A Segunda Lua

2 Reencontro velhos amigos


Caminhei de volta à fogueira no centro dos chalés, devagar. Tentei secar algumas lágrimas que ainda teimavam em cair, preocupada que alguém pudesse notar, mas quando retornei ai calor aconchegante do fogo, percebi que apenas alguns poucos campistas ainda estavam lá.

É claro, Jake era um deles. Ao me ver ele correu em minha direção.

– Gabrielle, está tudo bem? – perguntou ele, preocupado.

Agradeci aos deuses por ser noite e estarmos um pouco afastados do fogo, dificultando assim que ele visse meu rosto molhado.

– Está. – menti, tomando cuidado para não fazer contato visual com ele.

Ele devia saber que eu estava mentindo, mas mesmo assim não insistiu no assunto. Foi quando ele passou um braço sobre meu ombro e me puxou para um abraço. Era incrível o quanto um simples gesto valia mais do que mil palavras.

Não tentei me desvencilhar de seu aperto, e nem queria tentar. Enquanto ele me abraçava era como se por um momento todas minhas preocupações desaparecessem.

Então, ele me soltou e me olhou nos olhos, segurando meus ombros para que eu ficasse de frente para ele.

– Desculpa por antes. Acho que estraguei minha imagem com a sogra.

Eu não sabia dizer se ele estava brincando, tentando me fazer rir ou me deixar zangada. Mas percebi que era uma maneira de manter minha mente ocupada com outros assuntos.

Decidi entrar na brincadeira.

– Ela disse que você não era mal... Para um garoto... – contei.

Ele sorriu.

– E você? O que acha?

Delicadamente empurrei as mãos dele para longe dos meus ombros.

– Acho que estou cansada e precisando de uma boa noite de sono. – respondi.

Então, me virei e segui para o chalé 8, deixando Jake para trás.

Joguei-me na cama largando todo o peso do corpo, nem me dei ao trabalho de puxar as cobertas. Fechei os olhos e pensei em minha mãe, rezando, apesar de não saber para quem, que ela ficasse bem.

Eu estava em uma floresta escura e densa. À minha frente uma mulher de túnica prateada e um arco nas mãos encontrava-se agachada perto de uma árvore, cuidadosamente analisando uma pegada no chão batido da floresta.

Aproximei-me mais e rapidamente identifiquei a pegada, um casco de corça.

– Onde você está? – sussurrou Ártemis para si mesmo enquanto olhava a floresta em volta.

– Mãe? – tentei chamar, mas ela não ouviu, não podia sentir minha presença. Estranhei, porque geralmente os deuses são capazes dessas coisas. O sonho deveria ser uma espécie de visão, não algo que estivesse acontecendo naquele momento.

Ártemis levantou-se e farejou o ar.

– Você pode ser boa em esconder sua presença Selene, mas eu sei que está por aqui.

Vi um brilho prateado vir de um arbusto ao longe. Era a ponta de uma flecha com um líquido brilhante que pingava da haste. O Sangue da Corça. Meus olhos se arregalaram de medo. Ártemis estava de costas para o arbusto, eu precisava avisá-la do perigo.

Antes que eu tivesse tempo de emitir qualquer som, a flecha já cruzava o ar em direção à Ártemis. Ao ouvir o objeto cortando o ar atrás de si, a deusa virou-se rapidamente, mas era tarde de mais. Ouve um baque, um grito de dor e tudo escureceu.

Meu mundo parou. Eu gritei, gritei tão alto quanto podia, chamando por minha mãe, procurando em vão na escuridão. Comecei a soluçar descontroladamente, ajoelhei-me no chão, lágrimas escorriam por meu rosto sem parar. Eu não sentia mais nada, estava despedaçada, meu próprio eu parecia ter explodido para fora de mim.

Uma luz caiu sobre meu corpo e ergui a cabeça. A lua brilhava no céu, apenas uma lua. E de algum modo eu soube, aquela não era a lua que minha mãe guiava. Era Selene.

Eu não sentia mais minha essência. Eu queria morrer.

Abri os olhos. Alguém batia insistentemente na porta. Eu não queria abrir, eu queria ficar deitada para sempre. Tinha medo do que poderia ver lá fora. Meu travesseiro estava molhado do tanto que eu havia chorando durante o sonho. Eu tremia.

– Vá embora. – sussurrei.

As batidas tronaram-se mais fortes até que a porta cedeu com um estrondo.

Um vulto passou correndo pela porta e dirigiu-se para minha cama.

– Me deixe em paz! – gritei quando o vulto me segurou em seus braços, envolvendo-me em um abraço.

– Calma, sou eu. Ouvi você gritar.

