A Serva do Sangue [Fic +18]
3 Capítulo 3 - Passo na escuridão
O tempo esfriava no castelo, Elisabeth se apressava para retornar ao quarto antes que a descobrissem, acontece que ao cortar novamente o cômodo, notou algo que deixará passar antes: Em um pedestal feito à madeira de arestas enfeitadas com ouro, magro porém ao alcance do abdômen, repousava um livro fechado cujo tamanho superava qualquer outro que já possuíra em mãos, parecia dotar de muitas importantes páginas amareladas pelo efeito temporal, sua capa era de inteira preta exceto pelo brasão em alto relevo e feito provavelmente de ouro. A jovem aproximou os olhos no intuito de compreender o formato do desenho no brasão, neste momento a curiosidade a dizia que alguns segundos de perda para o retorno ao quarto não iam fazer mal. Atentou ao desenho dourado e achou mais provável assumir um dragão que se apoiava em algum tipo de círculo com as patas dianteiras, dentro do arco os símbolos que ela conhecia como “Yin e Yang” e de ambos os lados alguma planta os rondava a metade de baixo. Achou curioso, quis ler, afinal é a escrita a arte que Elisabeth mais admirava: O saber através de palavras bem redigidas ou a ilusão de um mundo bem criado, e agora um livro de aspecto importante.
Aproximou-se para abrir sua capa, mas antes que pudesse toca-la alguém bateu na porta deste recinto fazendo Elisabeth se assustar em um tropeço que ao cair levou consigo uma coluna branca sob um vazo de cerâmica com tampa, todo pintado detalhadamente em tons vermelho e lilás. O vazo caiu tal qual Elisabeth, este porém, acabou por se estilhaçar ao chão liberando algum tipo de terra seca azulada que parecia emanar uma atmosfera perturbadora para alguém tão próximo ao conteúdo quanto Elisabeth.
–Estaria precisando de algo, Senhorita Elisabeth?- Era a moça serviçal de antes, ostentando um sorriso simpatizante no rosto bonito.
Arh...Não, quero dizer, sim!- Embolava-se e suas palavras graças ao constrangimento de ter sido pega em flagrante além de destruir um patrimônio que devia sustentar algum enorme valor para o dono daquele recinto.- Eu estava procurando alguém que pudesse me informar onde foram parar minhas vestes! – mesclava-se em uma aparência soberba.
–Ah! Mas é claro, acabei por colocar seu vestido sobre as roupas primárias, muito descuidadosa de minha parte. Peço perdão.
–Ahm.. Não, não se preocupe quanto a isso. – Desistiu de bancar a rancorosa ao notar a feição penosa da servente. Teria visto as roupas se tivesse ao menos pego o vestido para analisar ou vesti-lo tal como lhe pediram.
Elisabeth e Carmina – Como ela disse que se chamava – Voltaram ao quarto, Elisabeth até pensou por um instante em usar o tal vestido, mas desistiu e apenas se deixou usar as roupas internas. “Ele me trás à este castelo esquisito, não se pronuncia nem permite aos empregados me dizer de quem se trata e ainda me impõe o que devo ou não vestir. Pois mostrarei a ele que não sou sua serva!” Tomou um breve banho para então encontrar Carmina do lado de fora, foi guiada por corredores e antessalas até chegar ao salão principal, no primeiro andar.
Este salão se conectava ao segundo andar por duas escadas muito largas de formato semi arredondado, com tapetes vermelhos que os cobriam, O salão era o maior que vira até agora, incrivelmente bonito de formato oval, com tetos altíssimos de abóbadas escuras, 4 lustres detalhados e banhado pelo escorrer seco das velas que pareciam fazer parte deles há muito tempo. Janelas que quase alcançavam o teto decoravam o interior com um pouco da luz prateada da lua, o chão ostentava muitos pequenos desenhos detalhados e um imenso ao centro – Era o mesmo símbolo que vira no livro – Mais estátuas decoravam o entorno, pouco à frente das escadas ficava uma mesa comprida em detalhes góticos tal como suas 18 cadeiras, duas portas altas estavam abertas uma em cada canto deste salão e outra porta, aparentemente mais pesada e maior que as outras permanecia fechada “Deve ser a porta principal deste castelo” – pensou.
