Notas iniciais
Hey gente acabei de volta do cinema e como posso descrever o filme PERFEITO mais eu preferi o livro.

Pov Cassidy Silver

– Engole logo, isso, menina! – minha mãe dizia no meu ouvido. Era sempre a mesma coisa, eu era obrigada a engolir os comprimidos e ainda tinha que aturar sua mãe dizendo que os comprimidos não eram grandes. Ela tinha razão, eles não eram grandes, eram enormes!

– Mãe, olha o tamanho disso! – reclamei, mostrando o comprimido que eu podia jurar que ia se desfazer na minha mão se eu continuasse a segurá-lo.

– Você engoliu nas outras vezes, Cassidy, pode engolir nessa também! – ela argumentou. E se virou para terminar de lavar a louça.

Os comprimidos foram entregues pela equipe de pessoas magrelas da monarquia para que eu não ficasse magrela quando fosse ao palácio. Era besta, eles queriam que eu ganhasse corpo em uma semana para que não estivesse magra quando conhecesse os príncipes. Eles fizeram isso com todos os de castas abaixo de Quatro. Não é por que somos de castas menores que somos necessariamente pobres e desnutridos! Mas era uma ordem e eu tinha que seguir.

Dei língua pra minha mãe e, sem se virar, ela respondeu:

– Eu vi isso, mocinha! – e parecia estar sorrindo.

Peguei meu copo d’água que estava encima da pia e usei meu truque de ficar com o comprimido alguns segundos na boca para que ele desça sem problemas. No segundo gole, ele já tinha desaparecido. Resmunguei comigo mesma e ouvi uma risadinha da minha mãe. De uma certa forma, eu a admirava muito. Deixar de ser uma Quatro para se tornar uma Seis ao casar-se com meu pai foi um ato de muita coragem e eu agradeço a cada dia por ser filha dela, bem, menos quando ela me faz tomar remédios.

Fui para o meu quarto. Ele era pequeno, mas aconchegante, com certeza ficaria mais calma nele. E ele também não era meu, na verdade, eu o dividia com minhas duas irmãs mais novas Briene e Igritte, uma de 16 anos e uma de 13, respectivamente. Os dias com elas se dividiam em dias muito bons, dias chatos e dias horríveis, em que os dias muito bons eram os dias em que conseguíamos conviver sem brigar, os dias horríveis eram os dias que brigávamos o tempo todo e os dias chatos eram o resto dos dias do ano. Era incrível que, mesmo que fossemos muito ligadas, sempre tínhamos que brigar por alguma coisa.

Olhei para os modelos sem roupas ao redor do meu quarto. Fazia uma semana que eu não ia mais para o meu emprego. Senti saudade de desenhar as roupas para a Srta. Carter. Ela poderia ser a pior pessoa, poderia publicar minhas roupas como se fossem dela, mas só de eu estar naquele emprego deveria agradecer. Ele era o salva-vidas da minha família, não éramos muito pobres, mas também não éramos muito ricos, e com minha mãe desempregada eu e Briene precisamos ajudar. Era estranho como nessa semana eu fiquei tão famosa e tudo o que eu tinha mudou completamente, era estranho que eu odiasse meu emprego antes e odiasse a Srta. Carter, mas agora eu agradeça a ela pela oportunidade, é estranho quando as coisas mudam e você sabe que não pode mais voltar atrás, então você começa a simplesmente agradecer por ter vivido aquilo do jeito que foi. Até por que, de certa forma, são os momentos que vivemos que definem o que vamos ser, e tudo o que eu quero é ser eu mesma.

Nenhuma das minhas irmãs estava no meu quarto. Elas deviam ter saído de casa. Nesses últimos dias vários funcionários do palácio vieram nos visitar e elas achavam aquilo muito chato, sempre que podiam saiam. Mas era regra que eu ficasse em casa e só saísse se precisasse muito. Um dos funcionários chegou a me aconselhar a estar bonita e bem arrumada quando fosse sair. Acho que ele poderia me dar uma roupa decente para essa situação, por que, mesmo que meus modelos sejam bonitos e façam sucesso, roupas feitas com sobras de tecido não ficam lá aquela coisa bonita de revista.