Eu reconheci aquela voz, mas não conseguia me lembrar de quem era. Nada mais importava. Minha mãe... Minha mãe estava...

Comecei a me debater tentando me livrar do abraço daquele estranho, mas ele era forte de mais. Comecei a chorar novamente.

Senti as mãos do estranho em meu rosto, ele me obrigou a olhar em seus olhos.

– Gabrielle, sou eu. Jake.

Fitei seu rosto.

– Se lembra de mim? – perguntou ele.

Jake, é claro. De repente voltei a mim. Não que isso tenha ajudado muito.

– Jake. – sussurrei.

Ele sorriu.

– Sim.

– Eu... Eu tive um sonho... – comecei.

– Eu sei. – disse ele. – Decidi acampar do lado de fora de seu chalé, porque tinha um pressentimento que algo assim pudesse acontecer.

Franzi a testa.

– Você me conhece tão bem assim?

Ele riu.

– Você é um tanto previsível, às vezes.

Eu deveria ter ficado brava com a atitude dele, mas estava tão aliviada por ter alguém ao meu lado naquele chalé vazio, que nem ao menos me importei.

– Minha mãe. – falei for fim. – Ela está em perigo.

Jake ficou sério.

– Eu tenho que ajudá-la. – concluí levantando-me da cama. Eu havia me deitado de roupa, então apenas calcei meus tênis e me dirigi à porta arrombada do chalé.

Jake seguiu logo atrás de mim e me agarrou pelo braço.

– Ficou maluca?! O que vai fazer? Deixar o acampamento sozinha, sem a permissão de Quíron?

Era ainda noite. Olhei para o céu à procura da lua, graças aos deuses, ela ainda brilhava de um jeito estranho como se houvesse outra lua se sobrepondo a ela.

– Duas luas. – sussurrei em transe. – Minha mãe ainda está viva.

Comecei a caminhar em direção à colina que era a entrada do acampamento sem parar para ouvir os protestos de Jake atrás de mim, até o momento em que ele se pós à minha frente.

– Se você sair assim do acampamento, será expulsa!

Olhei para ele.

– Você não entende! – ele estava começando a me irritar. – A vida de minha mãe corre perigo, eu não vou ficar aqui parada sem fazer nada, nós nem sabemos quando Quíron voltará, isso pode levar dias! O Sr. D. está no Olimpo. Estamos sozinhos!

Empurrei-o do caminho e continuei para a colina, mas ele agarrou meu braço. Levei minha mão ao bolso.

– Eu não quero machucá-lo Jake. Agora, me deixe ir. – falei com a voz perigosamente baixa.

Minha mãe precisava de mim, Selene poderia estar apontado aquela flecha mergulhada em Sangue de Corça para Ártemis agora mesmo. E eu estava aqui, perdendo tempo com ele.

– Eu não sei o que está acontecendo. – falou ele. – E sei que não tem tempo para me explicar, mas ao menos me deixe ir com você então.

Minha expressão de raiva suavizou-se.

– Jake, por favor, não. Se alguma coisa acontecer a você eu...

Ele sorriu debochadamente.

– Eu sei me cuidar sozinho, você...

– Eu já disse que não! – cortei.

Ele suspirou.

– Então vou acordar duas pessoas que sei que você não poderá impedir de ir junto.

Franzi o cenho.

Jake virou as costas para mim e correu de volta ao acampamento em direção ao chalé de Poseidon. O segui e parei à porta quando entendi o que ele iria fazer.

– Jake não!

Tarde de mais. Ele bateu na porta com força e chamou.

– Percy!

Um minuto depois um homem de cabelos pretos despenteados, olhos verde mar, totalmente vestido e com uma espada em mãos, apareceu na porta esfregando um olho.

– Jake? O que aconteceu?

Então seus olhos caíram sobre mim.

– Gabrielle!

Não pude deixar de sorrir. Não via Percy há um bom tempo, ele e Annabeth havia recém chegado de uma missão naquela noite. Mas essa é a vida de um semideus, você mal tem tempo para descansar e já vem alguém bater na sua porta lhe pedindo companhia para outra missão. Mas Percy, assim como Annabeth, havia salvado minha vida inúmeras vezes no passado, e o mesmo havia acontecido comigo em relação a eles também.

– Percy!

Nos demos um breve abraço, então nós três nos calamos por um momento, cada qual esperando o outro falar.

Jake me cutucou nas costelas. Ótimo, ele acorda a pessoa e eu é que tenho que me desculpar.

Por fim contei tudo a eles. Selene, as luas duplas, a Corça, e a caçada de Ártemis. Deixei de lado apenas meu sonho, pois esse ainda me aterrorizava quando me vinha à mente.

Percy assoviou baixinho.

