Notas iniciais
Esse capítulo é muito enorme, me perdoa T-T. Mas eu ainda ia colocar mais coisa -tipo o dobro disso-, mas resolvi deixar para o próximo, então... Ta ai :P Divirtam-se e desculpa se ficou mt confuso... mt informação, sabe? Hugs and butterfly kisses!

Kyle Broflovski tinha o rosto enterrado nas mãos quando a facção dos guardas das fronteiras chegou. Ajustando a postura rapidamente, o Rei se levantou e respondeu com um aceno de cabeça a cada reverência paga a ele pelas seis guerreiras que adentravam a sala, até que a última delas –e também sua líder- estivesse dentro do recinto.

Shelly Marsh chegou ao Reino Élfico na idade de cinco, portando somente suas roupas de corpo em trapos, olhos marejados e seu irmão mais novo no colo, na época com dois anos e que agora estava de pé ao lado da porta, segurando-a para as guerreiras entrarem, e respondia como protetor pessoal do rei. Sua família era uma das muitas outras que tentavam adentrar o reino élfico em fuga da vida miserável que viviam no dos humanos: os elfos aceitavam de bom grado todos aqueles que passavam pelo julgamento da Floresta. A maioria dos adultos não passava, e se perdia no órgão para nunca mais ser visto –como foi o caso da família Marsh. Os irmãos foram providos em moradia e viraram filhos de todos os elfos, até ter idade suficiente para a independência, quando ambos decidiram proteger o que mais amavam em suas vidas: Sua terra, seu rei, e um ao outro.

Shelly era uma mulher intimidadora, alta e impressionantemente musculosa, além de possuir um olhar determinado e rosto rígido que explicam sua posição de líder. “Boca de metal”, alguns corajosos chamavam ela –somente Stan e, às vezes, Ike também, mas Kyle imaginava que era porque ela não poderia socar o irmão mais novo do Rei -,pois a maioria de seus dentes havia sido substituídos por dentes de metal; perdidos na guerra e, em sua maioria, durante sua trajetória pela Floresta há 18 anos atrás, enquanto tentava se proteger e à seu irmão, simultaneamente.

Uma armadura de aço lhe cobria todo o torso, com fios de prata dançando sobre sua superfície, e ela possuía caneleiras e braceiras do mesmo metal para mantê-la leve e, mesmo assim, segura. Tinha também grossas luvas de couro e os longos cabelos castanhos presos num coque, para não atrapalhá-la caso precise batalhar.

Ela, assim como o resto das guerreiras, possuíam também uma espécie de tirara, semelhante à coroa do rei quanto à utilidade e aparência: de madeira, e as informavam um pouco sobre o que acontecia com a floresta, a localização de possíveis ataques e a gravidade deles, não como a Cora de Kyle, que o fazia sentir um só com a Floresta.

Stan, finalmente, soltara a porta na qual estava segurando para as guerreiras entrarem e posicionara-se em seu designado lugar na grande mesa de carvalho polido: o lado direito de Kyle, que ficava na ponta mais distante da porta. Shelly ocupava a outra ponta e, do seu lado direito, Wendy Testaburger permanecia, sempre com seu olhar rígido e pleno. Stan a olhava com o canto dos olhos distraidamente, e precisou de um chute por baixo da mesa para redirecionar seu foco.

—Guerreiras de Larnion –começou o rei, com a voz firme e olhar proporcional, prendendo a atenção de todas -, imagino que tenham sentido através das tiaras sagradas, mas houve um ataque à Floresta Élfica, e não um dos pequenos.

—Sim, Vossa majestade. –Responderam todas, em uníssono.

—Comandante Marsh, relatório. –ele voltou a se sentar.

—Afirmativo. –A dita cuja se levantou, empunhando o pequeno pergaminho que Wendy a entregara e passando a lê-lo em voz alta e firme: — Fora um ataque de fogo de imensa extensão, cerca de cinco quilômetros em diâmetro de Floresta foi destruído. A Floresta se recupera aos poucos, e não há mais nenhum sinal de hostilidade nos próximos quilômetros até Larnion. –ela baixou o papel, encarando o rei nos olhos –Nenhum guerreiro inimigo conseguiu adentrar as fronteiras, e nenhum fora encontrado perto dela pelos Vigilantes.