Elisabeth desceu com as pernas quase trêmulas, sem saber quem à estaria esperando lá me baixo. Junta à Carmina, notou 2 outros serviçais, um deles se adiantou à puxar uma cadeira para Elisabeth se sentar, era uma das pontas da mesa de costas à porta maior, notou que no vão circular entre uma escadaria e outra, descansava um lindo piano escuro, com a pintura de uma lua sombreando alguns morcegos enquanto voavam em um molde acima do instrumento. Um do serviçais cobriu a mesa com um único pano comprido para então permitir a chegada de outros empregados que vinham da porta em sua direita com todo o tipo de comida em mãos, eles iam e voltavam pondo carnes, pães, vinhos, águas, frutos do mar e petiscos sobre a mesa.
Uma vez terminada suas tarefas, todos os serviçais se posicionaram ao lado direito da grande mesa em fila virados para ela, Elisabeth notou que um deles segurava em seu antebraço algum tipo de tecido grosso tingido de roxo. O Homem com o tecido após um tempo parado ao lado de seus parceiros, caminhou para próximo da cadeira na ponta oposta da de Elisabeth e pareceu observar algo se aproximando, a jovem desentendida ouviu passos no piso de acrílico, virou-se e se sentiu um pouco aliviada ao reconhecer o homem de colete com quem esbarrara mais cedo, pensou que ao menos não estaria sozinha ao jantar com seu anfitrião, uma vez que não conhecia suas pretensões. Pensou em exclamar algo a ele, mas desistiu quando percebeu no homem de pele fria uma expressão séria, este desde que adentrou o recinto se manteve fixado ao seu trajeto, sem desviar o olhar nem para Elisabeth que o encarava, passou por ela e por fim chegou ao serviçal que segurava o tecido. Assim que passou o homem de roupas escuras, todos os outros se curvaram brevemente em sinal de respeito.
–Nossa costureira terminou os reparos, meu senhor. – Disse o serviçal segurando a ponta e deixando cair a base do tecido mostrando ser um grande sobretudo roxo com detalhes em preto.
O Homem de colete esticou os braços e os pôs dentro das mangas do sobretudo enquanto o empregado ainda o segurava com a ponta dos dedos. O homem de cabelos longos se sentou, uma empregada encheu as taças de ambos com um líquido vermelho e então se pôs à forma junto de seus parceiros.
–É tudo. – Pronunciava-se o homem à mesa. E então todos fizeram uma nova mesura para desaparecerem um por um pela porta da qual vieram até deixarem Elisabeth e ele a sós naquele salão.
O homem trajava um sobretudo com dobras no final das mangas, uma gola alta que ainda dobrada ultrapassava sua nuca, o sobretudo possibilitava um fecho no tronco com 4 botões na vertical, seu cabelo comprido estava amarrado em um “rabo de cavalo” por uma fita vermelho-sangue e o olhar se mantinha fúnebre enquanto mirava Elisabeth pela primeira vez desde que entrou no recinto.
–Antes de quaisquer apresentações e perguntas, presumo que muitas lhe assombrem, coma desta mesa. Sei que esta faminta.
Elisabeth nada disse e apenas obedeceu, de fato com todo o ocorrido nem parara pra perceber o jeito como seu estômago se contorcia, dando a parecer que não comia faziam dias. Ela pegou os talheres seguindo a educação que tivera na corte e começou a cortar a carne próxima de seu prato, suas mãos tremiam perante a excitação da fome.
–Não há motivos para recatos, a educação é apenas uma forma de tentar impressionar ou parecer. Não é necessário basear-se toda a vida nesta.