Joguei-me na minha cama. Tá ai uma coisa que era só minha e eu só dividia com Klaus, meu irmão mais novo de sete anos. Minha cama é meu refúgio. Queria não ter que ficar tão longe dela e de todos quando estivesse no palácio. Um dos funcionários do palácio chegou a dizer-me, sem entrar muito no assunto, que eu ficaria lá até que o príncipe quisesse me eliminar. Quanto tempo isso poderia durar?

Meu celular vibrou. Devia me lembrar mais vezes de agradecer por ele também. Srta. Carter me deu ele, pois odiava ter que mandar algum criado até a minha casa para me chamar na madrugada para criar novos modelos para sua “nova coleção”. Até de madrugada eu tinha que trabalhar. Era exaustivo, mas no final eu ganhei uma experiência única trabalhando com ela.

Cravei meus olhos na tela do celular. Era Logan, meu melhor amigo. Ele me pedia para encontrar com ele “na árvore”. A “árvore” era um lugar afastado de tudo onde só tinha mato e uma única árvore. Ao redor dessa árvore havia várias flores, mas ninguém nunca conseguia ver por que o mato era mais alto que o meu irmão Klaus. Apenas eu e Logan (até onde eu sabia) conhecíamos aquele lugar e ele se tornou o nosso lugar de encontros. Isso era muito fofo. Queria ter uma melhor amiga para levar lá, mas nunca tive a chance. Espero que, com a Seleção, eu possa fazer mais amizades além de um grande amor.

Levantei-me da cama. Eu não devia sair de casa, mais um funcionário do castelo iria vir hoje (talvez o último!) e eu não podia perder. Perder uma visita significa perder informações e eu iria ficar em mais desvantagem do que já estou se perdesse esse funcionário. Mas por outro lado eu queria muito ver o Logan. Não via ele fazia quatro dias e queria muito me despedir decentemente e não na despedida da província, precisava falar com ele uma última vez.

Peguei meu melhor vestido e usei um pouco das maquiagens da minha mãe para ficar “bela” para poder sair de casa. Afinal, sabia que muitas fotos horríveis de outras Selecionadas haviam vazado na internet e não queria que os príncipes me vissem de um jeito ruim. Deixei um bilhete pra minha mãe — se eu pedisse, ela nunca ia deixar – e saí de casa.

O sol estava brilhando forte e (por mais incrível que pareça) não tinha ninguém na minha rua. Isso era tão comum. Senti-me no passado, no tempo em que virar uma Um era quase impossível. Agora eu estava tão perto.

Fui direto para a árvore sem parar para nada nem para ninguém, com certeza se alguém me visse ia querer me entrevistar e conversar quarenta horas seguidas. Chegando lá me arrependi de ter usado vestido. O mato pinicava minha perna inteira. Era irritante demais! Passei por todo o caminho praguejando pra Deus e o mundo e finalmente cheguei à parte onde só havia flores. Eu realmente esperava que não tivessem formigas em lugar nenhum.

– Ei! – chamou Logan. Ele estava encostado na árvore. Como eu não o vi?

– Ah! Oi – falei, me soltando do último pedaço de mato que ficou preso na minha sapatilha. Como eu me arrependia de ter saído de casa produzida. Era tão mais fácil quando eu estava usando calças jeans e tênis. – E ai?

Dei uma voltinha.

– Como estou? – sorri.

– Linda. – Ele sorriu também.

Desgrudou da árvore, mas não foi para perto de mim. Parecia nervoso então eu fui para mais perto dele. Sabia que se eu ficasse em pé todos me veriam e era “estritamente proibido que as Selecionadas tivessem qualquer tipo de encontro ou relacionamento durante a Seleção ou dias antes”, como um funcionário do palácio bem me lembrou. Eu não via o Logan desse jeito, mas eu sabia que outras pessoas poderiam ver, afinal, isso poderia ser facilmente confundido com um encontro.

– Senta aqui, podem nos ver – eu sussurrei brincando. Sentei-me em uma pedra perto da árvore e Logan se sentou do meu lado.

