A Sociedade Da Investigação Dos Pinguins

1 Capítulo 1 - Vote Berod Haplabeebz


Notas iniciais
O Club Penguin é um jogo de propriedades da Walt Disney Company e da Disney Studios. Não sou afiliado de qualquer maneira a Disney ou ao verdadeiro Club Penguin, essa história e todos os seus personagens são ficcionais.

“Vote Berod Haplabeebz” eram as palavras escritas abaixo uma foto do sorridente candidato. O cartaz com essas características havia sido colocado lá a pouco tempo, mas já estava com aparência de velho, devido ao local em que ele havia sido colado. Ele estava em uma parede de um prédio, que desembocava num beco. Um beco muito sujo e escuro, cheio de lixo e sujeira, e algumas caixas de papelão. O cartaz já estava igualmente bem sujo, com algumas manchas, tanto da água da chuva quanto da sujeira. Estava rasgado em algumas partes, e parte dele estava manchado graças a uma pichação, que pegou parte do cartaz. A pichação dizia “Quem vigia os vigilantes?”. Acho que nunca entenderei.

Agora você deve estar se perguntando, o que um pinguim decente estava fazendo num beco daqueles? Bem, estava apenas de passagem, já que estava caminhando para a casa de um amigo meu. Aquele beco era um bom atalho, apesar de eu não gostar muito dele. Lá, tantas pessoas morreram e foram assaltadas (ou os dois) que ele ficou conhecido como “Beco do Crime”.

Ah, nossa. Como sou esquecido. Desastrado. Esqueci de me apresentar aos leitores. Meu nome é Ghe. Sou um pinguim. “Mas pinguins não falam, andam, escrevem sequer vivem em lugares com prédios”, você diz. Bem, isso no seu mundo. Vivo no Club Penguin, que, bem, como explicar para esses cérebros humanos... bem, vocês nos chamariam de “universo paralelo”. Vivemos numa ‘Terra alternativa’, aonde, ao invés dos continentes estarem cheios de humanos, temos animais. As áreas são divididas em ilhas, e cada espécie mantem a sua. O Club Penguin, como o nome sugere, é a ilha dos pinguins. Mas também tem as ilhas dos Caranguejos, Ursos Polares, Pandas, Castores... enfim, isso não vem ao caso.

O Club Penguin já foi a grande potência da nossa... “Terra alternativa” e... desculpe, não consigo me acostumar a chama-la de “Terra alternativa”. A verdade é que as pessoas presumem que o tempo é uma progressão estrita de causa e efeito, mas na verdade — de um ponto de vista não-linear, e não subjetivo — é mais como uma grande bola de Wibbly-wobbly ... timey-wimey ... coisa. Ok, resumindo, o povo aqui não é muito inteligente e não sabe que vivemos num planeta... bem medieval, não é? Bom, porém nosso estilo de vida é bem moderno. Possuímos shoppings, prédios, política e economia desenvolvidas, televisão, internet... creio que tudo o que vocês tenham ai na sua “Terra não-alternativa”, nós também temos, nem que seja de uma forma adaptada.

Enfim, como eu ia dizendo, o Club Penguin já foi a grande potência de nossa “Terra alternativa Wibbly-wobbly timey-wimey coisa”. Porém não é mais. Escandalos políticos e econômicos afundaram nossa ilha e fizeram muitos pinguins caírem no crime. Atualmente a maior potência é a Ilha dos Caranguejos, mas todos sabemos que eles se aproveitam da mão-de-obra barata e assalariada de Ursos Polares.

Aonde eu havia parado mesmo? Ah, sim. Eu estava cruzando o beco do crime para chegar na casa do meu amigo. Vocês iam gostar de conhece-lo. Rodrigo. Um sujeito bacana, apesar de viver numa casa, meio, hrm, digamos, muito lotada de coisas. Pelo menos, em minha opinião.

Enfim, cheguei lá. A área dos iglus dos assinantes tinha muitos iglus extravagantes, e, bem, o iglu de Rodrigo era um dos que se destacavam. Cheguei lá e bati na porta.

“Vá embora! Não quero atender parentes afastados, entregadores de panfletos, vendedores de porta-em-porta e muito menos camelôs!”, disse Rodrigo, ainda de dentro do iglu e sem abrir a porta.

