Notas iniciais
Olá leitores! Espero que gostem e comentem esse capitulo ♥

Getsukagure, tempos de guerra.

POV Mei Hokaku

E lá estava ela, Sayuri Hokaku, minha mãe. Seus cabelos brancos curtos balançavam no ritmo do vento na floresta de Getsukagure. Ela me contava sobre o nosso kekkei genkai, falava o quão importante era preservar ele e dizia com toda convicção “o mundo precisa de nós minha filha, esse kekkei genkai é a nossa benção para este mundo.”

Benção ou maldição?

Tudo ficou escuro, minhas mãos ardiam, eu sentia o chakra correndo por mim com tamanha velocidade que esquentava o meu corpo. Água e vento, são os nossos elementos, mas o calor incendeia quando sentimos o kekkei genkai fluir de nós.

Minha mãe dançava, mostrava para mim seu chakra da forma mais pura, os jutsus que tinha adquirido, ela dizia “depois de um tempo os jutsus que você capturou vão desaparecer e o seu chakra vai voltar ao normal.”

Mas não era assim comigo. Os jutsus que eu capturava nunca saiam de mim, o chakra que eu roubava não ia embora por completo, podia enfraquecer, mas ainda assim ele continuava ali. E o meu próprio chakra não parecia ter um limite, apesar que usar ele durante muito tempo me desgastava e as vezes chegava a doer o tanto que ele queimava dentro de mim, mesmo assim o meu normal não era igual ao dela, ou o de qualquer outro membro do clã. Talvez era para ser assim.

Todo chakra dos seres humanos são como um recipiente, cada um de um tamanho único e diferente, quando nascemos somos pequenos e o nosso recipiente de chakra também é, conforme crescemos ele cresce junto com a gente, até um limite. Porém com os herdeiros do kekkei genkai do clã Hokaku o recipiente é diferente, ele é maior do que o normal, mas não é completamente cheio até a borda, ele é cheio até a metade e isso nos dá a liberdade para completa-lo com outros chakras que capturamos até um certo limite. Já eu nunca encontrei esse limite para mim, o meu chakra diferente dos outros do meu clã é vermelho, quente, e é um pouco maior do que os outros em seu estado natural sem chakras capturados, e quando capturo não encho meu recipiente até a borda, pelo menos nunca enchi até hoje, porque não sei se meu recipiente tem uma borda.

Não sei porque eu sou diferente, ninguém nunca me disse, nunca me explicaram, nem os exames que faço semanalmente me dão respostas para essa questão, e isso me assusta.

“Não tenha medo do seu poder Mei.” Minha mãe dizia, ela tinha orgulho do nosso clã, mas desejava que pudéssemos fazer mais, ela era diferente, ela não tinha medo, nunca teve. Ficar presa aqui era uma tortura para ela como é para mim. Ela não tinha medo da ganancia do mundo, ela queria enfrentá-lo mesmo sabendo que não conseguira, apesar do poder éramos minoria, mas isso nunca a impediu de desejar e sonhar com o mundo em suas mãos, poder ajuda-lo ser livre.

—ONEE-SAAAN ACOOOORDA!

—SAYUMI! SAI DAQUI AGORA!

—VOCÊ PROMETEU QUE IA ME AJUDAR NEE-SAN!

—TA! TA BOM! ESTOU INDO!

Era só mais um sonho. Uma lembrança, algo que vem e vai. Nada dura para sempre nesse mundo.

Me levantei, fui até o banheiro e lavei meu rosto. Parei um tempo na frente da pia apoiando minhas mãos nela, respirei fundo buscando pelo meu chakra. Quando comecei meus treinamentos meu pai dizia que para ter o domínio do nosso chakra a gente precisava visualizar ele dentro de nós, sempre imaginei o meu vermelho como fogo, denso, mas rápido, percorrendo todo o meu corpo, sem parar, só esperando a chance de acelerar e aumentar, de queimar, incendiar, e assim transbordar para fora, pelas minhas mãos.