– Mas não quero que ninguém venha comigo. – acrescentei depressa.

Não estava a fim de por a vida de outras pessoas em perigo. Principalmente a vida de alguém que já havia feito tanto por mim.

– Sinto lhe dizer que não tem escolha. – disse Percy enquanto fechava a porta de seu chalé e seguia para o chalé de Atena.

Continuei parada no mesmo lugar, olhando boquiaberta ele se afastar.

– O que vai fazer? – perguntei.

Ele virou-se para mim, mas continuou caminhando de costas para o chalé.

– Acordar Annabeth.

Jake sorriu.

– Parece que você tem uma missão marcada com os dois maiores semideuses do Olimpo novamente.

Bati no ombro dele com um pouco mais de força do que pretendia.

– Seu idiota.

Juntos seguimos Percy em direção ao chalé de Atena.

Não podíamos bater na porta, pois Atena não possuía apenas um filho, portanto se fizéssemos isso, acabaríamos acordando a todos dentro do chalé. Por sorte ter um filho de Hermes por perto se revelou como sempre uma vantagem. Jake tirou um arame do bolso e começou a fuçar na fechadura.

– Filho do deus dos ladrões a seu dispor. – brincou ele.

Ri sarcasticamente.

– Sem chance, isso é a porta de um chalé dos deuses olimpianos, não uma porta qualquer. Além do mais, aí estão os semideuses mais inteligentes, você acha que eles não teriam pensado em uma solução para algo tão óbvio como...

Parei quando ouvi o click da porta se abrindo.

Jake olhou para mim.

– Você ia dizendo?

Fiz uma careta para ele.

– É por isso que é tão brilhante minha doçura, porque é pateticamente óbvio. – continuou ele.

Em alguns minutos nós quatro subíamos a colina em direção ao pinheiro que demarcava o limite do acampamento.

Annabeth ainda olhava intrigada para a lua, tentando enxergar o que eu havia lhe contado. Foi cansativo ter que repetir toda a história para ela, mas por fim quando terminei de contar já estávamos no topo da colina.

– Bom, então acho que é isso. Até logo. – falou Jake olhando para mim.

Suspirei. Havia brigado com ele por ter acordado Percy e Annabeth e fazê-los virem comigo, mas eu sabia que no fundo ele só queria me ver a salvo. Era uma maneira de tranqüilizar a si mesmo.

– Jake, seu grande bobão. – resmunguei.

Ele pegou minha mão.

– Apenas me prometa que vai se cuidar está bem?

Olhei para ele. Com o canto do olho vi Annabeth cutucar Percy nas costelas.

– Aí, por que você...?

Então seus olhos se encontraram e o tipo de entendimento ocorreu entre eles.

– Estaremos esperando lá embaixo. – anunciou Percy.

– Vem cabeça de alga. – falou Annabeth dando a mão para ele.

Juntos os dois desceram a colina.

Os olhos de Jake penetraram os meus.

– Eu estarei esperando. – sussurrou ele.

– Jake, você sabe que eu não posso prometer nada, eu...

Ele colocou um dedo sobre meus lábios me fazendo calar.

– Eu estarei esperando. – repetiu ele.

Sem parar para pensar inclinei-me para ele e lhe dei um demorado beijo.

– Adeus. – disse apenas ao me afastar.

– Adeus não. – corrigiu ele. – Até logo.

Sorri e desci a colina atrás de Percy e Annabeth.

– Aonde vamos agora? – perguntou Annabeth enquanto seguíamos pela estrada escura.

– Vamos procurar as Caçadoras. – respondi. – Minha mãe disse que elas não estavam longe. Preciso falar com Thalia.

– Perguntar se ela sabe por onde sua mãe começou a busca. – adivinhou Annabeth.

– Exatamente. – falei.

Achar as Caçadoras não foi uma tarefa difícil. Vagueamos por um tempo entre a floresta que crescia perto das fronteiras do acampamento até que visualizamos uma clareira repleta de tendas prateadas.

Percy adentrou a clareira na minha frente e imediatamente teve seu caminho bloqueado por um lobo cinzento do tamanho aproximado de um boi. O herói do Olimpo puxou a espada e o lobo rosnou, pronto para pular em cima dele. Coloquei uma mão no ombro de Percy e saia para a luz da clareira.

– Está tudo bem, ele está comigo. – falei me dirigindo ao lobo.

O animal olhou par Amim e imediatamente parou de rosnar. Sua postura, antes tensa, relaxou-se e ele fez uma pequena reverência.

Princesa Gabrielle. Ouvi a voz dele em minha cabeça.

Sorri.

Não tem que me chamar assim.

Aproximei-me dele e lhe acariciei atrás da orelha.

