Capitulo II

O diretor White o levou para uma sala diferente naquele mesmo andar. Era larga, com sofás de veludo perto de uma grande lareira, pequenas mesas redondas perto das poltronas e puffs espalhados por todo lado. As paredes eram cobertas por painéis de madeira e grandes quadros retratando paisagens bucólicas. Sentado em uma das poltronas havia um senhor vestindo um elegante terno de três peças azul escuro, gravata bordo e lustrosos sapatos pretos. Era dono de fartos bigodes e rosto marcado com olhos negros. Ele lia um jornal com noticias tão coloridas que pareciam ter saídas de um caleidoscópio.

— Você acredita que os elfos estão em campanha contra os trens novamente? Eles não passam nem perto da fronteira deles!

— Mark preciso do livro das eras – falou Brandon fazendo o outro baixar o jornal e olhar para Fernando com a sobrancelha levantada.

— Um desgarrado? Pensei que vocês tinham o controle de todos.

— Eu ainda não sei o que ele é.

Fernando revirou os olhos, contrariado com a fala dos dois que parecia que ele nem estava ali.

— Então vamos saber – disse Mark se levantando e sorrindo para Fernando – Ola. Meu nome é Mark MacLoug e sou professor de história – ele estendeu a mão para que Fernando apertasse e o menino ficou feliz com o gesto do professor – Fernando eu tenho certeza que o nosso querido diretor não falou nada com você, apenas o arrastou até aqui – White resmungou – O vamos fazer é saber se você tem alguma descendência aqui neste mundo ou é apenas filho do Poente, mas com descendência do nosso povo em algum ponto da árvore genealógica.

— Um teste de DNA?

— Mais ou menos – Mark riu e colocou a mão no ombro de Fernando o empurrando para a parede da esquerda aonde um grande quadro ia do chão ao teto. O mesmo retratava uma moça sentada folheando um velho livro.

Fernando ficou esperando o quadro ganhar vida e se mover, mas o que Mark fez foi mais interessante. Ele estendeu a mão e tocou no quadro que começou a tremer como se uma parede de água aparecesse na frente do quadro.

— O que você está vendo é uma dobra do espaço. O quadro tem poder acumulado nele para que possamos abrir dobras dentro deste mundo em alguns lugares. Está que abri direto para o Templo de Ilien, local onde fica o livro das Eras. Basta passar pela dobra que alguém vai guiar você até o livro.

— Um de vocês não vai comigo? – ele olhou temeroso para os dois.

— O Templo é um local destinado apenas a quem vai usar o livro – resmungou o diretor White em seu humor ácido – Não tem nem um monstro do outro lado menino. Apenas vá para ver o que podemos fazer com você!

Fernando gostava cada vez menos do diretor.

— O Templo é um local sagrado Fernando – disse o professor de história colocando a mão em seu ombro – Nada de mal pode ti acontecer lá – apontou para o quadro – Se tiver medo, apenas feche os olhos e avance um passo.

Fernando deu um sorriso tremulo para o outro e foi até a pintura que tremeluzia e resolveu dar um pulo para dentro ou ia perder a coragem.

Imaginava que seria como passar por água ou algo assim, mas era como entrar em um tanque de uma massa gelatinosa e cheia de cacos de vidro. Sua pele parecia queimar, mesmo sentindo um frio terrível. Fleches de luz passavam por sua retina formando paisagens distorcidas em verde e branco. Durou um segundo, mas foi o segundo mais longo da vida de Fernando. Ele caiu no chão de pedra ofegante e tremendo.

Com alguma dificuldade sentou olhando em volta para uma sala cavernosa com chão, paredes e teto de velhas pedras. Estantes estavam enfileiradas na parede e havia cadeiras de madeira perto de longas mesas. Lamparinas queimavam em cima das mesas e velas ardiam em castiçais perto de uma lareira apagada. Não havia janela em ponto algum, só uma porta de madeira grosseira no fundo da sala.

Ele se levantou o olhou para trás percebendo que saíra de um ponto na parede de pedra que tinha o mesmo efeito do quadro e era sua porta de saída, mesmo que ele preferisse beber acido a voltar por ali.

Perto de lareira tinha um pedestal onde repousava o maior livro que Fernando já vira. Ele devia ter mais de um metro de altura, com quinze centímetros de espessura. A capa de couro escuro tinha um brasão dourado desgastado exibindo um escudo com um dragão enroscado em uma espada. Aquele deveria ser o livro das Eras, mas não havia ninguém ali para dizer o que ele ia fazer agora.