Ele estava aqui dentro de mim, mais forte do que todos, maior do que todos. Sempre tive medo de perder o controle, das emoções interferirem na razão.

Quando minha mãe morreu, meu pai me proibiu de treinar durante duas semanas, porque ele tinha medo que eu pudesse perder o controle, e ele estava certo. Às vezes eu acordava no meio da noite, chorando e soluçando, minha cama estava molhada de suor e o chakra ardia dentro de mim.

Eu precisava entender por que o meu chakra era maior do que os dos outros, por que os jutsus não sumiam, por que o chakra roubado não ia embora por completo. Sempre perguntei isso para minha mãe, meu pai e até mesmo para a tia Lin, nenhum deles me respondiam, apenas diziam que eu tinha nascido assim. Tio Kazuo até brincava dizendo que eu era “a escolhida”, a questão é escolhida para que? Proteger o clã que vive debaixo da terra? Proteger o Kekkei Genkai poderoso? De quem? Do mundo? Afinal, o que tem no mundo? Eu não sei, e talvez nunca saiba, e isso me irrita.

Saio do banheiro já vestindo minha roupa de treino normal, as sandálias ninjas de cano alto pretas, na coxa direita as ataduras que prendiam a bolsa com kunais e shurikens, um short-saia preto, uma blusa curta com um decote V e mangas curtas preta, que mostrava a minha barriga, luvas que não tampavam os meus dedos mais serviam para proteger minhas mãos quando eu dava um soco, e por fim, vesti o meu kimono preto que tinham o emblema do clã Hokaku escrito em branco.

Me dirijo para fora do quarto, Sayumi está me esperando impaciente do lado de fora.

—Então baixinha, treinou de manhã?

—Sim! Estou melhorando minha capacidade de extrair chakra, porém não consigo pegar jutsus ainda.

—Você vai conseguir em breve! Não tenha pressa, não é tão difícil assim, você vai pegar o jeito.

Sayumi olha para mim com uma cara que diz “você só está falando isso para me agradar, não está falando sério.”

—Mas é que você na minha idade já conseguia pegar jutsus e utilizar eles, além de capturar por completo o chakra.

Ela parecia chateada, sempre fazia um biquinho quando estava.

—Eu vou te ajudar, sempre tem jutsus que são mais fácies para alguns e mais difíceis para outros, temos que descobrir qual natureza é mais fácil para você capturar.

—Está bem!

Os olhos azuis de Sayumi brilham com a expectativa. Eu não tinha muita paciência para ensinar ela apesar de que era engraçado as vezes. Só que sempre foi mais fácil para mim dominar o kekkei genkai, minha maior dificuldade é controlar o chakra, manter ele sobe o meu domínio e não extravasar ele por completo, coisa que a Sayumi não tem, ela só não consegue colocar o chakra para trabalhar da forma certa, então as vezes é complicado pra mim explicar para ela como fazer, e quando eu consigo ela acaba chegando no limite dela muito rápido, e ai fica entediante.

Puxo a Sayumi para a saída do subsolo, ela então começa a perceber o que eu pretendia.

Sair do subsolo é maravilhoso e libertador, mas só podemos fazer isso quando temos a devida autorização do líder do clã, e ele nunca autorizava para treinamentos, apenas para missões. Só eu treinava lá fora junto com ele é claro.

Nosso clã tem um monte de regras que teoricamente é para nós proteger do mundo. Uma delas é evitar ao máximo sermos visto, nem mesmo outros shinobis de Getsukagure podem nós ver, os clãs aqui sabem muito pouco sobre nós, basicamente o nome do nosso clã e que trabalhamos diretamente para o rei.

—Mei, o que você está fazendo?! Nós não podemos sair!

Sayumi é bem certinha e odeia quebrar regras, o que me faz acreditar que algum dia ela será igual ao nosso pai. Isso é assustador.

—Está tudo bem baixinha, eu não estou nem um pouco a vontade de treinar aqui embaixo, pode deixar que eu me entendo com o nosso pai.