Os Vigilantes eram aqueles que, ao contrário das Guerreiras, que guardavam a fronteira e partiam para ataques direitos em reinos inimigos, se necessário, faziam buscas por inimigos dentro da Floresta. Muitos humanos tentavam usufruir dos recursos oferecidos pela Deusa, como seus animais e frutos, quebrando o Tratado de Paz firmado após a Grande Guerra, e eram os Vigilantes quem lhe impediam. Às vezes, durante sua busca, encontravam humanos perambulando pelo território, parecendo confusos e desornados, e lhe aplicavam o chamado Teste Final; um pouco de seiva da maior árvore da Floresta lhe era posta na ponta da língua. Assim, se você sobrevivesse, era escoltado em segurança à Larnion, onde poderia viver a suposta vida perfeita. Se não, não era merecedor, e sua carcaça poderia alimentar as plantas e animais da Floresta. Um fim honroso, se perguntasse a Kyle, e justo.

O rei agradeceu e pediu para que a líder se sentasse, e então pensou por um tempo. Minutos se passaram até que ele se pôs de pé.

—Agora, existem duas possibilidades –o rei levantou dois dedos, de acordo –: A primeira é que ocorrera uma invasão frustrada, o que ainda é alarmante, porque os inimigos não se pronunciam há três anos, e isso poderia significar uma possível guerra. –Os olhares eram atentos e afiados, mas era possível sentir a tensão se espalhando no ar: Larnion talvez não sobrevivesse à outra guerra contra os humanos, levando em conta sua tecnologia avançada e, claro, a posse do Cajado da Verdade. –A floresta está enfraquecendo, e talvez não resista à outros ataques semelhantes, se estes forem imediatos.

—A outra possibilidade é que o ataque fora meramente distração –continuou o rei, e todos se sentaram mais eretos à sua afirmação, alarmados — , e guerreiros estão à caminho de Larnion, tirando proveito de que a Floresta está mais focada na própria regeneração do que na caça de possíveis inimigos. Acredito que, se se deslocarem com cuidado e não provocarem mais danos à Floresta, passarão despercebidos por vos, portadoras da Tiara Sagrada...

—E mesmo por mim. –Kyle concluiu com um suspiro tremulo, temeroso pela própria afirmação.

Todas ficaram em silêncio, refletindo sobre assunto, enquanto o rei voltava a se sentar. O único barulho a ser ouvido era o da pena arranhando pergaminho, enquanto Bebe escrevia cada palavra a ser dita na reunião. Quando esta terminou, acenou para Kyle para que este continuasse.

—A próxima pauta a ser discutida –Prosseguiu o rei –é se a busca por inimigos, sendo pelas guerreiras ou os vigilantes, ter sucesso, e estes adentrarem Larnion, ou chegarem perto. Shelly. –ela pôs-se de pé.

—Atualmente, se alguém consegue adentrar a Floresta e chegar à fronteira, é identificado pelo Teste Final e liberado se refugiado, Vossa Majestade, perecendo se não for.

—Mudanças serão feitas. –Avistou o Rei, enquanto Shelly voltava ao seu lugar – A partir de agora, quero mandem metade de sua tropa para dentro da Floresta para auxiliar os Vigilantes em sua busca por intrusos, dar apoio à Floresta. Capturem os indivíduos encontrados sozinhos ou em pequenos grupos e escoltem-nos ao palácio para interrogatório e julgamento; Não usem o Teste Final, visto que queremos os inimigos vivos para a extração de informação.

—A Floresta é densa e enorme, logo, fiquem a uma distância que ouçam e identifiquem o sinal soado pelo chifre de uma das outras. Se encontrarem um grande grupo de humanos, ou precisarem de reforços por qualquer causa, soem o sinal. Atraia o grupo para longe de Larnion e mais fundo na Floresta possível enquanto o reforço não chega; ganhem tempo.

—Sim, Vossa Majestade! –Bradou o grupo.

— Também passem a trocar de turnos com mais frequência para melhor desempenho em trabalho. Se alguém precisar descansar mais, troque com alguém que esteja em boas condições e disposição.

—Sim!

—Avisem os Vigilantes e o restante das Guerreiras sobre as mudanças de imediato. Quero relatórios de busca no trono ao anoitecer de todos os dias durante este período.

—Estarei encarregada, Majestade. –Respondeu Wendy, com uma meia reverência. –Peço a informação de até quando manteremos as manutenções.

—Indeterminado. –Ele respondeu, e todas afirmaram. Assim que a pena de Bebe parou de danças sobre o papel, o rei bradou: -Dispensadas.

—Atenção! –Bradou Shelly, e todas se levantaram num pulo –Jurar! –Viraram-se para o rei e desenharam um X sobre o peito, num juramento de lealdade e total empenho, antes de fazerem reverências e se retirarem, não antes de lançarem aos dois homens sorrisos doces. Wendy acenou em despedida para Stan antes de sair.