– Como está a mais nova Selecionada de Dominica? – ele perguntou. Percebi que tentava afastar meu olhar, suas mãos se esfregavam uma na outra e depois na calça, mas não me importei, eu mesma estava nervosa, se encontrassem a gente seria o fim!

– Nossa! Logan! Eu estou tão animada! Eu sei que eu nunca tive uma chance de abrir um ateliê só meu, que meus sonhos foram um fracasso do inicio ao fim, mas agora é a chance, Logan, é a chance de ter tudo o que eu sempre quis! E isso é tão legal! Eu vou conhecer os príncipes e toda a família real, vou ter contato com os melhores tecidos e ainda vou poder fazer novas amizades. Não vou ser tratada como uma Seis, entende?

Ele só ia concordando com a cabeça, tinha um sorriso pequeno no rosto, mas parecia sem expressão.

– Eu vou poder ajudar meus irmãos! Vou poder ajudar meu pai e minha mãe, eles significam muito pra mim, você sabe... Eu finalmente vou poder ter a minha vida nos eixos. Sabe aquela sensação de dever comprido que eu te falei quando a gente terminou aquele trabalho horrível de ciências?

Ele riu e concordou.

– Isso é mil vezes melhor! – falei.

– Você está feliz? – ele perguntou.

– Se eu estou feliz? Eu não poderia estar mais feliz. É tão bom falar disso com alguém, Logan. Sabe, minhas irmãs estão muito interessadas nos príncipes. E eu estou tão nervosa por causa deles que não quero mais ouvir os nomes Matthew e Thomas na minha vida! – Eu ri, demasiado animada.

– Eu não posso te pedir isso – falou Logan, sem nexo.

Olhei para ele. O sorriso tinha sumido e ele encarava o chão com uma cara de totalmente perdido e arrependido, mas acima de tudo decepcionado. Será que era por que eu estava falando de meninos com ele? Fiquei confusa e não sabia o que dizer. Logan nunca foi assim, estava sempre animado quando estava comigo, mas nas últimas semanas ele tem apenas se afastado cada vez mais.

– Logan... Eu não estou entendendo...

– Olha como você está animada, Cass. Eu achei que você não queria isso. Eu achei... Eu queria... – A cada frase ele se atropelava mais nas palavras e me deixava ainda mais perdida. Não sabia o que dizer, ele estava se referindo a Seleção ou ao ateliê? – Eu achei que você gostasse de mim do mesmo jeito que eu gosto de você.

– E eu gosto! Você é muito especial pra mim, meu melhor amigo!

Ele riu, mas pude sentir que era algo como “é claro, eu já sabia.” Briene gostava de Logan do jeito que ele estava falando, não eu. Eu nem poderia imaginar isso. De um segundo para o outro eu percebi do que ele estava falando de verdade.

– Logan... Eu sempre te disse que eu queria montar meu ateliê e viver aqui com a minha família, mas você sabe como essa oportunidade é...

– Não, Cass! Eu não estou falando da Seleção, nem do seu ateliê, nem da sua família! Esqueça-os só um segundo, por favor? – Ele me olhou com raiva. Calei-me. – Por que você tem sempre que colocar todo mundo na sua frente? “O dever na frente da felicidade” assinado Cassidy Silver.

Senti meu rosto queimar de vergonha. O que estava acontecendo?

– Cass, pela primeira vez na vida esqueça tudo. Eu não estou falando deles, estou falando de nós.

Nós, pensei, o que tem nós? Nós somos amigos, eu nunca vi nem vou ver você desse jeito. Era estranho para eu pensar nisso. Briene gostava dele, não eu. Eu não poderia magoá-la dessa maneira. Mas também não poderia machucar Logan.

– Olha, eu achei que você não quisesse ir para a Seleção. E eu percebo agora que eu não poderia te pedir isso. Você está feliz, quer mesmo ir pra aquele lugar nojento – Ele falava do palácio com tanto desgosto que me deixava culpada de estar decepcionando-o e indo para o único lugar onde ele nunca quis que eu fosse. – Eu não posso te impedir de viver isso, Cass.

