A Tale of Efraria: Sharp Teeth
6 Capítulo 3: O Fantasma da Floresta
Notas iniciais
31 de Março – Planície de Efraria – Primavera
Sob o sol reconfortante do meio-dia a primavera finalmente deixava seu toque nos campos de Efraria, pincelando a paisagem de diversas cores conforme a flora tão esperada, que anteriormente permanecia em hibernação, finalmente estava exuberante. As calêndulas e dentes de leão cintilavam em brilhos tão dourados quanto a estrela incandescente, fazendo contraste com os linhos e sálvias que faziam círculos púrpura em meio ao mar alaranjado. A vegetação rasteira dotada de grama agora era nutritiva, se materializando também em grandes arbustos que serviam de esconderijo para animais menores, assim como bases para colônias de ratazanas-do-prado e marmotas. Entretanto, o mais atrativo da campina era um grande córrego, fundo, de água corrente que atravessava a mesma, indo em direção aos grandes rios após as coníferas.
Entre a bela miragem um grupo de manchas castanhas fazia seu caminho até o córrego, era o grande rebanho de uapitis, que jamais perderia a oportunidade de se alimentar nessa época do ano, onde conseguiam sua maior carga de energia. Entre eles, Selene, marchava elegantemente em direção a água, se abaixando cautelosamente enquanto bebia, devia ficar alerta, aquele lugar atraia diversos predadores perigosos. Sua filha, no entanto, não parecia muito preocupada enquanto rolava sobre a lama. Os renomados cervos, embora em sua maioria, não eram as únicas espécies que ansiavam por aquele oásis.
Passos pesados eram feitos entre a relva, revelando um odor ardente, entreposto por mugidos inabaláveis. Bisões, aos montes esses bovinos emergiam dos pinheiros. Robustos, imponentes e sadios esses animais certamente não eram o ideal combatente que os indivíduos de Efraria queriam para si, geralmente evitados. Esses pesos pesados, conhecidos como titãs pelos habitantes, eram respeitados e temidos pela floresta e devem receber se espaço pessoal, afinal, não seria a primeira vez que esses raivosos atacavam um indivíduo que só estava pastando próximo aos mesmos. A frente de seu rebanho, uma fêmea vigorosa, mas aparentemente velha, progredia em direção ao grande lamaçal, longe dos cervídeos, seguido pelas inúmeras companheiras e dois machos musculados, um em cada lateral.
Sempre cautelosos, os veados-mula ficam apenas nas beiradas das campinas, próximos às florestas onde podem procurar proteção. Assim como a maioria das fêmeas ali presentes as corças também estavam grávidas, e em pequenos rebanhos solitários elas preferiam ficar perto de um possível refúgio, caso algo aparecesse, e porventura, serem caçadas. Ainda assim, elas não ousavam perder o florescimento da nova flora.
Mesmo necessitando estar em alerta, Lily como todo jovem uapiti já estava de pé e a postos para lutar, seu parceiro, Rony, um macho da mesma idade, trocava cabeçadas com a mesma e se arrastavam pela lama. A fêmea pareceu o superar e com uma última cabeçada começou a correr atrás de seu desafiante em meio ao rebanho, que não parecia muito preocupado com o caos dos seus próprios jovens. Tais brincadeiras eram extremamente importantes para o aprendizado de como se defender, principalmente de predadores, e seriam colocados em prática constantemente.
A cerva então consegue alcançar seu competidor, o dando um toque com um de seus cascos em sua barriga, agora, era sua vez de fugir, e continuariam se não fossem surpresos por um convidado inesperado. Um jovem veado-mula, cuja as galhadas estavam começando a nascer, ao contrário de Rony por mais que ele acreditasse que as tivesse, os desafiou para uma brincadeira de cabeçadas. Lily não era de fugir de desafios, era invicta, e muito menos de um baixinho com cornos. Raspou seu casco na grama, levantando areia e capim conforme se preparava, saltando para frente com sua cabeça baixa, movimento esse que foi copiado pelo cervo, porém, como já esperado, mesmo o macho tendo cornos um veado-mula jamais poderia competir com um uapiti com quase o dobro do seu tamanho. A cabeçada foi certeira, deixando Lily um pouco tonta, o veado caiu duro no solo, desacordado, com um estrondo. O pânico subitamente se gerou no local, fazendo com que ambos uapitis e veados saltassem para longe da situação, principalmente os cervídeos menores, mostrando que muitas fêmeas haviam voltado para a segurança das coníferas.