Assim que a porta se fechou, Kyle soltou um longo suspiro de cansaço, pegando o pergaminho com o relatório da reunião e examinando com cuidado. Stan não parava de encará-lo, culpa estampada em seus olhos.

O rei estava disposto a ignorá-lo, mas podia sentir seu olhar queimando em sua nuca, e os sons constantes de seus pesados suspiros começaram a lhe irritar profundamente.

—Não é culpa sua, Stanley. –Kyle disse, finalmente, e o guerreiro pulou de susto. –Não se preocupe tanto. Se quiser alguém para culpar, imagine uma gigantesca lua com um sorriso cínico e uma voz irritante se autodenominando rei.

—Eu não me sentiria confortável deixando-o se preocupar sozinho, Majestade. –Stan sorriu com um ar triste –Só acho que deveria estar fazendo algo mais a respeito disso tudo, visto que você e minha irmã estão se esforçando tanto...

—Tenho consciência que não parece –Respondeu o rei, baixando o papel e lançando um sorriso reconfortante em direção do protetor, que pareceu surpreso ao recebe-lo. -, mas proteger minha bunda 24horas por dia é algo bem importante.

—Você sabe que pode se proteger sozinho.

—Estarei focado em outros assuntos para ser capaz. –Explicou, antes de suspirar e se levantar, visto que acabara de ler todas as paginas. Esticou a coluna preguiçosamente, sentindo os músculos relaxem: tudo isso e ainda não passava de 9 da manhã –Não esquenta, Stan.

Stan piscou algumas vezes, olhando para Kyle com uma expressão vazia, até que um sorriso de divertimento começou a ficar estampado no rosto do guerreiro.

—Vossa Majestade está tentando me reconfortar? Que honra! –uma reverencia completa, de joelhos, foi paga pelo guerreiro.

—Vai se fuder, Stanley. –respondeu o rei, impaciente, dirigindo-se à porta sem encarar o protetor.

—É a segunda vez em um só dia.

—Não me faça fazer a terceira. –Respondeu o ruivo, lançando um sorriso ao melhor amigo de longa data, antes de abrir a porta. Stan correu para acompanha-lo.

Mas a porta estava sendo bloqueada pela figura alta da chefe das protetoras da Floresta. Kyle permaneceu passível, mesmo que Stan tenha dado um salto e, talvez por instinto, tirado metade da espada de dentro da bainha. Ao ver sua irmã, com uma somente uma de suas sobrancelhas erguidas, embainhou novamente a arma e bufou com força.

—Ia me atacar, pirralho? –Perguntou ela, num tom de ataque, como sempre. Kyle, que estava entre Stan e sua irmã, se sentia extremamente desconfortável, mas ambos bloqueavam seu caminho. Shelly pagou uma meia reverência a ele ao finalmente notar sua presença, e permitiu que ele passasse. Mas não Stan. –Terá de ser mais rápido que isso.

Kyle não sabia se o esperava ou ia embora, então começou a ir, andando em ré, com passos pequenos e lentos, esperando alguém pará-lo. Como ninguém o fez, e ainda não sairia do palácio –precisava combinar o novo calendário com Mackey antes de fazer qualquer coisa -, decidiu só ir acordar o príncipe e o acompanhar para tomar café da manhã. Stan resolveria seus problemas e então o encontraria.

Stan xingou o rei mentalmente.

—Sou rápido o suficiente. –respondeu o guerreiro à sua irmã, arrumando a postura –Você tentaria atacar o Rei primeiro, pois foi ele quem abriu a porta. Claro, se Kyle não fizesse isso por conta própria, eu o afastaria do ataque de sua espada enquanto desembainhava a minha. Você se atrasaria no próprio ataque frustrado, e eu provavelmente cortaria sua cabeça fora –ele deu um sorriso para completar – dentes de metal.

Ela avançou sobre ele e, por um momento, ele achou que entrariam num duelo. Amigável. Talvez não tanto. Sua mão se dirigiu à bainha da espada como um extinto, mas seus braços foram imobilizados.

Um abraço. Sua irmã lhe dera... um abraço. Apertado. Demais. Ele ficou ambos sem reação e sem palavras, enquanto Shelly demorava o quanto desejava naquela incomum demonstração de carinho, que mais parecia uma tentativa de homicídio por esmagamento.

Quando se separaram, a irmão ainda lhe segurava os ombros, examinando-o com seu olhar rígido e julgador. Stan se perguntava se aquilo era um teste.

