A Shot In The Dark
2 Parte 2
Os passos cessaram e ouvi gritos, tiros, vidros estilhaçando em um milhão de pedaços, portas desabando, o alarme de incêndio disparado. A enfermeira não estava presente, então, mesmo que tomada por uma violenta dor de cabeça combinada de tontura, me levantei, catei meus materiais e fui cambaleando rapidamente até a saída da enfermaria, completamente transtornada, assustada e curiosa.
Não sei como descrever a sensação, minhas pernas ficaram completamente bambas e comecei a chorar. Minha primeira reação foi vomitar assim que avistei a cena. Gente correndo, corpos estirados no chão, vidros quebrados, portas caídas, miolos estourados e peitos perfurados. Sempre sonhei em ver meu colégio assim, já que odiava tanto a maioria esmagadora daquele povo, mas não me imaginava presenciando isso aquele ato. Rapidamente ignorei a dor de cabeça e pus-me a correr, assustada e vendo todos gritando e se escondendo, chegando a reconhecer até alguns corpos, a maioria de gente que eu odiava. Até então não sabia o que estava acontecendo direito, quem era o assassino ou, talvez, os assassinos. Não sabia mais o que estava fazendo, corria sem rumo para o outro lado do colégio, morrendo de medo de dar de cara com o autor de toda aquela tragédia. Enquanto corria por um corredor sem saída, com poças de sangue por todo o chão, vi uma mão me puxando para dentro de um banheiro com toda a força do mundo, era uma mão trêmula e gélida, como a de um defunto.
Sempre achei que Catarina fizesse o tipo “garota corajosa e preparada para tudo que vier”, mas ao vê-la naquele estado, pior que o meu, senti um aperto no coração. Abracei-a e começamos a chorar desesperadamente naquele chão imundo do banheiro, aonde os corpos de Morgana e Beatriz jaziam cheios de sangue, com tiros na cabeça e pernas. Senti toda a dor e confusão voltar à tona, mas não podia deixar Catarina naquele estado e totalmente vulnerável no banheiro, então arrastei-a para fora e, com muita dificuldade e dor de abandonar os corpos de nossas melhores amigas, corremos em direção à saída do colégio. O portão estava trancado. Tentamos arrombá-la, mas era de um ferro muito resistente. Então, no meio de tamanho desespero, arrastei-a para a biblioteca. À começo ela protestou, mas achou melhor me seguir. Já eu não sabia o que estava fazendo, quis ir para a biblioteca porque estava com um pressentimento de algo que não sabia o que era. No momento em que chegamos, a porta estava trancada e não tínhamos mais para aonde ir. Começamos a gritar até que um outro aluno, vindo do lado de dentro destravou a porta e fez sinal para que entrássemos. Voamos para trás de uma mesa no fundo da biblioteca e Catarina me disse, em prantos, que não conseguira ver o rosto de quem tinha feito tal coisa, estava usando uma máscara anônima e luvas pretas, mas que já haviam chamado a polícia. De repente ouvimos passos de uma pessoa que estava calmamente andando do lado de fora da biblioteca e ouvimos sua risada. Uma risada perversa e cheia de malícia, sentindo prazer ao estourar os miolos de tantas pessoas. Na hora que entramos, mal tinha reparado que haviam outros quatro alunos jogados e desesperados em outros cantos da biblioteca intactamente perfeita, que choravam e arrancavam os cabelos aos montes. Nessa hora eu raciocinei: aquele devia ser o único lugar que o assassino não havia entrado e com certeza era ele do lado de fora.
Olhei assustada para Catarina e não tive tempo de falar devido ao barulho estridente da porta arrombada atingindo o chão com estrondo. Vi uma silhueta preta adentrando no local com um passo lento e meu corpo foi tomado pelo desespero. Olhei para Catarina e ela tinha a cabeça completamente afundada entre os joelhos, chorando muito em silêncio e rezando para sair viva. Ouvi um barulho de carro de polícia parado do lado de fora do colégio e instantaneamente senti um alívio. BANG, BANG, BANG, BANG. Sempre sonhei em ter uma metralhadora AN-94, completamente destrutiva, mas quando vi que aquela arma era do louco que fizera aquilo, perdi a vontade de ter uma daquelas. Quatro gritos agudos e estridentes de horror e implorando por misericórdia. Desviei minha atenção dos carros de polícia e olhei para a realidade local: aqueles outros quatro alunos com seus corpos estirados e destroçados no chão. Catarina segurou minha mão com uma força extrema e eu comecei a rezar também, até que ela sussurrou pra mim chorando enquanto o assassino ia muito lentamente se aproximando de nós: “Estou grávida”, e chorou mais forte ainda, “desculpe não te contar, achei que iria manter o bebê, mas não acho que sairei viva”. Fiquei chocada por isso, mas dei meu último abraço apertado nela e sussurrei em seu ouvido de volta: “Shhh, está tudo bem”, tentei acalmá-la, “a polícia está aqui e vão prender esse psicopata”. Catarina pareceu se confortar um pouco diante de minhas palavras e abaixou a cabeça, enquanto os passos da figura encapuzada se aproximavam cada vez mais de nós, até que cessaram porque ele estava do nosso lado.
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