A Serva do Sangue [Fic +18]
2 Capítulo 2 - Lua de tinta
Os olhos se abriam em um pesar sonolento, aos poucos a jovem retomava a razão. Para seu ao redor ela observou: Trevas! Uma escuridão profunda era tudo que via.
–Onde... eu estou? Alguém... alguém pode me ouvir!?
A voz parecia se abafar ao seu redor, Elisabeth sabia apenas que estava deitada em algum tipo de plano acolchoado, e ao tentar se levantar bateu de testa em alguma saliência cujo acústico revelava ser de madeira. Tateou tudo à sua volta e com as limitações que seus membros eram submetidos, pode concluir com incerteza.. estava em um caixão.
O desespero lhe tomou a consciência. Elisabeth se debatia mesmo entendendo ser algo inútil, gritava por socorro mesmo percebendo ninguém lhe escutar, lutava pela vida mesmo sabendo não possuir muitas chances de sucesso. Mas o pior acabara de chegar. Elisabeth percebeu um estranho estalar na madeira acima de seu tronco, depois outro no mesmo local, então um ultimo e pode ouvir o que parecia ser terra caindo de um pequeno orifício na tampa do caixão.
Uma pequena parte desta tampa fora quebrada e dela descia a terra fria sobre o corpo da pobre falecida.
E o que mais poderia ser feito? A ela só lhe restava esperar pela morte, pela segunda vez.
Elizabeth acalmou os músculos, parou de gritar, se deixou deitar como antes e então fechou os olhos. A terra lhe cobria a barriga e braços quando ouviu uma voz distante lhe pronunciar: “Não desista!”
O caixão estremeceu para algo bater com força contra uma pequena área da tampa, parecia um soco direto e destrutivo nesta. Levou um susto, sentiu uma mão envolta de muita terra que caia pela nova saliência lhe segurar a gola da roupa, em seguida um puxão poderoso levantou o corpo da jovem que passou pela parte superior do caixão como se fosse vidro, sentiu seu corpo ser arrastado para cima, perfurando as entranhas do fundo da terra úmida que parecia nunca acabar.
Chegou à superfície, sentiu uma corrente de ar e então abriu os olhos. Estava em um cemitério vazio! Era noite e o buraco de onde saíra jazia bem ao seu lado. O estranho, porém, era que suas vestes se encontravam limpas e o autor de sua fuga da morte não se era visto naquele lugar medonho, e para completar a irrealidade das circunstâncias, viu acima um céu pintado de vermelho-sangue e uma lua que, surrealmente, era tingida de um preto absoluto escorrendo no plano celeste, incitando uma lua feita de tinta que desmanchava em um ritmo quase nulo. Atentou ao que se mostrava à sua volta, percebeu próximo a si uma pequena casinha parca, feita de uma madeira escura que parecia mal cuidada há algumas dezenas de anos, janelas quebradas e seu interior coberto em escuridão. Telhas enegrecidas e algumas fora do lugar, a porta ameaçava ranger para quem a tentasse abrir, cogitou ser a casa do coveiro. Do lado oposto mais afastada estava a capela, adornada com suas pedras perfeitamente montadas e fixadas com madeira que formavam seus belos muros. Uma grande porta com o topo circunferencial e janelas coloridas que impossibilitavam o observar de dentro da pequena, porém bela, construção de pedra. No centro do telhado laranja, projetava-se uma pequena torre que culminava em um sino enferrujado exposto ao ar livre, com apenas um teto pontiagudo de telhas sobre si.
Cattarine calculou correr até a capela, desviando das criptas e estátuas góticas de anjos tristes. Tomou impulso com o calcanhar de trás e correu com a base inferior da túnica emprestada de sua amiga levantada, apesar de em uma ocasião tão inconveniente, era possível perceber em seus movimentos leves a presença da nobreza de seu sangue.