—Você com certeza cresceu, seu merdinha. –Ela elogiou, dando-lhe um cascudo bem dado após tirar-lhe o elmo, um daqueles que Stan se acostumara em receber de sua irmã, o que não o fazia menos doloroso –Pelo menos sabe os princípios básicos de combate, mas só ditá-los é simples; seus movimentos ainda são muito lentos. –Shelly deu um pesado suspiro — Os tantos anos que ficara dentro do castelo sem fazer nada não lhe farão bem. Apareça no campo de treinamento de vez em quando.

—E quem ficaria em guarda do rei? –Stan rebateu, e a postura de Shelly fraquejou levemente –A oferta é tentadora, exceto que não é, então não, obrigado. A final –o guerreiro sorriu, orgulhoso. –Pode não parecer, mas proteger o rei 24 horas por dia é uma tarefa um tanto importante.

Shelly o examinou por um momento, antes de soltar outro grande suspiro. Sorriu levemente, e quando ergueu novamente uma das mãos, Stan achou que receberia outro cascudo; ao invés disso, seus cabelos foram carinhosamente bagunçados.

—Cuide-se, então. Proteja o Rei, e não faça besteira. –ela lançou a cabeça do guerreiro para longe, desequilibrando-o, enquanto virava-se de costas de saia com um sorriso nos lábios –Pirralho... –Ela lançou o elmo por cima do ombro para Stan agarrá-lo no ar.

Stan a observou por um tempo, confuso. Então, sorriu consigo mesmo, se dirigindo ao salão principal para juntar-se a Kyle e príncipe Ike no café da manhã.

Ao chegar ao recinto, percebeu que poucos dos empregados ainda permaneciam na mesa, embora aqueles que o faziam apenas bebericassem uma taça de alguma bebida colorida enquanto conversavam uns com os outros; Todos já tinham acabado de comer, provavelmente porque tomaram o café da manhã muito mais cedo. Na mesa, só restavam sobras. A cultura élfica tinha esse costume de acordar junto ao sol que Stan achava que nunca fosse entender, mas aprendeu a viver com ele –mesmo que fosse um saco.

—Ah, Stan! –Ike bradou alegremente do seu assento, a cadeira esquerda à cabeceira da mesa, ao perceber a aproximação do guerreiro –Pensa rápido! –ele disse, lançando uma maça em direção ao rosto de Stan, que o pegou a centímetros de seu nariz e lhe deu uma mordida.

—Boa tentativa. –assegurou o guerreiro ao avistar o grau de desapontamento presente no rosto do príncipe. –Sua pontaria está melhorando.

Príncipe Ike se deliciava com uma torta de amoras, e o guerreiro se perguntava como ele acabara tão sujo no processo: Boca, roupas e até na ponta do seu nariz, o tom avermelhado sendo realçado pela pele pálida da criança humana. Stan não imaginava que algum humano podia possivelmente ser mais branco que um elfo, ou mesmo igualar a sua cor, mas ao pôr os irmãos reais lado a lado, surpreendia-se ao concluir que era possível –e acontecia.

Ike Broflovski era filho adotivo mais novo de Sheila e Gerald Broflovski, entregue a eles como um acordo de paz entre o reino élfico de Larnion e o humano do Canadá: como acontecia em casamentos arranjados entre dois reinos, o reino do Canadá abriu mão de seu sucessor ao trono recém-nascido para que este sucedesse o trono élfico, procurando estabelecer paz entre os dois reinos ao ter um humano supostamente no poder de um reino élfico. Um acordo que dava a falsa impressão de poder ou igualdade e uma estratégia inteligente da parte dos elfos se for perguntar, já que Ike só chegaria ao trono se o reinado de Kyle acabasse sem sucessores ou uma esposa, o que raramente acontecia, já que não eram tempos de guerra para reis serem mortos ou renunciarem antes de conseguir filhos ou uma esposa.

O reino canadense provavelmente sabia disso, mas ser aliada de Larnion os dava uma gama de vantagens sobre qualquer reino humano; não havia como recusar a oferta. Já o reino élfico, bem... quanto maior influência sobre os humanos, melhor!

Stan finalmente se sentara ao lado direito de Kyle, que mordiscava sem interesse um pão acompanhado de queijos finos enquanto lia algum papel erguido na frente de seus olhos pela mão direita. Provavelmente a nova agenda do dia feita por Mackey, supôs o guerreiro, dando outra mordida em sua maça.

O barulho atraiu a atenção do rei, que olhou para Stan rapidamente, antes de começar a procurar algo numa pilha de papeis que o guerreiro não havia percebido, posicionada do lado do prato de Kyle.

