Notas iniciais
Obrigada pela fidelidade com a série, lindos de Indigna =) Eu sei que vocês amam nossa Diva das Trevas, então vamos parar de enrolação! Boa leitura!


– Então você está me pedindo em casamento.

Recuperara-se, ao menos parcialmente, do susto de encontrar Bellatrix Black em sua casa, após sua silenciosa ausência de anos. Conseguira arrancar a preciosa garrafa das mãos dela, e colocá-la fora do seu alcance, e agora mascarava a persistente sensação de incômodo em seu interior com uma dose de zombaria.

Bella lhe deu seu melhor olhar peremptório.

– Não seja ridículo.

– Você está sim, senhorita. – repetiu, abrindo um bom e debochado sorriso para ela, porque ela merecia. – Eu não sei se posso aceitar, quero dizer, praticamente me abandonou no altar. Se deitou com outro homem quando já estava prometida a mim. Partiu meu coração em cinquenta pedaços, Bella.

Estavam no solar do quarto andar, onde havia uma vista exuberante da planície de Lancaster, local em que a propriedade se encontrava. Era seca e queimada sob o frio, apenas à espera do primeiro derramar da neve para matar o último resquício de grama, e talvez desolador fosse um adjetivo que se encaixasse bem, mas Rodolphos preferia “próspero”.

A mulher ao seu lado olhava a paisagem, não se deixando atingir pela zombaria dele. Não podia evitar olhá-la, de novo e de novo, deixar seus olhos comprovarem que era real.

Era uma visão, sentada ali muito majestosa, não parecendo – ao contrário do que ele imaginara – maltratada. Se muito, aparentava ter sido privada do sol. Teria Voldemort a encarcerado num porão, mas lhe enchido de regalias, em troca de seus serviços? E quais serviços? De comensal? De consorte?

– Pela graça de Agrippa, homem, pergunte de uma vez. – ela praguejou com impaciência. Percebera a sua inquietação, é claro. Desde adolescente o lia com facilidade espantosa, porque seria diferente agora?

– Por onde… por onde esteve?

Já tinha a resposta ensaiada, notou, pelo jeito com que ela inclinou a cabeça levemente, se adiantando à pergunta.

– Não posso lhe informar a localização exata, mas estive à serviço exclusivo do Lord.

– Esse tempo todo?

Bella lhe deu um olhar de soslaio.

– Não foi tanto tempo assim…

– Quatro anos, Bellatrix. Cheguei a acreditar que nunca voltaria. Cheguei a acreditar que estivesse morta.

– O tempo deve ter passado diferente para nós, então. A mim, me parece que foram apenas meses… deve ter haver com o prazer das minhas designações.

A palavra escolhida, prazer, e o modo com que a dissera, ambos provocaram nele uma ferroada amarga. Viu-se irritado com a sua falta de clareza proposital.

– Ora, porque não diz de uma vez que ele a fez de escrava para os seus propósitos carnais? Confesse, Bellatrix. Não há porque se envergonhar, afinal era você mesma a dizer que faria tudo pelo seu Lord…

A mulher lhe deu um olhar cômico, quase divertido.

– Eu jamais me envergonharia em admitir, se fosse o caso, mas como disse, as minhas designações são secretas e não lhe dizem respeito.

– Não me dizem respeito uma ova! – exasperou-se – se for se casar comigo, tudo ao seu respeito passará a me dizer respeito!

Ao contrário do verdadeiro intuito de Rodolphos, a sua reação só a levou a ampliar o seu divertimento.

– Então aceita o casamento?

– Não foi o que eu disse! – bufou. – não distorça as minhas palavras, Bellatrix!

Ela apertou os seus lábios por um momento, como se decidindo segurar ou não um comentário venenoso, mas escolheu assentir, e levantar-se, dando o assunto por encerrado.

– Está bem, vou lhe dar um tempo para digerir a informação. Me procure quando decidir.

