A Tela Atrás do Espelho
2 Crociati moderni
Pessoas têm dualidades. O que diferencia uma pessoa boa de uma pessoa má? Talvez suas ações seja o fator principal. Alguém faz algo ruim, ela é ruim. Alguém faz uma boa ação, ela é boa. Mas apenas uma ação é o suficiente para determinar isso? Ou seria uma série de repetições? Malvadez atrás de malvadez, heroísmo atrás de heroísmo... Talvez assim fique mais fácil para fazer a classificação. "Classificação". É cabível utilizar esse termo em relação a algo tão irregular e imprevisível como o comportamento humano? Do mesmo jeito que se faz com informações? E quanto ao sangue? A genética tem sua parte nisso? O ambiente onde a pessoa vive, as pessoas com quem ela tem contato e se relaciona... Também seriam uma influência?
Esses são pensamentos que passavam pela mente de Giorno Giovanna, o jovem chefe da mais renomada máfia italiana, ainda naquele dia ensolarado, em Nápoles, 2001.
Algumas coisas eram duras de se ouvir, mesmo tendo passado pelas coisas que ele passou. "Quem matou seu pai fui eu". "Ele tirou pessoas queridas de mim". Ele não tremia daquele jeito há um tempo. Tal frieza também podia ser encontrada nele, pensou. Lembrou dos crimes que cometeu, das pessoas que matou, ou ordenou que matassem. Também já se aproveitou das fraquezas de outros. "Ele se apossou do corpo de um bom homem, logo após de o ter assassinado". E com esse corpo, Giorno foi gerado.
Leal, companheiro, gentil, forte, inocente, bondoso. Segundo Jotaro, essas são características que descreviam Jonathan Joestar, e então se lembrou de alguns de seus próprios traços, o levando a ainda mais reflexão. "O quanto de Jojo há em mim? O quanto de Dio há em minhas ações?". A ideia de estar sempre preso a duas personalidades extremamente opostas o atormentou. "Sou o resultado desse desastre. Fui o produto de uma irregularidade na natureza humana".
***
— Pode perguntar sobre qualquer coisa. Prefiro que tire todas as dúvidas a ter que me chamar até aqui de novo.
— Acredito que isso seja tudo, senhor Kujo. Fico imensamente grato pela sua paciência e por suas explicações.
— E o Koichi está...?
— Ah, claro — Giorno chama pelo seu empregado, dizendo para levar o estudante até eles, novamente. Após chegar, Koichi comenta, sorridente:
— O lanche estava ótimo. Muito bom mesmo! Muito obrigado, hehe.
— Fico feliz em ouvir isso. O pessoal da nossa cozinha é realmente muito talentoso.
O empregado percebe o comentário do chefe e o responde num tom baixo, se inclinando e levando a mão à boca:
— Senhor, os biscoitos foram comparados no mercado pelo Mista há uma semana...
Giorno soa um pouco preocupado:
— Oh... Acho que podemos dizer que ele tem bom gosto, então! Espero que não fique irritado de ter perdido os favoritos dele, inclusive — Respondeu, um pouco preocupado.
Jotaro e Koichi se encaram, não sabendo o que acrescentar à conversa no momento, até que Giorno a retoma, se levantando:
— Pois bem. Posso levá-los até o portão.
Mais e mais decorações eram notadas pelos visitantes, com muitos quadros e esculturas de anos atrás. Se perguntavam se eram roubados ou não. Ao passarem perto da cozinha, um cheiro agradável encheu os pulmões de todos, que imaginaram o que estaria sendo preparado ali. Curiosamente, não viram nenhum tipo de arma ou outros equipamentos que poderiam ser fáceis de se encontrar em uma sede de uma gangue. Tudo era bem organizado e limpo. Pensaram em salas secretas, ou que simplesmente o lugar de guardar essas coisas não fazia parte do caminho até a porta. Jotaro se lembrou do que foi mencionado antes sobre os membros serem usuários de stand, então talvez eles realmente não precisavam de mais nada. Curiosamente, enquanto pensava nisso, ele avistou diversas balas jogadas em um canto, em cima de uma mesa em um dos quartos com a porta aberta. "Parecem ser de alguma arma pequena", pensou. Mas por que deixá-las assim, desorganizadas? Com o ritmo da caminhada, mal teve tempo de reparar que todo o resto do cômodo também estava bagunçado. Depois de passarem pelo jardim, finalmente, a entrada.
