A Seleção de Damon - Interativa
5 Elicha e Skyler
Notas iniciais
Pov Elicha Vanderwal
Eu saí cedo do serviço só para ajudar minha mãe com os preparativos para aquela noite. Minha mãe, Anabete, já é idosa e eu me sinto no dever de ajudá-la. Talvez ela goste de fazer o jantar sozinha, um dia me disse que é uma forma de também ajudar minha família, já que só os meus irmãos e eu (tirando apenas Bernardo) sustentávamos a família. Eu fico meio apreensiva quando falo da "família" já que fiquei sabendo que minha mãe me encontrou embrulhada em um lençol fino aos dez anos e isso me abalou bastante até hoje. Mas mesmo assim, amo todos como se fosse minha família, eles cuidaram de mim e me amaram mesmo que eu não fosse filha/irmã de sangue. Sou tremendamente grata a todos eles.
Minha patroa não ligou que eu tenha saído cedo hoje. Era dia de ver as Selecionadas e eu estava tão ansiosa quanto a filha dela, Dianna, que também tinha se inscrito. Tenho quase certeza que a mãe de Dianna me dispensou, pois não queria que uma Seis atrapalhasse a noite da família quando finalmente Dianna poderia ter a chance subir mais três castas e se tornar uma Um. E eu? Eu continuaria servindo sua mãe e seu pai enquanto eles se tornavam cada vez mais ricos.
A diferença entre mim e Dianna era que ela queria estar lá. Eu não, eu odiava a família real, todos eles, não faziam diferença nenhuma na minha vida e viraram a cara quando nossa família estava passando fome. Eu odiei cada segundo em que fui obrigada a tirar uma foto para me inscrever em uma coisa que eu não queria, mas precisava para ajudar minha família. Eu não queria ir para o palácio, mas sem ele minha família iria continuar com os meses em que passávamos fome, precisava do dinheiro e precisava me conter para não ser expulsa no primeiro dia e ficar sem o dinheiro da primeira semana.
Eu era a única filha menina, eles contavam comigo. Mas eu nunca fui estilo delicada, estilo mocinha... Como uma menina que fora criada com meninos desde que nasceu poderia virar uma dama perfeita como a rainha Jenna? Era impossível ganhar, impossível até ser selecionada, mas eu precisava tanto...
Cheguei em casa e fui recebida com palmas e assovios pelo meu irmão Jace. Ele sorriu e pegou a minha mochila para me ajudar. Era uma boa caminhada do meu trabalho para minha casa e ir correndo para chegar mais cedo em casa não foi uma boa escolha.
– Olha quem está aqui — ele começou, rindo -, princesa Vanderwal, o que quer para o jantar? Caviar? Alguma especiaria Italiana?
– Só macarronada e pipoca para assistir ao Jornal Oficial, quero ver bem as idiotas que vão para o palácio para agradar algum daqueles príncipes nojentos — sorri e fui até a cozinha, ignorando as risadas de Jace. — Oi, mãe!
Minha mãe estava preparando potes de pipoca para assistir ao Jornal Oficial, era tanta pipoca que mesmo que a minha família tivesse sete pessoas nós não aguentaríamos comer aquilo tudo. Meus quatro irmãos entraram na cozinha.
– Pensa rápido — disse Leonard, o mais velho, antes de me jogar uma maçã do pomar que tínhamos no pequeno quintal.
Eu peguei-a no ar e dei uma mordida.
– Tenta melhor da próxima, idiota. — Eu ri.
– Ei, já pode começar a maneirar na língua já que vai se tornar uma menininha chata e mimada quando for para o palácio — zoou Valério, o irmão que mais gostava de me deixar irritada. E mais uma vez ele tinha conseguido.
Eu não iria ficar como uma daquelas menininhas que estava com esperanças de ir para o castelo e se apaixonar pelos príncipes. Eu não tinha esperança nem para ser selecionada para ir para o castelo. E eu nunca aceitaria. Não para ser esposa dele, não para ser princesa, parte de uma família que sempre virava a cara para aqueles que estavam com problemas, não seria assim. Nunca.
