Cinco anos depois:

_ Você se lembra do caminho? — Era a segunda vez que mamãe repetia as instruções para chegar à casa da tia Mikoto.

Mas não havia como esquecer.

Ir até a tia era simples: bastava sair de casa, atravessar o distrito Uchiha e seguir em frente até o fim.

E se me perdesse, bastaria perguntar a qualquer um onde ficava a casa do ramo principal.

Todo mundo saberia.

Afinal, quem não conhece a tia Mikoto? E, sendo sincera, ninguém resistia quando eu fazia cara de anjo, então todos poderiam me ajudar com a direção correta.

Mas por ser assim, sempre rendia mais tempo para brincar com o Ita.

_ Escutou? — Mamãe perguntou, mas só acenei, sem ter ideia do que estava falando.

Antes que pudesse insistir, começou a tossir.

A tosse me deixou alerta.

_ Vem aqui, okaasan. — A segurei pela mão e a guiei até a cadeira mais próxima, ajudando-a a se sentar. _ A senhora precisa tomar os remédios.

_ Você é tão cuidadosa... — Tossiu de novo. _ Devia ser uma ninja médica quando crescer, me trata tão bem que até fico sem graça. — Sorriu, mas havia algo estranho no sorriso dela.

Ele não alcançou os olhos, e isso me preocupava.

Ela não tinha muito tempo comigo, e todos sabiam disso.

Porém, mesmo que os dias fossem poucos, mamãe fazia questão de torná-los especiais, do jeito dela.

A ideia de ficar apenas eu e papai depois que ela se fosse era uma sombra que pairava sobre mim.

Papai provavelmente se enterraria ainda mais no trabalho, só voltando para casa para cuidar de mim ou descansar.

Era isso que eu via no futuro, mas também sabia que o futuro podia ser moldado pelas escolhas que fazíamos.

Respirei fundo e fui até a cozinha pegar os medicamentos. As duas cartelas estavam no balcão.

Voltei com elas e as entreguei.

Mamãe leu as embalagens com atenção, como fazia sempre, e tomou os comprimidos com um gole de água da garrafinha ao lado.

_ Pronto, agora você pode ir.

_ Posso ficar, se a senhora quiser.

_ Não, não. — Balançou a cabeça, contrariando-me com firmeza. _ Ontem você já desmarcou com o Itachi, e sei que ele ficou triste por vocês não terem brincado.

_ Mas...

_ Estou bem. Pode ir brincar e relaxar. — Bagunçou meus cabelos negros com um gesto carinhoso, arrancando de mim um pequeno sorriso. _ A mamãe ama você.

_ Também amo você, okaasan. — Beijei seu rosto, vendo suas bochechas corarem, e me afastei. _ Até mais.

_ Até. — Respondeu, a voz alcançando meus ouvidos enquanto eu fechava a porta.

Corri pelas ruas do distrito Uchiha, sentindo a familiaridade dos olhares dos moradores.

Alguns acenavam, outros sorriam ou apenas me observavam passar.

Sempre foi assim: eles conheciam minha família, sabiam quem eu era.

E, de certa forma, isso fazia eu me sentir segura, como se todos eles estivessem lá para me proteger.

As casas de madeira bem cuidadas se alinhavam lado a lado, e a bandeira com o emblema Uchiha tremulava na entrada de algumas delas.

O som do vento sussurrava entre as árvores, carregando consigo o cheiro das flores do pequeno jardim que a senhora Ayame cuidava todos os dias.

_ Ei! — Gritou um alguém.

_ Não vá tão rápido! — Um dos garotos brincando com uma bola gritou enquanto quase esbarrei nele, mas só levantei a mão, acenando de longe.

Logo avistei a casa da tia Mikoto.

Era impossível não a reconhecer: grande, com detalhes delicados no telhado e um pequeno jardim na entrada.

Sempre imaginei que a tia tivesse um talento especial para deixar tudo tão bonito e acolhedor, e acho que realmente tinha.

Subo os degraus rapidamente e bato à porta com entusiasmo.

Antes que pudesse bater novamente, a porta se abriu, revelando um rosto conhecido.