Sayumi está preocupada. Meu pai não permite crianças saírem de jeito nenhum, porque não conseguem controlar o kekkei genkai muito bem e isso pode causar muitos problemas e acabar expondo a gente. Todas as regras são basicamente para evitar isso, assim como o fato de eu treinar de noite, temos a lua para nos dar forçar e a escuridão para nos esconder.

—Hey! Mei, Sayumi! O que estão fazendo? Vocês não podem sair!

—Calma Ban! Eu já falei com o sensei e ele liberou eu e a Sayumi para dar uma volta.

—O sensei não me avisou sobre isso.

—Ele deve ter esquecido, anda muito ocupado com burocracias.

—Hum, entendo, mas eu vou confirmar, vocês me esperam aqui.

—Claro Ban!

Me virei para ver uma criança apreensiva ao meu lado.

—Mei! Você mentiu para o Ban e agora o otou-san vai matar a gente!

—Está pronta para o seu primeiro ensinamento de hoje Sayumi? Sempre tenha uma estratégia e observe tudo ao seu redor.

—O que quer dizer?

—Ban está sozinho hoje porque Maiko está doente, o sensei está descansando nesse momento, quando Ban chegar lá os guardas do sensei vão impedir a entrada dele, e ele vai pedir para dar um aviso ao sensei, os guardas irão recusar, e ele então ficará na dúvida se o otou-san liberou a gente para sair ou não, desse jeito ele vai voltar para cá, vai falar que o sensei está dormindo e dessa forma não pode perguntar nada pra ele, ai nós vamos dar uma de cachorro que caiu da mudança e o Ban vai liberar a gente.

—Como tem certeza que isso vai dar certo?

—Segundo ensinamento do dia, a maior arma de um shinobi é a informação, para ter uma estratégia perfeita você deve ser bem informado, conhecer seu oponente mesmo que ele não diga nada a respeito de si, por isso você deve sempre observar bem. Ban está preocupado com o irmão que está doente, e quando ver o quão é importante para nós como irmãs sair um pouco ele irá seguir o meu roteiro.

—Você vai estar brincando com os sentimentos dele e sendo uma manipuladora de primeira!

—Por isso eu sou a irmã que consegue as coisas.

—Vai acabar afundando esse clã em desordem quando for líder.

—Calada, ele está vindo.

Ban está com cara de preocupado, como o esperado.

—Então Ban-Kun falou com o otou-san?

—Ele está descansando no momento e os guardas não me deixaram dar o recado.

—Nossa que pena né Sayumi! A gente queria tanto sair um pouco, para dar uma volta, a última vez que a Sayumi saiu foi na morte da nossa mãe.

Com o olhar que a Sayumi me enviou pude até escutar ela gritando “você usou a morte da mamãe para poder sair!” Eu era um monstro realmente, mas minha mãe teria orgulho, ela sempre dizia que deveríamos usar tudo o que tínhamos ao nosso favor para ganhar uma batalha, era assim que ela jogava. Ela morreu antes de ensinar Sayumi a jogar.

—Vocês tem certeza que não estão mentindo pra mim certo? Porque se estiverem eu vou levar uma bronca muito feia do sensei.

—Claro que não estamos Ban, mas nós entendemos a sua preocupação, e então vamos voltar para o dormitório, obrigada pela atenção Ban, e mande melhoras para o Maiko.

Comecei a sair aos pouquinhos, Sayumi me encarava como que dizendo “não acredito que você fez isso tudo por nada”, ela realmente precisa de aulas de estratégia.

—Mei-Chan! Espera, eu acredito em vocês, vocês podem ir, mas não demorem, no máximo uma hora lá fora ok? Nada de usar seu kekkei genkai também.

—Muito obrigada Ban! Prometemos que vamos seguir as regras.

Ban abriu o portão e eu puxei uma Sayumi desacreditada para fora do subsolo. O sol estava começando a se por, uma brisa fria passou por nós e o céu já estava escurecendo.