– Não vou ser assim, babaca, vou ser eu mesma, ele que me aguente — respondi, estava tentando deixar minha voz firme, mas vacilei. Estava mesmo nervosa com aquela Seleção. E se eu fosse mesmo selecionada?
O telefone tocou, deveria ser Joana, minha amiga de infância. Só ela poderia me acalmar naquela hora, Valério me irritou de verdade. Fui até o telefone e o tirei do gancho antes de Bernardo passar pela porta da cozinha. Como ele conseguia ser tão preguiçoso?
– Alô? — perguntou Joana do outro lado da linha.
– Jô! — gritei feliz. — Como você está?
– Bem! Muito nervosa e animada, estou tão feliz, tomara que alguma de nós consiga ser Selecionada. Imagina? Ter dinheiro para comprar a comida que quiser e ir aos restaurantes mais badalados da cidade! Ah, que sonho! Espero que eu consiga, minha família depende de mim...
Joana era casta sete. Eu me odiava por ser uma casta acima dela. Crescemos juntas, estudamos na mesma escola e quando separavam os alunos por casta eu sempre ficava chateada por ela ser da sete, era como se ela fosse pior que eu e isso me deixava triste. No final das contas, ela que deveria ser princesa, ela doce, meiga e delicada e eu sou exatamente o contrário. Ela é uma cópia da rainha Jenna, a única diferença é que trabalha mais que a rainha. Joana merece mais que eu a Seleção, como ela disse, seria um sonho para ela e para a família dela.
Olhei para os lados antes de continuar. Não queria que meus irmãos ouvissem e ficassem me zoando por dizer o que eu estava prestes a dizer.
– Também espero conseguir entrar — admiti. Mesmo que fosse horrível para mim, era bom demais para a minha família, era um sonho mesmo.
Minha mãe me forçou a participar da Seleção para que eu ganhasse o dinheiro. Eu e ela tivemos algumas brigas antes de eu desistir de ser tão chata e egoísta e ir com ela entregar o formulário e tirar a foto. Se eu conseguisse, minha família sobreviveria e eu ficaria feliz por eles. Não podia ariscar a minha família por não gostar da família real, eu tinha que aceitá-los por um tempo. Minha mãe me disse que "precisava muito da minha ajuda", eu quase chorei quando ela disse aquilo, acho que depois daquela frase eu me motivei para tirar a foto e seguir em frente, se eu ganhasse, seria a pessoa mais feliz do mundo enquanto meus pais e meus irmãos estivessem felizes também. Mas tinham tantas meninas bonitas, muito mais bonitas e talentosas que eu. Era quase impossível ganhar... Quase.
– Imagina se fossemos as duas Selecionadas! — Joana deixou um risinho escapar no telefone. Sua risada era tão fofa, com certeza ela seria selecionada. Fiquei feliz por ela, ela realmente merecia. — Seria tão bom! Acho que tenho medo das outras meninas, talvez elas não gostem de ser amigas de... Bem, inimigas.
Eu ri. Seria uma sorte imensa se fossemos as duas Selecionadas. Joana conseguia pensar nas melhores coisas. Ela me fez ter esperanças, talvez nós duas pudéssemos escapar do "inverno da fome" esse ano.
– Seria perfeito! Não quero mesmo passar por tudo isso sozinha! Isso se eu for Selecionada, e olha que não tem chance nenhuma! — eu sorri de lado e o sorriso desapareceu depois. A verdade dói. Talvez eu não fosse mesmo selecionada e minha família passaria fome, perderia a única chance...
– Ei! São sete e cinquenta e oito! Corre pra televisão, Eli! Você não pode perder nada! Tchau, até depois! E boa sorte!
– Okay! Não vou perder! — e suspirei antes de continuar: — Boa sorte para você, sei que vai ser selecionada, não tem como não te escolherem!
