A Tale of Efraria: Sharp Teeth
5 Capítulo 2: Necrófaga Canibal
Notas iniciais
30 de Março – Toca da Silver – Primavera
Com o realce do sol nascente seus raios adentraram o esconderijo de Silver, revelando as novas bolinhas de pelo que agora também residiam ali na toca. Durante suas primeiras semanas de vida os filhotes não possuem capacidade olfativa, auditiva e são completamente cegos. Assim todos os cinco só possuem em mente beber que sua mãe lhes proporciona, por até um mês se necessário, mas podem ser desmamados antes.
Dotados de pequenos corpos eles amontoavam na barriga de sua mãe, lutando um com os outros para conseguirem um local fixo. A fêmea mais velha da ninhada, que recebeu o nome de Amora, mostra clara vantagem em tal aspecto por ter sido a primeira a nascer, seguida por Lótus, a irmã do meio, e por final a pequena Dália que lutava para conseguir se amamentar. Nenhuma das crias tinha um pelo muito notório, estavam quase peladas na verdade, então suas cores ainda eram indecisas, sendo cobertas por uma leve pelagem prematura acinzentada.
O cantarolar dos Picanços mostra a Silver que a vida já raiara, logo trazendo consigo as responsabilidades que vem com ser uma mãe solteira por aquelas bandas, essas que só se intensificam conforme a loba se levanta e marcha em direção a vegetação rasteira da porta de sua toca, deixando suas filhas resmungando em chiados de irritação. Localizada fora do território das duas grandes alcateias, sendo reclusa em uma pequena região fora de sua floresta natal, Silver não precisa se preocupar com invasores, porém, a mesma está ciente da existência de outros lobos isolados que não hesitariam em matar sua prole. Tais predadores geralmente ficam agrupados em matilhas de até três lobos, geralmente com ligações familiares. A leve brisa da manhã traz consigo alívio para a nossa mãe, agora ciente que as terras adiante estavam limpas de competidores, mas com o avanço contínuo das alcateias o confronto com outros lobos seria inevitável, assim como coiotes e até ursos que eventualmente os atacariam.
Embora tudo soasse tranquilo um problema ainda ecoava na cabeça de Silver. Suas filhas precisavam se amamentar em sua primeira semana para abrirem os olhos, mas seus seios estavam quase secos devido a sua atual condição esquelética. Para gerar leite ela precisaria ingerir uma constante quantia de carne diariamente, mas o seu leque de possíveis presas era limitado, tirando o fato do seu novo território não ser disputado por ser considerado escasso. Se ela quisesse encontrar alguma coisa precisaria sair de sua toca, mas suas filhas não estavam preparadas para ficarem sozinhas sem nem ao mesmo abrirem seus olhos, mas se não fizesse, provavelmente sua prole não sobreviveria nem a primeira semana de suas vidas. Agora Silver se encontrava em um dilema, se saísse de sua toca os seus filhotes ficariam vulneráveis, mas se ficasse eventualmente iria faltar leite e se alimentar de pequenos roedores não lhe daria sustância o suficiente para alimentar todos, já caçar grandes cervídeos lhe daria ao menos as energias necessárias para produzir grande quantia de leite por muito tempo, mas corria o risco de voltar sem nada ou até ferida, tal decisão poderia ditar o futuro de seus filhotes para sempre, traçando a tênue linha entre o fracasso e o sucesso de uma mãe solitária nas florestas temperadas.
Ao longe, um odor se intensificou ao ser trazido pelo vento uivante, para Silver aquilo era um sinal tanto repugnante como ameaçador, mas ele foi o suficiente para fazer ela dar meia volta e desistir de sua expedição de caça para guardar seus filhotes. Coiotes representam uma porcentagem relevante da morte de filhotes de lobos, cuja intenção é destruir o que futuramente seria competição e ameaça aos mesmos e suas proles, rápidos e ágeis são difíceis de serem capturados, podendo andar em grupos de um a cinco indivíduos. Embora não seja tão comum os coiotes vão roubar as presas dos canídeos maiores se estiverem em maior número, e com certeza a presença deles nem de longe é benéfica para a progenitora, que escolheu ficar retida por mais um dia.
Se deitando sobre o forro de folhas ressecadas que acabou pegando no solo dos pinheiros mais ao sul, a loba deu passagem para as suas pequenas filhas voltarem a se alimentar por ora. As personalidades das pequenas ainda não haviam desabrochado, eram claramente instintivas e nem se quer conseguiam ver os seus arredores, sendo sua existência claramente baseada em resmungar para chamar a atenção de Silver ou empurrar a pequena Dália para fora da barriga da progenitora, resultando em choramingos irritantes e um rosnado da loba, que tentava controlar sua prole, mas já estava falhando nesse quesito.