Uchiha Itachi, com apenas cinco anos, já tinha uma presença que chamava atenção.

Seus traços delicados e o olhar profundo carregavam uma maturidade incomum para alguém tão jovem.

Seu rosto era fino e harmonioso, com a pele clara contrastando com seus cabelos negros e brilhantes, que caíam levemente sobre a testa.

Ele os mantinha medianos, bem cuidados, e sempre aparentava estar impecável, mesmo depois de brincar ou treinar.

Os olhos, de um negro intenso, tinham um brilho reflexivo, como se ele enxergasse muito mais do que a superfície das coisas.

Havia neles uma calma, quase melancólica, que não parecia pertencer a uma criança.

_ Você está atrasada. — Itachi apareceu na soleira, cruzando os braços, mas havia um sorriso discreto em seus lábios.

_ Não estou! Você que está cedo demais! — Retruquei, colocando as mãos na cintura.

_ Hum, claro. — Não acreditou, e logo me puxou pelo braço. _ Entra logo.

Passei por ele e tirei os sapatos na entrada, como de costume.

O cheiro da comida da tia Mikoto invadia o ambiente, e meu estômago roncou baixinho.

_ Já está com fome? — Parecia divertido, enquanto me guiava para a sala.

_Talvez um pouco... Cadê a tia Mikoto?

_ Na cozinha, como sempre.

Entrei na sala espaçosa, decorada com simplicidade, mas cheia de personalidade.

Fotografias da família estavam organizadas em uma prateleira próxima à janela, e os tons suaves das almofadas e cortinas deixavam o lugar com um ar tranquilo.

A tia Mikoto logo apareceu, limpando as mãos em um pano de prato.

Seu sorriso caloroso iluminou o ambiente.

_ Ah, você chegou! — Sorriu igual um anjo. _ Estava esperando por você. — Aproximou-se, abaixando-se para me abraçar.

_ Oi, obasan! — Enlacei seus ombros, sentindo o conforto do abraço dela.

_ Espero que sua mãe esteja bem. — Beijou meu rosto. _ Como ela estava antes de você sair?

Hesitei por um momento, mas mantive o sorriso.

_ Ela estava bem.

A tia Mikoto olhou para mim com gentileza, como se entendesse mais do que eu tinha dito, mas apenas assentiu.

_ Certo, então vou deixar vocês brincarem enquanto termino o almoço.

_ Obrigada, obasan! — Corri atrás do Itachi, que já estava subindo as escadas, provavelmente indo para o quarto.

Subo atrás dele, sentindo uma mistura de alívio e alegria por estar ali.

Naquele momento, sabia que, pelo menos por algumas horas, poderia esquecer minhas preocupações e apenas aproveitar o tempo com meu amigo.

E era isso que eu mais precisava.

Sigo Itachi até o quarto dele, que era incrivelmente organizado, como sempre.

Era um contraste absoluto com o meu, onde tudo parecia ter vida própria e se espalhava pelo chão.

Ele se sentou no tatame próximo à janela e abriu um pergaminho que já estava à sua espera.

_ Não vamos brincar? — Perguntei, confusa.

Itachi ergueu os olhos do pergaminho e deu um sorriso discreto.

_ Não hoje. — Mostrou o pergaminho. _ Tenho que estudar.

_ Estudar? — Minha voz saiu com um tom de desapontamento.

Mas me sentei ao lado dele, cruzando os braços.

_ Estudar o quê?

_ Sobre o Sharingan.

A menção ao nome fez meu interesse crescer.

Inclinei-me para olhar o pergaminho, onde havia diagramas detalhados e anotações em caligrafia firme e precisa.

_ O Shisui também vai estudar com a gente? — O vejo franzir o cenho e me olhar.

_ Gosta dele? Ele é mais velho que...

_ Eca, gostar de menino. — Finjo vomitar. _ Só perguntei porque vocês dois sempre estão juntos.

_ Ah. — Suas orelhas estavam vermelhas. _ Ele não pode comparecer hoje, ele tem que ficar em casa, mas não sei o motivo.

Era mais divertido quando o Shisui estava por perto, mas estava tudo bem ser apenas nós dois.