–Fui criada com os valores da etiqueta, se utilizo dela é por que com ela me sinto bem.
–Pois bem, como quiser. – Ele então começou a cortar um pedaço da lagosta servida.
Elisabeth a princípio relutou, mas então largou os talheres e com a própria mão retirou uma coxa do frango assado, enquanto com outra mordia um pão macio, bebia da água para não se engasgar com a comida, tamanha a fome que sentia. Notou nos poucos segundos que olhou para o homem no fim da mesa algo parecido com um leve sorriso cortando aquele semblante sombrio, ele parecia satisfeito com a satisfação dela. A comida não era tão boa quanto a de seu próprio chef domiciliar, mas a fome pouco se importava com isso. O homem do outro lado da mesa mal tocara em seu prato, ele passara todo o tempo observando sua convidada, o que a deixava ainda mais desconcertada somado à atenção que estava tendo naquela estranha noite.
–Meus comprimentos ao chef – Disfarçava a timidez.
–Ele certamente se felicitará.
Passou-se mais alguns segundos de estudo visual por parte do anfitrião até que ele mesmo começasse o assunto principal.
–Entendo que deves estar te perguntando quem eu sou, o que é este lugar e o porquê de tu estar aqui. Estou certo?
Elisabeth afirmou com a cabeça.
–Me intriga que perante tanto o que viste aqui, ainda não tenhas se dado conta.
–Desculpe, eu deveria conhecê-lo devido a algum motivo?
–Devido a provavelmente muito ter ouvido falar de mim. Sim, teu pai não deixaria que a pura filha crescesse sem sentir o devido medo ao mencionar de meu nome.
–Meu pai? — O clima intensificava.
–Pense contigo, Cattarine Elisabeth... Uma noite fantasmagórica que envolve todo este lugar, um castelo de aspectos góticos, o som de morcegos fora da janela...
–A devoção temente destas pessoas – Elisabeth começava à juntar as peças.
–Devotos a um único homem...
–Um homem de pele fria e presença imponente... –A jovem deixou as mãos caírem em cima da madeira da mesa e engoliu em seco antes de concluir. – O último herdeiro dos Dracula... VLADIMIR! – Os olhos arregalaram seguido de um calafrio que lhe percorreu a espinha.
–Vladimir Astaroth Dracula. É um prazer conhece-la, filha de Torrance!
Elisabeth apertou os punhos, um sentimento horrível lhe desceu ao estômago, afinal de contas estava nos domínios dos filhos da noite, como chamavam os seres das trevas.
–Impossível! Disseram que estava morto... todos comemoraram por isso e... não, não pode ser de fato.
–A irmandade diz o que é melhor para a imagem desta. Usufruindo da boa influência para com seu povo.
–Seja lá o que você for, está difamando o nome da irmandade sagrada! Saiba que eles virão atrás de mim e em nome de nosso deus o matarão sem piedade! – Ela transformava o medo em raiva.
–Seu deus, é? – Ele deixou escapar uma leve risada maliciosa enquanto juntava as mão na altura da boca apoiadas com o cotovelo sobre a mesa. –Tua ingenuidade me soa tão pura quanto a virgindade de teu corpo.
–O que ousas tentar dizer com isso?
–Cattarine Elisabeth, existem coisas das quais te privaram o conhecimento tal qual o de toda a tua espécie humana. E outros forjadas a partir da mentira.
–Só tentas me envenenar contra minha própria doutrina, crápula.
–Mal sabes tu que já estás envenenada...pois em teu próprio corpo corre o meu sangue, o sangue de um vampiro!
–Isso..não passa de falácias! Do contrario eu já estaria morta.
–Pois é justamente isso que lhe salva, filha de Torrance.
Elisabeth olhou para os próprios pulsos até se deixar pensar que talvez ele esteja dizendo a verdade, mas Elisabeth sabia também que o sangue de qualquer vampiro torna-se altamente mortal uma vez no organismo de segundos.
