Os raios de sol que invadiam a cozinha de mamãe me fascinavam.

Era um calor suave, quase aconchegante, diferente da brisa fria que muitas vezes passava pelas ruas do distrito Uchiha.

A cozinha era simples, mas carregava uma aura acolhedora.

As paredes brancas tinham detalhes pintados à mão: pequenas maçãs vermelhas espalhadas como se quisessem dar um toque alegre ao ambiente.

Era um espaço de harmonia, que contrastava com os pensamentos tumultuados que preenchiam minha mente.

Não sou desse mundo e só descobri isso a poucas horas, com toda a minha vida naquele lugar se passando em um sonho.

E eu sabia demais.

Muito mais do que uma criança de cinco anos deveria saber.

A visão do futuro que me fora imposta me fazia carregar um fardo invisível, mas suportável.

Pensei que essas visões eram um dom que Kamisama me enviou, mas era só uma dica do meu despertar nessa Terra.

Pensei deixar claro para meus irmãos que não queria saber só futuro ou muito menos do meu passado, mas vejo que não fui ouvida mais uma vez.

Agora sabia sobre o massacre que aconteceria em alguns anos, sabia sobre os motivos, sabia sobre o assassino: Uchiha Itachi, meu amigo e amor...

Papai estava ocupado preparando o almoço, cantarolando baixinho enquanto mexia em uma panela.

mamãe, sentada à mesa, lia calmamente o jornal, imerso em outra realidade.

Mas eu... Eu não estava realmente ali.

Minha mente viajava entre o presente e o futuro, tentando encontrar uma resposta para perguntas que me assombravam: Deveria mudar o destino? Ou aceitar o fluxo cruel do tempo?

_ Sukui, hoje você não vai encontrar o Itachi? — A voz de mamãe me arrancou dos devaneios.

_ Hoje não, ele provavelmente está estudando e não quero atrapalhar. — Acenou. _ Mas estou pensando em passear por aí.

_ Fazer uma caminhada é muito bom. — Sorri para ela, tentando disfarçar o turbilhão dentro de mim.

_Mas também posso ficar em casa, com vocês.

Mamãe abaixou o jornal, rindo levemente da minha resposta e o papai apenas balançou a cabeça.

_ Você gosta mesmo de aproveitar os dias em que estou aqui, não é? — Ele bagunçou meus cabelos, e ri, afastando sua mão.

Mamãe olhou para nós com um sorriso caloroso, mas logo seu semblante mudou.

_ Sukui... — Parecia alarmada. _ Está sentindo alguma coisa nos olhos? — A pergunta veio com um tom de preocupação repentino.

Olhei para ela, confusa.

_ Não, por quê?

_ Seus olhos... — Murmurou papai, levantando-se abruptamente.

Ele me analisava com atenção, e de repente, senti um frio na espinha. Corri até o espelho na sala, o coração acelerado.

E lá estavam eles.

Meus olhos, antes comuns, agora eram rubros como sangue, com três tomoe girando em sincronia perfeita.

O Sharingan havia despertado.

Por um instante, fiquei imóvel, encarando meu reflexo. Era um misto de medo e incredulidade.

Não sentia ódio ou dor.

Nada que justificasse aquele despertar precoce. Por que isso estava acontecendo comigo?

Papai se aproximou, colocando uma mão firme sobre meu ombro.

_ Sukui, tente desativá-lo. Respire fundo e concentre-se.

Segui suas instruções, mas o medo me impedia de controlar a habilidade recém-despertada.

Mamãe ajoelhou-se ao meu lado, envolvendo-me em um abraço apertado.

Aquele gesto de amor foi suficiente para acalmar minha mente.

Fechei os olhos, respirando fundo, e quando os abri novamente, o Sharingan havia desaparecido.

Papai acariciou meu ombro, interrompendo o silêncio pesado que havia se formado.

_ Sukui, sei que é muita coisa para você agora, mas confie em nós. Vamos protegê-la de tudo.