– O mesmo pra você, Eli, não se esqueça que você é uma guerreira, merece tanto quanto qualquer uma, talvez até mais, estar no palácio! Não se coloque tão para baixo, você é muito boa em tudo! Te amo! Começou!
Joana soltou um grito e antes que eu pudesse responder que eu não era nada desse jeito o telefone desligou e eu ouvi berros me chamando até a televisão. Reclamei comigo mesma e me forcei a ir até a sala e sentar no sofá até aquilo tudo acabar.
● ● ●
Eu estava rindo. Travis, um dos meus amigos, estava caindo o tempo todo tentando fazer uma manobra no skate que eu mostrei para ele no dia anterior. Ele ficou de boca aberta quando eu terminei e desde então ele estava tentando fazer a mesma coisa, só que caiu todas as vezes que tentou.
Era dia de ver as Selecionadas e eu estava andando de skate com meus amigos enquanto deveria estar em casa com a televisão ligada no canal público (o único que qualquer pessoa de Illéa poderia ver desde que tivesse uma televisão), que bonito, Sky, que ótima princesa você seria. A verdade era que eu não ligava de ir para a Seleção, pra mim a Seleção era como um programa para fazer amigos, não queria ficar com um os príncipes para sempre e ter um caso de amor com eles, queria fazer amizades e conhecer o estilo de vida de uma princesa. Aquilo seria magnífico!
Minha mãe com certeza deveria estar me ligando, mas meu celular estava no mudo. Ela tinha mesmo que ficar me lembrando que se eu fosse escolhida nunca mais veria meus amigos do mesmo jeito? Se eu fosse escolhida, queria ficar com eles ao máximo!
– Ei, Três — chamou-me Hector. Ele me chamava de Três por eu ser a segunda com a casta mais alta do nosso grupo, apenas Isaac ganhava de mim com sua casta dois. Hector, Sam e Travis eram Quatros orgulhosos até mais que eu. Hector chegou mais perto de mim com o skate dele e eu parei o skate com o pé. — Ansiosa para virar uma princesa?
Sam, que estava sentado do meu lado observando Travis, começou a prestar atenção na conversa. Isaac veio até nós e começou a andar em círculos ao nosso redor, olhando para mim e aguardando a resposta.
– Não sei — respondi depois de encarar todos duas vezes. — Nem sei se vou ser Selecionada, seria uma sorte das grandes! Imagina ser sorteada no meio de um quintilhão de outros papéis, isso é sorte demais pra mim! — sorri. Os meninos ainda me encaravam.
– Acho que não vai ser um sorteio — falou Isaac. Ele parou o skate e olhou para mim. — Se fosse um sorteio, por que mesmo vocês têm que tirar uma foto? Eles escolhem as mais bonitas, já percebeu como todas as selecionadas são sempre bonitas e quanta gente feia entrega o formulário? É impossível! Eles escolhem as garotas.
– Eles tiram a foto para aparecer no Jornal hoje, eu acho — explicou Sam. — Mas você tem razão, quantidade de pessoas que entregam o formulário e não são lá essas coisas é enorme para as meninas serem todas bonitas.
– Se for mesmo assim ai que não tenho chance mesmo, não sou a mais bonita de todas, nem uma das trinta e cinco mais bonitas, sou normal, sei lá. — Fitei o chão. Se for verdade, eu poderia ser sorteada? Eu não era a mais bonita, nem da minha escola, tinha uma beleza comum. Pelo menos era o que eu achava.
Lembro-me do dia da entrega dos formulários, minha mãe tratou de arrumar o meu cabelo inteiro quando soube que tiraríamos uma foto. Meu cabelo nunca ficou tão arrumado em cinco minutos e estávamos no meio de uma fila. Lembro-me de quando Isaac e Sam passaram por mim na fila depois da sessão beleza e lembro perfeitamente de quando Sam disse que eu estava linda. Eu fiquei tão feliz, ele nunca tinha falado assim comigo, nunca me elogiou de verdade e ali estava eu de cabelo arrumado quando Sam Collins me elogiou. Não havia menina mais sorridente que eu para tirar a foto.