—Ah, Stan, não se sente. –Ele dissera, mesmo que Stan já estivesse sentado. Então, estendera-lhe um pergaminho com o selo real estampado –Leve isso para a torre e garanta que a águia mais rápida faça a entrega à Kupa Keep, sim? E quantas vezes já lhe disse para não comer doces no café da manhã? –disse, se dirigindo à Ike, irritado –Apodrecerá seus dentes e te dará dor de estômago!

—A culpa é sua por não erguer a cabeça desde o momento que sentou, mas eu posso cuspir pra fora, se você quiser. –Respondeu Ike, ameaçando jogar os restos de torta mastigados que estavam em sua língua de volta ao prato. Kyle grunhiu com nojo.

—Urgh. Pela Deusa, Ike, tenha classe!

Enquanto os irmãos discutiam, Stan havia aberto a carta direcionada ao Grande Mago e estava lendo-a em silêncio enquanto terminava sua maça. Era uma carta que pedia uma conferência entre os reinos para uma discussão sobre o que fazer para um tratado de paz ou, na pior das hipóteses, as condições e regras para uma guerra. Riu consigo mesmo assim que terminou a leitura.

—Não acha que foi meio... agressivo? –Indagou Stan, e o rei voltou a olhá-lo, esquecendo Ike por um momento.

—O que quer dizer?

—Chamou-o de ganancioso, incompetente e sujo, e perdi as costas de quantas vezes o chamou de gordo.

—Não entendo o problema desde que tudo que dissera é verdade.

—A não ser que você queira mesmo começar uma guerra –Stan lhe estendeu de volta a carta, e Kyle a pegou com relutância –reescreva-a. E peça ajuda a Mackey; ele conhece esse tipo de coisa.

—Urgh, certo. –Kyle se levantara com raiva, reunindo seus papeis e partindo em direção à porta, abandonando seu pão praticamente intocado. –Estarei encontrando com ele imediatamente. Procuro-te quando acabar, mas chame os agricultores do oeste de antemão.

—Como desejar, Vossa Majestade. –Stan fez uma pequena reverência, e então, a porta do salão foi fechada.

***

Já era de noite e Kyle ainda estava imerso em conferências e conferências, uma após a outra, a maioria com gente do setor primário da economia preocupada com os efeitos do ataque à Floresta nesta. Provavelmente, neste dia em específico, o rei não poderia sair do castelo, e Stan se perguntava que tipo de reação a população teria; talvez ela ficasse mais temerosa do que já estava, o que seria mais um problema para Kyle lidar no dia seguinte.

A única pausa feita foi no banquete do almoço, e mesmo assim, Kyle saíra antes do termino deste e mal tocara em sua comida. Stan não podia dizer que não estava preocupado com a saúde e o bem estar do rei, mas novamente, ele era rei: fazia parte dos termos e condições, e Kyle não podia rejeitá-los nem se quisesse.

No momento, Stan andava sem rumo pelos corredores quilométricos do castelo élfico, usando este tempo para refletir sobre o futuro do reino. Seu futuro seria mesmo uma guerra? Isso era loucura. Ele estava vivo quando a primeira aconteceu e não foi nada bonito: o desespero dos elfos era evidente. Caramba, a Deusa fora atacada! Aquela que nunca demonstrara fraqueza e era símbolo de força e resistência. Não faltava comida, mas esta não estava na abundância de sempre, e por muito tempo o abastecimento de minérios vindo dos humanos –seu reino era em sua maioria composto por montanhas rochosas, o que lhe dava a vantagem do minério, e isso significava a vantagem do ferro e, logo, das armas também – fora prejudicado. As famílias estavam preocupadas com suas perdas, e aquelas que não perderam, preocupavam-se em perder.

Não fora nada tão grave; talvez os elfos só nunca estivessem diante a nenhum tipo de momento de dificuldade, e foi um choque.

Stan se perguntava como o reino humano havia reagido.

Porém, de repente, seus pensamentos foram interrompidos: de trás, sua visão fora tapada, e um mata leão fora provocado no guerreiro. Rapidamente, porém, o homem jogara seu corpo para frente, lançando, junto, seu atacante, que conseguira chutá-lo, mesmo no chão. Stan agarrou seu pé.

Um ataque? Como foi que um inimigo passara pela Floresta e os vigilantes, pelas guerreiras e os guardas do castelo? Seu objetivo provavelmente era o rei, e Stan não permitiria que nada acontecesse à Kyle; acabaria com o intruso aqui e agora.