Chegou na porta da residência sagrada e já avançou em desespero para a maçaneta prateada da parte direita do portão de madeira. Fora pega de surpresa, pois ao tocá-la sentiu sua pele arder em referencia a um leve queimar. Sem tempo para entender, ela cobriu a mão com a ponta da manga comprida de tecido bruto puxando a porta pesada que sonoramente protestava enquanto se abria para for. A partir da primeira fissura que se alargava entre um gume de uma porta e o de outra conforme Elisabeth abria um lado, surgia dentro desta separação uma luz branquíssima que dominou o ambiente o qual envolvia aquela construção. Uma vez que a porta fora toda aberta, dentro da capela reinava um ambiente impossível de ser vislumbrando tamanho a ofuscação desta luz emanante. Sentiu-se estranha, pois, ao invés de conforto, tal iluminação lhe promovia calafrios e uma vontade bizarra de manter-se o mais longe possível. Ainda sim não ligou para sentimentos que por não fazerem algum sentido, decidiu desprezar. Um erro que sentiu na pele junto ao queimar da face assim que rumou para dentro de tal luz, gemeu alto junto ao recuar tropeço de volta ao gramado do cemitério.
–O que por Deus é isso?- Perguntava a si mesma.
Elisabeth tentaria prosseguir com as perguntas mas desistiu ao sentir o chão sacolejar e um fraco redemoinho de terra se formar no exato buraco de onde saiu. O chão revestido por grama e terra parecia ter aberto um vácuo em seu ventre, puxando túmulos e cadáveres para dentro deste fenômeno sem igual. Elisabeth pensou em ultrapassar aquela barreira de dor visando a segurança da capela por trás dessa luz danosa, mas refletiu rapidamente. Não parecia se sentir bem em contato com aquela atmosfera interior à capela, só restava uma opção não racional: A casa do coveiro. Olhou para ela ao longe, e sentiu como se a mesma a chamasse, como se a escuridão dentro dela lhe prometesse o conforto da segurança que buscava naquele momento.
Um local sagrado causador de mal estar, ou um possível ambiente malevolente com ar de aconchego?
Ouviu um rugido rouco vindo de dentro do redemoinho que já alcançava a extensão de uma carroça. Pensou que algo viria dali e a dúvida talvez lhe custasse a vida, então decidiu não confiar em sua mente... seguiu seu coração pulando em um caixão de cimento ainda sobre o chão em movimento, teria prosseguido não fosse a visão de uma mão feita aparentemente de galhos secos, com tamanho o suficiente para envolver o tronco de uma pessoa, surgir daquele buraco sugador, depois outra mão e em seguida Elisabeth contemplou o que aparentava ser uma árvore de casca esverdeada com braços magros e um rosto malevolente se erguer de dentro da terra. O monstro media 5 metros com galhos desnudos que se espalhavam em todas as direções acima da cabeça, em alguns galhos mais grossos eram sustentados em suas pontas esqueletos humanos amarrados pelo pescoço com uma corda velha à ponta do galho. O rosto era formado a partir de baixo relevo no tronco da árvore e expunha uma feição horrorosa.
Com alguns metros de distancia entre Elizabeth e o monstro, a criatura-árvore começava a se mover em direção à moça, mas como não havia pernas era empurrada pelo próprio chão de forma lenta porém eficaz. Elisabeth queria correr para a tal casa, mas este monstro entre ambas certamente não parecia disposta a permitir que isto fosse feito com tamanha facilidade.
Pensou em como se protegeria daquilo, estava tremendo perante aquela imagem medonha, mas precisava se recompor. Ouviu então o sino da igreja tocar, o som alto chamara a atenção da criatura e perturbara os morcegos que no topo da torre dormiam, e agora em um amontoado de dezenas, voavam ao redor da estrutura comprida. A árvore viva voltou-se novamente para a jovem desorientada em frente à casa sagrada, penetrou seu braço magro e de aparência frágil, fundo sob a terra solta, Elisabeth percebeu pequenas elevações no terreno que formavam uma trilha conforme se aproximava dela, entendeu que alguma coisa caminhava por baixo do solo em direção à jovem. Tentou dar um pequeno salto para o lado, mas assim que a alcançou, a mesma mão enterrada, agora surgia do chão e alcançava o braço frágil da nobre, Elisabeth gritou de susto, o restante do braço de madeira enterrado se elevou para então puxar sua presa direto ao tronco de origem. A árvore ergueu Elisabeth já abrindo sua bocarra com fiapos de madeira como dentes, mas foi interrompida pelo mergulhar de morcegos que batiam com força no pesado monstro, em questão de segundos a criatura se viu rodeada de todos os morcegos que naquele local habitavam. Com a desorientação graças às criaturas voadoras que a cercava, O braço afrouxou e Elisabeth caiu sem se ferir, ela se levantou o mais rápido que pôde e após um tropeço bobo manteve seu corpo erguido para melhor dinâmica na corrida, foi direto para a porta do casebre, avistou superficialmente um gato preto de olhos verdes a observando agir, deitado sob uma das criptas.... “Érebo!?”