—Não acredito que você conseguiu Mei!

—Depois eu te ensino, agora vamos, não podemos perder tempo.

A Vila oculta da Lua nunca foi muito movimentada, é uma vila muito pequena, sem nenhum grande atrativo, as praias do país da Lua ficam um pouco longe daqui, perto do rei. Aqui realmente só vem quem é shinobi ou quem precisa de um shinobi.

Mas o nosso clã não fica exatamente em Getsugakure, fica um pouco afastado mais perto da floresta e do rei. O que significa que aqui é menos movimentado ainda.

Sayumi pelo menos está animada. Quando ela sorri é a mesma coisa que ter a mãe de volta, pena que ela quase nunca sorri, então é bom trazer ela aqui fora.

Entramos para dentro da floresta, estar aqui sempre me lembra da nossa mãe, e estar com a Sayumi me faz sentir falta dela mais do que tudo. Sayumi saiu da cede uma vez apenas, quando realizou sua primeira missão, algo bem simples, apenas acompanhar o príncipe, mas ela ficou encantada com o mundo de verdade. Para quem vive aqui todos os dias não tem nada demais no céu azul, nas plantas, nas cores, no vento, mas para nós cada detalhe é magnifico, o que me faz desejar mais ainda viver nesse mundo.

—Sayumi essa floresta vai te ajudar no seu treinamento, mas pra isso você precisa se concentrar o dobro. Lá no clã você treina com outros membros e com chakras em marionetes, agora você vai treinar comigo e com a natureza, então respire fundo e sinta o chakra em você, deixe ele fluir pelo seu corpo, sinta ele arder dentro de você.

Sayumi é muito ansiosa, não tem paciência para as coisas, por isso tem dificuldade com o kekkei genkai.

—Agora feche seus olhos Sayumi, e sinta o chakra em volta de você, sinta o chakra nas arvores, na terra, no céu, escute o movimento que ele faz e sinta seu poder em você e além de você.

O nosso kekkei genkai é derivado de água e vento, mas tudo no mundo possui chakra, e isso é a base do nosso poder.

Todo shinobi possui chakra dentro de si, utiliza ele para fazer os jutsus, seja ninjutsus, taijutsus ou genjutsus. O nosso kekkei genkai além de utilizar do chakra dentro de nós utiliza do chakra dos nossos adversários, então temos que ter o controle absoluto do chakra em nós e ao nosso redor.

—Ótimo Sayumi, estou sentindo seu chakra, agora eu quero que você coloque as mão sobre essa arvore e capture o chakra dela, não tenha pressa.

Sayumi se concentrou bastante antes de colocar as mão na arvore, até que eu senti uma presença vindo de longe, pessoas estavam se aproximando.

—Sayumi espera! Tem algo errado!

—O que foi Mei? Eu estou fazendo tudo certo, nem vem!

—Não é isso...

Eu liberei o meu chakra para poder sentir melhor, conectei ele ao chakra da natureza ao meu redor. Tinha pessoas se aproximando da sede do clã.

—Tem alguém vindo para cá.

Sayumi me olhou apreensiva.

—O que vamos fazer?

—Esconda o seu chakra.

Me concentrei mais uma vez liberando mais chakra, até que pude perceber as leituras de chakra de quem estava vindo, quatro pessoas, uma delas é do clã, Tio Kazuo, as outras duas são desconhecidas, mas a quarta pessoa é o rei.

—Mei! O que está fazendo? Esconda o seu chakra também!

Respirei fundo e escondi a presença do meu chakra.

—É o tio Kazuo e o rei, os outros dois devem ser guardas.

—O que o rei está fazendo aqui?

—Provavelmente quer dizer algo para o nosso pai, vamos voltar para a sede, antes que eles cheguem mais perto.

Sayumi franziu o cenho, provavelmente triste por não poder treinar aqui fora, eu iria recompensar ela depois, mas agora eu precisava saber o que está acontecendo.