Todavia, tal intruso era estupidamente rápido e consideravelmente forte, provavelmente treinado especialmente para invasões: Aproveitando que Stan agarrava seu pé com firmeza, usou aquilo como apoio para “escalar” o guerreiro e envolver seu pescoço com as pernas, tirando uma faca do bolso traseiro, pequena, afiada e prateada.

Stan jogou o intruso no chão, tentando prendê-lo ali enquanto desembainhava a espada, e acabou trocando de posições com o estranho: no final, Stan estava embaixo do dele, com a espada em seu pescoço, enquanto ele tinha a faca pressionada sobre o local onde o coração do guerreiro estava, batendo loucamente e fazendo seu peito pulsar.

—ah –Sibilou o de cima, com um sorriso –parece que é outro empate.

Só que não era nenhum estranho, e Stan imaginava que não fosse nenhum invasor, e com certeza não era um ele: Ali, em cima dele, com uma faca pressionada em seu peito e um sorriso doce e provocativo, estava ninguém menos que Wendy Testaburger, o braço direito da comandante das Guerreiras, sua irmã. Stan sorriu em resposta, por alivio e divertimento.

—Na verdade –corrigiu o guerreiro – Tenho uma espada no seu pescoço nu enquanto tens uma faquinha sobre meu peito protegido por uma armadura, então... –ele sorriu novamente, ao ver o sorriso no rosto da guerreira morrer enquanto os fatos a atingiam e ela se dava conta deles. –Avança no pescoço na próxima.

—...Merda. –Ela sussurrou, deixando os braços caírem do lado do corpo enquanto Stan baixava a espada, e fazendo menção de se levantar. Porém, o guerreiro a segurou pela cintura, obrigando-a a permanecer daquela forma. Ela sorriu para o garoto depois que a sensação de confusão passara, e ele sorriu em resposta.

—Pela Deusa, cara –Bradou Kyle, assim que virou o corredor para se deparar com aquilo... o que quer que fosse aquilo. Imediatamente, tapou o perfil do rosto com uma das palmas antes de voltar pelo caminho que viera –usem um quarto!

—Ah, Vossa Majestade! –Chamou Wendy, saindo de cima de Stan para acompanhar o rei num piscar de olhos.

Merda, Kyle. Pensou Stan, antes de se levantar com um suspiro para se encontrar com os dois, que estavam parados no corredor.

—Eu trouxe o relatório de busca, meu rei, não te achei sobre o trono. –Informou Wendy, e Kyle afirmou com a cabeça para que ela prosseguisse –A mercadoria humana chegou, Majestade, Timmy a trouxe...

Timmy era aquele que fazia a ligação entre os dois reinos, trazendo e levando mercadorias de um para o outro com sua carroça, todo santo dia. Ele era humano, embora não realmente “pertencesse” a qualquer um dos reinos: embora ficasse na maior parte do tempo em Kupa Keep, passava algumas noites em Larnion quando desejava, normalmente na casa do Bardo, e ninguém o parava; a Floresta o conhecia e deixava-o perambular livremente, e ele talvez fosse o único humano que Cartman deixara passar após ter adentrado a Floresta: normalmente, aqueles que fugiam eram chamados de traidores e proibidos de entrar de volta em Kupa Keep, mesmo que tivesse desistido no meio do caminho e decidido voltar.

—Havia... –Wendy continuou, engolindo seco –havia alguém junto a mercadoria, meu rei, dentre as sacas de moedas...

—Identificação. –Kyle exigiu, firme, mas seu tom de voz saiu mais como uma súplica.

O rei temia o quão fraca a floresta podia estar para deixar passar um humano meramente escondido dentre sacas de moedas: só por estar ali indicava traços de covardia e fraqueza, não? Medo de ser aceito pela Floresta –algo a esconder. Só de ter escolhido se esconder para passar, significava que não merecia ser aceito pela Deusa; ela não permitiria.

Mas ali ele estava, não é? Dentre os sacos de moedas, dentro de Larnion...

Wendy deu um longo suspiro, também tentado parecer firme, mas este saiu tremulo e longo e alto demais. Era como se ela e Kyle estivessem numa competição de “quem conseguia esconder suas inseguranças por mais tempo”.

—Kenneth McCormick, Majestade –Ela começou, e Kyle franziu a testa em confusão. –A princesa de Kupa Keep, sucessora do trono do reino humano...

Kyle franziu mais ainda o cenho, lábios sendo pressionados em uma única linha, já esbranquiçados pela quantidade de força posta nesses. A princesa? Sozinha? Não era uma invasão... seria uma fuga? Uma oferenda de paz? Que diabos estava acontecendo?