–O que fizeste comigo, vampiro!?
–Eu lhe dei uma segunda chance.
Elisabeth respirava pesado, sabia pois, que aquele era o próprio soberano dos malévolos vampiros e grandes eram as chances de sua mente perversa usar a inocente em prol de seus planos.
Ficaram ambos quietos, somente o som de estalo de madeira do relógio comprido debruçado na parede. Com expressão e tom tranquilos, Vladimir encarou a jovem com seu olhar contido em um belíssimo roxo que tomara o lugar da antes negra pupila.
–Cattarine Elizabeth, convoco sua aliança a mim. Posso lhe oferecer minha proteção e a sabedoria de um mundo nunca visto por teus próprios olhos.
O convite fora feito, mas Cattarine temia nega-lo. Procurou meios de se livrar dessa situação mas nada vinha em sua mente, e quanto mais o tempo se passava em silêncio mais tensa ficava a situação. Alguém bateu à porta, sem que Vladimir se quer precisasse se mover, um homem surgiu de algum canto que Elisabeth sequer havia notado. Tal homem parecia ser um serviçal de superior patente à julgar pelas vestes: Trajava um fraque, semelhante aos usados por maestros em orquestras, um colete cinza por dentro e uma camisa roxa sob tudo, seus olhos e nariz eram guardados por uma máscara negra teatral. Usava uma luva branca na mão direita, mesmo lado ao qual descansava sua espada florete na cintura. O cabelo bem aparado e penteado era grisalho, dando indícios de envelhecimento ao tempo que a pele mostrava-se quase tão incolor quanto a de Dracula.
O serviçal mascarado abriu uma portinhola que dava visão ao lado exterior da porta principal.
–O mensageiro retornou de sua designação, milorde.
Os olhos de Vladimir mudaram para algo bem mais sério ao fitarem agora a porta.
–Permita-o entrar.
O mascarado utilizou uma chave separada para destrancar a porta, um homem de casacos de pele pesados e sob flocos de neve adentrou, desajeitado ele se dirigiu ao vampiro.
–Meu senhor – Prosseguiu com uma mesura – trago respostas do conselho.
Vladimir se levantou.
–Termine teu jantar se ainda tiveres fome, meu mordomo terá o encargo de lhe servir até meu retorno. – E então se virou e junto ao homem de casaco subiu as escadas.
Elisabeth tentava não se deixar levar pelo temor de estar no ninho de criaturas tão perigosas como os vampiros, mas haja o que houvesse, permanecer ali não lhe parecia o melhor a ser feito.
–Erh.. Com licença, serviçal...
–Willian, senhorita. Em que posso lhe ser útil?
–Willian, muito me agradaria uma xícara de um bom chá após a refeição.
–Providenciarei de imediato, pois. – E sumiu pela mesma porta que surgira os servidores da comida sobre a mesa.
Elisabeth esperou mais alguns segundos antes de dar um pulo para fora da cadeira correndo em direção à porta principal. Havia percebido que o mordomo não trancara novamente a porta após a passagem do homem, e aproveitava esse descuido para fugir. A porta era bem mais pesada do que aparentava, teve de usar uma perna na outra parte da porta para ajudar seu corpo a abrir uma, a madeira rangeu e por uma brecha onde passava a ventania gelada ela escapou.
Fora do castelo a neblina já havia se dissipado dando melhor visibilidade à neve deitada sobre o chão. Um pequeno pátio se encontrava em frente, neste erguiam-se duas belíssimas estátuas femininas em lados opostos e viradas uma para a outra, de um lado asas de anjo e do outro de demônio, ambas apoiadas em longas espadas de pedra com a ‘lâmina’ para baixo. Após tais estátuas uma larga escadaria descia deste pátio até um outro mais amplo, forçou a vista e atentou para uma carroça vaga guiada por dois cavalos agora amarrados. Mas antes de seguir pela sacada de 40 degraus, Elisabeth não conseguia simplesmente não parar alguns segundos para vislumbrar o quão grandioso e contemploroso era este enorme castelo, a fachada pela qual fugira era de detalhes sublimes subindo até um teto pontiagudo cuja vista mal conseguia alcançar com clareza. Toda a construção vista por Elisabeth era de uma magnificência que parecia fazer parte natural da noite trevosa encobrindo-a. O castelo encrostava-se sobre um mortal penhasco.
