A Song of Elves and Humans
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol começavam a abraçar Larnion em ritmo lento, enquanto o sol preguiçosamente se erguia do horizonte. O grande reino acordava junto à estrela, assim como seu povo, e o povoado punha-se em movimento.
O Castelo Élfico localizava-se no centro do povoado, de modo que todos pudessem aprecia-lo em sua plenitude: gigantescas torres, envoltas à trepadeiras de folhas esmeralda e flores escarlate; suas portas e janelas adornadas em prata; sua estrutura semi-circular em si simétrica ao extremo para algo tão grandioso...
Em algum lugar dentro do castelo, o jovem rei adormecia calmamente, ignorando seu relógio biológico e todos os outros fatores que indicavam que ele precisava despertar.
—Meu rei, você precisa levantar. –Dizia seu escudeiro, enquanto puxava de cima do elfo as grossas cobertas escarlates com linhaças douradas. Um arrepio percorreu seu corpo em resposta, assim que suas vestes de dormir não foram suficientes para conter seu calor perto de si.
O povo acordava junto ao sol; Stan acordava ainda antes.
Não que ele gostasse disso, supunha Kyle, mas ele era seu despertador, e o rei havia de acordar junto ao povo.
—Não é uma necessidade –O Rei finalmente respondera, passando suas pernas para o lado da cama e destruindo a teoria do protetor de que talvez este tivesse entrado em algum tipo de coma -, é meramente um luxo. Tu provavelmente me levaras para a sala de conferência e terei de ouvir aos compradores falando do quão bem a economia vem andando. –Um bocejo interferiu suas falas antes do rei pôr-se de pé – Quanto ao resto do dia, não farei mais nada politicamente produtivo.
O rei esperou, mas somente o silêncio veio em resposta da parte do guerreiro, o que incomodou profundamente o outro: não porque não gostava de silêncio –ele o apreciava, na verdade -, mas porque Stan não era tão silencioso de manhã.
—Calaste-te repentinamente, não me diga que a economia vai mal? –indaga ele, olhando preocupado para o guerreiro, ainda do lado da cama. Este, com um sorriso de deboche estampado no rosto. –Estava debochando de mim! –Indignou-se o rei, jogando seu travesseiro no rosto do outro, que o agarrou e abraçou enquanto ria.
—É cômico como você consegue mudar de “modo realeza” para “modo Kyle” em menos de cinco segundos. –Brincou o outro, recebendo as vestes do rei que se despia e caminhava em direção à sala de banho. –E mostrar-se ao povo, forte e confiante, é politicamente produtivo também, principalmente com uma crise a estourar a qualquer momento.
-A economia vai bem, por sinal.
—Não há como a economia de Larnion ir mal, Stanley. –Respondera o outro, virando-se em seus calcanhares para encarar o protetor – E eu acho que não preciso de proteção no banheiro, então para de me seguir.
—Há a possibilidade de você escorregar e bater a cabeça, vossa majest... –Kyle jogara a ultima peça de roupa com raiva no rosto do protetor e fechara a porta com um baque, provocando risos neste. –Providenciarei sua vestimenta, meu Rei.
—Vai se fuder, Stanley. –Respondera Kyle, imergindo na grande bacia de agua quente.
Não era uma troca tão miserável assim: Da cama quente à água quente. Porém, ele sabia que não podia ficar ali por muito tempo: Stan estava certo. Seu povo precisava dele, mais agora do que nunca.
Um único suspiro tremulo e pesado escapara pelos lábios do elfo, enquanto este, com um mero movimento de mão, guiava a água da bacia em direção à seus cachos avermelhados em uma única linha que dançava pelo ar. Kyle se lembrava da primeira faz que fizera água flutuar, e usou o pequeno filete para perseguir o pequeno Stan, que corria e gritava assustado; no final, ele acabara todo molhado. O rei sorriu ao lembrar da boa memória de infância, fechando os olhos conforme a água escorria pelo seu rosto; quente e relaxante.
Mas agora não era hora de relaxar: O Balofo Rei Mago possuía o Cajado há três anos agora, e mesmo com o suposto controle do universo, não fizera mais nenhum ataque contra Larnion.