Estou procurando Thalia, ela está por aqui? Perguntei.

Sim, minha princesa. Respondeu o lobo.

Então ele jogou a cabeça para trás e uivou.

Ouvi o ar sendo cortado por uma flecha que ia em direção à Percy. Empurrei ele do caminho na hora em que a flecha passava onde segundos antes estivera a cabeça dele. Então ela desapareceu atrás de nós na escuridão da floresta.

– Por Zeus! O que foi aquilo? – perguntou Annabeth.

– Que os deuses abençoem seus super sentidos. – murmurou Percy para mim.

Olhei para o lobo a procura de respostas.

Desculpe. Disse ele. Uivo errado.

Então jogou a cabeça para o céu e uivou novamente, mas um pouco mais suavemente dessa vez.

– Você quer se decidir ou não?! – perguntou uma voz vinda de trás do lobo. – Eu já lhe expliquei mais de mil vezes. Uivo grosso: perigo. Uivo suave: barra lim...

Ela parou quando nos viu.

– Gabrielle, Percy e Annabeth!

– Thalia!

Corri para a Caçadora que se aproximava e a abracei. Ela não havia mudado nada, é claro, era imortal agora. Mas mesmo assim me senti estranha ao lembrar o quanto eu estava mais nova desde a última vez em que nós vimos.

Thalia abraçou Percy e Annabeth e então se dirigiu ao lobo.

– Obrigada Frost. Apenas tome cuidado com a diferença no tom de seus uivos daqui para frente. Percy não está a fim de perder a cabeça tão cedo.

Percy franziu o cenho enquanto o lobo se afastava com uma última reverência dirigida à mim e à Thalia.

– Você sabia que era eu?

– É óbvio que não bobão, mas atirei em você primeiro porque percebi que era um menino.

Eu e Annabeth rimos.

Olhei para Thalia.

– Nós precisamos conversar.

Ela parou de rir ao deparar nossas expressões, de repente sérias.

– Sobre a Senhora Ártemis? – perguntou ela.

Balancei a cabeça em confirmação.

– Me acompanhem. – pediu ela.

E juntos a seguimos para dentro de uma das cabanas.

Quando nós sentamos no chão, em cima de algumas almofadas, virei-me para Thalia e fui direto ao ponto. Não tínhamos tempo a perder.

– Thalia, precisamos saber para que lado Ártemis seguiu ao deixar o acampamento. Ela mencionou alguma coisa?

Thalia mordeu o lábio, preocupada com sua Senhora.

– Ela falou algo sobre o sul. Parecia que ela estava sentido algo estranho vindo daquela direção.

Refleti sobre aquilo. Havia uma longa floresta perto da clareira que seguia por vários quilômetros em direção ao sul. Calculei que Ártemis não deveria estar longe. Selene não esperaria muito tempo para tentar matá-la, o corpo de um mortal não poderia agüentar por muito tempo servindo de hospedeiro para a deusa.

Lembrava-me das histórias que circularam por vários anos no acampamento, da solução insana que Luke, um dos filhos de Hermes, havia tomado de mergulhar no Estige para tornar seu corpo mais forte e conseguir servir de hospedeiro para Cronos.

Não, aquela pobre menina não aguentaria por muito tempo. Selene agiria sem demora, eu precisava me apressar.

Levantei-me.

– Obrigada Thalia.

Virei-me para Percy e Annabeth.

– Precisamos ir.

Thalia também se levantou e segurou meu braço para me fazer olhar em seus olhos.

– Você teve algum sonho em relação à Senhora Ártemis? – perguntou.

Percy e Annabeth me olharam, esperando a resposta. Era difícil sustentar o olhar elétrico de Thalia sobre mim, mas eu não podia contar a eles, não queria assustá-los mais.

– Não. – menti. – Só estou indo atrás dela, porque quero ajudá-la.

Thalia pareceu tranqüilizar-se e soltou meu braço. Senti-me mal por mentir para ela.

– Você não deveria se preocupar. Se há alguém nesse mundo que pode cuidar de si mesmo, esse alguém e a Senhora Ártemis.

Tentei esboçar um sorriso, mas acho que não tive sucesso. Virei-me e me dirigi à porta da tenda. Os outros três me seguiram.

– Eu gostaria de ir com vocês, mas como comandante não posso deixar as Caçadoras sozinhas.

Ela parecia realmente triste por não ir. Sorri para ela, minha mãe não poderia ter escolhido alguém melhor para deixar na liderança.

– Eu entendo Thalia. Obrigada por nos ajudar. – agradeci.

– Sabem que podem contar comigo. – disse ela.

Nos demos um abraço de despedida e juntos, eu, Percy e Annabeth seguimos para dentro da floresta em direção ao sul.