– Logan, por que está dizendo isso agora? Teve uma vida inteira pra dizer isso, eu não posso deixar tudo de lado agora. E tem a Briene... E tem esse tanto de gente.

Ele se levantou bruscamente e eu fiz o mesmo achando que ele fosse me bater. Mas ele só se virou de costas e colocou as mãos na cabeça, coçando a nuca. Eu nunca tinha o visto ficar com tanta raiva antes. Mas eu estava certa! Meu orgulho me dizia isso, tudo me dizia isso.

– Para de pensar nos outros! – ele se virou para mim. Seus olhos não emitiam raiva, ele estava triste na verdade e eu estava pior. — Eu não gosto da Briene, Cass. Você não entenderia por que eu nunca te disse isso por que vocênunca quis me ouvir! E agora eu estou te perdendo e talvez seja pra sempre! Eu não posso te impedir de viver isso, mas você tem que saber que eu te amo. Você precisa saber disso...

– Logan... Eu... Eu queria que tivesse uma maneira melhor... Quer dizer... Eu queria muito que eu não precisasse decepcionar a Briene nem ninguém, muito menos você... Mas essa é a oportunidade que eu sempre quis. Eu vou achar um amor e-

– Você está bem na frente de um amor, Cassidy. Você sempre esteve na frente de um amor! Mas sempre pareceu que tinha uma barreira entre você e eu.

Ele chegou mais perto e eu fiquei com medo que nos vissem. Aquela situação não podia ficar pior. O que eu iria falar para ele? O que eu poderia falar pra ele? Logan acabou de jogar toda a minha vida na minha cara e eu não tenho nada a dizer. Logan simplesmente acabou de tratar como lixo e insignificantes todas as coisas com as quais eu sempre fui preocupada e tudo isso bem na semana mais importante da minha vida. Como eu poderia dizer alguma coisa pra ele?

– Cass, eu sempre estive aqui. Eu sei que isso é ruim. Eu sei que eu não devia fazer isso. Eu sei bem que tudo o que eu estou fazendo agora é te confundir por que você nunca vai deixar o palácio de lado. Mas eu estou te pedindo, Cass, você precisa ficar...

Eu comecei a negar com a cabeça. As lágrimas começaram a rolar. Era ridículo. Em alguns minutos meu mundo caiu completamente. O sol nem parecia mais brilhar e todas as flores pareciam estar de luto por mim. Nem o chão parecia estável. Eu não queria chorar, mas o sentimento de confusão e impotência não me deu escolha, eu estava traindo minha irmã e ainda estava ferindo meu sonho, era impossível não se sentir culpada. Era como acordar em uma manhã ensolarada e descobrir que toda sua vida foi uma farsa e todos mentiram para você, todos sempre mentem. E eu sempre achei que Logan não fosse esse tipo de pessoa.

– Eu não posso, Logan... Eu realmente não posso...

– Eu posso te dar o ateliê, eu posso te ajudar com tudo. Eu sou Cinco e tenho um dinheiro guardado, eu te dou tudo o que você quiser por que eu te amo.

Olhei fundo em seus olhos. Eles me suplicavam. Só me fizeram chorar mais. Ele só podia estar brincando, não era possível. Toda uma vida ao lado do meu melhor amigo e eu nunca percebi que ele estava apaixonado por mim. Eu nunca percebi que aqueles “eu te amo” eram de verdade, e todas aquelas brincadeiras eram para disfarçar o que ele realmente sentia.

– Eu tentei, Cass... – ele fitou o chão. Limpei as lágrimas com os dedos. – Eu tentei ficar longe de você essa semana e todas as outras desde que eu soube que você entregou aquele maldito questionário... Eu sabia que você ia ganhar – ele sorriu triste. – Você sempre foi a mais bonita, sempre a mais esforçada em tudo, a melhor. E naquele dia, Cass, naquele dia que você tirou a foto. Eu me lembro do seu sorriso. Você estava tão animada por que ia conhecer o amor verdadeiro...