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30 de Março – Floresta de Efraria – Primavera
Quando o luar já pairava aos céus a loba fez seu caminho para fora de seu santuário, enquanto seus filhotes dormiam. A floresta noturna havia acordado, passando certa serenidade para as almas que vagavam por essas terras isoladas, sozinhas na escuridão, mas algo ainda conturbava Silver, a obrigando não ir muito longe de sua toca, provavelmente insegurança ou pressentia algo, mas ela não tinha escolha a não ser fazer ao menos uma patrulha de reconhecimento.
Entre as folhas secas os uapitis faziam seu caminho até as planícies que ficavam no terreno mais baixo, como de costume, mais atrás contra a direção do vento eram seguidos por Silver, que os analisava. A manada era média com cerca de vinte e dois indivíduos, todas fêmeas com seus filhotes, que estavam começando a amadurecer, mas já eram grandes o suficiente para saberem se defender contra predadores menores, mas não contra um lobo raivoso. A ausência do grande macho da cicatriz se resume ao fato que os machos se afastam da manada quando sua função para procriação não é requisitada, vivendo em um pequeno grupo de ‘’ solteirões’’. Entre elas, Selene trocava carícias com a sua filha ao lamber suas orelhas, mas a mesma estava mais interessada nas folhas suculentas de uma pequena sequoia, se atentando a se virar e bater na árvore com seu casco, mostrando para sua progenitora que ela também deveria estar se alimentando, resultando em uma bela cena de mãe e filha comendo lado a lado folhas e pequenas tiras de caule, iluminadas pela noite clara.
Para não ficar à mercê de seus vizinhos Silver terá que aprender mais sobre os mesmos, ela precisa identificar seus pontos fracos e ver além dos armamentos pesados e da grande muralha de carne que protegia a manada com imponentes cascos altamente letais, que nunca seria uma presa viável tão cedo. Se quiser ter uma chance de sobrevivência ela terá que se especializar em detectar e explorar tais fraquezas para o seu próprio benefício.
Com a lua crescente a observando e guiando logo acima ela estava determinada, observando da escuridão com olhos cintilantes, se tornando invisível em meio ao manto da noite. Aquele dia ela não se atreveu a caçar, mas sim estudou a manada e localizou possíveis presas, jovens, velhos, feridos...Mas se sentiu forçada a procurar outras opções, abandonando o rebanho ao trotar para uma rota alternativa, antes que o sol retornasse e os seres que rondavam o parque voltassem ao seu modo alerta.
As planícies mais à frente forneciam um local limpo de vegetação rasteira, ricos em dentes-de-leão que pintavam a paisagem em pinceladas de laranja, mesmo sobre o incansável olhar do astro logo acima. Este era um refúgio não usado somente pelos uapitis, mas como também pequenos rebanhos de veados-mula se alimentavam das flores recém-chegadas da primavera. Tais cervídeos certamente não eram tão grandes, tampouco fortes como seus primos, mas eram incrivelmente rápidos e deixariam Silver desolada com somente poeira em sua face sem pensar duas vezes. Poderiam sim, ser presas viáveis para a loba, mas não naquelas circunstâncias, ela precisava continuar patrulhando ou suas filhas viriam a sucumbir, voltar de barriga vazia não era uma opção.
Um ruído em meio a mata chamou atenção das aguçadas orelhas de Silver, que na ponta dos pés se moveu entre as sombras das coníferas para um recanto oculto na floresta. Logo a sua frente, uma raposa-vermelha, astuta predadora da região, fitava o que parecia ser um buraco no chão, feito pelas habilidosas ratazanas-do-prado, que trabalhavam dia e noite em túneis logo abaixo do solo em grandes grupos. O canídeo menor analisava cautelosamente aquele viveiro, sentindo com suas narinas e audição onde os pequenos ratos estavam, e então, a raposa se impulsionou em suas patas traseiras, saltando enquanto adotava a forma de míssil com as dianteiras, rompendo assim o solo e agarrando uma das ratazanas enquanto a mesma tentava fugir de suas mandíbulas, se afastando logo depois para se alimentar em paz.
Se uma raposa havia conseguido certamente Silver conseguiria, pensara, mas a loba não tinha totalmente certeza enquanto ouvia os pequenos roedores em pânico, abaixo do solo. Precisaria se concentrar, depender de sentidos que para sua alcateia nunca foram úteis, devido a sempre caçarem cervídeos grandes e fáceis de serem rastreados. Suas orelhas se moviam com o mais leve chiado, se contorcendo em direção do barulho conforme a progenitora progredia seus passos na direção dos sons, usando as suas fofas almofadas em suas patas para abafar qualquer ruído. Se colocando a postos a loba saltou com toda a força que tinha em suas patas traseiras, imitando o movimento da raposa enquanto fazia mais um buraco na fortaleza dos roedores, mas ao enfiar sua face no solo apenas sons agudos de desespero foram ouvidos, que claramente não eram dela, e a mesma retornou com somente lama em seu focinho e uma face frustrada, era mais difícil do que parecia.