— Droga! Estou ficando cansado disso!

Nesse momento a porta abriu com um estrondo e bateu na parede. Uma moça entrou correndo e trancou a porta atrás dela, vestia um vestido branco simples, mas longo com a bainha bordada em vermelho. Os cabelos negros eram absurdamente longos, chegando até seus joelhos. Ela carregava uma espada com cerca de um metro de altura. Seu belo rosto estava arranhado e o vestido cheio de salpicos vermelhos. Ela arregalou os olhos quando o viu.

— Você chegou na pior hora menino – resmungou ela correndo para o Livro das Eras – Temos que sair daqui agora! Me ajude com o livro.

Nesse momento a sala estremeceu inteira e poeira caiu do teto.

— Merda! – xingou a moça tentando levantar o livro – Me ajuda aqui!

Saindo do torpor de medo ele correu para ela arrastando o livro do pedestal.

— Vamos usar a sua dobra para sair daqui.

— O que está acontecendo? – perguntou Fernando bufando com o peso do livro.

— Arcontes atacaram o templo. Fui mandada para proteger o livro enquanto meus irmãos lutam lá em cima.

Os estrondos ficavam cada vez mais perto.

— Merda! Merda, merda, merda!

Fernando olhou para a parede e viu que o portal não existia mais.

— O dia não podia ser mais perfeito!

— Não pode abrir outra?

— Não tenho esse poder – ela deixou o livro quase fazendo o menino cair com e seu peso e correu para perto da lareira e puxou uma pedra da base fazendo parte da parede oposta deslizar para o lado mostrando uma escadaria que descia para a escuridão.

— Vamos! – ela correu para ele e quase o arrastou para a abertura que se fechou assim que passaram por ela deixando os dois na mais completa escuridão.

De repente tochas começaram a ascender nas paredes iluminando a escadaria que descia em espiral. Tudo estava coberto de poeira e teias de aranha.

— Precisamos descer – disse a moça ofegante com o peso do livro.

— Mas o que está acontecendo afinal? – resmungou Fernando tentando não cair na escada estreita.

— Um arconte esta atacando o templo. Como ele passou por nossos bloqueios não tenho ideia.

— Mas o que é um arconte? – o menino se sentia totalmente perdido nesse mundo surreal.

A moça o olhou por cima do livro franzindo as sobrancelhas.

— Você não é aluno da Academia Rose?

— Pelo que entendi nessa confusão toda eu vim de outro mundo e o diretor dessa Academia quer saber se tenho alguma descendência nesse mundo e por isso me mandou aqui para ver no Livro das Eras.

— Um desgarrado do Poente – ela bufou – Isso é raro, mas não impossível.

Abaixo deles havia um leve brilho azul que foi ficando mais forte até que a escada terminou no que parecia uma imensa caverna. Era alta, com grandes estalactites pendendo do teto que ficava a uns vinte metros de altura, as paredes eram cobertas por trepadeiras com folhas azuis e flores brancas. O chão tinha uma vegetação em vários tons de azul. Arvores cobertas de frutos vermelhos e folhas brancas cercavam um lago imenso que emitia o brilho azul. Pequenos pontos de luz iam de um lado a outro. A caverna devia ter mais de duzentos metros de comprimento.

Era uma visão bela, mas estranhamente triste para Fernando que se sentia preso dentro daquele lugar sem ver o céu.

— Vamos encostar esse livro aqui – resmungou a moça – Vou acabar partindo a coluna.

Deixaram o livro encostado e uma pedra enquanto a moça esticava o corpo xingando mais que um bêbado na rua.

— Você não me disse o que é esse arconte.

— No seu mundo ele seria chamado de monstro. É um ser de três metros de altura, com corpo humanoide, mas com longos braços desproporcionais e dedos em garra. É extremamente pálido, afinal é um ser noturno. Seu corpo é magro e sem pelos, pelo que sei esses seres não conseguem desenvolver gordura corporal. Ele é extremamente forte, e sua pele repele uma espada comum. Apenas a magia pode ferir algo assim. Ele se alimentar da energia vital dos seres vivos e perto dele você vai ficando cansado e apático até ser totalmente devorado por ele.

— Que visão que você me deu!