Senti-me uma idiota. Uma babaca por não ter percebido. Ele me encontrou na fila quando foi lá com a irmã Dallas. Ele me perguntou bem sério se a Briene tinha respondido ao questionário certinho e eu respondi rindo que era eu quem estava participando. Briene não ligava para isso já que o único cara que ela queria era Logan. E agora eu estava ali, parada, decepcionando os dois. Como eu não percebi isso antes? Como ninguém me disse isso antes?

Ele encostou-se à árvore e escorregou por ela até sentar na pedra de antes. Eu podia vê-lo sorrir, mas era um sorriso triste. Minha vontade era de sumir.

– E eu achei aquilo engraçado por que você estava bem na frente de um “amor verdadeiro” e não conseguia ver isso – ele disse. — Naquele momento, eu já sabia que tinha te perdido. Mas foi ficando pior a cada semana, Cass. A cada dia era como se você estivesse mais longe.

– Para com isso, Logan – pedi. Ajoelhei-me de frente para ele e toquei sua mão encima do joelho. Se fosse para dar um fora, eu daria direito e carinhosamente. – Eu não te amo dessa maneira. Mas você não pode se torturar assim. Não somos nós que escolhemos quem nosso coração deve amar. Você tem outras meninas e eu ainda posso voltar. Você tem outras pessoas e eu ainda preciso aprender a amar, Logan.

– Estou sendo clichê demais? – ele perguntou, me cortando no meio do meu discurso estilo “não fique triste, mas estou te dando um fora”. Olhou-me nos olhos e sorriu.

Nunca consegui saber se aquele era um sorriso sincero de verdade.

Meu celular tocou e eu o peguei do bolso estratégico que eu implantei no vestido. Era a minha mãe, e em se tratando da minha mãe duas coisas poderiam estar acontecendo: ou ela viu meu bilhete e estava pirando ou o funcionário do palácio chegou e ela estava pirando. E de qualquer jeito eu estava frita.

Olhei para Logan. Eu não poderia ficar nem mais um minuto ali. Ele pareceu saber disso, pois assim que eu olhei para ele, ele virou a cara e se levantou. Eu fiz o mesmo e, sem dizer mais nada, comecei a correr para longe dali. Se eu fosse rápida poderiam ser só 45min de esporro.

● ● ●

Pov Emilli Versalhes

Eu nem estava acreditando. Não acreditava que minha foto tinha aparecido no Jornal Oficial. Não acreditava que eu estava a caminho do palácio naquele dia. Não acreditava que faltavam poucos momentos para que eu me encontrasse com o príncipe. Estar frente a frente com o príncipe Damon? Só em sonhos, mas agora isso estava prestes a virar realidade

Toda a minha vida eu vivi sonhando com um amor verdadeiro como o dos meus pais, toda a minha vida eu vim pensando em como seria quando eu encontrasse o cara certo, toda a minha vida eu passei lendo sobre romance e como duas pessoas se apaixonam. E, finalmente, eu estava prestes a me apaixonar pelo garoto mais cobiçado de toda Illéa.

É incrível o quanto a vida de uma Cinco pode mudar quando você é uma Selecionada. Antigamente, quando eu passava na rua, as pessoas não me enxergavam (alguns até me julgavam por ter deixado a escola) e só os conhecidos acenavam para mim. Agora todos me param para tirar fotos. É como se eu fosse uma celebridade e eu nem era cantora ou algo do tipo, mesmo sendo Cinco. Eu nunca achei que minha vida fosse mudar tanto e tão de repente.

Uma semana. Só tinha sido uma semana. Pareciam meses, meses desde que eu vi a mim mesma no Jornal Oficial, era como há meses atrás minha vida tivesse sido completamente virada de cabeça para baixo. Mas foi só há alguns dias atrás, e isso tudo era surpreendente. Mas o que mais me empolgava era o fato de que, naquele dia, eu estaria saindo da minha província, Labrador, e indo para Angeles, para o palácio. E naquele dia, seria decretado o início da Seleção.

– Oi, querida, tem alguém aqui que quer te ver – disse minha mãe da porta.