Foi de encontro à porta e sem pensar duas vezes antes de abrir, a arregaçou para em seguida trancar-se no coração do interior sombrio.
Como se teleportada para um outro espaço-tempo, Elisabeth percebeu que a porta e a parede pelas quais acabara de passar já não mais existiam. Invés de uma casa pequena, o local era frio, tão amplo quanto seus olhos conseguiam vislumbrar e totalmente enegrecido pela falta de qualquer luz intensa o bastante, tudo que se tinha de iluminação vinha das velas vermelhas de longa duração que fantasmagoricamente flutuavam em um movimento lento de subida e descida de alguns centímetros, sendo sustentadas por um nada. Tais velas eram espalhadas por todo o ambiente que aparentava não ter fim.
Elisabeth sentiu que apesar de a impressão de mergulhada em um vácuo absoluto, havia um plano sólido sob seus pés encalçados em uma bota de retalho, decidiu apenas ignorar qualquer justificativa lógica e seguiu em passos apreensivos, o barulho das botas no chão ecoava tal como se pisassem em mármore. À medida que avançava, sentia a textura deste chão mudando gradativamente, e à cada passo adotando um aspecto de pedra coberto por areia ou terra. Após 10 segundos de caminhada uma fraca cor se materializava deste chão misterioso, se formava dali o que parecia ser um solo azulado, sujo de terra e com crânios espalhados em geral pelos cantos. Ao que se formava, Elizabeth reparou que se tratava de uma imensa ponte de pedra, com uma largura de incríveis 7 metros, pilastras de sustentação que desciam até serem engolidos pelas sombras e uma extensão indeterminada. Sussurros eram assobiados como um vento ocasional e se tornando mais frequentes conforme a ponte era seguida.
Elisabeth olhava para os lados, apesar das vozes parecerem se projetar bem ao pé de seus ouvidos ninguém havia por lá, na ponte começava então o surgimento de estátuas, uma em cada extremo, a fileira de estátuas do lado direito da ponte eram desenhadas como uma mulher em pé de túnica levíssima com ambas as mãos pousadas sobre a ponta da bainha de uma espada que se alongava até enterrar sua lâmina no chão, tal entidade comportava duas asas semelhantes à de um morcego atrás dos ombros, do outro lado, no canto direito daquela mesma estrutura titânica, a exata mesma entidade, com as duas mãos deitadas sobre a espada virada para baixo, no entanto ao invés de asas de morcego, eram asas providas de penas, semelhante a de aves em geral, que se encontravam em suas costas. O número de velas em repouso no ar diminuía e tocos de tochas que emanavam uma chama azul surgiam nas laterais entre uma estátua e outra, no céu escutava vez ou outra algumas trovoadas abafadas, estes sons celestes iam tornando-se mais límpidos junto ao reaparecer do céu escarlate e a lua negra. Céu, ponte, estátuas, tochas, velas.. Tudo ia se criando a partir de um nada conforme prosseguia, pareciam mais como projeções criadas aos poucos por sua própria mente, mas como poderia aquela irrealidade mental soar tão realista?
Avistou surgindo do crepúsculo alguma forma acinzentada, parecia uma estátua que brotara do meio da ponte, todas as outras menores culminavam dos lados dessa estátua maior. Elisabeth pela primeira vez desde que entrou pela porta, cessou o caminhar, teve de erguer um pouco a cabeça para conseguir examinar a escultura de seu top até a base. A estátua devia medir 3 metros de baixo para cima, e o mais impressionante estava em o que ela representava.
Um pedestal produzido à partir da mesma pedra que as estátua no decorrer da ponte se erguia do chão e em seu cunho era sustentado um globo transparente, cuja provável matéria prima era o cristal, esta esfera media o equivalente a 1,60 metros de diâmetro e sobre ela repousava um dragão talhado em mármore negro, este começava por uma calda longa que seguia pelo chão tal qual uma serpente, suas patas traseiras ainda tocavam o chão mas sua barriga seguia à centímetros do globo enquanto o escalava, debruçava seu peito sobre o globo e com as pontiagudas garras prendia seus braços à esfera, dali descia agora seu longo pescoço que alcançava 1,30 metros do chão dando início à cabeça reptiliana, seus olhos exalavam fúria e sua boca jazia aberta, pondo à mostra seus dentes afiadíssimos, suas enormes asas desenhadas como pele e ossos abraçava o cristal sem tocá-lo. Elisabeth avista dentro desta boca de mármore draconiana, uma espécie de adaga deitada perpendicular à boca, a jovem ergue seu braço em busca do objeto, analisa-o enquanto se pergunta o que significa aquilo tudo. Aquele lugar, o cemitério a capela e a casa, o espaço absoluto no qual um mundo se forma aos poucos e agora isso, esta criatura mitológica que parece lhe oferecer a adaga.