— Não posso agradecer o suficiente por terem vindo — disse Giorno, já do lado de fora.
— Ah, não foi nada! Fiquei com muita saudade dessa cidade desde a minha última visita.
Koichi teve dificuldade em puxar sua mala enquanto passava pela entrada. Jotaro complementou:
— É, a cidade é bonita. Sempre quis visitar a Itália, então também foi uma boa desculpa para vir.
— Que bom que gostaram, então. Sr. Kujo, Sr. Hirose, seus esclarecimentos realmente me iluminaram. Vejo vocês na minha próxima viagem! Estarão no Japão, certo? Faço questão de conhecer Morioh, um dia.
Depois de ficar sem graça pelo jeito que Giorno o chamou, Koichi respondeu:
— Ah, com certeza eu vou estar. Mas acho que o Jotaro não, não é?
Jotaro olha rapidamente para Koichi, como se ele tivesse dito algo que não devia.
— É... Eu estou para ir aos Estados Unidos. Mas vai ser uma visita breve.
Então, Giorno vê Mista e Trish retornando pela rua ao longe, mas estão tão focados em suas conversas, que ainda não perceberam os rapazes na entrada.
— Tudo bem. Vocês têm meu contato, de qualquer forma. Podem contar comigo e com minha equipe para qualquer coisa que acharem necessário.
— Pode deixar. Vamos, Koichi. Precisamos ir pro hotel deixar as coisas.
— Tchau, Giorno! Bom te ver de novo! — Disse o garoto, enquanto acenava e começava a se afastar.
Os dois passaram pelos membros da gangue em seu caminho de volta. Quando Mista resolve prestar atenção no caminho, vê Giorno terminando de acenar.
— Ei, Giorno! Estava falando com alguém?
Ele soa meio receoso com a resposta:
— É... Alguns amigos vieram fazer uma visita.
Trish e Mista se encaram. Era estranho demais Giorno ter outros amigos. Ela continua:
— Por acaso eram aqueles caras esquisitos? Um estava praticamente todo de branco, com um boné rasgado. E acho que também vi um anão com ele...
Mista deu uma gargalhada:
— Anão?! Não acredito que perdi isso! Por que não me mostrou?
— Ué, achei que tinha percebido! Eles estavam tão diferentes de todo mundo...
Giorno interrompe:
— Gente, gente. Não era um anão, eram meus amigos. Um estudante e um pesquisador.
— De onde você conhece essa gente? — Perguntou Trish, com um tom de estranheza.
— Olha, eu posso falar depois, mas não é nada demais. E aí, fizeram o que pedi?
Mista muda para uma postura mais soberba, com um sorriso ao responder:
— Aham! Vai ficar pronto em uma semana.
Trish comentou, contente:
— E o trabalho dela é incrível! A gente passou bastante tempo analisando as amostras dela. Ou pelo menos eu fiquei. Esse aí ficou o tempo todo de papo com a moça.
— Ei!! Eu só estava...
Giorno aperta os olhos com os dedos, quase impaciente:
— Tudo bem, tudo bem. Fico muito grato. Agora, vamos entrar.
“Uma semana? Será que eles não a pressionaram demais?”, foi o que Giorno pensou. Mas talvez não importasse tanto. Ele deixa os amigos irem na frente e então para por um momento. Ele se vira, e encara toda a rua à sua frente. Repara em cada cidadão, cada trabalhador, estudante, criança e idoso que pode ver, e então fecha os olhos, respirando bem fundo. "Estamos progredindo, meu amigo... A mudança já começou."
— Ei, Giorno! Vamos logo. A gente tinha combinado de ensaiar a dança, lembra? A Trish já pegou o jeito.
— Ah... Claro, já estou entrando. Mas tem certeza de que é necessário eu aprender isso?
Mista gritou, já longe no jardim:
— O quê? Claro que é! E você ainda é o chefe. Já vou pegar o disco para a gente.