Meu pai estava com ela, seus olhos azuis piscaram para mim e eles saíram, deixando-me ver Khruno Gullar, meu melhor amigo, parado no corredor com uma caixinha de presente.

Na escola, quando eu conheci Khruno, ele sempre foi meu amigo, mas quando eu decidi deixar a escola, ele foi um dos únicos a ficar do meu lado. O fato é que eu não preciso muito da escola quando tudo o que eu tenho está em casa, eu sou uma Cinco, não tem utilidade, tirando o fato de que eu sempre estou ocupada em casa. Mas quando eu decidi fazer isso, várias amigas se viraram contra mim, mas Khruno estava sempre lá me apoiando. Eu devo muito a ele, tanto emocionalmente quanto financeiramente, ele sempre me ajuda comprando coisas para mim.

– Oi, princesa – ele disse ironizando.

Me levantei da penteadeira. Já estava me aprontando para a hora tão esperada.

– Oi! – O abracei. – O que é isso, hein?

– Calma, vamos falar primeiro de como você está se sentindo sabendo que vai passar o resto dos seus dias em um palácio. – Ele riu.

– Nossa, Khruno, isso é tão novo, tão perfeito! – Sentei-me na minha cama. – É tão perfeito quando você sabe que está no caminho certo para sua vida decolar, sabe? Eu sinto isso agora.

– Que bom que está feliz. – Ele veio até a cama e se sentou do meu lado. – Eu achei mesmo que ia ficar.

– É sim, é tudo tão lindo, nunca me imaginei nem pensando em viver no palácio, e agora eu estou indo para ele. É a melhor coisa de todas! Ainda não acredito que eu estou prestes a passar por isso, de verdade, não estou acreditando!

– Bem, você vai finalmente conhecer o príncipe Damon, né?

Ele riu e eu me joguei na cama de tanto rir. Ele sabia da minha paixonite pelo príncipe Damon. O mais engraçado era que, quando a carta chegou, eu estava com Khruno e eu abri com ele por perto. Mostrei pra ele e ele disse que seria uma boa coisa se inscrever. E eu disse que só seria bom, pois eu iria conhecer o Damon. E depois disso ele disse: “Então se inscreva, vai que o mundo te faz uma surpresa? Não custa nada!” Bem, agora eu estava prestes a conhecer o príncipe. Imagino o que eu estaria fazendo agora se Khruno não tivesse me aconselhado a participar.

– Vou, Khruno! Finalmente conhecer o príncipe! A rainha, o rei, os criados, as plantas de lá! – Ele riu. Ele sabia que eu conversava com as plantinhas quando eu não tinha nada pra fazer ou queria desabafar, o fato dos meus pais serem jardineiros me ajudou muito quanto a ser uma pessoa que fala com plantas. – Vai ser tão legal!

– Espero que sim, e se não der certo vão ter mil caras por aí esperando por você – ele riu.

– É... – murmurei, pensativa.

– Bem, mas eu vim aqui por que hoje é seu ultimo dia nessa província por um bom tempo, então achei mais do que justo que eu viesse te visitar.

Eu corei. Não achava que Khruno iria vir hoje. Ele tem trabalho e tal, achei que estaria ocupado e a visita dele foi uma enorme surpresa. Ainda mais com aquela caixinha de presente.

– E... Emi, você sabe que é importante pra mim, né? E eu queria te dar alguma coisa de presente no seu aniversário...

– Oh, Khruno, não precisava!

– Emi, temos idade o suficiente pra admitir que precisa, sim, né? E você é importante pra mim, não queria deixar a data passar sem mais nem menos. Afinal, você só faz 18 uma vez e quando eu fiz 18, você me deu algo de presente.

Eu lembro, eu dei uma flor para ele. Um vaso cheio de flores, e ele cuida delas até hoje, me chama para ir ver como elas estão, e eu tinha 14 na época. Todos deram presentes para ele, menos eu, pois minha renda de Cinco não me dava o direito, mas eu mesmo assim quis dar alguma coisa, e dei a flor mais bonita do meu jardim para colocar no dele. Agora, ele estava fazendo a mesma coisa.