“Escorra vosso pulso”, foi como se ninguém a tivesse dito, mas de alguma forma Elisabeth teve acesso à ela. Observou aquela lâmina fria e se negou a executar o que lhe veio à mente como consequência dessa tal frase.
A jovem prosseguiu com a adaga em punho e decidiu ultrapassar o ídolo, mas pouco atrás dele viu revelado um portão, constituído de barras de prata, impedindo qualquer passagem humana no espaçamento entre elas, media alguns 12 ou 13 metros, Bem ao centro deste portão selado sustentava-se um desenho em ouro, como um brasão. Era o desenho desse mesmo dragão à frente sobre a mesma esfera que vira junto a ele, dentro dela representada por um desenho dourado, no entanto, pode identificar o que ja ouvira falar nos livros como “Yin e Yang” dentro dela. De ambos os lados algum tipo de planta erguia-se em arqueio até a metade do brasão.
Os sussurros fantasmagóricos que a acompanhavam agora se intensificavam, tal como se a quisessem avisam sobre algo, Elisabeth assustada olha pra trás, apertando seus olhos na tentativa de forçar a visão ela percebe que ao longe, na exata passagem da qual surgira, as luzes de algumas tochas azuis estavam sendo consumidas, a escuridão às estava tomando para si. Percebeu o tempo curto que agora lhe era acometido, as sombras vinham lhe buscar e o portão impedia que continuasse seu caminho. Não havia o que fazer, exceto...
Novamente um estrondo das trovoadas que ocorriam apesar de nenhuma nuvem ser avistada.
–Deus, és este teu teste? Queres que prove que sou digna de adentrar vosso reino? – Ela aguardava alguma resposta, olhou para o céu rubro mas nada acontecera. – Será o que de fato farei, pois. Não temerei mal algum, tal como vós ensinaste-nos!
Pôs firme o objeto cortante e o deslizou sobre a pele frágil do pulso, sentiu a dor e então esticou o braço deixando cair o sangue vivo de seu corpo. O Sangue parecia fluir de forma mais rápida e em maior quantidade que o normal tendo em vista o fino corte único que produziu em si mesma. Em questão de segundos uma poça vermelho-vinho se formou sob seus pés, ainda sim o sangue continuava a jorrar, e só cessou após litros serem despejados. Elisabeth não sentia-se fraca apesar de parecer ter doado todo o sangue que residia em seu jovem corpo.
Mais e mais tochas eram abafadas. 15 metros de distância. As trevas corriam lentamente a seu encalço.
Sentiu o borbulhar do líquido abaixo de si, com um pulo amedrontado, ela se pôs pra fora de sua própria poça. Da mesma surgia então uma figura não identificada feita puramente de sangue, ao que foi tomando sua forma de acordo com a moldação para fora do líquido, Elisabeth foi também conseguindo distinguir a imagem.. Era um homem! Um homem criado pelo seu próprio sangue!
–Q-quem é você? – Elisabeth recuava temendo tanto a figura quanto a escuridão que se aproximava cada vez mais no lado oposto.
O “homem” então saiu de cima do sangue que permanecia do mesmo tamanho sobre a ponte e calmamente caminhou em direção à sua progenitora, terminava de formar no ser o que parecia ser seu cabelo comprido e seu sobretudo que esticava-se aos tornozelos, o corpo inteiramente de sangue parecia possuir uma fonte própria no topo de sua “cabeça”.
“Não temerei mal algum”
Elisabeth parou o recuo e encarou a figura do homem que agora se localizava bem à sua frente, há poucos centímetros dela, sentiu como se a estivesse observando. Por algum motivo, via segurança naquela imagem à sua frente.
