A Sede Arde, o Gole Queima
1 Prove
Notas iniciais
“– Você é o homem com o qual eu quero me casar.
– O quê? — pego de surpresa, ele só franziu o rosto, confuso, e ainda enojado – Que diabos está dizendo?
– Você será o meu marido, Rodolphos. Quando eu voltar.
– Você é louca.
– Você vai esperar por mim. Mesmo que eu demore.
Ele continuava negando com a cabeça. Bella tirou seu anel de noivado do dedo e entregou a ele.
– Guarde com você, um dia eu voltarei a usá-lo. Rodolphos, não se esqueça. Nós temos um contrato.”
(Dossiê Bellatrix, cap. 7)
1981.
Rodolphos Lestrange deitou seus olhos sobre os quatorze copos hexagonais dispostos ao longo da mesa de olmo, incapaz de reprimir o sorriso de antecipação que se alastrava no rosto astuto.
Oh, era bom sentir aquele frêmito de excitação, aquela onda de energia impulsiva, um sussurro quente em sua nuca predizendo êxito. Com o que talvez fosse vista como incomum animação para a situação, ele se aproximou da mesa, segurando uma garrafa empoeirada na mão esquerda. No rótulo afixado à esta lia-se Blackburn Firewhisky, e logo abaixo o seu slogan, a sede arde, o gole queima. Quando perto o bastante, desarrolhou-a e estendeu para a frente, como se estivesse brindando à um ausente.
– Com a sua bênção, vô Igrantes – saudou para o nada, depois trouxe a garrafa aos lábios e deu um gole parcimonioso. O sabor explodiu em sua língua, uma salamandra quente e viva, o álcool ardeu e abriu suas papilas, e quando engoliu, a sensação foi a de ter a chama de uma tocha descendo pela sua faringe. No final, sentiu a cabeça leve e o interior da boca agradavelmente dormente e picante.
Se houvesse algo como beber uma porção do inferno, assim se pareceria. Mas no bom sentido – no melhor sentido possível. No entanto, sua missão era mais do que degustar a melhor bebida bruxa jamais inventada – ele precisava decidir se uma daquelas amostras minimamente se aproximava da iguaria que acabara de provar, principalmente porque o seu futuro, literalmente, dependia disso.
– BD –
– MALDIÇÃO! – Rodolphos praguejou para ninguém em especial, preenchido de raiva, após cada um dos quatorze copos drenar o seu ânimo e positividade, gole após gole. Os primeiros tinham sido depositados à mesa com alguma esperança, mas pelo menos os últimos três jaziam em cacos nas bordas da parede, onde os lançara em fúria.
Nenhuma das desventuradas quatorze tentativas tinham sequer se aproximado da receita original do seu bisavô, Igrantes Lestrange. Cada uma era apenas doce demais, ou seca demais, ou rala demais, ou fria… e a cada copo derrotado, a possibilidade de ter insistido em um erro pelo último ano da sua vida lhe assaltava com maior força.
Não… não pode ser impossível replicar a receita. Rabastan é um idiota, e só está querendo me desestabilizar, foi o que disse firmemente para si mesmo. Arrastando a garrafa original agora pela metade – precisara intercalar um gole do uísque de fogo original a cada uma das suas réplicas, para fazer a comparação – ele cambaleou até uma poltrona puída, e afundou o rosto nas mãos.
Era um idiota. Gastara dois terços da sua herança em um palpite absurdo, em um devaneio adolescente inconsequente, e quando precisasse admitir-se fracassado diante da família, seria feito de piada.
Pobre Rodolphos, não somente abandonado pela noiva e largado às traças, mas falido aos vinte e quatro. Sua mãe, que já se aproveitava de todos os êxitos do seu irmão para apontar o quanto ele, em comparação, era uma decepção, agora teria seu derradeiro motivo para lhe etiquetar como a mácula da família.
O filho que desperdiçara a herança em uma casa em ruínas, uma receita fajuta e um sonho impossível. Não ia poder negar nenhuma daquelas palavras, quando fossem acusadas contra si.
Afogado em uma comiseração que era exponenciada por muitos litros de uísque de fogo em sua corrente sanguínea – nem toda parte dele de boa qualidade – Rodolphos sequer percebeu quando um feitiço entrou pela sua porta da frente. A serpente prateada ondulou pelo assoalho arranhado até debaixo da mesa, mas tudo que ele viu, a cabeça rodando, foi a sombra brilhante, que julgou vir dos cacos refletindo a luz.