Espanou alguma poeira imaginária da saia do vestido que, ele reparou, era de um modelo antiquado, um corte muito bem feito, adaptado aos contornos dela com precisão. Fora feito sob medida? Fora um presente do Lord Voldemort? Algo rugiu dentro dele, algo que nem sabia que existia em relação àquela mulher.

– Onde pensa que vai? – lhe perguntou rispidamente, vendo que pretendia partir.

– Deixar a sua casa. Se bem me lembro, mencionou que não está num bom momento para visitas. – ela olhou ao redor, para o solar dilapidado e mal conservado – eu tendo a concordar com essa opinião.

– Mas onde vai ficar? Na casa dos seus tios?

Ela fez um ruído sardônico e incrédulo.

– Não acho que serei mais bem vinda lá do que fui aqui, se a sua recepção serve-me como amostra. Se bem me lembro, há um ou outro hotel bruxo de qualidade no centro de Londres, em que eu me acomodaria com algum conforto.

Com o cenho franzido, ele observou ela conjurar e vestir a capa de viagem. Ia ter a audácia de desaparatar do seu solar, aquela insolente?

– Bellatrix.

– Pois não, Rodolphos? – respondeu, polidez amaciada com ironia.

– Fique.

– Perdão?

– Fique em Blackburn Hall. Estou sozinho no momento, e seria um despropósito deixá-la procurar algum hotel quando há dezenas de quartos perfeitamente bons aqui mesmo que poderiam ser arranjados para lhe acomodar por alguns dias.

Bella abaixou os braços, que se preparavam para a aparatação, as suas sobrancelhas erguidas. Era um daqueles momentos raros, muito raros, em que a jovem comensal da morte era pega de surpresa.


– BD –


– Perfeitamente bons, você disse. – criticou Bellatrix, parada no centro do quarto, parecendo-se muito com a sua tia Walburga enquanto avaliava o cômodo que o seu anfitrião lhe oferecia.

– Certo, então digamos que hajam algumas teias de aranha…

– Algumas teias de aranha era o que havia aqui uns dez anos atrás. Aquilo é uma sociedade suspensa de aracnídeos, Lestrange! O que diabos os seus elfos fazem nessa casa, além de ignorar os copos que você quebra e não trancarem a porta de entrada?

Ele deu um suspiro pesado. Sabia que chegariam àquele ponto em algum momento, e imaginou que não se importaria, mas se importava. Era a parte visível do seu atual fracasso, afinal de contas, e ela fazia questão de esfregar na sua cara.

– Não tenho elfos… no momento. – acrescentou, baixo. Bella demorou alguns segundos olhando-o com seus olhos estreitos, talvez finalmente parando de pensar egocentricamente por um momento e fazer a análise dos fatos. Ela chegou a alguma conclusão, e pelo jeito que suas narinas inflaram, foi a pior possível.

– Você está pobre, Lestrange?

– Não! Não. – exclamou, seus dentes rangendo. Diante da expressão desconfiada dela, fechou seus olhos por um momento e suspirou. – São só alguns investimentos que estou fazendo. Priorizando outras coisas.

– Investimentos? Desde quando você faz alguma coisa que não seja gastar a sua mesada gorda enchendo a cara de bebidas absurdamente caras, eventualmente fazer algum serviço relativamente útil para o Lord, e depois voltar e gastar ainda mais dinheiro com bebidas? A não ser que… – os olhos dela cresceram, enquanto alcançava a conclusão obvia. – oh, não me diga que acabou-se a mesada?

– Sim. – ele admitiu, quietamente, esperando ela ligar o resto dos pontos.

– É mesmo? E eu sei que os Lestrange não faliram, eu obviamente chequei isso antes de lhe procurar. Nesse caso a outra opção é que tenha recebido a sua herança, certo? – quando enfim percebeu o que o fato significava, seus olhar perspicaz foi substituído por outro, mais humano, só por um segundo. – Oh, seu pai. Meu pêsames. Há quanto tempo?

– Quase um ano agora. – suspirou, amargo.