Mais um distúrbio nas vozes sussurrantes e ambos olharam para o caminha da ponte de pedra, as trevas jaziam a 8 metros neste momento e de dentro delas era possível perceber grunhidos diversos que pareciam se aproximar mais rápido que o próprio manto sombrio. O Ser de sangue se pôs rapidamente à frente de Elisabeth, erguendo os braços para trás em um sinal de que ela estava naquele momento sob sua proteção. Então das entranhas do escuro brotaram seres humanoides, porem um pouco menores e bem mais magros feitos totalmente de sombras que corriam na direção de ambos, eram 3 e se mostravam hostis. O Homem misterioso deu um impulso quase desumano para frente e moldou seu braço sanguíneo para uma espécie de chicote que, apesar de líquido, parecia conseguir se solidificar tal como uma borracha de verdade. Assim que tocou o chão novamente, girou seu corpo fazendo um círculo com o “chicote” acima de sua cabeça que ao descer trespassou as 3 entidades com facilidade, desintegrando todas as 3 na mesma hora. Elisabeth ouviu dessa vez não um grunhido, mas um grito animalesco cujo autor parecia pisar pesadamente conforme se locomovia para fora da escuridão.
–Tem mais deles vindo! – Elisabeth estava apreensiva, pois mesmo que os seres das trevas estivessem sendo parados pelo homem misterioso, o manto sombrio continuava avançando.
Ao ouvi-la o homem de sangue se virou para a mesma, logo que uma criatura de duas vezes o seu tamanho surgisse da fonte obscura, a criatura corpulenta parecia sustentar dois braços e um chifre. Ela se posicionou atrás do homem e preparou seu punho no alto para descer um soco de cima para baixo, visando esmagar a “cabeça” da figura protetora.
–Cuidado!!!
Sem sequer se preocupar em virar, o protetor modelou seu braço-chicote fazendo-o tomar a forma agora de uma espada que portava uma aparentemente grande e pesada lâmina, nesse pequeno tempo entre o preparar e o descer do punho do monstro de sombras, o homem preparou a “espada” enquanto dobrava os joelhos, deu-se um salto grandioso, posicionou a arma de sangue e produziu um corte liso que começou nos dedos fechados daquele braço bruto e terminou saindo por seu cotovelo. A mão enquanto descia para o soco fora desintegrada e ainda no ar juntou à mão vazia com a em forma de espada e dessa vez, com os dois braços culminando em um único ponto, duplicou o tamanho daquela espada que ao cair junto à seu manuseador, rasgou precisamente o monstro ao meio. Elisabeth desejaria naquele momento se sentir aliviada mas ambos sabiam que não acabava ali, mais barulhos advinham da escuridão e a mesma agora já cobria seu parceiro que lutava incansavelmente com qualquer criatura que tentasse ultrapassa-lo parecendo não se importar com o breu absoluto que o acobertava. Logo perdeu de vista seu parceiro, correu até o portão, onde dali não pôde mais passar. Apenas ouvia as criaturas lançando gritos de ataque e gemendo conforme eram abatidas uma após a outra. A estátua do dragão fora encoberta e agora era a vez de Elisabeth, ela mais uma vez estava em uma situação em que nada podia fazer a não ser se encolher no canto e esperar os resultados que ela não podia controlar.
Manteve-se espremida no portão prateado, o manto negro a alcançara, mas antes da sombra chegar aos seus pés, um outro alguém chegou, era seu aliado que agora estendia a mão para ela. Por algum motivo o coração da jovem se enchia de uma certa alegria por vê-lo ali, o corpo de sangue sumiu aos poucos em decorrência da escuridão, mais monstros gritavam atrás de ambos e mesmo sem vê-lo, sendo também encoberta... ela sorri....e lhe estende a mão.
Uma fonte de luz se cria a partir do contato entre ambos, o sangue agora borbulha enquanto ilumina o coração das trevas, em seguida... um flash.
...E nada mais além do sono profundo.
...
Elisabeth tenta retomar a consciência, mas ainda encontra-se muito sonolenta. Não vê nada além de alguns vultos embaçados, identifica estar em um local de parca luminosidade com algumas pessoas que conversam pouco à sua frente.
–Os ferimentos dela terminaram de cicatrizar. – Uma voz feminina e calma soava ao fundo.
–Você acha que... Ela é capaz de sobreviver a isso? – Uma segunda voz masculina de tom mais maduro seguia com a conversa.
