto concordou com a cabeça. Polnareff também estava curiosíssimo. Então, ele continuou:

— Certo. Lembra do meio-irmão de seu pai? Seu nome era Jonathan. Jonathan Joestar.