Ora, ele poderia ter sido assassinado, se aquele fosse um feitiço hostil, e jamais saberia o que lhe atingiu. Ao invés disso, era a mensagem de uma velha amiga… quando a serpente sibilou com uma voz familiar, mas relegada ao passado, ele achou que estava delirando.
– Queira esperar a minha visita em breve – sibilou a escamosa.
Ele deu uma risada sombria, do canto profundo e enterrado do peito. Entre todas as vozes, é claro que alucinaria com a dela. Deixou os olhos fecharem pesados, e em sua perda de consciência, ainda teve tempo de decidir que aquilo tudo era, veja bem, bastante indignante.
– BD –
Acordou sóbrio e alerta. Por um momento, acreditou que sentira a Marca queimar, depois percebeu que não havia a sensação física de ardor, apenas a sua impressão associada: o alerta de perigo iminente. Não, o seu mestre – para o qual vinha prestando serviços muito mais burocráticos do que de campo – não estava lhe requisitando.
Quando se levantou, a cabeça rodou horrivelmente e a queimação comparada ao bafo de um dragão subiu pela sua garganta. Mais uma prova de que as malditas quatorze tentativas haviam sido falhas, já que o verdadeiro uísque de fogo Blackburn não causava ressaca. O mal humor lhe retornou com a lembrança do fracasso, e ele, ignorando tanto os copos inteiros quanto os quebrados no chão, pegou a varinha e farejou o ar.
Ainda havia a sensação de ameaça, vinda dos seus instintos, mas porque? Olhou ao redor, procurando algo fora do lugar… algo faltando? Sentia que sim, mas não podia definir o quê… para ser honesto, o velho casarão falhava em seus feitiços de proteção, desgastados ao longo dos anos de abandono, os quais ele ainda não se dera ao trabalho de reativar. Sequer tinha um elfo para vigiar a propriedade, pois estava economizando para comprá-los de uma vez, elfos treinados em produção industrial, capazes de plantio e colheita…
Um estalo o distraiu, vinha da cozinha. Ao contrário das casas bruxas tradicionais, a cozinha de Blackburn Hall não ficava no sótão, mas no térreo. Era ampla e arejada, cheia de janelas e balcões, e fora feita especialmente para a sua tataravó, que gostava de cozinhar, e depois adaptada para a produção experimental de destilados. Fora lá que o seu bisavô criara a sua receita, há cerca de oitenta anos, antes de começar a produzir em tamanha escala que tivera de transferir a fábrica para grandes balcões nos fundos da propriedade.
Silencioso como um caçador, ele se dirigiu para a cozinha, varinha em riste. Quem, em sã consciência, ousaria invadir a casa de um comensal da morte? Da forma como a sua cabeça doía, pensava em lançar uma maldição imperdoável no infeliz, apenas para fazê-lo sofrer pela impertinência, antes mesmo de descobrir seus motivos. A decisão de torturar primeiro, perguntar depois, durou apenas até o dono da mansão pousar os olhos em seu… não, em sua visitante inesperada.
Rodolphos Lestrange não era um homem afeito à metáforas de impacto, mas naquele momento, ele poderia jurar que seu coração parou.
E depois voltou a bater como se quisesse espancá-lo de dentro para fora, roubando todo o sangue do resto do seu corpo.
Alheia – ou talvez nem tanto – às manifestações fisiológicas que causara com a sua presença, a mulher levantou lentamente a cabeça, e ao fazer isso, o rio de seda negro que era seu cabelo despencou, uniforme e dramático, pelos seus ombros magros, revelando o seu rosto. Houve um sorriso em sua boca, era assim que se chamava, certo, quando os lábios faziam um arco? Mas era cruel, e era cínico, era tudo, menos o que um sorriso era suposto a ser.
– Rodolphos Lestrange – a voz dela um pouco mais rouca, um pouco mais sardônica mas fora isso, exatamente como se lembrava – eu preciso dizer… que péssimo arremedo de noivo você é.
Enquanto a voz que não pensara ouvir tão cedo – a não ser em suas alucinações induzidas pelo álcool – arrepiava cada pêlo do seu corpo, ele viu, nas mãos magras e ossudas dela, o que estava faltando: sua visitante pegara a garrafa do uísque de fogo original, provavelmente aos seus pés na sala, e estava bebendo do gargalo.