Corremos o mais rápido possível para a sede do clã, quando bati na porta Ban abriu tendo a maior expressão de dúvida no rosto, não deixei ele dizer nada apenas mandei a Sayumi ir treinar na sala de treinamento, enquanto eu me dirigi para a sala do meu pai.

Ainda mantinha o meu chakra escondido, conseguia manter ele assim por muito tempo, apenas precisava revelar a presença dele quando fosse usá-lo de fato. Tem muitas diferenças entre mim e os outros membros do clã, isso me incomoda muito, não que ser diferente é algo ruim porque de fato não é, só que eu queria entender o quão diferente eu sou e porquê.

Os guardas do meu pai já não estavam na porta da sala, o que significa que ele tinha acordado. Fui até a lateral da sala dele onde tem uma janela, de lá pude ver ele andando de um lado para o outro, tinha um pergaminho aberto em cima da mesa, e uma coruja em cima da cadeira. Provavelmente o tio Kazuo deve ter mandado uma mensagem dizendo que estava trazendo o rei, essa mensagem deve ter chegado logo quando eu e a Sayumi saímos. As mensagens chegam aqui por uma passagem no teto de vidro, não recebemos muitas, basicamente relatórios do rei.

De lá pude ver a porta se abrir e o rei entrar junto do tio Kazuo e dois guardas reais. Eles se dirigiram para a sala do meu pai, e quando entraram meu pai fez uma breve reverencia. O rei atual do pais da Lua não é muito chegado em regras, normas e até mesmo cordialidades, mas ele tem sido um grande rei para todo o povo, assim como o pai dele foi.

Eu não podia revelar o meu chakra para poder escutar melhor o que eles estavam dizendo, porque assim meu pai saberia que eu estou aqui e ai provavelmente ele brigaria comigo e eu não ia ficar sabendo de nada, então o jeito era me concentrar bastante e prestar muita atenção.

— “É uma grande honra recebe-lo aqui na sedo do clã Hokaku vossa majestade.”

— “Por favor Daishi, sem todas essas cordialidades, pode me tratar como uma pessoa comum.”

— “Como desejar.”

— “Você sabe o que eu vim fazer aqui, já não é nenhum segredo que uma quarta guerra ninja começou, e dessa vez todas as grandes nações e até mesmo países pequenos se uniram contra o inimigo, a aliança shinobi foi criada, e eles estão lutando com tudo o que tem nesse exato momento em que conversamos. A questão Daishi é que os ninjas de Getsugakure foram todos enviados para a guerra, apenas Yuki e Aiko ficaram para garantir a nossa proteção, porém nenhum ninja do clã Hokaku se apresentou para ser enviado a guerra e servir ao seu país.”

— “Eu entendo muito bem o que o senhor quer dizer Majestade, porém nenhum membro do clã se apresentou porque nenhum membro do clã sabe sobre essa guerra e nenhum deles irá participar dela, mesmo que seja para salvar esse mundo e ter uma grande união entre as nações, eu não posso colocar o meu clã nesse risco.”

— “Daishi, essa pode ser a maior guerra que esse mundo já enfrentou, precisamos de toda ajuda possível, e o clã Hokaku tem tudo o que é preciso para vencê-la!”

— “O nosso clã já participou da primeira e da segunda guerra, e tudo o que nos trouxe foram mortes atrás de mortes, o nosso Kekkei Genkai é um alvo claro da ganancia humana e ele não é perfeito, enviar o meu clã para essa guerra seria expô-lo para a morte certa, eu não vou sacrificar a minha família, eu fiz uma promessa quando me tornei o líder do clã que não haveria mais mortes, e eu vou cumpri-la, Vossa Alteza.”

— “Eu sei o que você diz sobre todo o legado de sangue que o kekkei genkai do clã Hokaku trouxe para vocês, o seu pai tentou resolver essas imperfeições, mas houve mais mortes do que sucesso, porém eu não posso deixar de insistir que o clã se una a guerra, como rei do país da Lua, apoiador da aliança shinobi, é o meu dever lutar com tudo o que temos para proteger esse mundo, não adianta você proteger o seu clã se perdermos a guerra.”