Selene olhou para a direção contrária em relutância, tentando escapar daquele constrangimento, soltando apenas um ruído agudo de reprovação para sua filha, em alto e bom som, que foi compreendido em segundos por Lily, estava encrencada, e o melhor de tudo, Rony havia a abandonado para receber a bronca sozinha, paspalho! Com a cabeça baixa, ela se aproximou de sua progenitora, mas foi recebida por lambidas em seu ouvido, ao contrário do que esperava, não ia ser repreendida por ser forte. Ela apenas fechou os olhos, aproveitando as carícias enquanto se deitava na lama.
De súbito, Lily foi surpresa pelo vertiginoso movimento de sua mãe, que estava em pé. Orelhas apontadas a postos, olhos concentrados, e não era só Selene, todo o rebanho estava assim, até os bisões e remanescentes veados-mula, fora o nocauteado, estavam alerta. Algo vinha suspirando dos pinheiros, e rápido, mas não era nada a ser temido, porém, deve ser vigiado.
Imensa, seria a melhor forma de a descrever. Dotada de uma pelagem bege e grossa Zarina se movia energeticamente em direção aos campos floridos, acompanhada de Kodiak e Misha, duas bolinhas de pelo que a seguiam de modo mais retardatário, não conseguiam acompanhar a animação de sua progenitora, muito menos sua velocidade, mesmo lenta. Zarina, por ser uma mãe novata, não era nada paciente, e acabou pegando Kodiak, que estava mais atrás, pela sua gola de pelos. No entanto, equilíbrio nunca foi uma das qualidades da ursa, que acabou tropeçando sobre um tronco velho, rolando em direção a paisagem com seu filhote que reclamava assustado em sua mandíbula, onde uma plateia os observava.
Os pássaros estavam quietos e os cervídeos não mostravam reação, todavia, os bisões os ignoravam. Eram mesmo aqueles predadores temidos? Não, Zarina era lenta por mais forte que seja, e muito menos sabe caçar animais de grande porte, pelo menos não com aquela atitude. Lily piscou algumas vezes e olhou para Selene, que ainda permanecia imóvel, somente os acompanhando com os olhos, ela estava mesmo focada naqueles bobalhões, afinal eles haviam acordado fazia pouco tempo de sua hibernação, deveriam estar famintos. Junto aos cervos, Misha compartilhava do mesmo constrangimento, e somente passou reto olhando para baixo e resmungando, enquanto sua mãe estava rolando no capim com Kodiak, o menor com olhos esbugalhados.
A corça olhou novamente para sua mãe incrédula, mas ela viu que Selene ainda estava alerta, mesmo com Zarina não mostrando comportamento agressivo, a jovem era ingênua demais para notar os sutis ruídos e comportamento dos pássaros. Sua progenitora não voltava sua atenção para a ursa, as corças de seu rebanho ainda estavam alertas, olhando para as árvores. Os veados-mula restantes também estavam atentos, e lentamente se afastaram das árvores, ficando próximos aos uapitis por questões seguritárias, esperando ajuda do rebanho de Selene.
A ursa levantou seu nariz para o alto quando notou a reação dos cervos, ela sabia muito bem o que era, mas sua ingenuidade havia deslocado sua atenção para seus filhotes. O odor que vinha com a leve brisa era irreconhecível, com narinas mais funcionais do que as da própria Silver, quatro bilhões de células olfativas trabalhavam em conjunto para decodificar rapidamente o cheiro de carvalho chamuscado e gatária, e o mesmo significava ameaça, principalmente para suas crias. Sem pensar duas vezes jogou Misha em suas costas, que entendeu o recado agarrando sua mãe, e pegou Kodiak em sua mandíbula, que continuava berrando e reclamando, mas a pobre Zarina não tinha tempo para isso, precisava sair dali e o mais rápido possível.
Relutante, Selene se afastou das fêmeas para averiguar a região, e foi seguida por duas de suas companheiras, sabiam que a ursa havia sido usada como ocasional distração, catbirds e estorninhos não estariam calados se essa fosse a situação. Havia um fantasma na floresta, conhecido somente por rumores, poucos saíram vivos das garras daquela aparição. Para a progenitora, isso era uma situação ainda mais estressante, com sua filha vulnerável ela devia ficar alerta, porém, canídeos podem ser avistados ao longe, mesmo contra o vento, elemento surpresa não é necessário para eles, mas tudo muda quando o caçador mia como um gato. O assassino poderia estar em qualquer lugar, e nem mesmo os olhos afiados de Selene, conseguindo enxergar quase que 360 graus, devido aos seus olhos estarem nas laterais, conseguia detectar nada suspeito. Esses animais são traiçoeiros, e era apenas uma hipótese que o mesmo estava na floresta, quando na verdade, a corça não suspeitava que o gato poderia estar vigiando suas costas, lambendo os lábios, ou até mesmo a aguardando em seu lado, pronto para ceifar sua vida.