Eric Cartman não é o tipo de governador que evita uma guerra só por não gostar de conflitos, muito menos quando está com tamanha vantagem em mãos. Ele é um monarca possessivo, que daria de tudo para conseguir posse dos rios, fauna e flora da Floresta Élfica. Ele teve três anos para atacar, e por três anos nem ao menos se pronunciou.
O Cajado da Verdade é um objeto sagrado, pertencente nem aos Elfos nem aos Humanos, mas à Floresta: Feita de sua própria madeira, o Cajado é a fonte de poder e prosperidade ao grande órgão, e sua saúde era de bom beneficio para ambas as raças: significava comida para ambas as raças, agua, medicina, vestes... Mas Eric Cartman não liga para benefício mutuo; ele liga para beneficio próprio. Se seus inimigos estão tendo algum proveito disso, ele considera uma desvantagem para si.
Então, assim que ele assumiu o trono aos quinze anos, três anos mais cedo do que o normal por conta de uma doença repentina que a rainha sucessora desenvolvera, o primeiro decreto foi um ataque gigantesco à Floresta Élfica e o roubo do Cajado de seu santuário, ambas ações que a Raça élfica ainda não conseguira se recuperar totalmente.
Larnion foi invadida. Larnion foi saqueada. Larnion teve parte de seu povo sequestrada, levados à Kupa Keep para trabalhar como escravos. Então foi travada um tipo de guerra, onde guerreiros élficos adentravam Kupa Keep, lutavam com quem era necessário, recuperava seu povo e partia, enquanto os guerreiros humanos ficavam presos na Floresta para nunca mais serem vistos. Floresta, esta, que tinha uma seletividade natural; Ela, literalmente, só permitia a passagem de quem julgava merecedor.
Sheila era uma ótima rainha, que mascarou bem a fraqueza da Floresta ao mandar tropas escondidas nas árvores para matar possíveis invasores: a Floresta era apenas um auxilio naquele tempo de dificuldades, e não o contrário, como de costume.
Quando Kyle assumiu o trono, três anos depois, as coisas já estavam estabilizadas e, mesmo sem tratados de paz, Cartman não fez mais nenhum ataque.
Porém, a cada ano que passava sem o Cajado, a Floresta definhava um pouco mais. Continuava forte e poderosa, claro, mas enfraquecendo. Todos os Elfos podiam perceber isso, e esta era a causa da tensão do reino e da possibilidade de uma nova crise.
E Kyle era a pessoa dignada para resolver esta crise, mas ele não sabia como. Se houvesse uma invasão à Kupa Keep, uma guerra seria travada e perdida, visto que o povo inimigo possuía o Cajado, ou seja, a vantagem, e era impossível negociar com Eric Cartman.
Com outro suspiro pesado, Kyle se levantara da sua fortaleza de calor, sentindo o frio beijar sua pele imediatamente, e amaldiçoando-se baixinho por ter que invocar ainda mais vento para conseguir se secar. Uma toalha e roupas baixas secas estavam encima de uma bancada de madeira, e ele as vestiu numa tentativa inútil de reter calor corporal.
Como prometido, ao sair da sala de banho, o guerreiro esperava seu Rei com vestimentas estendidas sobre a cama já arrumada.
—Qual é a agenda de hoje? –Indagou o rei, enquanto o guerreiro envolvia seus ombros com a túnica cor escarlate e linhas douradas.
—Ir à sala de conferências –começou o protetor, examinado a folha de papel enquanto sorria–e ouvir sobre a economia. –O rei o encarou com raiva, até seu sorriso morrer –Muito bem, primeiro temos uma reunião com os agricultores do oeste...
Enquanto Stan falava, o Rei Élfico, já vestido, encaminhava-se ao grande armário no canto dos aposentos. Do fundo do móvel, o ruivo puxou uma caixa de madeira, enfeitada com sulcos harmônicos que pareciam dançar sobre sua extremidade. Da caixa, um calor reconfortante era liberado para as mãos do governante, promovendo-o um conforto semelhante ao de um abraço. Kyle sorriu para o pequeno paralelepípedo de aparência frágil, imaginando se fazia isto todos os dias.