Stan parecia igualmente surpreso e confuso, com os olhos arregalados e o pescoço surpreendentemente erguido acima dos ombros.

—Kenneth é um nome dado a uma princesa? –Indagou ele, recebendo o olhar de raiva mortal de Wendy que Kyle lhe daria se não estivesse tão surpreso para reagir desta forma. –Tipo... uma garota?

—Qual seu objetivo em Larnion? –Kyle voltou-se a Wendy, ignorando a pergunta idiota de Stan, que se sentiu ofendido em resposta –Fizeram um interrogatório?

—Ela não diz. –respondeu Wendy, olhando para os pés com o cenho franzido –Na verdade, ela se recusa a dizer qualquer coisa, e tem sua boca tapada por um tipo de máscara.

—Talvez seja um voto de silêncio por Cartman.

—Uma... máscara, você diz? –indagou o rei, confuso.

—Sim. –reafirmou a guerreira. –E ela fica um tanto agressiva quando se tenta tira-la de seu rosto.

Kyle pôs-se a ponderar; Uma máscara? Por que a princesa tinha que usar uma? Seria uma exigência do Mago? Algo relacionado à religião?

—Pode ser uma impostora. –Stan dissera de repente, surpreendendo ambos Kyle e Wendy, pois ele abriu a boca para falar algo verdadeiramente importante. —e, se é, talvez o que ela esteja tentando esconder seja partes de um feitiço de transformação malfeito.

—“Ela” provavelmente tem um bigode por baixo da máscara, e uma voz de brutamontes! –Ele sugeriu, e o rei e guerreira voltaram a ignorá-lo.

—Timmy confirmou sua identidade –Afirmou Wendy. –: Cabelos dourados, olhos violeta, corpo esguio...

—ele também disse que nunca ouvira sua voz. A descrição se encaixa.

—Muito bem. –Kyle conclui, depois de um tempo: isso era tudo que ele precisava por enquanto. –Escoltem-na até mim. –ordenou, e Wendy fez uma reverência, confirmando “Agora mesmo” antes de sair correndo.

—Mas... Rei Kyle! –Stan exclamou, apertando o passo atrás do tal, que se pusera a andar. –Vai trazê-la para dentro do palácio? Pode ser uma armadilha, e estamos dando-a exatamente o que ela quer!

—Confiemos na Floresta –Ele disse, sem se dar o trabalho de encarar o guerreiro –Deixemos nas mãos da Deusa.

—Se ela está tão fraca quanto Vossa Majestade diz, talvez não devêssemos. –Stan cuspiu, parando imediatamente ao perceber seu erro; Kyle virara para o encarar com os olhos flamejantes.

Como alguém ousaria falar mal da Deusa? A toda poderosa, protetora do povo bom e puro? Era blasfema, talvez até crime em algum dos livros élficos. O rei tremia levemente, raiva estampada em seu rosto ao dar a volta e encarar o guerreiro enquanto se aproximava deste. Por momento, Stan queria poder apagar as coisas que dissera, passar tinta por cima e reescrever tudo; era meramente um servo, o que lhe dava o direito de desafiar o Rei e sua Deusa?.. Mas ele queria mesmo? Ele achava a expressão de raiva no rosto do rei satisfatória, pois junto à ódio, estava a dúvida: ele duvidava da Deusa tanto quanto Stan o fazia.

Pelo menos, neste momento.

—Faremos como eu digo. –ele disse, perto demais do rosto do guerreiro; ele nem pensou em se afastar. –Sempre o fizemos assim... e eu não conheço outra forma.

***

Kyle via a chegada da princesa do topo da escadaria principal de mármore branco do palácio; quase perolado. Já estava escuro, e as poucas pessoas nas ruas eram guiadas por pequenos pontos de luz azulada que se deslocavam aleatoriamente pelo ar, exprimindo uma luminosidade do mesmo tom. Toda noite, cada um dos habitantes de Larnion utilizava parte de sua magia para lançar uma para o ar e, mesmo sendo meras esferas de energia inconscientes, pareciam saber onde ficar para manter todas as ruas do reino apropriadamente iluminadas –não tão claro, nunca na escuridão; a luminosidade certa.

Kyle se perguntava se os humanos tinham algo parecido, e sentiu-se orgulhoso por supor que não.

Ele, então, adotara uma postura firme; nariz levemente empinado, coluna ereta e mãos descansando no cajado, mas de maneira firme, não relaxada. A luz azul refletida pelo mármore enfatizava sua expressão fria, enquanto sua pele, extremamente pálida, refletia a luminosidade como se esta fosse expelida dele. A verdadeira imagem de um rei.