Silver era obstinada e com um rosnado saltou novamente, sem sucesso, as ratazanas haviam fugido, mas não poderia se abalar. Tentara mais uma vez, agora do outro lado da fortaleza, mais uma vez sem sucesso, provavelmente teriam fugido ali também. Já mostrando seus dentes a loba colocou suas garras em prática e começou a fazer um buraco em direção ao subsolo o mais rápido que conseguia, sua paciência com aquela caçada já havia se esgotado e ela só tinha seu prêmio em sua mente, que por um golpe de sorte acabou abocanhando uma das ratazanas retardatárias, um pequeno prêmio, mas o suficiente para produzir leite, mas ainda faltava uma lição para a mãe novata, tudo o que vem fácil também vai fácil.
A loba sentiu uma mordiscada em sua perna e se virou mostrando os seus dentes para um coiote, que se colocou a fugir no mesmo momento que deu de cara com a progenitora raivosa. Mais uma mordida, mais um incômodo do que algo que lhe machucara, mas não tinha paciência para aquilo, outro coiote, que se colocou a fugir sem pensar duas vezes, mas o primeiro já estava lhe rodeando pela culatra. Outra mordida, aquilo já estava ficando irritante, se colocou a postos para perseguir o coiote, mas então o primeiro agarrou o corpo da ratazana logo de sua boca, o puxando enquanto a loba estava focada em mostrar uma posição agressiva com rosnados roucos. Passada a perna para trás Silver não pôde fazer nada e somente observou os ladrões fugirem com a sua caça, malditos sejam.
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31 de Março – Sussurros da Noite – Primavera
A fome definitivamente era um favor amedrontador na vida da jovem loba, mas ela não devia comer só por si mesma, comia por quatro, e não se come por tantos animais se você não tem uma fonte de caça fixa. Desesperada, Silver voltou rumo ao sul, onde os grandes e velhos carvalhos a esperavam em sua casa, evidenciando o buraco negro que aquela floresta escondia, privando-se até mesmo do mais claro luar, mas ela já estava mais que acostumada com o breu, havia nascido e crescido nele.
Água, foi a primeira coisa que veio em sua mente conforme sentiu as suas patas se afundarem na lama, seu território natal estava alagado, mas se quisesse achar algo para se alimentar aquela seria sua única chance. Esticando sua segunda pata no lodo, ela continuou seu caminho entre a água rasa e turva, nem se tinha certeza se a mesma não estava contaminada com alguma doença. Guiada pelo seu nariz ela continuou contra o seu raciocínio, a vida de suas filhas dependia disso, mas ela sabia onde havia uma carcaça em potencial, se a mesma já não havia se deteriorado.
O odor empobrecido e angustiante pairava no ar de maneira forte, não era necessária concentração da loba para se deparar com um fígado podre, cujo havia adquirido uma tonalidade amarronzada, estava boiando a sua frente, mas o que viu ao encarar a escuridão evidenciou de onde o mesmo vinha. Uma carcaça bem familiar para a loba prateada, mas estava desfigurada, seu pelo estava escuro, molhado, boa parte já havia caído, mostrando alguns pontos de pele deteriorada. A mandíbula estava inchada e ausente de dentes, parte do seu rosto já havia adquirido uma formação óssea, não havia muita carne ali. Seu estomago estava aberto, mostrando ossadas de costelas, e não era só o seu fígado que estava boiando perto do corpo, também ali estavam tripas, envoltas em um galho de carvalho, impulsionadas ali fixamente pela água quase parada. Silver conseguiu somente identificar a carcaça pelo seu cheiro, era um dos seus antigos companheiros, morto no inverno antes no misterioso desaparecimento de toda sua alcateia.
Enquanto a loba se aproximava da cena digna de um filme de horror, foi recebida por um rugido agudo que ecoou por toda a floresta, causando uma revoada de corvos sob Silver. Dois olhos brilhantes marchavam também em direção a carcaça, exalava o odor de um urso negro, menor do que os renomados ursos pardos que viviam mais ao norte, mas igualmente perigosos, uma patada bem dada poderia abrir o estomago da loba sem muito trabalho. Precisava pensar rápido, e não hesitou, puxou a cabeça do canídeo com toda sua força e devido à carne estar podre a deslocou facilmente, se retirando depressa do local.
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O sol acabara de retornar quando a loba ofegante chegou em sua toca, recebida por resmungos animados de suas filhas que ansiavam por leite. Silver, no entanto estava mais focada em devorar a cabeça de lobo que havia achado, raspando os seus dentes contra os ossos para ver se conseguia consumir mais carne, mas no final das contas, ela acabou sendo obrigada a também comer a estrutura óssea parcialmente, pois seus dentes não eram fortes o suficiente para quebrar grandes partes daquele crânio.
Naquele dia, Silver deu graças que as suas filhas ainda eram cegas, afinal não descobririam que o leite que tomavam naquela tarde vinha da carne de sua própria família, mas desde que elas estejam bem alimentadas, a loba estava bem com a situação, podendo finalmente descansar sabendo que Amora, Dália e Lótus estavam seguras.
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