– Então você está ainda mais rico do que sempre foi, dividiu a herança com o seu irmão, correto? E se eu conheço bem Rabastan, ele ficou com o caminho mais fácil, seguindo de onde seu pai parou?

– É claro. – murmurou em concordância. Rabastan estivera mais do que ávido em prosseguir administrando as aplicações da família, ao que Rodolphos não fizera objeção, pois não tinha o menor interesse no ramo financeiro.

Bella inclinou sua cabeça, pensativa.

– Isso não explica porque está enfiado num casarão velho, sem elfos e enchendo a cara de uísque como um porco obeso.

– Não é o que eu estou fazendo – resmungou, irritado com o tom de crítica gratuito dela. Rolou seus olhos, resignando-se – Eu apostei grande parte do meu dinheiro num novo ramo, bem, não é novo, mas precisa ser renovado… você se lembra do meu bisavô, certo? – Bella assentiu, e ele continuou – ele me deixou uma herança antes de morrer, mas só pude ter acesso a ela após os meus vinte e um anos. Aparentemente, esperava que eu tivesse certa maturidade antes de recebê-la.

– E o que era? – adiantou-se. Como a bruxa nunca fora especialmente curiosa, o interesse o deixou tanto encorajado como apreensivo. Afinal, a resposta não era assim tão boa. O bisavô não o deixara alguma joia mágica rara, algum feitiço familiar, ou sua fortuna em galeões num cofre do banco.

– Uma receita. – admitiu, simplesmente.

– Uma receita? – repetiu, descrente.

– Sim… do uísque que você estava intrometidamente bebendo mais cedo. Aquela é a última garrafa de que se tem notícia, e eu apostei dois terços da herança do meu pai na possibilidade de recriá-la e voltar a produzir. O que você viu, os copos sobre a mesa, eram o resultado das tentativas de recriar a receita… eu sei, é terrivelmente estúpido.

Ele parou de falar, esperando a retaliação. Quando contara à sua mãe, recebera um olhar misto de pena e sofrimento, e ela se recusara a discutir o assunto, convencida de que a perda do pai o afetara em algum nível tão profundo que prejudicara o seu discernimento.

Rabastan, por sua vez, não se poupara em passar horas discutindo o assunto – e fazendo questão de lhe dizer o quanto era irresponsável por trocar a estabilidade das ações financeiras por um palpite errante de negócio, por seguir os passos de um eterno embriagado fora da linha, que fora Igrantes Lestrange.

Esperava algo desse nível vindo de Bella. Ou então seu repúdio por ter gasto a herança em uma receita de bebida. Não esperava que os seus olhos brilhassem. Já tinha visto os olhos dela brilharem outra vez em sua vida inteira?

– O seu bisavô foi o criador do uísque de fogo Blackburn?

Assentiu. Ela arfou. Literalmente arfou.

– Isso é genial, Rodolphos. Genial. É a melhor bebida bruxa de que se tem notícias. É incomparavelmente melhor que aquele arremedo de uísque Ogden, e será o único concorrente… se conseguir replicar a formula, você vai recuperar todo o seu gasto num piscar de olhos, vai quadruplicar sua fortuna menos de um ano, com absoluta certeza.

As palavras dela, inesperadamente sinceras e positivas, o aqueceram por dentro, como já não se lembrava que podia ser aquecido. Era uma injeção de animo vinda do lugar mais improvável, no entanto…

Ele balançou sua cabeça, desesperançosamente.

– Não pude replicá-la. Nenhuma das quatorze amostras sequer se aproximaram do original. Foi um fracasso completo.

Bella ergueu muito suas sobrancelhas finas e arqueadas, sem acreditar no que estava ouvindo.

– E então o que, vai desistir depois de falhar na primeira tentativa?

– Bella, eu gastei dois terços da minha herança, não ouviu? Isso é muito dinheiro. Uma nova tentativa me levaria a falência…

– Se você fosse malsucedido. Não é o que vai acontecer, meu caro.

– E o que lhe faz dizer isso com tanta certeza? Eu não estou nem um pouco mais perto de saber o que deu errado. Não tenho nenhuma nova estratégia, nada mudou.