"Acho que não tenho como escapar hoje". Giorno finalmente entra e fecha o portão. Percebeu que já era uma pessoa diferente ao passar pelo jardim agora, do que quando fez o mesmo caminho para dar adeus aos visitantes.
No final, o sangue não tinha a ver com isso. Nem a genética, ou o passado. Dio e Jonathan podem até viver nele, mas não o controlam. Giorno percebeu que não era uma aberração, mas sim que era válido. Nunca cruel e nunca covarde. Há contraste em todas as pessoas. Seus amigos da organização não eram diferentes dele por causa de sua origem. Para ele, seus feitos foram válidos para que a restauração da sociedade fosse realizada.
Enquanto passa fazendo o caminho de volta, uma brisa bem fresca atravessa o local, balançando seu cabelo e toda as flores dali. Giorno desenvolveu um grande afeto pelo vento depois de tudo o que aconteceu. Para ele, era o momento onde podia ter contato com aqueles que se foram. Era quando seus espíritos se tornavam tangíveis e podiam ser sentidos por todo o ambiente. Claro que eles sempre estariam em suas lembranças, de todo modo. A cada brisa, vinha determinação, motivação e refúgio. Consolação. A cada ventania, ele parava de tremer e voltava a se concentrar. O vento dourado daqueles que fizeram a jornada nunca os deixariam de lado. "Chega de reflexão", pensou. "Tenho uma dança para aprender".
***
— Ei, Jotaro. Você chegou a dizer o motivo da ida aos Estados Unidos?
Eles continuam andando pelas ruas, em direção ao hotel. Jotaro demora um pouco para responder.
— Eu preciso ver alguém. E gostaria de levá-la para Morioh, para a gente passar mais tempo juntos. Até as coisas se ajeitarem, pelo menos. Eu tenho estado meio... distante.
— Oh, sim.
Koichi não esperava uma resposta tão direta do amigo, para falar a verdade. Mas sua natureza reservada às vezes dava espaço para esses momentos. Assim, ele sabia que eram verdadeiramente parceiros e amigos. E ficava feliz por isso. Mas também não arriscou perguntar quem era a pessoa. Sorriu, e os dois continuaram o caminho.
***
Uma semana depois, Mista e Trish trazem a encomenda em uma bolsa comum. Ao chegarem na sede e procurarem por Giorno, eles tiram algo envolto em um fino plástico transparente de dentro da bolsa.
— Parece chique... Para quem será que é? — Perguntou Mista.
— Eu não acho que seja para alguém... Não recrutamos ninguém nos últimos dias. Na verdade, estamos caçando os que se recusaram a mudar, né.
Os dois continuaram a se encarar com um ar de curiosidade nos rostos. "É melhor a gente guardar e levar até ele", pensou Trish. Mas um pouco tarde demais. Giorno sai de um corredor e chega na sala, avistando os dois pararem de fazer o que estavam fazendo e rapidamente colocarem a bolsa em cima de uma mesa em frente, desajeitados, com o produto meio para fora.
— Ah, então está pronto! — Disse Giorno, sorrindo empolgado.
Mista, aliviado pela reação do amigo, disse sobre a costureira ter ficado bem feliz com o resultado, e Trish perguntou para ele o que exatamente seria aquilo. Giorno apenas disse que eles saberiam, no final da tarde daquele mesmo dia.
Chegada a hora, Giorno pediu para todos se reunirem no jardim atrás do estabelecimento. Ele já estava lá quando Trish e Mista chegaram, e para a surpresa deles, seu chefe vestia algo um pouco diferente. Seu novo traje era exatamente igual ao antigo, porém agora estava com uma coloração diferente. Não mais rosa ou preto, mas sim branco. Um branco bem forte. Todos os detalhes estavam em dourado, com pequenas joaninhas em preto espalhadas por seu comprimento, iguais aos seus broches.
— O que acharam? Acho que estou mais parecido com um capo, agora — Giorno disse enquanto sorria para os amigos, os braços levantados para mostrar a roupa nova.
Era curiosa a mistura de surpresa e emoção no rosto de seus amigos. Trish ficou com os olhos brilhantes. Mista não escondeu a empolgação, e disse que o amigo estava realmente elegante. Chegou mais perto dele e disse:
— É, mas você não é nosso capo. É nosso chefe, agora.