— “A minha resposta continuará sendo não. Sei que nesse mundo existe shinobis tão forte e poderosos como o nosso kekkei genkai, até mais do que ele, eu creio que essa não será uma guerra perdida se existir realmente a união entre todas as nações e países, porém não enviarei ninguém do meu clã. Quando viemos para o país da Lua, tivemos a garantia de que estaríamos protegidos e escondidos aqui, que ninguém saberia da nossa existência, e é por isso que eu prezo, a nossa proteção.”

— “Peço que reconsidere, a situação mudou desde que vocês vieram para cá, sei o quanto é importante manter seu clã protegido, porém não existirá mundo se nós perdermos essa guerra, precisamos de toda ajuda possível, precisamos de vocês, ou pelo menos de uma de vocês, isso já será de grande ajuda.”

Um silencio se instalou na sala, meu coração estava acelerado, eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, que o mundo estava prestes a ruir, que uma guerra estava acontecendo e nós estávamos aqui. Tínhamos todo esse poder e não podíamos ajudar a proteger esse mundo, o mundo em que vivemos, um mundo que precisa de nós. Meu coração doía, a imagem da minha mãe, da força dela, do sonho dela de proteger esse mundo não saia da minha cabeça, não dava para aceitar o fato do meu pai não querer ajudar.

A proteção do clã não podia ser mais importante do que a proteção do mundo inteiro, sem mundo não existirá clã Hokaku, não existirá nada.

Meu pai socou a mesa atrás dele, fazendo a coruja voar para fora da sala, os guardas do rei se colocaram na frente dele, e o tio Kazuo deu um passo à frente em direção ao meu pai.

— “Você pode ser o rei desse país, podemos trabalhar para você, podemos ser eternamente gratos por ter nos acolhido aqui mesmo correndo risco de uma guerra, mas nunca me peça para colocar a minha filha em perigo para proteger esse mundo podre e ganancioso que tirou a vida de muitos da minha família e fez da minha filha um grande reflexo disso tudo. Eu não enviarei ninguém do clã para essa guerra, muito menos ela.”

— “Você sabe que ela é a única solução, o maior sucesso, você sabe Daishi! Se você quer proteger a todos, proteja, sei que ela também quer isso, mas ela foi criada justamente para ser uma arma, seu pai sabia disso, ele sabia que o mundo chegaria a esse ponto e que precisaríamos do clã Hokaku, por isso ele sacrificou tudo para ter ela, para proteger o clã e todo mundo!”

— “ELA É A MINHA FILHA! NÃO UMA ARMA!”

— “Daishi se acalme! Ainda está falando com o rei!”

Tio Kazuo gritou segurando o braço direito do meu pai.

— “Sei o que o meu pai fez, eu estava lá e fui contra tudo aquilo, o ano negro do nosso clã nos marcou para todo o sempre, nada jamais justificará aquilo! O mundo pode ruir com toda a sua ganancia e o seu poder, nós continuaremos aqui, salvos por essas paredes, e se essa guerra chegar até aqui ai sim lutaremos, mas não pelo mundo, apenas por nós, pela nossa família.”

— “Pense sobre isso Daishi, Kazuo te ajudará a decidir, ainda temos tempo.”

O rei se retirou da sala junto de seus guardas. Eu deixei meu corpo pesar e acabei me sentando no chão frio, não me importava mais em esconder o meu chakra então o deixei aparecer outra vez. Eles estavam falando de mim, estavam falando do meu poder, algo aconteceu para eu ser assim e o rei disse que só eu poderia ajudar. O que estava acontecendo? Um milhão de coisas passavam pela minha mente, eu me sentia fraca e com raiva, como se tudo tivesse sido uma grande mentira, tudo em mim doía.

—A quanto tempo você está aqui Mei?

Tio Kazuo se sentou do meu lado.

—Tempo suficiente.

Ele suspirou.