O rei possuía vários anéis nos dedos, a maioria de madeira, talvez ou não adornados com esmeraldas. Verde e vermelho eram as cores que ele mais usava, pois combinavam com seus cabelos e olhos –era algo que sua mãe costumava fazer com ele que ele acabou adotando para si-. Com um destes anéis, colocado no lugar certo e girado na direção correta, a caixa se abria com um delicado “click” para revelar a coroa real: Numa almofada de seda ela descansava, feita solenemente de madeira extraída do santuário da Floresta Élfica: Era a ligação que o governante tinha com a Deusa que era o grande órgão, e ele sentia o que ela sentia através da joia. Podia jurar que, às vezes, ouvia seus pensamentos.
Pegando o adorno delicadamente, ele se dirigiu ao espelho suspenso por galhos grossos e nus e parou diante dele, tirando um momento para observar o que uma raça inteira adorava como um “Rei”: Um corpo esguio que não transparecia a ideia de força bruta, mas uma expressão fria nos olhos cor esmeralda em um rosto fino – como o de qualquer elfo – que exaltava autoridade; As orelhas pontudas saiam de um amontoado de cachos vermelhos ainda úmidos e a grande túnica quase se arrastava no chão, ficando um pouco acima de suas botas de couro marrom. Com um movimento de mãos, Kyle direcionou a água que antes no seu cabelo para um vaso de plantas ao lado de sua cama.
—Com todo o respeito, Vossa Majestade, eu ainda acho que isso que você faz é irado. –Dizia o guerreiro, caindo em um dos joelhos e estendendo o cajado do rei com ambas as mãos acima da cabeça.
Pegando o cajado, o ruivo voltou a se olhar no espelho: ele era uma figura completa de um rei; só faltava a coroa. Delicadamente, colou-a em sua cabeça, e esta começou a ajustar-se à esta como uma cobra se acomodando para dormir. Assim que a “conexão” havia terminado, Kyle sentiu dor. Alarmou-se de imediato, dando um único pulo, que foi acompanhado da imediata empunha da espada de seu protetor.
—Meu Rei? –Stan tentou se aproximar, mas foi dispensado por um gesto manual deste, que segurava sua cabeça com força com a mão livre, os olhos cerrados com vontade–Kyle? Qual é o problema?
—Chame as guardas das fronteiras para uma reunião urgente. –Kyle respondera depois de soltar sua cabeça, dirigindo-se à porta com determinação em sua voz –Peça a Mackey que reorganize minha agenda a partir do termino da conferência, e prepare o gavião mais rápido para ser mandado ao reino dos humanos.
—Imediatamente, Alteza! –Ele vez uma reverência, correndo atrás do ruivo para conseguir acompanha-lo – Mas, Meu Rei, posso perguntar por quê?
Impaciente, Kyle se virou em seus calcanhares para encarar seu protetor, determinação misturada com temor espantado na imensidão esverdeada que era seus olhos. Seus punhos cerraram tão fortemente que Stan achou que veria sangue, e sua voz saiu firme quando ele falou:
—A Floresta Élfica foi atacada.
***
Kupa Keep não era uma terra de florestas e rios como Larnion, que era cercada por elas, mas um lugar calmo e longe das pessoas em geral –principalmente do Rei Mago – era quase uma necessidade à esse ponto. A clareira em que ela estava seria suficiente, com as pequenas flores lilás bordando o rio que, mesmo ali, em Kupa Keep, era uma continuação de um dos grandes rios de Larnion.
‘Deve ser por isso que é tão azul e límpido’ Pensou a princesa, pegando uma pedrinha e lançando ao rio; provavelmente, se ela se dirigisse a ele, poderia ainda ver ela em seu fundo. ‘Tudo em Kupa Keep é cinzento e sujo’.
Liberou um longo suspiro por seu pequenino nariz, levemente avermelhado pelo vento frio que batia em seu corpo molhado: ela não resistira à tentação e mergulhara no límpido rio, embora sentisse como se o tivesse invadindo e sujando. Por consequência, agora estava desembaraçando os longos fios dourados enquanto estes secavam aos poucos, já pensando em todo o trabalho que seria trançá-los.