Stan não ficava para trás quanto a firmeza de sua postura: Tinha o peito estufado e os ombros posicionado para trás, com a espada descansando no direito. Seu rosto era um tanto mais amadurecido que o do rei, e ele possuía uma expressão ameaçadora que, se Kyle virasse para trás e visse, desmontaria sua estrutura e rolaria no chão de tanto rir. Um guarda nato; o guarda real.

Isso trouxe lembranças de uma época remota, quando ambos deviam ter não mais que dez anos, e brincavam de elfos e humanos com as outras crianças. Podia parecer injusto, e talvez fosse, mas Kyle era sempre o Rei Elfo. Sem opções, era como se fosse uma regra do jogo. Algumas crianças tentavam reclamar, claro, mas não era totalmente mentira, era? Kyle era rei, de alguma forma, e conseguia perfeitamente agir como um quando brincava, incorporar o personagem; ele criado para isso, a final! Stan de nada reclamava, desde que o jovem príncipe sempre exigia que ele fosse seu braço direito. Então, o rei humano era decidido em palitos, e este podia escolher quem fazia parte do seu reinado; o rei élfico ficava com o resto.

Justo o suficiente, não?

Agora, aqui estavam eles, crescidos, lado a lado, usando a mesma pose que por tantos anos treinavam, prometendo um ao outro que a fantasia se tornaria realidade. E ela se tornou realidade. Stan se perguntava se as crianças tinham raiva disso, ou se já esperavam.

Do horizonte, Wendy se aproximava, carregando a princesa com os braços atrás das costas. Os poucos elfos que restavam nas ruas se amontoavam ao redor da escolta para ver a chegada da estranha visitante. Muitos entenderam que se tratava da princesa de Kupa Keep, a mais bela dama de toda Zaron era conhecida por todos os reinos, ou pelo menos ouvida falar; ela possuía muito influência, é o que diziam, e era tão manipuladora quanto seu rei, embora outros dissessem que manipular não era sua intenção; ela só era uma imagem de líder que as pessoas decidiam seguir de bom grado.

Então o que fazia em Larnion? E num estado tão deplorável?

A princesa, dita linda e perfeita, era praticamente arrastada até a entrada do palácio, e não por resistência, não: ela parecia não ter forças para ficar de pé. Seus cabelos, um dia dourados como fios de ouro, estavam cheíssimos e, em sua maioria, chamuscados nas pontas; seu rosto estava inchado e roxo perto do olho, e seu nariz sangrava; diversos cortes pequenos se espalhavam por todo corpo curvado para frente e face acabada; certamente, seu braço direito estava quebrado, pela maneira em que este estava roxo e inchado; sua perda direta e tornozelo esquerdo estavam nas mesmas condições.

Talvez a Floresta tenha feito seu trabalho, então. Foi o primeiro pensamento do rei, mas a coroa real o indicou que não por meio de sua ligação, por sussurros. Não, não fora Floresta, mas...

Por que os humanos atacariam sua própria e amada governante?

A postura de Kyle simplesmente murchou, e ele se pôs a descer os degraus de mármore com urgência. Stan foi atrás, surpreso e confuso pela ação e pela imagem da princesa posta em sua frente.

—O que estas a esperar?! –Bradou Kyle, correndo em direção À Wendy, que levantou a cabeça para encará-lo. Kenny tentara fazer o mesmo, mas sua cabeça tombou para o lado –Não vê que a princesa está ferida? Mal consegue permanecer acordada, quanto mais se mexer! –Ele finalmente à Wendy, ofegante. Os elfos ao redor o observavam com curiosidade e confusão. –Escoltem-na à um quarto, limpem-na e suas feridas, e chamem um curandeiro, agora mesmo!

Wendy hesitou –Mas... Rei Kyle, ela não será levada às masmorras?

—Não é assim que tratamos realeza em Larnion –respondeu Kyle e, por um breve momento, seus olhos se encontraram com os da princesa: Súplica, medo, dor... O rei suspirou. –e respeitem sua vontade; a máscara não deve ser retirada até permissão devida. JÁ!

Enquanto Wendy pegava Kenny no colo, como uma princesa que ela era –ou um dia já foi -, seus olhos e os do rei se encontraram novamente, e ele não precisou entender os movimentos das mãos da jovem para entender o que ela dizia:

“Obrigada”.

Notas finais
Me empolguei?? bastante, mas eu queria a chegada da Kenny nesse cap ainda, então... ta ai :T o próximo cap vai se passar em Kupa Keep, eu acho... só pra despertar curiosidade memo :P