—Não é o que você está pensando Mei, seu pai te ama e só quer o seu bem, assim como o do clã. Nós sentimos o seu chakra, ele queria vir falar com você, mas eu pedi para vir primeiro, sei que você está com raiva, mas tem muita coisa que você não entende.

—Então me explica.

Tio Kazuo segurou a minha mão e olhou nos meus olhos. Ele sempre foi uma pessoa doce e gentil, sempre fazendo piadas e brincadeiras para divertir todo mundo, mas naquele momento tudo o que eu vi nos seus olhos foi um pesar muito grande e uma seriedade que eu nunca tinha visto.

—Mei...

—OLHEM A LUA!

Uma mulher que estava cuidando da horta gritou, todos se dirigiam para a praça central, um grande alvoroço começou, ouvimos gritos e várias perguntas. Tio Kazuo soltou a minha mão e juntos levantamos, corremos para a praça central e quando olhamos pelo teto de vidro tudo fez sentido.

A alguns minutos ainda estava claro e de dia, mas agora o céu estava escuro e a lua cheia brilhava com intensidade, mas ela não era uma simples lua, ela estava vermelha como sangue e o chakra que vinha da natureza e eu podia sentir no chão abaixo dos meus pés não era normal.

—A guerra.

Tio Kazuo disse olhando atentamente para a lua. Eu senti meu corpo gelar. Sayumi e Tia Lin cortaram a multidão até chegarem em nós.

—O que está acontecendo?!

Tia Lin perguntou abraçando tio Kazuo. Ele não respondeu.

—Todos fiquem calmos! Não há motivo para pânico!

Meu pai surgiu a frente da multidão, sua voz ecoava mesmo com todo o barulho que se instalou ali.

Ele estava tentando acalmar a todos, mas não sabia o que dizer, Sayumi correu até ele e o abraçou. Naquele instante eu vi a preocupação em seus olhos, mas meu coração se encheu de raiva por todos os segredos e mentiras que ele carregava dentro de si e longe de mim.

—Por que não diz a verdade a todos pai?!

Tio Kazuo segurou o meu braço.

—Mei, não.

—Estou cansada de segredos tio Kazuo, aquilo está colocando a vida de todos nós em perigo, temos o direito de saber.

—Você não entende Mei! Tem muita coisa que você não sabe!

—Agora já é tarde demais para saber.

Tia Lin olhou para mim como se pedindo para que eu não fizesse nada, mas a raiva dentro de mim tomou o controle. Meu pai queria proteger o clã, mas alguém precisava proteger esse mundo para que assim exista um lugar onde o nosso clã possa existir, e agora eu sentia que esse era o meu devido dever.

—Uma guerra está acontecendo! Todas as nações e países se uniram para lutar contra o inimigo! Mas o nosso clã não está na guerra, porque o meu pai, o nosso líder, acredita que aqui estaremos protegidos, mas se o mundo acabar, se o inimigo vencer, o subsolo não protegerá a gente para sempre!

—MEI! CHEGA! VOCÊ NÃO SABE O QUE ESTÁ DIZENDO!

—Estou dizendo o que você não disse pai! O que você escondeu, assim como nós! Assim como eu! Afinal o que tem de errado comigo pai?!

Todos estavam em completo silencio.

—Você está certa, eu escondi muitas coisas, mas sempre foi para a nossa proteção. Não tem nada de errado com você, você apenas não sabe de todo o sangue que foi derramado antes de você nascer, e esconder isso deve ter sido um erro. Mas durante toda a nossa existência fomos perseguidos por causa do kekkei genkai, todos queriam o nosso poder, e estavam dispostos a matar por ele, os lideres antes de mim tentaram lutar contra isso mas tudo foi em vão, a morte nos perseguia, até você nascer. Você não tem todas as imperfeições que nos impedem de lutar contra a ganancia desse mundo, mas isso não significa que ao entrar nessa guerra a sua vida não esteja em risco, e que a vida de todos nós não esteja em risco por causa de você. Uma exposição pode ser fatal. Eu já perdi minha mãe, meu pai e o amor da minha vida, não posso perder minhas filhas e esse clã. Tem muita coisa que você não sabe Mei, que você não entende! Demoramos anos para estarmos de fato seguros, para apagar nossa existência desse mundo e vivermos em paz e tranquilidade. Sei que é assustador uma guerra estar acontecendo, mas nunca mandarei alguém para morrer, nunca vou expor nosso kekkei genkai para sermos perseguidos outra vez, se essa guerra chegar até aqui ai sim lutaremos, do contrário deixe que o mundo lide com seu próprio pesar.