Porém, Shisui sabia como transformar qualquer coisa em brincadeira, mesmo algo tão sério quanto o Sharingan.

_ Então o senhor será meu professor por algumas horas, senhor Itachi.

_ Tem certeza? — Parecia desconfiar. _ Não vai reclamar depois que ficar complicado? — Arqueou uma sobrancelha, parecendo levemente divertido.

_ Não vou reclamar! — Por que reclamaria? _ Sou muito inteligente, sabia?

Itachi deu de ombros e virou o pergaminho para que eu pudesse enxergar melhor.

_ Certo. Primeiro, você sabe o que é o Sharingan?

_ Claro! — Respondi, animada. _ É o dojutsu do clã Uchiha!

_ Sim, e é uma habilidade ocular especial que desperta em momentos de grande emoção ou necessidade. — Ficou sério enquanto explicava, me fazendo entender tudo que falava. _ Ele dá ao portador habilidades incríveis.

_ Que tipo de habilidades?

_ Primeiro, o Sharingan básico permite prever movimentos, como se o mundo ficasse mais lento para quem o usa, e permite copiar Justus e até ler os movimentos do inimigo.

Apontou para um desenho no pergaminho que mostrava o Sharingan com uma, duas e três tomoe.

_ Cada estágio tem um número de tomoe. — Explicou. _ Um tomoe é o estágio inicial, ele melhora a percepção, mas ainda é limitado.

_ E o de três tomoe?

_ É o estágio mais avançado do Sharingan básico. Com ele, você pode prever movimentos com muito mais precisão e até entrar na mente de outra pessoa se usá-lo em genjutsus.

Fiquei impressionada.

_ Mas tem mais, não tem? O Sharingan não é só isso!

Itachi assentiu, virando a página do pergaminho.

_ Certo, o próximo nível é o Mangekyou Sharingan.

Apontou para um desenho diferente, mostrando olhos com padrões únicos.

_ O Mangekyou desperta apenas em circunstâncias extremas, como a perda de alguém muito querido. Ele concede habilidades ainda mais poderosas, mas tem um preço: o uso excessivo pode causar cegueira.

_ Nossa... — Arregalei os olhos. _ E que tipo de habilidades ele dá?

_ Depende da pessoa. Cada Mangekyou é único. — Esperei que continuasse. _ Alguns usuários podem criar genjutsus quase inquebráveis, enquanto outros ganham acesso a técnicas como o Amaterasu, que é um fogo negro que nunca apaga, ou o Susanoo, uma armadura gigante que protege o usuário.

_ Uau! — Não consegui conter minha empolgação. _ E tem mais algum?

_ Sim, o estágio mais avançado é o Eternal Mangekyou Sharingan.

_ Eternal? — Inclinei a cabeça.

_ Isso mesmo. Ele só pode ser alcançado ao transplantar o Mangekyou de outro parente Uchiha, e com isso, o usuário recupera a visão e ganha ainda mais poder.

Estava fascinada.

Nunca imaginei que o Sharingan fosse tão complexo, mas tão destrutivo ao usuário.

_ Então, você vai despertar o Mangekyou?

Itachi desviou o olhar, o semblante ficando mais sério.

_ Espero que não...

_ Por quê? — Já sabia o motivo, mas queria ouvi-lo dizer.

_ Porque as circunstâncias para despertá-lo são dolorosas. — Suspirou. _ Prefiro proteger quem amo do que ter mais poder.

Houve um silêncio breve, e sabia que toquei em algo delicado.

_ Bom, então espero que você nunca precise. — Sorri, tentando mudar o tom.

_ E você? Está interessada em despertar o seu? — Havia um brilho estranho em seu olhar.

_ Não sei... Talvez. Mas só se puder usar para proteger quem amo. — Meu sorriso cresceu.

_ Quem você ama?

_ Você, mamãe, papai e os tios.

Itachi me observou por um instante, depois deu um leve sorriso.

_ Essa é uma boa razão.

E assim, continuamos estudando, mergulhados na história e nos segredos do clã Uchiha.

Mesmo sem brincadeiras naquele dia, algo me dizia que aquelas lições ficariam comigo para sempre.