Acenei, forçando um sorriso, mas sabia que precisava de um momento longe dali.

O peso de tudo — o Sharingan, as visões, as dúvidas sobre meu lugar naquele mundo — era sufocante.

_ Posso sair um pouco? — Perguntei, olhando para meus pais com olhos esperançosos.

Mamãe hesitou, mas então assentiu, talvez percebendo que eu precisava de espaço.

_ Não vá muito longe e volte antes do pôr do sol.

_ Prometo.

Peguei minha capa e saí pela porta, sentindo o ar fresco bater em meu rosto.

Caminhei sem rumo pelas ruas do distrito Uchiha, cumprimentando os poucos conhecidos que cruzavam meu caminho, mas sem realmente prestar atenção.

O calor do sol diminuía gradativamente enquanto eu me afastava das casas e me aproximava da floresta.

Aquele era meu refúgio, um lugar onde eu podia pensar e, talvez, encontrar respostas para minhas dúvidas.

Ao entrar na floresta, a serenidade do ambiente me abraçou.

As árvores altas filtravam a luz do sol, criando padrões dançantes no chão coberto de folhas.

O som dos pássaros e o farfalhar das folhas ao vento eram um alívio para minha mente agitada.

Segui até meu ponto favorito, uma clareira escondida entre as árvores, onde costumava ficar para relaxar.

Mas, ao chegar, meu coração quase parou.

_ Sukui?

A voz familiar me fez congelar.

Uchiha Itachi estava ali, sentado em uma pedra, com um pergaminho aberto em seu colo.

Ergueu os olhos ao me ver, e seu olhar suave, mas penetrante, encontrou o meu.

_ Não esperava encontrar você aqui hoje. — Disse, fechando o pergaminho com calma e levantando-se.

_ Eu... só queria caminhar um pouco. — Deveria sair? _ Não sabia que você estava aqui.

Sorriu levemente, um gesto raro, mas reconfortante.

_ Está tudo bem. — Pegou minha mão e me fez sentar ao seu lado. _ Gosta de vir aqui para pensar também?

Assenti, tentando esconder meu nervosismo.

Itachi sempre teve uma aura que parecia enxergar além das palavras, como se pudesse ler meus pensamentos.

_ Na verdade, estava estudando algo interessante. — Gesticulou para o pergaminho ao seu lado. _ Sobre o Sharingan.

Meus olhos se arregalaram levemente, mas rapidamente disfarcei.

_ O que tem nele?

_ As diferentes habilidades do Sharingan. — Respondeu, observando minha reação. _ Sabe, cada despertar carrega um peso único para quem o possui.

Senti um aperto no peito. Será que ele sabia? Claro que não.

_ Posso ver? — Perguntei, me aproximando hesitante.

Itachi assentiu e me entregou o pergaminho. Minhas mãos tremeram ligeiramente enquanto o abria.

O pergaminho descrevia as fases do Sharingan e suas habilidades, desde a visão aprimorada das formas iniciais até os poderes mais avançados, como o Mangekyou Sharingan.

Também explicava os custos emocionais e físicos que essas habilidades podiam trazer.

_ Parece... assustador. — Murmurei, fechando o pergaminho.

_ Pode ser. — Admitiu, seus olhos escuros fixos nos meus. _ Mas também é uma ferramenta, mas depende de como escolhemos usá-lo.

Hesitei por um momento antes de perguntar:

_ E você? Já sabe como vai usar o seu?

Ele permaneceu em silêncio, os olhos elevados para o céu que se revelava entre as copas das árvores, como se buscasse respostas escondidas nas nuvens dispersas.

_ Ainda estou descobrindo.

Sua voz soou calma, quase serena, mas carregava uma profundidade que fez minhas perguntas parecerem insignificantes diante da imensidão que carregava.

Ficamos ali, lado a lado, envolvidos pelo sussurrar da brisa que fazia as folhas dançarem suavemente ao nosso redor.

Era um silêncio confortável, algo raro e precioso.