Suspirei, eu quis chorar, não de tristeza, mas de raiva. Raiva do meu pai por não ter me contado tudo antes, raiva desse kekkei genkai, raiva desse subsolo, raiva de mim, raiva de tudo. Eu não sabia o que dizer, não sabia o que fazer, o chakra que corria pelo chão demonstrava que a situação no mundo não estava boa, eu queria ajudar, queria fazer algo, eu sentia que precisava fazer.

—Você não pode me proteger de tudo, é o dever do líder proteger o clã custe o que custar, eu serei a próxima líder desse clã, e durante toda a minha vida eu me perguntava o porquê de eu ser diferente dos outros, aqui está o porquê. Você protege o clã, e eu protejo o mundo para que o nosso clã continue a existir, se é isso o que eu posso fazer, é o que eu vou fazer, se essas diferenças entre mim e resto do clã forem para isso então eu irei. Esse era o sonho da mamãe, e agora é meu.

Soltei o meu braço da mão do tio Kazuo e me dirigi a porta, Ban se colocou na minha frente, e eu olhei novamente para o meu pai.

—Você sabe que esse mundo está se perdendo, e você sabe melhor do que ninguém o quanto esse clã é importante. Eu nunca faria alguma coisa que pudesse colocar vocês em risco, vocês são tudo o que eu tenho e tudo o que eu conheço, mas você também sabe que alguém precisa ajudar esse mundo, mesmo que eles tenham ninjas incríveis e poderosos, eles não tem o clã Hokaku, e nunca terão, mas eu posso ajudar, e eu sinto que devo. Por favor pai.

Ele suspirou.

—Não posso te deixar ir Mei, eu jamais me perdoaria se algo acontecesse com você. E mesmo que suas intenções sejam boas, qualquer coisa pode nos expor.

Deixei que uma lagrima caísse.

—Então eu não estou mais pedindo a sua permissão.

Deixei que o chakra dominasse o meu corpo, não precisava de sinais de mãos para um jutsu que eu tinha capturado e dominado. Um doton perfeito e infalível, um muro de pedra se ergueu ao meu redor, cobrindo a passagem, logo em seguida um futon direcionado ao Ban o arremessou longe e abriu a porta, saí correndo o mais rápido que eu pude.

Consegui ouvir os gritos da Sayumi, da Tia Lin e do tio Kazuo, senti o chakra do meu pai próximo de mim, então usei um suiton, um dragão de água para dificultar a vinda dele.

Eu sabia que aquilo era arriscado, sabia que ele estava certo e que eu não entendia muita coisa, eu sabia que poderia dar tudo errado, mas algo dentro de mim me chamava e dizia que eu precisa estar naquela guerra.

Talvez isso seja o meu destino, eu não sei, mas não importa o que aconteça ninguém irá machucar a minha família e esse mundo sem que eu não tente impedi-lo. Talvez meu pai nunca me perdoe por isso, mas se tem uma chance de fazer algo, se existe uma possibilidade de garantir que esse mundo sobreviva, que não perca a sua beleza, que viva para ser nosso lar mesmo no subsolo, eu lutarei por isso. Sei que seria isso que minha mãe faria, por mais que doa, eu não posso ter medo, se eu sou a única que posso lutar assim então aqui vou eu.

Notas finais
Então é isso, por favor não se esqueça de deixar um comentário! Nos vemos no próximo capitulo!