– Que horas começa isso? — perguntou Sam olhando para Hector, que ainda estava em pé na minha frente, apenas eu e Sam estávamos sentados.
– Oito horas — respondi. E tomei um susto. — Ai, merda!
Tirei meu celular do bolso e olhei as horas quando a tela destravou: 7:46 pm. Eu estava atrasada, muito atrasada. Olhei as notificações do celular e havia 7 chamadas perdidas da minha mãe. Além de atrasada eu estava ferrada, totalmente ferrada, seria cordada em pedaços e viraria batata-frita quando chegasse em casa.
– Preciso ir — avisei, me levantando.
– Por quê? — perguntou Travis fazendo uma péssima imitação de carinha triste. Ele pegou o skate na mão e foi até onde estávamos.
– São sete e quarenta e seis! Estou mega atrasada, minha mãe vai me matar!
Hector e Isaac riram. Travis colocou a mão na frente da boca e fez uma cara de surpresa melhor que a minha quando vi as horas. Ele tinha uma irmã que também estava participando da Seleção e precisava estar em casa com ela. Ele gritou um "eu vou estar morto amanhã, vejo vocês no meu funeral", e logo depois saiu correndo para o lado oposto ao que eu iria com o skate debaixo do braço.
– Vejo vocês amanhã — assegurei sorrindo. Peguei meu casaco do chão e o amarrei na cintura. Olhei para os meninos e acenei de leve para depois me virar, colocar meu skate no chão e começar a ganhar velocidade.
De longe ouvi Sam gritar "boa sorte, Sky" e sorri de novo. Quem precisava um príncipe da família real quando eu tinha quatro bem ali na minha frente?
O som das pessoas passando em um segundo do meu lado me dizia que eu estava atrasada. Nunca andei tão rápido com o skate como naquele dia. O que eu diria pra minha mãe? Ela nunca iria me perdoar, ficaria de castigo sem o skate ou sem sair com os meninos! Ou pior! Sem livros por um mês! Ela ia me comer viva! Meu skate parou assim que eu ouvi a voz de Clarisse Manson.
– A garota/menino vai para casa só agora? — Clarisse estava com mais uma amiga na frente da casa dela. Por que eu continuava passando ali? As garotas pareciam conversar um pouco antes de irem para suas casas verem o Jornal Oficial, e quando me viram fizeram questão de me atormentar. — Ah, é, você já sabe que não tem chance nenhuma então nem precisa tentar. Tadinha, nem amigas de verdade têm, só fica com meninos e nunca nem beijou nenhum. Me deixe cinco minutos com Sam Collins e eu mostro pra ele como amigos de verdade fazem– ela riu alto e sua amiga acompanhou.
Eu não tinha coragem para olhar para elas. Era tudo verdade mesmo, não tinha amigas meninas, só meninos, e eu estava feliz com os amigos que tinha. Desde criança era assim. E desde criança elas me atormentavam com isso. Eu sempre fingi que não me incomodava, mas incomodava sim, eu ficava magoada com cada palavra que elas falavam e aquilo acontecia sempre! Eu sempre fui animada, divertida, legal, por que elas faziam aquilo comigo? Só porque me dava melhor com meninos do que com meninas? Aquilo me chateava tanto...
Eu fitei o chão e cerrei os punhos. Não devia perder tempo ali, mas o que ela disse sobre Sam realmente me afetou aquele dia. Era como se todas as garotas pudessem fazê-lo feliz e eu era sempre a que ficava de lado. Por quê? Deixei uma lágrima cair. Não queria que elas me vissem assim. Pisei forte no skate e dei impulso para frente. Era como se o skate lesse meus pensamentos e fosse mais rápido quanto eu queria ir. Cheguei em casa rápido depois daquilo.
Limpei as lágrimas antes de entrar, a última coisa que eu queria era ter que contar pra minha vida desagradável com aquelas meninas e sobre Sam.
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