Desceu as escadas tendo de lidar com as brisas inconvenientes que lhe adentravam as vestes e arrepiavam sua intimidade. O pátio principal era de terra e apenas uma solitária árvore desprovida de folhas o enfeitava, deste amplo pátio era possível seguir por 4 caminhos, um deles era a escadaria aos domínios de Drácula, outra um trecho também de terra que contornava esta escadaria e dava acesso à outras entradas secundárias do castelo e outras duas serviam de passagem colina abaixo, sendo uma feita de ladeiras serpenteadas para a passagem de carruagens e outros meios de transporte e a última mais curta era feita de centenas de degraus mais estreitos que o de Drácula até um onde em que os olhos de Elisabeth não conseguiam descobrir.
Ela desprendeu um dos cavalos da carroça e com experiência o montou descendo a ladeira coberta por folhas secas e iluminada a partir de tochas distantes. Encapuzada, ela conseguiu fugir sem ser notada, cavalgando com postura nobre para longe deste terrível castelo da noite.
Adentrou a floresta, no céu a lua era escondida por nuvens que brilhavam num prata fosco, o cavalo corria em velocidade por uma trilha de difícil percepção graças ao escuro, quando sua domadora, Elisabeth, começou a se sentir mal. Aos poucos a sensação de enjoo foi aumentando dando início a uma estranha tontura que lhe cobria gradativamente. Parou o cavalo com suavidade enquanto lutava com o mal estar, desceu e teve de se apoiar em um tronco para não cair, o estômago pirraçou e a solitária cavaleira acabou por vomitar parte de sua refeição, percebendo a presença de seu próprio sangue em miscelânea. Os animais noturnos gritavam pela floresta, Elisabeth teve calafrios pelo corpo. Sentia-se sozinha, e esta era estranhamente...uma sensação familiar.
Ouviu atrás um trotear que se aproximava, era o próprio Drácula montado em seu Shadowmere negro que seguia a trilha do cheiro de Elisabeth. Ele saltou de seu animal ao avistar a jovem. Elisabeth já sem forças cambaleia antes de cair para trás, mas o rápido vampiro impede suas costas de tocarem o chão, invés disso elas vão de encontro aos braços dele.
–Certamente o coração mais indomável que eu já ouvi pulsar tão perto de meu próprio corpo frio.
–O que você quer de mim? – A voz fraquejava.
–Eu não sou aquilo que você deve temer.
–Tem algo...errado comigo – E então os olhos se fecharam.
Vladimir a pegou no colo pondo-se em pé
–Aninhe suas preocupações. Eu irei protegê-la, filha de Torrance.
O vampiro carregava a humana pela floresta, mas não rumava de volta para o castelo, ao invés disso assumia outro ponto como destino. Vladimir sentiu pelo olfato uma criatura se aproximando, o animal à espreita então pulou de algum canto atrás das árvores ponde-se a frente do Vampiro. Era um Tigre-prata, o maior felino da espécie que rosnava com um olhar faminto e animalesco. fechou, o vampiro, os olhos enquanto suspirava dando sinais de que aquilo não passava de um pequeno estorvo. A criatura bufou antes de dispara-se contra os dois, Vladimir reabriu os olhos, encarou profundamente os da criatura, sua feição obscureceu de um jeito quase demoníaco como se naquele olhar impiedoso fossem encontradas todas as trevas que assombram o mundo. A criatura encarou aqueles olhos que brilhavam em um roxo cortando o escuro florestal, tomada de um pavor incomum, o voraz felino perdeu o controle da corrida ao tentar desviar sua rota do encontro com Vladimir e acabou por se chocar em uma árvore atrás do Príncipe da trevas. Retomou sua caminhada enquanto o animal recuava poltrão até sumir nas entranhas da floresta.