– Mas nem foi grande coisa, Khruno – eu disse.

– Mas significou muita coisa pra mim. Deixa de ser chata. – Ele sorriu. Eu estava quase chorando. Aquela surpresa só ficava melhor. – Bem, eu queria te dar isso no dia do seu aniversário, mas como você não vai estar aqui nesse dia, eu decidi adiantar um pouco as coisas.

Ele ergueu a caixinha muito bem embrulhada com um lacinho para mim. Eu sabia que não tinha sido ele que embrulhou, ele nem sabia dar um nó de gravata, imagina um laço de fita, mas ainda assim o fato dele ter feito alguém fazer para mim significou muito. Eu peguei a caixinha, era ridículo, mas eu já tinha começado a chorar. Ela era leve, mas nem tanto.

Olhei para ele e ele só sorria. Eu o abracei antes mesmo de abrir a caixinha. Era importante para mim aquele momento. Era muito importante para mim que ele estivesse ali. Ele deixou o trabalho, tudo só pra ter aqueles mínimos segundos comigo e só isso já teria me feito sorrir pelo resto da minha vida, mas ele ainda fez uma enorme surpresa. Ele se empenhou ao máximo para aquilo. Eu não poderia ter um amigo melhor.

– Não chora, senão eu vou começar a achar que você não gostou. – Podia senti-lo sorrindo.

– Obrigada – sussurrei, rindo.

Desfiz o abraço e abri o embrulho cuidadosamente. Era uma caixinha de veludo azul bem escuro. Eu olhei para ele. Ele tinha um sorriso enorme no rosto. Eu nunca tinha tocado numa caixinha daquela, só coisas caras vinham dentro dela. Era muita coisa espetacular acontecendo num dia só.

– Ai. Meu. Deus! – falei. As lágrimas só caiam.

– Abre, abre, quero ver se vai gostar!

– Eu não acredito que isso está acontecendo! – Sorri.

– Pode acreditar.

Eu abri a caixinha e, dentro dela, tinha a mais linda pulseira de prata que eu já vi na minha vida.

● ● ●

Pov Amber Francys

Eu achava que era a única Selecionada que não estava nervosa em me encontrar com o príncipe. Bem, mas eu devia levar em conta que era a única Selecionada que já o conhecia. Pelo fuso-horário da França, eu já estava me despedindo da minha cidade-natal na França para partir direto para o meu encontro com o príncipe. Eu não iria para nenhuma província antes, nem me encontrar com nenhuma Selecionada, eu iria direto para o meu encontro com Damon

Era se de estranhar que, depois de tanto tempo longe dele, eu volte a fim de ficar com ele para sempre. Faz cinco anos que não o vejo pessoalmente. Meu pai, Louis Francys, já viu eles várias vezes antes da Seleção. Claro que viu, pois foi ele que me enfiou nela pela janela.

O fato é que meu pai não me acha boa o suficiente para virar a próxima Rainha da França. Eu terei que me casar com o príncipe de Illéa e, assim, meu pai continuará no poder até sua morte. E é claro que, antes disso, ele colocará alguém com mais competência em guerra do que uma menina de 18 anos que não foi consciente nem na hora de escolher quem amar. O rei Alarick deve ter falado “sim, completamente SIM” na hora que meu digníssimo pai me ofereceu para ele. Ter uma garota francesa na Seleção era como um pote de ouro. Nossas famílias sempre terão um elo de ligação e estariam dispostas a negociar por tudo. Por que não tirar a vida de uma adolescente de míseros 18 anos em troca de todo o dinheiro que os mares de Illéa podem oferecer? Era tão fácil para ele, não era a vida dele que estava em jogo.

Os avisos para a Seleção começaram a ser repassados no começo do mês passado, mas mesmo antes disso minha vaga já estava lá, pronta para me encaixarem, e meu quarto já reservado, pronto para ocupar uma verdadeira dama. Um verdadeiro pote de dinheiro, devo dizer, uma moeda de troca. E, há três meses, eu já tinha começado a aprimorar meu inglês. Eu deveria entender tudo o que ele dizer, deveria perder o sotaque da França, deveria seguir todos os padrões. Era a preparação mais simples para ganhar. E eu tinha que ganhar.