—Princesa Kenny? –Uma voz soou atrás da dita cuja, e esta dera um pequeno pulo, puxando o cachecol prateado com linhas roxas da pedra ao seu lado apressadamente e enrolando-o envolta do pescoço e boca, escondendo-os. –Ah, perdão Vossa Alteza...
De costas para o falante, ela erguera as mãos por cima do ombro e começara a falar em libras “Estava me observando enquanto me banhava, Paladino?” ela virara-se na pedra em que estava sentada, levemente coberta por musgo, somente o suficiente para encarar o garoto que se aproximava “Que ousado” ela completara com um sorriso travesso, coberto pelo cachecol de lã, mas expresso pelo modo em que o tom de violeta em seus olhos brilhava.
—Ah, não, não, não, Princesa! –Butters balançava as mãos freneticamente em negação, enquanto seu rosto enrubescia e a princesa ria ao ponto de lágrimas começarem a grudar em seus longos cílios dourados. –E-e-eu não ousaria.
A princesa Kenny McCormick, do reino de Kupa Keep, irmã adotiva de Erick Cartman, o Rei, não falava. Isso não a impedia de ser uma das figuras mais influentes entre os humanos –principalmente os homens-. Talvez ela seria até mais influente que Cartman, se as pessoas não temessem tamanha falta de senso em posse da coroa e o Cajado da Verdade; as pessoas seguiam Kenny porque gostavam dela, concordavam com a mesma, “ouviam” sua voz, mesmo que esta fosse desconhecida ao público, que especulava que ela fosse doce e suave, como o sofro do vento em um por do sol de primavera.
Muitos diziam que ela era muda; nascendo assim ou transformada após um acidente drástico. Outros, diziam que o Rei a havia tirado a língua, com medo de sua simpatia com o povo e de que ela roubasse sua coroa. Tinham também umas especulações de bruxaria, e que sua voz era uma maldição, e ela tentava poupar seu amado povo dos males desta.
Talvez ela só não quisesse falar.
Talvez ela só fosse misteriosa.
No fim, uma coisa não mudava: Princesa McCormick não falava, e por este motivo, todas as pessoas falavam sua língua: libras. A leitura de expressões, de gestos. Elas passaram a aprender a ler sua princesa: aquela que não tinha voz e, mesmo assim, era a única esperança de a voz do povo alcançar o poder político.
Talvez fosse muita pressão para uma jovem dama de meramente dezenove.
Talvez.
A princesa dispensara as desculpas do paladino com um aceno de mão, descendo de sua pedra e alongando o corpo esguio: não lhe faltava curvas ou... “porte”, e seus cabelos, que mais pareciam fios de ouro à luz do sol, soltos como estavam, caiam em harmonia sobre seus ombros e costas: De fato, a dama mais bela de todo reino.
Ao presenciar a princesa se levantar, Butters, o paladino, ajoelhou-se em um de seus joelhos com o braço no colo, numa reverência de respeito. Ele era uma das únicas pessoas da corte real no qual Kenny não desprezava: sua inocência era sua fonte favorita de diversão, e ele talvez fosse o único naquele inferno que possuía um bom coração; era um pouco irritante às vezes, claro, mas é um preço justo a se pagar por ter alguém que a impeça de querer se matar a cada cinco minutos. Não que ela pudesse simplesmente morrer, não... Ela era a princesa, a final!
Ela foi até o paladino, que ainda abaixado, pegando um de seus braços e arrastando-o para a borda do rio. Voltou a se sentar, imergindo os pés na água, e instruindo o acompanhante a fazer o mesmo. Mesmo assim, o outro resolveu sentar-se com as pernas cruzadas ao lado da dama, que embolava o cabelo cuidadosamente desembolado há minutos atrás numa tentativa frustrada de trança-lo.
—Se você... me der licença... –Pediu Butters, tomando posse do cabelo e passando a fazer o trabalho. Era ele quem fazia isso todas as manhãs, de qualquer maneira...