“E quanto a velhos amigos?”, perguntei eu, em tom de ironia.

Rodrigo abriu a porta e me recebeu adequadamente. Ofereceu um cabide para eu colocar meu chapéu, mas recusei. É muito raro eu tirar meu chapéu. Muito, muito raro.

“E ai, cara, quanto tempo. Você sumiu!”, falou Rodrigo.

“Por ora”, disse eu, em tom sério, sentado com Rodrigo numa mesa enquanto ele preparava um lanche. “Estou encucado nuns projetos. Pesquisas. Ando saindo pouco de casa, você sabe. Minhas pesquisas dão muito trabalho”.

“Pesquisas e projetos, é?”, perguntou Rodrigo, servindo café a nós dois. “É muita intelectualidade vinda de um barman”.

“Eu não sou apenas um barman, Rodrigo, você sabe. Tenho um laboratório debaixo do meu bar, já te levei lá algumas vezes. E saiba que meu nível intelectual está muito bem, ando lendo muito.”, retruquei.

“Tudo bem, então.”, concluiu Rodrigo, depois de dar um gole no café. “Mas e aí, vai votar no Haplabeebz ou no P. Bear?”.

“Nenhum dos dois.”, falei. “P. Bear é um porco nojento, já tentou dar golpes de estado na ilha. E não foi só uma vez, você sabe”.

“Sim, sim, eu lembro. Pior foi a vez que ele conseguiu.”, respondeu Rodrigo.

“Sim, foi horrível. Tempos passados, e por muito tempo ficou muito bem e devidamente aprisionado no xilindró.”, relembrei.

“Falando nisso, como é que ele foi solto?”, perguntou Rodrigo.

“Algum parente dele da Ilha dos Ursos Polares pagou a fiança. É, eu também não sei o que um urso polar está tentando fazer na política de uma ilha de pinguins. Como se algum de nós fosse tão burros pra acreditar que ele ia ‘tentar honestamente’ dessa vez. Pffff.”, disse eu, sinalizando para Rodrigo que eu aceitaria mais café, e sendo servido. “Haplabeebz é outro que não devia estar se candidatando. Menino rico, criado a leite com pera, sempre aparecia em fotos totalmente embriagado em festas de outros ricaços, cada foto com uma pinguim diferente. Só decidiu entrar na política porque acho que ele já tinha enjoado de ficar em sua piscina olímpica, ver filmes que só vão estrear ano que vem em seu cinema particular e dar passeios de helicóptero pela ilha.”.

“Ora, mas ouvi dizer que o tal do Berod Haplabeebz estava nessa por acreditar no espírito de cada pinguim e...”, ia dizendo Rodrigo, antes de eu interrompe-lo.

“Coisa nenhuma”, falei. “Isso é o que é divulgado nas campanhas públicas e pela televisão”.

“Ora, e como você sabe de tantas verdades sobre o Haplabeebz?”, perguntou Rodrigo.

“Pesquisas”, disse eu, tirando da mochila algumas folhas grampeadas e colocando-as sobre a mesa. “Você não sabe a verdadeira face de alguém, até pesquisar sobre ela. Arquivos em redes sociais, artigos antigos de jornais já arquivados, entre outros”.

Rodrigo ia fazendo uma expressão facial de surpresa a cada página virada. Eu sei porque tanto espanto em relação as folhas, pois eu mesmo as coloquei ali. Haviam manchetes sobre batidas de carro, suspeitas de homicídio, atos de violência após bebida em festas, até algumas denúncias do Coins for Change. Tudo isso feito por Berod Haplabeebz.

“Caramba...”, disse Rodrigo, devolvendo-me as folhas grampeadas depois de um tempo. “E o que pretende fazer? Entregar isso as autoridades?”.

“A Elite Penguin Force? Há, não faça me rir. Eles não fazem nada além daqueles joguinhos de realidade virtual em que eles pensam estar salvando a Ilha. Sem contar que são mascotinhos do Spike. Aonde ele joga o graveto, eles correm atrás.”, conclui.

“O Spike... o tempo dele no comando está acabando. As eleições já são mês que vem. Mas, então, o que pretende fazer com esses papéis?”, perguntou Rodrigo.