–Penso ser muito difícil. Quero dizer, nunca havia ouvido falar em alguém que sobrevivesse dessa forma, muito menos uma hu... – Fora interrompida pelo abrir da porta atrás de ambos.
–Vocês, parem de cochichar e retomem seus afazeres, inúteis. – Era uma outra mulher, mas sua voz ao contrário da primeira, soava hostil e soberba.
–Sim, minha duquesa. – diziam em conjunto.
A porta voltou a se fechar, e dessa vez ninguém no quarto. Os olhos pesaram ainda mais e involuntariamente voltaram ao adormecimento.
...
–Penso que isto...Veja! Ela esta acordando! – A mesma voz feminina de antes.
–Darei o aviso ao mestre imediatamente!
Elisabeth consegue dessa vez despertar, ainda que quase por completo. Ela exibe seus olhos verdes. Sentia-se tonta e não bem o suficiente para se manter sentada, portanto prosseguia na mesma posição.
–Olá. Como sente-se? – Se aproximou uma bela mulher sorridente, sua pele era rosada e trajava um vestido sem mangas preto e um avental de mesma cor. Seu cabelo era de um loiro escuro comprido apenas até o final da orelha e o olhar parecia gentil.
–Onde estou? – O timbre ainda falhava. – O que faço aqui?
–Perdoe-me, a mim não foi dada a permissão para lhe informar nada. Mas por hora saiba que esta segura aqui. O mestre parece dar valor à sua proteção, o que é um bom sinal tendo em vista que está em seus aposentos.
–“Mestre”? Quem seria esse “mestre” da qual se referes?
–Como ja lhe disse, minha única designação aqui é cuidar-te, agora com sua licença buscarei um chá para antes do jantar.
–Ahm...Agradeço a gentileza, portanto de vosso mestre.
–Poderá agradecer pessoalmente mais tarde. – Fez uma mensura antes de desaparecer fechando a porta do quarto.
O quarto era ainda maior do que o seu próprio, as paredes e o chão eram constituídos por pedra, o teto alto crescia até formar uma abóbada onde se sustentava um belíssimo lustre de quase 50 velas fumegantes. Haviam poucos móveis, um armário alto de madeira escura se posicionava ao seu lado direito, ao esquerdo uma escrivaninha que sustentava o candelabro próximo à cama, e ao lado deste repousava um livro em branco aberto junto a um tinteiro e uma pena preta cuja ponta jazia afogada no líquido. A lareira ardia no canto direito do quarto, ainda que o clima fosse predominantemente frio.
Elisabeth sentindo-se pouco melhor, ergue seu corpo o pondo sentado, este é o momento em que Ela deixa escorrer a coberta macia e aquecedora pelo corpo, ao sentir o frio tocar sua pele, percebeu que a mesma se encontrava ao ar livre... Estava nua.
Seus seios de escala 42 se arrepiavam em sua parte mais sensível. Tomou um misto de susto com vergonha. “O que esses pervertidos faziam comigo enquanto dormia?”, pensava a vulnerável jovem. Encobrindo parte dos seis com o antebraço ela reparou em um lindo vestido que descansava em uma cadeira próximo ao armário, o tecido parecia algodão puro e a cor era de um roxo com grandes detalhes negros, a saia longa era enfeitada com bordados e parecia sustentar um capuz sobre os ombros. Leva um susto ao ouvir o batucar de juntas na porta.
–Entre. – Envolvia-se no cobertor grosso, ainda sobre a cama estrangeira.
–Com sua licença. – O serviçal superou os limites do quarto para então fazer uma postura profissional arguindo levemente o nariz. O homem parecia ter em torno de 30 anos, a estatura era baixa tendo como base sua faixa etária, o rosto quadrado se submetia à algumas rugas na testa e o cabelo escuro curto era penteado para o lado. – Meu mestre se felicitaria com sua presença junto a ele durante o jantar, dentro de 10 minutos.
–Novamente este sujeito que tanto pronunciam. O que ele é afinal? Algum político renomado? Aliás o que EU tenho de tão especial para este homem cujo nome ainda se mantém às escuras para mim?
–Penso que, seja ele o que for. Sua vida, a senhorita o deve.
–Certo, diga a este seu “mestre” que em 10 minutos estarei pronta, no entanto preciso que venhas me buscar, uma vez que não conheço nada além deste quarto.
–Como desejar.- Virou-se para ir embora, mas então parou no meio da porta sendo chamado por Elisabeth.