Bellatrix negou, rolando seus grandes olhos negros para ele, com impaciência, mas também resolução e aquela fagulha de positividade que jamais esperou vir daquela mulher.

– É claro que algo mudou, idiota. Agora eu estou aqui. Tudo será diferente.

– BD –

Entregou para ela seu próprio quarto. Pareceu a decisão acertada, afinal de contas, não poderia se esquecer de quem era – a herdeira Black estava em sua casa, e merecia o melhor tipo de tratamento, ou assim a sua educação o ensinara. Não que o seu quarto fosse alguma suite real, mas pelo menos estava livre de aranhas, tinha uma ampla cama e a única lareira que realmente funcionava.

Naquela noite, a primeira neve caiu. A mansão inteira foi tomada de correntes de ar inesperadas e tornou-se gelada em cada uma de suas superfícies, tornando a atividade de se mover através dela uma sucessão de sustos de contato. A cozinha era impraticável, e a sala de estar precisou de um fogo fátuo encantado muito forte, tanto que ameaçava incendiar o tapete puído e talvez consumir a casa abaixo.

– Onde vai dormir? – ela lhe perguntou quando veio até o quarto, garantir que a lareira estava bem acesa e duraria a noite inteira. Bella transfigurara para si, a partir de um lençol salvo das traças, um realmente bonito penhoar que ondulava sobre as formas de seu corpo. Esquecera-se como era exímia em transfiguração, aquela garota. Aquela mulher, corrigiu-se. Aquela mulher cheia de curvas, prestes a pernoitar na sua cama. Sozinha.

– Não se preocupe com isso. – disse, de modo um pouco brusco.

– Está rabugento porque peguei o seu quarto?

– Não estou rabugento. – rebateu, rápido demais para ser levado a sério.

– Nesse caso, boa noite.

Ela se acomodou entre os lençóis, e porque era tudo que se atrevia a fazer, Rodolphos olhou para ela. Um dia pensara nela como a sua Bellatrix, quando estivera tão ao seu alcance – ou assim pensara – noiva, e com a data do casamento marcada. Então ela se fora, e a muito custo, tirara a bruxa da sua cabeça, a relegara para o fundo da sua mente, junto com o resto das mágoas e frustrações da vida, aquele lugar em que a bebida anestesiava primeiro.

E agora estava de volta, mas não a mesma. Havia algo sobre aquela nova Bellatrix… um mistério em torno do que se tornara, tão altiva, tão dona de si, apesar de ter apenas vinte e um anos. Agora que a via assim, não podia cogitar se casar com a sua versão mais nova, de dezessete. Só a conhecia há algumas horas, a Bellatrix mulher, mas já a preferia entre todas as suas versões anteriores.

E agora estava em sua casa, e cama, e lhe cobrando o casamento. Como quem cobra um negócio.


Rodolphos descobriu que não queria fazer negócios com ela. Deitada ali entre os seus lençóis, era como se implorasse outro nível de relação, que não tinha haver com contratos, em absoluto.

– No que está pensando, noivo? – ela perguntou numa voz doce em falsete, ao ver que era enigmaticamente observada.

– Nada demais. – mentiu. – Durma bem, Bella.

– Vou tentar.

– Há algo lhe faltando para uma boa noite de sono? – adejou, paciente.

Ela lhe deu um olhar languido, quase desinteressado.

– Todo esse tempo… acabei ficando desacostumada a dormir sozinha.

She

May be the mirror of my dreams

A smile reflected in a stream

She may not be what she may seem

Inside her shell²

Notas finais
²"Ela/ Talvez o espelho dos meus sonhos/ Um sorriso refletido numa corrente/ Ela pode não ser o que parece/ Dentro da sua concha" Só para alinhar as nossas expectativas aqui: essa é uma long fic que não é exatamente "long" (para os meus padrões, pelo menos). Serão cinco capítulos de cerca de 2.000 palavras. Só nossos dois lindos e nada mais :) Comentem-me!