Pela primeira vez em muito tempo, senti que o peso dos meus pensamentos não era tão insuportável.

Não estava sozinha, e isso me trouxe uma paz inesperada.

_ Quero proteger as pessoas que amo. — Sua voz cortou o silêncio com uma firmeza gentil, mas que reverberou em mim.

Minhas mãos tremeram levemente ao ouvir aquelas palavras, mas evitei olhá-lo diretamente.

Sabia que ele falava de algo profundo, mas temi a resposta.

Certamente, as pessoas que ele amava eram seus pais... talvez até dango, sua sobremesa favorita.

Mas ele interrompeu meus devaneios de forma inesperada.

Sua mão tocou levemente minha bochecha, um gesto tão repentino que quase recuei.

_ Não quer saber quem eu amo? — Perguntou, sua voz carregada de uma suavidade provocante.

Balancei a cabeça, negando, com medo de que minha curiosidade me traísse.

_ Amo você.

As palavras simples, ditas com uma honestidade desarmante, fizeram meu coração parar por um instante.

Olhei para ele, incrédula, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, senti o toque de seus lábios nos meus.

Foi um toque breve, quente e úmido, como o primeiro calor da primavera após um inverno rigoroso.

Nada mais do que um selar suave, mas cheio de significado.

Pisquei algumas vezes, tentando processar o que havia acontecido.

Meu rosto queimava, minhas palavras haviam desaparecido, e tudo o que restava era aquele instante, aquele gesto, gravado em minha mente como uma chama que jamais se apagaria.

Mas permaneci ali, parada, sentindo o leve calor nos meus lábios, como se ainda carregasse a sensação do toque dele.

O mundo ao nosso redor parecia ter desacelerado, cada folha que caía das árvores, cada sopro de vento, cada suspiro parecia ecoar mais alto em meus ouvidos.

Olhei para ele, tentando esconder o turbilhão que havia se formado dentro de mim, mas não consegui evitar o sorriso tímido que escapou.

Ele me observava com a mesma intensidade tranquila, como se estivesse esperando uma reação, uma resposta, talvez até algo que fosse mais do que apenas silêncio.

_ Isso... foi... — Não sabia o que falar, mas as palavras saíam confusas, como se minha mente tivesse se desconectado da realidade.

Ele riu baixinho, um som suave que fez meu coração acelerar.

_ Não precisa dizer nada. — Acariciou meu rosto. _ Às vezes, as palavras são pequenas demais para o que sentimos.

Fechei os olhos por um momento, absorvendo aquilo, permitindo que a suavidade do momento preenchesse o vazio que existia dentro de mim.

Por um breve segundo, o futuro incerto e os fardos que carregava desapareceram, e tudo o que restava era aquele momento.

Só nós dois, em um mundo que parecia suspenso no tempo.

Quando abri os olhos novamente, ele estava mais próximo, o olhar tranquilo, mas com uma faísca de algo que eu ainda não conseguia entender completamente.

_ Não vai me deixar sozinho, vai? — A pergunta veio suave, mas com uma intensidade escondida, como se ele soubesse de algo que eu ainda não queria admitir.

O olhei, sentindo o peso de suas palavras, e finalmente encontrei minha voz, que estava tão perdida até então.

_ Eu... _ Hesitei por um instante, mas então respirei fundo, deixando que as palavras saíssem sem mais impedimentos. _ Não vou deixar você sozinho, sempre estarei com você.

Sorriu, e foi um sorriso genuíno, como se aquelas palavras tivessem sido a resposta que ele mais precisava ouvir.

E então, sem mais palavras, ele estendeu a mão para mim, esperando que eu a aceitasse.

E a peguei, sem hesitar, sentindo uma calma que, pela primeira vez, parecia ser minha.

O futuro não importava mais naquele momento.

Tudo o que importava era aquele toque, a conexão que agora existia entre nós, e que, de alguma forma, me fazia acreditar que talvez, apenas talvez, eu pudesse encontrar um lugar no mundo.