–Ah, mais uma coisa. Não desejo fazer deste vestido minhas vestes, gostaria de saber onde foi parar o que antes cobria meu corpo.
–Bom, se está se referindo à burca camponesa, ela se encontra neste armário e nossa alfaiate ja a costurou e limpou.
–Bem... obrigada, então.
–Mas se me permite. Penso que seria de muito agrado se a senhorita vestisse o que o Mestre lhe arranjou. Acho que isso de certa forma o traria algum valor sentimental.
–Muito bem, pensarei neste caso. – Não fora muito convincente, mas o suficiente para encerrar aquele pedido por ali.
O serviçal se retirou e nesta hora Elisabeth deu um salto para o chão, completamente nua, ela correu até a porta e com a chave interna a trancou.
Apesar de não saber o que ocorria ali, esta situação nada a agradava.
Lembrava-se de fugir dos licantropos na floresta e então ser cercada por eles, depois disso apenas escuridão em sua mente até despertar neste local misterioso. Pensou muitas hipóteses de o que poderia estar fazendo ali: Talvez seu pai tenha descoberto seu plano de fuga e para a dar uma lição nela, contratou um subordinado que a seguiu esperando o momento exato em que deveria agir, deixando-a se assustar um pouco antes disso. Ou talvez o próprio Valentinus enganado, decidiu ir à sua procura e a resgatou na hora certa. Mas haviam também outras hipóteses das quais ela sentia calafrios só de pensar, como por exemplo algum ser das trevas à tenha raptado para usar contra o próprio pai, ou para a pratica de algum ritual envolvendo seu sangue ‘consagrado’. Mas apesar das vestimentas e aparência local, os serviçais pareciam até bastante simpáticos e não teriam o descuido de permitir que a porta ficasse aberta.
Seja lá qual fosse a resposta pensável para esta circunstância, Elisabeth decidiu que não queria ficar e deixar sua pele nas mãos do destino. Ela fugiria de algum jeito!
Procurou nas gavetas suas roupas íntimas, mas nada havia lá a não ser mais livros em branco, no armário várias peças de coloração escura de homens e de mulheres, e encostado ao canto estava a roupa de sua amiga. “Como ousam deixar uma dama sem suas roupas íntimas para vestir?” Se questionava se apenas tinham esquecido da peça, ou a estavam provocando de alguma forma.
Sem querer perder tempo, ela vestiu ás pressas a túnica grosseira. Observou a enorme cortina vermelho-sangue fechada, escondendo uma provável janela atrás e então se pôs à abri-la. A imensa janela de base reta mas um cume que se afinava parecia emperrada, Elisabeth pouco pôde ver, apenas a noite sobrepujando todo o espaço e as neblinas à impossibilitando de ver qualquer coisa ao fundo. “Estamos tão altos assim?”, pensou, mas não era um fator que a fizesse desistir da ideia.
Reabriu a porta, apenas com o necessário do corpo vislumbrou o corredor atenta à qualquer movimentação iminente, ninguém parecia estar por lá, então saiu por inteira do quarto. Seu dormitório encontrava-se ao meio de um corredor, dando à Elisabeth duas possibilidades de direções, ouviu algumas vozes junto às sombras de uma mesma fonte que se aproximava do corredor pela direita, então restava Pôr-se na rota da esquerda. O corredor era largo, inteiramente corrido por um tapete vermelho que se seguia como se cobrisse todo o segundo andar, pinturas de rostos que desconhecia e paisagens noturnas que nunca vislumbrara decoravam o ambiente, à cada 3 metros residia uma armadura completa e montada de costas à parede dos corredores.
Elisabeth dobrou o grande corredor da qual fugira, mais atenta à suas costas que sua frente, levou então um susto ao se chocar com alguma coisa enquanto virava desatenta. Era um homem de corpo rígido que dotado de um reflexo apurado, a segurou pela cintura antes que caísse para trás devido ao impacto.
–Oh céus! Perdoe-me a falta de atenção. – Tentava disfarçar apesar de saber que as chances de o sujeito não desconfiar eram mínimas, mas apostaria em sua ignorância.
–O que fazes em meio a passos apressados? Talvez o objetivo de fugir lhe tenha posto assim, estou certo? – O homem dizia em um tom calmo, e em um olhar quase morto.