“Por ora, nada.”, disse, colocando os papéis de volta na mochila.

“Nada?”, perguntou o Rodrigo .

“Nada.”, confirmei, levantando-me e já me direcionando a porta. “Foi só uma ideia pra ver se você aceita juntar-se a minha companhia.”

“Espere, espere... que companhia?” , perguntava Rodrigo, indignado.

“Por enquanto, não tenho um nome pra ela. Mas vai ser divertido, oh, sim. Vamos procurar coisas.”, retruquei.

“Ma-ma-mas, pera, que tipo de coisas?”, gaguejou Rodrigo.

“Explicações.”, disse eu. “E ai, vai juntar-se a minha companhia?”.

“Bem... quem está participando?”, perguntou Rodrigo, já se conformando com a ideia.

“Você e eu. Não é emocionante?”, perguntei. “Enfim, tenho que ir, só vim aqui de passagem para mostrar-lhe minha ideia. Caso queira, vá lá no bar, e nós começamos. Ah, obrigado pelo café.”, disse, saindo pela porta.

Ao sair, dei cerca de 10 passos, ouvi Rodrigo abrindo a porta e gritando: “GHE!”.

“Sim?”, perguntei, ainda sem me virar para Rodrigo.

“Tudo bem, eu vou com você.”, respondeu ele.

Sorri, e ele acelerou o passo para chegar ao meu lado.

“E então... pra onde estamos indo?”, perguntou Rodrigo.

“Creio que podemos começar pela Mina”, disse. “Descobri umas coisas meio, bem, surreais, que aconteceram lá.”, respondi. E assim, fomos.


Notas finais
Referências usadas no texto:
"Berod Haplabeebz" é um anagrama (jogo de palavras com troca de posição das letras) com "Zaphod Beeblebrox", o presidente betelgeusiano da galáxia na série de livros "O Guia do Mochileiro das Galáxias", de Douglas Adams.
A pichação com os dizeres "Quem vigia os vigilantes?" é referente a bem-sucedida graphic novel Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. A pichação aparecia frequentemente nas paredes da cidade durante a história, e os dizeres referiam-se aos heróis que protegiam os cidadãos, e que agora estavam, em sua maioria, aposentados. Os quadrinhos originais de Watchmen foram publicados entre 1986 e 1987.
O Beco do Crime, por onde Ghe passou para chegar ao iglu de Rodrigo, é uma referência ao Beco do Crime, um beco de Gotham City aonde os pais de Bruce Wayne morreram, e foi ali que teve início o trauma de infância que anos depois geraria o Batman. O personagem original de Batman foi criado em 1939, por Bob Kane e Bill Finger.
A frase "... as pessoas presumem que o tempo é uma progressão estrita de causa e efeito, mas na verdade - de um ponto de vista não-linear, e não subjetivo - é mais como uma grande bola de Wibbly-wobbly ... timey-wimey ... coisa.", dita por Ghe para explicar a Terra Alternativa, é uma referência direta à aclamada série de televisão britânica Doctor Who. O texto é uma tradução literal de "People assume that time is a strict progression of cause to effect, but actually from a non-linear, non-subjective viewpoint - it's more like a big ball of wibbly wobbly... time-y wimey... stuff", dita pela 10ª encarnação do personagem principal, O Doutor, para explicar a viajem no tempo. Doctor Who foi criado em 1963 e a fala em questão é do episódio "Blink", de 2007.
A frase "E quanto a velhos amigos?", dita de Ghe à Rodrigo, é uma menção a O Senhor dos Anéis, precisamente ao primeiro livro / filme da saga, A Sociedade do Anel. O Mago Gandalf diz a mesma coisa antes de entrar na toca do hobbit Bilbo Bolseiro.
E, por fim, a frase "E então... aonde estamos indo?", dita por Rodrigo, também é uma menção à O Senhor dos Anéis, também sobre A Sociedade do Anel. Essa frase originalmente foi dita pelo hobbit Pippin Tûk, após a primeira reunião da Sociedade do Anel em Valfenda.
O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel foi lançado em 1954 pelo escritor J. R. R. Tolkien e teve sua adaptação cinematográfica dirigida por Peter Jackson em 2001.
Fiquem atentos aos próximos capítulos!