Uma luz de tochas foi avistada pelo vampiro crente em serem aquelas as luzes de uma pequena casa hospedeira.
...
Elisabeth acordou, ainda sentindo-se fraca. Estava deitada em um confortável sofá de pele, percebeu estar dentro de alguma pequena casa rústica, aquecida por uma lareira de pedra. A sala era aconchegante ainda que mais confortável, lhe parecia o sobretudo de Vladimir, com a qual fora coberta. Sentia o cheiro deste e seu corpo se encolhia dentro da veste. Mas a ternura acabara quando outra onda de tontura atingiu Elisabeth, dessa vez uma sensação inusual, era como se estivesse em abstinência por algo, como se seu corpo não aguentasse mais ficar sem sua droga ainda que ela não fizesse ideia do que poderia ser tal coisa.
Vladimir conversava com seu hospedeiro do lado de fora da porta do rústico casebre enquanto Elisabeth descansava dentro.
–E você acha que ela estará mais segura onde dormem os sugadores de sangue? – Dizia um homem de aparentemente 35 anos, postura pouco ereta, com cabelos longos e quebradiços até o ombro e sob camadas de Couro como roupa.
–O castelo é o único lugar sob meu controle, o que significa que é onde melhor posso protegê-la e vigia-la.
–Tudo bem, tudo bem. Só estou falando que a coitada vai precisar pegar um sol vez ou outra, se não perde o bronzeado. Olha, não se preocupe eu verei o que consigo fazer para ajudar, afinal lhe devo a minha vida, né?
–Como eu já disse...
–Sei, sei. “Você só teve sorte de ter meus inimigos como seus perseguidores”, desculpe tentar estragar sua imagem de Príncipe das trevas.
Vladimir deixou escapar um riso superficial.
–Quem o vê jamais imagina que por trás deste humor genuinamente humano há um licantropo voraz despertado pela sede de violência.
–Não que eu seja um monge, mas estou aprendendo a me controlar. Bom, vou buscar os ingredientes, talvez eu vá colher também algumas seivas de árvore branca.
O homem se afastou com uma tela feita à mão com palha e lascas de árvore.
Vladimir se manteve encostado a um tronco sob a luz tremulante de um lampião ao lado da porta, seus braços cruzados eram uma característica de seus momentos de meditação, quando ele parava pra analisar suas próximas decisões. Pensamentos interrompidos, Elisabeth gritou lá dentro! Vladimir entrou na sala pequena com preocupação, e não devia ter menos, pois viu Elisabeth agindo de forma estranha. A jovem estava de joelhos no chão agarrada ao sobretudo como se fosse alguma carne suculenta, babando no tecido enquanto mastigava o colarinho grosso, avistou Vladimir e como se isso a tivesse despertado de certo transe, Elisabeth mudou o olhar, percebendo-se em tal situação lançou o sobretudo ao lado cuspindo saliva no chão.
–Tem algo.. tentando me controlar! – Pôs as mãos na cabeça gemendo de dor.
Vladimir já desconfiava o motivo, mas não sabia se deveria condená-la à escuridão antes de procurar por alguma cura.
–Elisabeth... Sei que compreende o quão fatídica é este fato. O fato de que estás a se transformar.
Os olhos de Elisabeth se arregalaram enquanto seu corpo doía e tremia , no fim das contas ele entendia o que em exato era essa vontade angustiante que à dominava... Era sede de SANGUE!
–NÃO! Eu jamais..sucumbirei à monstruosidade que vocês, demônios, são!!! – A voz era rouca e cheia de uma determinação louvável.