Trish também se aproximou de Giorno e segurou suas mãos. Ela não precisou dizer, mas havia realização em seu olhar. Sorrindo, perguntou:
— Seu sonho. Acho que pode considerá-lo como realizado. Não é?
Giorno fica sério. E então continua, em voz baixa:
— Ainda falta uma coisa. Alguém. Deve estar atrasado.
Giorno se vira e caminha até o fim do jardim, devagar e sentindo cada passo. Os amigos o acompanham. Subitamente, suas expressões tomam uma forma mais triste e pesada. Olhando para baixo, é possível ver um espaço muito florido, cheio das mais diversas plantas e cores. Três estruturas também estão ali, feitas de uma pedra muito bem polida e com inscrições nelas. Mista estava prestes a se abaixar quando notaram alguém se aproximando. Ao virarem, apenas Giorno não se surpreendeu com o que viu.
— Você... O que pensa que está fazendo aqui? Como sabia disso tudo? — Bradou Mista, furioso.
Giorno acalmou o amigo segurando seu ombro:
— Fui eu. Eu o chamei aqui. Vamos lá, Mista. Não é justo?
Silêncio. A tensão no ar era angustiante, e nenhuma palavra foi dita. Aliás, nenhuma palavra foi dita entre eles até todos se retirarem dali após o pôr do sol. Mas antes disso, o momento de olhares sérios e penetrantes continuou. Trish também se aproximou do amigo exaltado, mas percebeu que seu sentimento já era outro, com lágrimas escorrendo do rosto. Mista assentiu, fungando e passando a manga em seu nariz.
Fugo continuou a se aproximar dos antigos parceiros. Ele trouxera flores, e as entregou a cada um, relutante. Foi recebido com um sorriso acolhedor a cada momento que parava para entregá-las. Novamente, nenhuma palavra. Nada precisava ser dito ali. Ele não sabia se fora perdoado, e nem sabia se precisava ser. Mas isso não importava mais. Com o céu laranja, muitas nuvens e um vento repentino, eles continuaram a cerimônia:
Leone Abbacchio
★ 1980 — † 2001
Bruno Buccellati
★ 1980 — † 2001
Narancia Ghirga
★ 1983 — † 2001
Era o que podia ser lido nas escrituras das lápides. À esquerda, a de Abbacchio, onde cada um deixou sua flor, muito lentamente, como se aquele fosse o momento onde finalmente tiveram a oportunidade de se despedir do parceiro. No meio, a de Bruno. Giorno lembrou de suas últimas palavras, e mais tarde contaria aos amigos sobre a despedida de seu antigo capo. Giorno permaneceu ali enquanto os outros procederam para a direita, onde estava Narancia. Trish não conseguiu segurar as lágrimas, e abraçou Mista, também muito sentido. Mas foi Fugo que desabou, de joelhos, e levou as mãos ao rosto, chorando pela primeira vez em muito tempo. Era impossível não se lembrar dos últimos momentos com o amigo, que quase ficou ao seu lado, quando parecia loucura continuar seguindo os passos de Bruno. Ele odiava estar certo. Deixou suas flores ali, e suavemente passou a mão na lápide, com a outra secando o seu rosto. “Vou sentir sua falta, meu amigo”, era o que pôde ser lido em seus lábios.
***
No começo da noite, todos estavam dentro do estabelecimento, desfrutando de um lanche bem farto. Mista era o que mais comia, e Fugo adorava as bebidas. Eles tinham muitas conversas pela frente, para colocar as aventuras em dia com o amigo recém-chegado. Giorno estava prestes a dizer algo, quando Mista disse para Trish, se inclinando:
— Ei, você acha que humanos têm um gosto bom?
Todos olham para ele. Trish ficou confusa. Ouvira o que o amigo disse, mas não tinha certeza se havia entendido. Antes de questionar o motivo da súbita pergunta sem contexto aparente, Fugo bate com o punho na mesa e diz:
— Não! Não isso de novo… — E então se debruçou frustrado sobre a mesa.
— De novo o quê? — Giorno, Trish e Polnareff perguntam, em uníssono.
Mista segue com seu raciocínio.
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