Kenny pensou em como Butters parecia mais sua babá do que seu guarda, e de alguma forma aquele pensamento a deixou meio irritada.
—O que veio fazer aqui, tão longe da cidade? –Indagou o paladino, concentrado nas tranças. –O Rei ficou furioso quando descobriu que eu havia lhe perdido, ficou sim... –ele sussurrou, mais para si mesmo do que para Kenny. –Ele está a sua procura, entende...
Kenny o respondeu, mas este não lera sua resposta, pois olhava fixamente para seu cabelo. A princesa então estalou os dedos duas vezes sob seus olhos, e assim que este a encarou, repetiu: “Então é claro que estou fugindo dele” Respondeu ela, olhando-o como se ele fosse um idiota; não que ele não fosse... “E de você também” acrescentou, encarando-o com um olhar duro. Ela queria gritar "de das minhas responsabilidades", mas preferiu ficar quieta sobre o assunto, guardando seus problemas para si. Butters desviou os olhos, envergonhado, mas Kenny não podia culpa-lo: segui-la e “protege-la” era seu trabalho, mesmo que ele fosse uma merda nele; na realidade, tanto Butters quanto outros guardas que as vezes vigiava ela só serviam para ela não sair da linha e manchar seu nome de "Princesa Perfeita".
“Como me achou aqui, de qualquer forma?” ela indagou após um tempo.
—É pra onde vossa alteza vem quando está triste –Explicou ele com um sorriso, ao perceber que Kenny dera um pulo de surpresa. –ou quando está fugindo de mim. Ou do Rei.
—Por que está triste, princesa Kenny?
“Só estou fugindo de vocês, nada mais. Não imagine coisas, Leo”. Ela respondeu, mas aquilo só pareceu determinar mais ainda o paladino em descobrir o que estava errado.
—É aniversário dela, não é? Sua irmãzinha? –Indagou Butters, lançando um sorriso tristonho à Princesa –Karen?
Kenny franziu o cenho, desviando os olhos do paladino ao rio, à Floresta além deste, já no território de Larnion, onde as pessoas entravam para nunca mais serem vistas... Como Karen. Como Kevin.
Butters imediatamente passou a se desculpar, falando que, claro, não era da sua conta, foi bobo da sua parte ter perguntado e assegurando a Princesa de que ela podia ignorar sua pergunta, sua existência e...
Kenny o calou com um sinal de mão, este que significava algo como “cala a boca”. Quando este obedeceu, ela voltou seu olhar para o grande órgão que uma raça inteira venerava como uma Deusa, e uma outra vivia para destruir.
Ela sabia que o loiro só a estava tentando ajudar: ele sempre estava tentando ajudar. No fim, porém, Kenny sempre acabava com o desejo de enfiar a cabeça no paladino na parede, ou, no caso, na água. Ela enfiou as mãos na água como uma forma de se conter.
—Vai acabar pegando um resfriado, Vo-vossa Alteza... –Avisou o paladino, tímido, e sua voz saiu como um sussurro.
Kenny o encarou, encontrando ali uma mistura de receio e medo: suas bochechas estavam rosadas e seus lábios trêmulos. A Princesa percebera que ele corava muito facilmente, e se perguntou se era só em sua presença. Sorriu para si mesma, jogando água no rosto do paladino e sorrindo ao ver sua expressão confusa.
—Por que... Vossa Alteza... –Ele indagava confuso, mas antes que pudesse terminar, um barulho vindo de arbustos próximos o interrompeu.
Rapidamente, o protetor sacou o martelo e lançou na direção do som. Um rato saía apressado do esconderijo, agora perigoso, enquanto o martelo de seu atacante voltava para a mão dele como magnetismo, atravessando o ar com precisão e rapidez.
Kenny se lançou para frente e o envolveu com os braços, abaixando os do paladino e fazendo o martelo bater em cheio na testa deste. O rato corria em sua direção, cada vez mais rápido.
—Ai!
“É meu rato! Não o ataque!” Ela dizia na frente dos olhos do paladino, enquanto o animal escalava seu vestido e se aninhava em seu ombro. Butters emitiu um grunhido e se afastou de ambos, princesa e rato. Kenny franziu o cenho.