–Isto não é tempo para teu moralismo cego. Precisas se alimentar, do contrário... Não aguentará! – A voz do vampiro deixara de ser despreocupada, ainda que permanecesse medonha.
–Me-meus ossos... estão queimando! – O chão de madeira era terrivelmente arranhado por unhas que pareciam mais rígidas que o padrão humano.
Vladimir virou-se para a porta aberta, visando o escuro afora, sabia que a floresta acerca de ambos era extensa e nenhum humano se atrevia a chegar perto de suas árvores assombrosas, pensou em oferecer o sangue de Barbatos, mas por ser licantropo seu sangue não serviria a um vampiro, calculou levar o mais rápido possível a jovem para o castelo e usar os humanos de lá como fonte de sangue. Sentiu então dois braços lhe envolverem o tronco. As mãos de Elisabeth apertavam a camisa com força, Vladimir sentia em suas costas o rosto tremulo, as feições da sofrida agora pareciam quase animalescos e dois dentes pontiagudos eram expostos pela boca entreaberta.
–Entendo... Então esse tempo todo não era o sangue humano aquilo que desejavas – Levantou o cotovelo deixando o braço e antebraço em 90° um ao outro, deslizou a manga da camisa até quase o ombro. – Mas sim o meu próprio!
Então Elisabeth sem conseguir pensar sobre o ato apertou o braço de Vladimir e o mordeu com satisfação, perfurando a carne fria do vampiro como duas agulhas no lugar de dentes, o sangue de um rubro escuro escorreu da boca da jovem. A sensação com nada se parecia, um medo misturado ao prazer, o gosto em sua língua não mudara de um sangue comum, mas a reação que o líquido causava ao passar por sua boca era de algo muito melhor que qualquer comida humana conseguia provocar.
Terminou de se embebedar, manteve a boca parada no braço por um tempo antes de afasta-la, sentiu-se apaziguada. Sua mente vacilava como se tivesse acabado de se drogar, a perna vacilou e Vladimir agiu rápido segurando pouco abaixo de seus ombros, descendo junto com ela até a por sentada, ficou ele apoiado em apenas um joelho enquanto tentava ajudar a jovem a se equilibrar. Ela permaneceu algum tempo fitando o vazio até sua consciência finalmente voltar em um baque surpresa, Elisabeth emitiu um grito seco enquanto se afastava de costas até se manter em pé e ser impedida de continuar pela parede da sala.
–O que eu... acabei de fazer!? – Limpou o sangue da boca na gola da manga.
–Esta é a sentença da tua sobrevivência – Vladimir levantou-se, o timbre manteve-se inabalável. – Há duas semanas eu perseguia o líder dos homens-lobo quando senti ao longe uma presença humana diferente de todas as outras, foi quando te achei.
–E-eu?
–Tu foste atacada por licantropos que a arrancaram tripas, eu me livrei deles mas sabia que já era tarde de mais, tu virias a falecer em poucos segundos – Drácula começou a andar lentamente na direção de Elisabeth – Eu sentia em seu sangue algo diferente, por tal, decidi arriscar.
–Me fez beber de seu sangue. – Os olhos de Elisabeth caíram lentamente ao chão.
–O sangue mais poderoso dentre os vampiros, e também o mais mortal para quem não fosse da casta dos Drácula... Exceto tu. Tu, Cattarine, a primeira humana a resistir tamanha dose do sangue dos Dracula.
–Pouco me lembro daquela noite, mas lembro-me de uma voz...a sua. – Abaixara sua defensiva, deixando-se mais leve quase como após ingerir o líquido sanguíneo.