O sujeito devia medir em torno de 1,80 metros, trajava um colete cinza fechado por botões sobre uma camisa preta, que se afrouxava na região do pulso para então voltar ao normal terminando a manga, a calça era tão escura quanto a bota pesada que a cobria. Aquele homem possuía uma expressão enigmática, como se nada importasse mas ao mesmo tempo quisesse brincar com a situação. Suas feições eram joviais, daria a ele uma estimativa de alguns 25 anos, mas suas mãos eram frias e a pele branca parecia ter perdido a coloração rosada natural, os olhos eram sustentados por olheiras preocupantes, o cabalo por sua vez era tão negro quanto suas vestimentas e escorria até os ombros em um liso que superava o da própria Elisabeth. Para Ela, ele era até de certa forma atraente.
–Se não sou prisioneira então deixe-me ir, do contrário eu mesma acabarei com minha vida. Sei que seu superior por algum motivo vê valia em meu corpo vivo, não é mesmo?
–Hum? Blefes não costumam funcionar comigo. Sim, de fato tu tens seu valor, mas nada me foi dito sobre alguma prisioneira. — Ele retirou uma maçã de um cesto sobre a mesinha ao nosso lado ea deu uma mordiscada enquanto dava a volta por Elisabeth. – Tome mais cuidado na próxima rota.
O homem rumou para o caminho reverso do qual Elisabeth advinha fazendo-a se sentir extremamente aliviada por não ter se metido em encrenca, retomou a postura cautelosa e prosseguiu explorando os corredores em busca de alguma saída. Por mais que muitas janelas de cortinas abertas fossem encontradas no decorrer dos corredores, nada era possível ser avistado a não ser a mesma camada nebulosa de antes.
Chegou em um ponto onde um quarto em especial a chamou a atenção, suas portas abertas possuíam um aspecto mais quadrangular que todas as outras, de dentro do quarto por onde elas davam passagem, uma forte corrente de ar sibilava até se espalhar pelo corredor extenso. Elisabeth entra no quarto e nele percebe uma estreita escadaria levemente arqueada, o quarto não parecia ter como propósito o repouso, mas sim o vislumbre de muitas peças que ali se mostravam (Como novas armaduras, quadros e esculturas góticas). Ao término desta escadaria de pedra, Elisabeth avista uma janela pouco maior que as anteriores e aberta, era possível entender que se tratava do exterior do castelo. Às pressas se pôs à atravessá-la, para então contemplar uma visão que pouco lhe agradou.
O quarto usado como uma galeria particular terminava em uma escadaria que dava acesso à um cômodo externo de observação. Era uma base feita do mesmo material que as paredes e se mantinha após a janela, sua função era unicamente permitir ao visitante uma vista de boa parte do castelo.
Elisabeth sentiu-se um pouco tonta ao perceber que aquele castelo não pertencia ao Palácio de Latrão tal como suspeitava, e que aquele lugar sombrio sequer era sua cidade. A noite cobria o horizonte e não era possível ver o chão embaçado pela neblina pesada, mas dessa imensa massa gélida eram cuspidas construções altas e de teto pontiagudo que se espalhavam em um raio de quilômetros, e estas mesmas construções apesar de longe era perceptível o fato de que também faziam parte do castelo, esta gigantesca estrutura gótica erguida à base de pedras escuras era pouco maior que o próprio Palácio no qual seu pai fazia íntegro. Jazia atordoada com a decepção também ao entender que jamais conseguiria fugir de algo tão grande e de tamanha complexidade estrutural, somado ao fato de não desejar se arriscar em uma região desconhecida em pleno véu noturno.
Mas e então? E agora? O que faria a inocente e confusa Elisabeth? Este castelo soava sombrio, talvez fosse de fato algum domínio das criaturas que todos os humanos temem quase tanto quanto a morte, os filhos da noite. Criaturas que segundo os livros eram criadas pelo deus das trevas para impor terror ao reino de seu próprio deus. E agora ali estaria ela, presa naquele imenso ninho de possíveis monstros, ainda que não tivesse certeza de que se tratava de fato disso, seu estômago já começava a embrulhar só de imaginar que teria de ir ao encontro deste tal “mestre”. Seria ele benigno ou maligno? O que tanto ele busca na filha do Clérigo da irmandade? Seja lá quais fossem seus motivos, ali ela estaria e ali ela o encontraria... Mal sabia, pois que era este seu primeiro passo... em direção às trevas.
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