Um som de alerta ecoou pela planície, os veados-mula já estavam em sua corrida para a floresta, levantando grama e poeira nos cervídeos maiores e nos bisões, que responderam com um mugido agressivo para os cervos, que somente os fez acelerarem. Saltando, eles se consideram mais difíceis de serem pegos em uma perseguição, mas sua única ambição era sair do local, não ficariam depois de misteriosamente um jovem de sua espécie, que estava brincando próximo aos uapitis, misteriosamente desaparecer.
A pequena Lily, com algumas outras corças que haviam ficado no rebanho, estavam horrorizadas do que viram sair das coníferas sorrateiramente, pegar o cervídeo desfalecido, e como uma aparição, voltar para a segurança da floresta sem ao menos ser notado por Selene. A gatuna estava ciente de sua vantagem ao se colocar contra o vento, e teve a sorte de estar estrategicamente próxima do evento, deixando apenas um rebanho assustado que em companhia de seus primos menores, ao notar o desaparecimento do cervo, fugiram dali rapidamente, com mãe e filha aterrorizadas.
─────⋆⋅☆⋅⋆─────
31 de Março – Toca Rochosa – Primavera
Para os herbívoros a aparição em seu santuário era o próprio mal encarnado que viera os atormentar, mas tal ofegante fantasma de pelagem curta, de tonalidade terrora, cuja os olhos eram prateados, não havia nem encostado ainda em sua caça, afinal, estava ciente que Zarina e até mesmo a loba solitária, remanescente da Sussurros da Noite que sempre foi um empecilho em sua cauda, adorariam roubar o seu recém-morto cadáver. Baguara, a puma que reinava aquela região, carregava a carcaça entre as rochas, se aproximando de um pequeno refúgio rochoso, uma fenda em meio ao pé de uma montanha, dotada uma pequena caverna e uma fonte de água em seu interior. Tinha sorte que aquele cervo ainda era jovem, caso contrário jamais conseguiria o levar para seu esconderijo naquelas condições.
Silenciosamente, e checando sua retaguarda para se certificar que não estava sendo seguida, o fantasma gradualmente desapareceu na escuridão da fenda, deixando somente sua longa cauda para fora, que também acabou sendo absorvida pelas trevas. Dentro da sua cova, barulho de goteiras quebravam o silêncio posto no local, até o cadáver ser deitado lentamente e a progenitora soltar um chiado, revelando Harley e Nova, dois pequenos filhotes agitados de olhos azuis, com a cabeça um tanto desproporcional para as grandes orelhas. Sua pelagem era bege-escura, dotada de manchas negras, com direito a duas lágrimas da mesma tonalidade que corriam dos seus olhos ao seu focinho.
A pequena Nova estava faminta, mas foi direto para sua mãe, lhe dando lambidas no focinho enquanto foi recebida por um puxão da pata de Baguara, mostrando uma grande língua pegajosa que arrepiou todo o pelo da pequena. Infelizmente, estava na hora do banho, e o choro de incômodo da pequena era simplesmente ignorado pela mãe. Harley parecia mais interessado na cauda da progenitora, tentando capturar a mesma enquanto Baguara a movia com agilidade, deveria treinar seus filhotes adequadamente, e sabia que isso era uma brincadeira valiosa.
Essa de longe era sua primeira ninhada, com seus onze anos Baguara já estava perto de sua reta final, era considerada uma anciã certamente. Com cinco ninhadas bem sucedidas ela sabia muito bem como guiar e moldar suas crias, estando ciente que essa provavelmente seria sua última, e para quem a puma doaria seu grande território, para adquirir tal feito ela precisaria criar assassinos tão bons quanto ela, caso contrário, seu definitivo legado seria perdido, mais do que nunca sua urgência era transformar aquelas fofas bolas de pelo em furtivos assassinos sanguinários, que por sorte, retinha os meios necessários para tal aquisição.
Fale com o autor