“Não sabia que tinha medo de ratos”.
—Não tenho. –Respondeu rápido o outro –tenho medo deste rato! Ele sempre me mordia quando tentava alimentá-lo...
Kenny olhou para o rato num tom de acusação, fazendo este se refugiar dentro no cachecol dela, onde não podia ser visto.
—Pronto! –Exclamou Butters, com um sorriso, observado orgulhoso a trança cuidadosamente feita e decorada com as flores lilás da borda do rio.
Ela caia pelo ombro esquerdo da princesa, e as flores combinavam com seus olhos, cachecol e vestido, numa harmonia no nível da realeza que ela era. Sorriu para a expressão determinada e orgulhosa do amigo, e suspirou fundo, antes de falar:
“É aniversário dela, sim”. Butters voltou a atenção para ela, calado, enquanto esta falava. Um suspiro tremulo escapou de seu nariz, e só então ela descobriu o quão difícil para ela era falar sobre o assunto: achava que, além de Cartman, ele era a primeira pessoa com quem estava falando sobre aquilo. “Daqui dá pra ver a Floresta Élfica, onde ela foi vista por último” Ela olhou para o lugar, junto ao paladino, e memórias de sua infância a invadiam da mesma forma que ar invadia seus pulmões: Dolorosamente.
“como sabe sobre Karen, de qualquer maneira?” Indagou ela, desesperada para mudar um pouco o rumo do assunto, mas verdadeiramente curiosa. Teria Cartman contado para ele? Nah, Cartman nunca contava nada para Butters... seria triste, se não fosse cômico.
—Ah, Vossa Alteza fala enquanto dorme. –Ele disse, prontamente, enquanto sorria para a dama de olhos arregalados em surpresa. –Ás vezes chora também...
“Me observas a dormir?!” perguntara pasma a princesa, antes de relaxar e resolver brincar com o inocente loiro em sua frente. “E não faz nada além de olhar? Que decepção...”
Butters voltou a corar, limpando a garganta e resolvendo ignorar a pergunta, enquanto a dama ria de sua reação.
—Eu durmo numa cadeira do lado de fora do quarto, ao lado da porta. –começou a explicar o paladino, olhando para o nada, aparentemente, imaginando –Começa com múrmuros altos, como se vossa alteza estivesse tentando falar. Ao entrar, vossa alteza está sentada em sua cama, repetindo “salve-a” e mencionando seu nome logo após.
—Em outras vezes, vossa alteza não chega a sentar-se –continuou ele –parece estar só... agonizando. Basta segurar sua mão e então tu te acalmas. –Butters riu consigo mesmo. –Vossa Alteza já vez um corte um tanto profundo na mão de Craig com as unhas, certa noite.
“Segurei até mesmo a mão de Craig? Ew.” Debochou a mulher, fingindo ânsia de vómito, antes de se sentar bem ereta e encarar Butters com perplexidade “Então é por isso que o Craig passou a usar luvas no meio do nada!”.
—É, acredito que seja, Princesa. –O paladino riu em conjunto com Kenny.
Craig era outro criado pela qual ela tinha carinho, e aquele que saía para fazer coisas... erradas com ela, que sabia que Butters nunca concordaria em fazer: meras traquinagens infantis, compartilhar risadas, jogar e fazer altas apostas com gente bêbada em bares, mas o Paladino era muito certinho e fiel ao Mago para tal. Às vezes Clyde se juntava a eles. Às vezes, quando este estava encarregado de proteger a princesa, a levava para pubs e bares, onde flertava e bebia até levar um tapa e ter que ser levado aos prantos pela Princesa de volta ao castelo.
“Mas...” ela voltou a falar, afastando as lembranças “como descobriu que hoje era o aniversário dela?”
—Ah, ontem à noite tu tevês uma crise sonambulismo e tentou sair do castelo, alegando que era aniversário de Karen no dia seguinte e precisava lhe comprar um presente... –Ele finalizara, rindo, enquanto Kenny agradecia aos deuses que seu cabelo cobria suas orelhas coradas.