Eu não precisava vestir nada que representasse minha província, pois eu não era de Illéa, então apenas me vesti normalmente, como eu faria para qualquer ocasião formal. Eu fazia tudo com calma. Não queria perder nenhum segundo na França. Aquele era meu lar. Era onde eu devia ficar, era onde eu devia me casar com quem eu amava... Mas agora eu estava indo para o outro lado do mundo. Incrível como a vida das francesas são sempre dramáticas.

Mas, por outro lado, eu estava muito curiosa também. Seria a primeira vez que eu iria falar mais que “Bonjuor” para algum o príncipe. A primeira vez que iria falar com ele em inglês. O que será que ele ira falar quando me visse? “Nossa, você é a princesa da França, faz um tempão que não te vejo!” Ou, quem sabe... “Nossa, você é a princesa da França, eu nem me lembrava mais de você!” E riria. Como ele estaria agora? Lembro-me de quando via ele brincando e correndo pelo jardim enquanto eu ficava com as criadas no meu quarto. Lembro que sempre que ele me olhava, eu me escondia de vergonha. Agora eu não poderia mais fugir...

– Amber, querida – minha mãe, Elizabeth Francys, a querida Rainha da Monarquia Francesa, apareceu na porta do meu quarto. – Apresse-se, já está quase na hora.

Foi precisa só uma troca de olhares para minha mãe saber que eu estava desmoronando por dentro. Ela abriu os braços e eu só me enfiei entre eles.

– Calma, amor... Não precisa ficar assim. Pense nisso como um novo começo, logo, logo você já vai estar acostumada com a Seleção.

– Mas eu não quero estar! – protestei. – Eu não quero ir, eu nunca quis...

– Agora é tarde, filha. Você sabe que temos que fazer alguns sacrifícios pelo nosso povo. Você sabe que todas nós temos responsabilidades.

– Eu vou ficar longe de você, longe da França, mãe, eu vou ficar longe de tudo o que eu amo. E não é por pouco tempo, é pra sempre!

– Nós vamos te visitar, eu vou sempre que puder, eu escrevo cartas, eu te mando mensagem, pode olhar no seu celular, amor. Se você for Rainha, pode voltar quando quiser. Sua casa vai sempre ser aqui, mas seu lar é onde você está feliz.

– Eu não vou ser feliz lá – resmunguei. Queria estar chorando, mas não podia borrar a maquiagem, e sempre me ensinaram que eu deveria sorrir. Pra que serve aquilo tudo? Eu queria morrer.

– Amber, se você disser mais uma vez que não vai ser feliz lá, eu vou te fazer se arrepender de ter dito isso. Quando eu tinha sua idade, e seu pai me conheceu, eu achei que ele fosse um traste, mas depois eu percebi que realmente o amava. E, advinha, eu achei que nunca iria ser feliz em um castelo, longe da minha mãe, mas eu sou. Eu tenho você, eu tenho quem eu amo. O seu lar é onde você está feliz, e, mesmo que você não esteja feliz com a ideia agora, se dê uma chance. Pode valer a pena, filha.

Eu olhei para ela. Ela estava com lágrimas nos olhos. Estava prestes a chorar. E aquilo me fez ficar triste. Sabia que ela estava falando a verdade e me ver partir também era difícil para ela. Eu deveria parar de tentar tornar tudo mais difícil do que precisava ser para ambas de nós. Eu estava decidida, por ela, eu faria de Illéa meu lar.

Notas finais
Cassidy: https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRgiITM12EN5XgSp6VH1gAhjCIv2i4v4CyYw6F3SHsS_JQniacwcQ Emili: http://images.luvimages.com/luvphotos/l/lucy_hale_big_hair-335.jpg Amber: http://40.media.tumblr.com/b88570d7c277f79e8853e4060dc4ffcf/tumblr_mmj5v5rv3l1spdsfmo1_500.jpg Bom espero qu tenham gostado :)