Vladimir aproximou quase o máximo que pode seu corpo do de Elisabeth, ele pôs com delicadeza seus dedos no queixo da jovem e levantou seu rosto, ela vislumbrou o fundo daqueles olhos negros e seu corpo foi tomado por um arrepio. Não de temor, algo bem mais profundo, algo que jamais sentira por ninguém, algo que fazia seu peito doer pulsante. O cheiro do sangue que corria lentamente naquele corpo sobre-humano, fazia Elisabeth respirar pesado.
Vladimir pôs sua boca muito próxima ao ouvido de Elisabeth enquanto com a mão descobria desta parte seu cabelo emaranhado.
–És especial, Cattarine. A progenitora de um mistério ao qual eu me empenharei em compreender, um mistério que me intriga e seduz. – Voltou o rosto e com o nariz colado ao dela terminou. – Você é uma de nós agora, e um dia lhe estenderei a mão... para que torne-se comigo na escuridão.
O vampiro a beijou com firmeza ao tempo que Elisabeth o beijava com ternura. De fato toda essa ocasião turvosa a impedira de perceber como de fato, aquelas feições de Vladimir eram tentadoras, dotado de um semblante sombrio, era este também algo que fazia o coração da pobre Cattarine estremecer. Entregue ao desejo, ela por um tempo esquecera de fato a gravidade da situação, para dar espaço ao que suas vontades pediam.
Poucas vezes era possível ecoar através das árvores uivos de lobos em território. A cabana os aquecia enquanto o vampiro apertava os braços envolta do esbelto tronco de Elisabeth, que deixava seu pescoço ser mordiscado. Vladimir causava arrepios no corpo de Elisabeth enquanto deslizava seus lábios pelo pescoço e os subia até uma de suas orelhas, Elisabeth não conseguia conter seus braços enquanto estes passeavam pelos músculos daquele corpo frio, porém viril. Quase não se reconheceu deixando-se ser entregue à desejos carnais com tamanha facilidade. Mas seria este o efeito do prazer que o sangue daquele vampiro tinha sobre seu corpo frágil? Ou simplesmente nunca sentira isto, pois nunca ninguém a havia despertado tal coisa? Quem sabe... ambas as ocasiões.
Vladimir terminou suas carícias com um olhar submerso em desejo. Elisabeth o afastara com um pequeno empurro.
–Eu só preciso, de um tempo para pensar em tudo isso. Minha mente está... tão confusa. – Ela segurava a gola do capuz arreado enquanto tentava disfarçar um olhar contido em timidez.
–Certamente. Eu preciso voltar ao castelo, minha presença é o que impede os outros vampiros de se matarem em busca de poder político. –E sem dizer mais nada o vampiro apenas recolheu seu sobretudo antes de sumir pela porta do casebre.
Cattarine pensou antes de correr pelo mesmo caminho, chegou ao lado de fora mas Vladimir já não estava mais lá. A jovem confusa se abraçou enquanto olhava para o chão esverdeado, entendia que Vladimir precisava cuidar de seu castelo e quem seria ela para o fazer se privar disso e permanecer pouco mais com ela ali. Tentou organizar a mente e pensar em o que faria a seguir. Poderia tentar voltar para casa, mas apesar de tentadora era uma má ideia, afinal agora havia um sangue impuro correndo por suas veias e a irmandade jamais aceitaria isso sem tomar medidas ofensivas. Talvez devesse esperar pelo homem que cuidava da casa, sim, era o mais sensato, tal homem deve ter sido instruído sobre as condições de Elisabeth.
Elisabeth já se virava para entrar quando um trotar parou atrás dela.
–Tal como dito, não podemos mais perder nosso tempo aqui. Cuidarei de seu caso no castelo. – Vladimir montava em um cavalo negro de pelagem lizíssima – Venha comigo, existem coisas as quais lhe privaram o conhecimento. E um mundo ao qual agora tu pertences, deixe-me guiá-la em seu próximo passo na escuridão.
Vladimir estendeu a mão. Shadowmere cortou a floresta como um espectro deslizando nas profundezas da noite.. A mesma noite interminável que Elisabeth aprenderia também a amar.
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