Kenny se levantou, sentido o rato adormecido se contorcer e reclamar sobre o movimento repentino. “Voltemos, então, antes do Rei Balofo ficar raivoso demais contigo”. Butters se levantou ao seu lado, observando-a enquanto esta colocava de volta as sandálias de cordinhas, enquanto se perguntava o porquê de suas roupas serem tão complicadas de colocar.
De repente, algo foi exibido em frente ao seus olhos, e Kenny olhou para o alto, encontrando um Butters sorridente e satisfeito consigo mesmo; ele exibia uma boneca de pano nas mãos.
—Eu achei que seria rude vir de mãos vazias –pôs-se a explicar o paladino -, então trouxe um presente pra ela!
A boneca era simplória e meio feia: seu corpo era de um pano quadriculado, e seu vestido e cabelo da mesma ceda totalmente amarela. Com olhos de botão e um sorriso em linha preta, a boneca, obviamente, tinha sido feita pelo paladino em sua frente, que estava animado com suas novas técnicas de costura que aprendera com as empregadas.
Ela era tão feia que era fofa.
“Leo, esta é a coisa mais gay que você já vez até agora”. Constatou Kenny, pegando a boneca das mãos estendidas dele e a examinado. Butters pareceu ofendido, e Kenny achou graça em sua reação. “Obrigada” ela respondeu, com um sorriso exibido nos olhos, enquanto devolvia a boneca ao paladino “Agora taca ela no rio”.
—Oi?
“Karen pode estar nas profundezas daquela floresta até agora, ou escondida em Larnion” explicou a princesa “Esse rio a levara até ela. Se ela não estiver viva, a boneca é inútil, e não chegará a lugar nenhum”.
Butters engoliu seco, mas seguiu as instruções, com Kenny em seus calcanhares. Eles observaram enquanto a boneca era levada lentamente pela leve correnteza do rio, até se afastar dos olhos e não pudesse ser mais vista. Kenny exibia um bonito sorriso enquanto andavam todo o caminho de volta à Kupa Keep.
—Fico feliz que já esteja se sentindo melhor, Alteza. –ele falou para ela, enquanto adentravam nas ruas do reino e as primeiras pessoas passaram a ser vistas, todas pagando leves reverencias à princesa que passava –Porque agora participarás de uma reunião para discutir o relatório de ataque da floresta. –Ela virou o rosto para encara-lo tão rápido que sua trança mudou de lado -O Grande Mago quer você lá, e eu sou sua escolta.
Kenny bufou em desgosto, e Butters se encolheu ao máximo quando a princesa ameaçou dar-lhe um soco, mas ficou satisfeita só com um cascudo bem dado, enquanto o loiro gritava diversos “ow!”.
—Princesa Kenny –Uma voz bradou à frente de ambos, de uma distância considerável. Uma voz inconfundivelmente irritante; ouvi-la por, pelo menos, uma hora na reunião seria tortura.
Ajeitando sua postura e esfriando consideravelmente o olhar, Kenny fez uma grande e lenta reverência, junto à Butters, ao Grande Mago, Rei Balofo, Eric Cartman. Quando deixara a coluna ereta novamente, o mago já estava à palmas de distância, com um olhar furioso.
-Estava de procurando, Princesa. –O rei dizia, tentando parecer intimidador apesar dos, pelo menos, cinco centímetros de diferença em altura dos dois.
“Talvez eu só não quisesse te ver.” Respondeu a outra, sem perder sua compostura “Majestade” completou, lentamente.
-Princesa Kenny, se acalme, por favor. –Butters pedia, enquanto a princesa desafiava o Rei somente com olhares.
-Não temos tempo pra isso, não temos tempo em geral. –Eric dizia, virando-se em seus calcanhares e seguindo seu caminho sem nem olhar para trás. –Kenny venha comigo. Butters, está dispensado.
Kenny o seguiu de cenho franzido, e Butters se afastou com hesitação, preocupação exaltando de todos os seus poros em forma de suor. Normalmente, Cartman discutiria; xingaria e bradaria até Kenny estar rolando no chão de tanto rir.
A partir daí, ela sabia: algo estava terrivelmente errado.
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