Só conseguia captar partes dela de cada vez, não o seu todo. Um vestido preto e pesado, com rendas nos ombros, e fechado até o pescoço. A palidez, excessiva palidez, fora tão branca antes? Os olhos, mais afiados, a boca, colorida em vermelho escuro, os traços… mais maduros. Se despedira de uma Bellatrix adolescente, mas olhava para uma mulher. Um dia houvera, se procurada com muita atenção, alguma vulnerabilidade por detrás da postura sempre arrogante de Bellatrix.
Não mais. Ela dominava o ambiente, roubava o ar inteiro.
– Mas que merda tinha naquelas amostras? – ele praguejou, esfregando os olhos com força. Era o delírio mais real da sua vida, parada na sua cozinha, roubando sua força só em existir.
– Eu não sei nas amostras, mas isso aqui na garrafa é um pedaço do maldito paraíso – comentou, o mesmo sorriso satânico no rosto, virando um novo gole. Observou como ela engolia fogo sem nenhuma careta, não era qualquer um que conseguia. Mas então, se tratava Bellatrix, a quem nunca vira torcer o rosto se o propósito não fosse deboche ou tédio.
A consciência de que a Bellatrix real estava parada em sua cozinha, dando fim à última garrafa de uísque de fogo Blackburn original que restara na face da terra, ia lhe atingindo aos poucos, como os efeitos de um derrame cerebral.
– Como você entrou na minha casa? – questionou, agressivamente, lembrando-se que antes de tudo, trata-se de uma invasão.
A mulher (a mulher, repetia-se em sua cabeça, sem parar, não a garota que o deixara) lhe lançou um olhar de desdém.
– Pela sua porta destrancada, eu suponho?
– Você desapareceu por quatro anos! Não lhe ocorreu mandar um bilhete por uma maldita coruja dizendo que estava viva, e que pretendia fazer uma visita?
Ela rolou os olhos debochadamente.
– Eu mandei o meu patrono, Rodolphos. Não é minha culpa que ele o encontrou semi-morto, bêbado como um cão, na sua sala de estar. Estava tentando se matar? E se sim, porque diabos precisa fazer isso sujando todo o jogo de copos?
– Eu não… – mas descobriu que não queria lhe explicar, e bufou – esqueça. O que diabos está fazendo aqui, Bellatrix? Não é um bom momento, em absoluto, então se há algum assunto urgente que queira tratar comigo, alguma missão a ser discutida, por favor faça isso rápido.
Essa era a sua hipótese, era a única razão pela qual poderia presumir que a comensal estivesse ali. Estava ignorando as palpitações, as mãos frias, as revoluções em seu estômago, tudo que a presença dela trouxera num turbilhão, e sendo racional: Bellatrix, ele soubera aqui e ali durante aqueles anos, se tornara o bicho de estimação de Lord Voldemort. Até onde ouvira, o homem a isolara num lugar obscuro, e a usava para seus serviços, fazendo-a a garota servir aos seus propósitos vis, sabe-se lá quais. Talvez ela fosse sua mensageira, agora. E se estava apenas de passagem, bom, isso certamente era um alívio…
Bellatrix negou, despreocupada. Quase alegre, se fosse capaz de um sentimento tão elevado.
– Eu não tenho uma mensagem, noivo. Na verdade, vim cobrar o nosso contrato.
– Contrato? – ele repetiu, a garganta seca. Odiava que ela ousasse se dirigir a ele como “noivo”, provavelmente só para torturá-lo, devia achar a menção àquilo divertido.
– Isso, homem. Conversamos a respeito, antes da minha viagem, não se lembra? Eu suponho que tenha conservado o anel?
– Anel? – repetiu, assombrando-se. Devia estar soando bem estúpido, mas não podia evitar. Todo aquele álcool, e uma dose tão inesperada de Bellatrix logo pela manhã… havia um limite do quanto um homem podia aguentar.
– Oh, não se faça de desentendido, isso é apenas irritante e não lhe cai bem. – Bella deu um suspiro pesado, inclinando a sua cabeça, o cabelo deslizando novamente, luzidio feito a asa de um corvo – Eu voltei para em definitivo, Rodolphos, é tão difícil compreender? Chegou a hora prevista, já podemos providenciar os papéis e dar início ao nosso matrimônio.
She
May be the face I can't forget
A trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay
She may be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things
Within the measure of a day¹
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