A Shot In The Dark
1 Parte 1
Notas iniciais
Jade
O despertador tocou. Acordei, olhei o relógio e me lembrei que dia era. Cinco e meia da manhã de uma Terça-feira de dezembro, o dia em que o colégio inteiro estaria em provas finais. Suspirei ao lembrar disso, mas me levantei, não podia perder um dia tão “importante” e decisivo. Vesti minhas pantufas e desci as escadas ainda de pijama, indo em direção à cozinha para preparar um café bem forte que me mantesse atenta e ligada durante as provas. Tentei me recordar de alguns detalhes sobre a matéria que teria prova na primeira aula, mas apenas um sentimento negro ocupava meu pensamento. Sangue. Cabeças rolando. Corpos atirados no chão. Ao meu ver, aquilo me ocorrendo por pensamento era estranho demais. Nada fazia muito sentido, apenas queria saber porque aquilo me vinha em pensamento, quase como se fosse uma premonição de algo. Tomei uns goles do meu café que desceram machucando minha garganta e subi para colocar o uniforme e ir pra mais um dia de muito sacrifício no colégio.
Quando estava pronta, sentei-me na cadeira da sala com vista para a janela enquanto esperava a van que me levava até a escola chegar. Já são 6:10, pensei, incrível como o tempo corre quando não queremos que ele passe. E, bem na hora, a sala foi invadida por um barulho do motor estridente de van que parara em frente a minha casa. Destranquei a porta e a abri, sentindo um gélido ar de inverno combinado com uma congelante névoa sinistra que pairava sobre meu jardim da frente. Senti minhas pernas tremerem enquanto me movia em direção ao veículo, mas no momento em que entrei, fui surpreendida por uma prazerosa sensação de calor, já que estava com todas as janelas fechadas. Sentei-me em um dos primeiros assentos, me aconcheguei, fechei os olhos e dormi. Dormi tão profundamente que o longo caminho até o colégio pareceu ser um pouco menor que 5 minutos, quando, na verdade, deve ter sido uma hora.
– Ei, garota! – era a monitora da van me acordando – chegamos. Não vai descer?
Olhei ao meu redor muito confusa e vi que o todos já haviam saído. Eram 7:10 ainda. Faltavam 10 minutos para bater o sinal. Me acalmei e pedi desculpas à monitora, desci da van e então segui o caminho até minha sala de História, a única aula que eu gostava – depois de Inglês – e me animei, por ter a impressão que sabia absolutamente tudo sobre o assunto e que iria levar um 10. Minha caminhada até a sala foi demorada e dolorida devido ao frio arrebatador que invadia meus ossos, os congelava e me deixava com uma câimbra que estava difícil de aguentar.
A sala estava aberta e já tinha alguns amigos meus sentados nas cadeiras e roendo as unhas de ansiedade e desespero, enquanto eu estava relaxada e preparada. Me sentei e conversei com Catarina, Morgana e Beatriz, minhas melhores amigas. O sinal bateu uns cinco minutos depois. A professora entrou com aquele olhar torturador que ela faz, como se nos fuzilasse com seus olhos e a sala foi tomada por uma tensão inexplicável quando ela começou a distribuir as provas.
Quando recebi a minha e olhei para as questões, fiquei completamente tonta porque as letras pulavam do papel e deslizavam sobre o mesmo, formando, ao meu ver, a palavra MANCHA. Quase dei um pulo da cadeira e repentinamente todas aquelas visões começaram a voltar. Sangue. Cabeças rolando. Corpos estirados no chão. Ouvi passos do lado de fora da sala de aula que me perturbavam, passos firmes e raivosos, mas nenhum dos meus outros amigos pareciam escutá-los. Levantei-me bruscamente da cadeira com a sala inteira me fitando e quando me coloquei de pé, caí no chão com o baque estridente de meu ossos e vi tudo embaçado, mas, pouco antes de apagar, consegui reconhecer meus colegas todos encima de mim, falando, fofocando, curiosos e assustados.
Acordei e me vi em um lugar completamente branco, achando que tinha morrido. Mas, ao me levantar, percebi em que espaço me encontrava: a enfermaria do colégio. Fiquei lá, olhando para cima, deitada na maca e refletindo sobre o que tinha acontecido, até que comecei a ouvir aqueles passos novamente no meio de todo aquele silêncio. O sinal tocou. Quando o sinal toca, o silêncio se quebra com vozes, risadas estridentes, um falatório de alunos. E foi isso que aconteceu, mas em questão de dez minutos o barulho cessou enquanto todos já estavam em suas salas de aula. Estava curtindo aquele silêncio até que, poucos segundos após, os passos retornaram e eu me encontrava um tanto perturbada.
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