— Adoçar o bicho não o torna menos letal menino. Ele está lá no templo destruindo o que meus ancestrais levaram décadas para consertar depois das guerras. Não tenha dúvida que o que eu mais gostaria era de arrancar a cabeça dessa merda, mas sou a guardiã do Livro, meu dever primordial e impedir que os registros do meu povo sejam destruídos ou vá parar nas mãos de quem não deve. Meu nome é Dallina, sacerdotisa de Muir.

— Fernando – disse ele esfregando os braços – Tem certeza que esse arconte não pode entrar aqui?

— Tenho – Dallina olhou em volta – Nada consegue quebrar a barreira dessa caverna. O poder que existe aqui vem de raízes milenares. O Poente e este mundo trocam energia através deste lago, ele existe nos dois mundos.

— É um portal?

— Só para espíritos e seres etéreos – ela apontou para as luzes nos lagos – As siths podem fazer isso.

Nesse momento uma explosão forte tremeu o teto da caverna fazendo chover terra sobre tudo.

— Você tem certeza que nada pode entrar aqui? – a voz de Fernando estava tremula de medo.

Dallina estava pálida olhando para cima, mas algo no lago chamou a atenção do rapaz. Uma mulher emergia do lago. Sua beleza sobrenatural paralisou Fernando que não conseguia parar de olhar. O vestido longo e branco parecia ser bordado com milhares de gotículas de água mesmo estando, tanto ela quanto as roupas, secas. Os cabelos tão negros como uma noite sem lua eram longos a ponto de chegarem até os pés. Os olhos eram prateados e brilhavam no rosto atemporal. Ele podia ter vinte ou cem anos, era impossível dizer. Na sua testa havia um estranho símbolo de três círculos entrelaçados que brilhavam nos tons de azul do lago. A mulher carregava uma espada de dois gumes, com empunhadura de prata, mas a lamina era negra como se feita de vidro negro.

— Minha senhora! – Dallina caiu de joelhos ao ver a moça, mas Fernando estava petrificado demais para fazer qualquer coisa.

— Levante minha filha – seus olhos brilhantes não deixaram Fernando – Vocês precisam partir. A templo já não é um local seguro.

— Mas minha senhora Ingreyni... – a mulher levantou a mão fazendo Dallina se calar imediatamente.

— Seus irmãos serão salvos, mas o templo e essa caverna foram comprometidos por uma força tão poderosa que o livro das Eras e a excalibur tem de partir. Ambos são o esteio do poder deste e do outro mundo.

— A espada não pode sair daqui sem o herdeiro Pendragon!

A mulher sorriu transformando seu rosto em algo entre belo e terrível e jogou a espada para Fernando que a segurou no ar por puro reflexo.

— Nomeio você Fernando Alael Silva guardião da excalibur – ela estendeu a mão e uma onda de mais de dez metros de altura se levantou do lago – Tempos terríveis virão Dallina, mas há esperança no herdeiro Pendragon. Ele vira no tempo certo.

Antes que qualquer um deles pudesse dizer algo a onde os engoliu e tudo ficou escuro.

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Brandon foi até uma mesa nos fundos da sala em busca de café. O dia já começara com problemas e ele precisa de café para passar por ele, mas Mark o frustrou.

— Lamento amigão, mas só tem chá.

— O que?!

— Todos resolvemos aderir ao chá em solidariedade a você que está proibido de tomar. A doutora Larson teve essa ótima ideia e como somos quase todos adeptos do chá preto, não vimos problema.

Será que o dia podia melhorar?

Nesse momento houve um estalo e o quadro onde havia a dobra pegou fogo.

O diretor agiu rápido pegando o extintor de incêndios e jogando um jato branco no quadro que ficou totalmente destruído.

— Mas o que diabos! – Brandon olhava pasmo – Como algo pode fechar uma dobra assim?

Mark estava pálido olhando para o quadro em frangalhos.

— Mark! – White gritou para ele – Você é nosso especialista em dobras! O que aconteceu?

— E... ele, ela, a dobra foi fechada a força de dentro para fora. Você tem ideia da energia necessária para fazer isso? A força poderia destruir o templo de Ilien!

Como era possível aquilo?! O templo era considerado o local mais seguro de todos. Mesmo nas grandes guerras era um local onde as pessoas podiam procurar abrigo. O Templo de Ilien ficava nas montanhas, perto da cidade fortificada de Tor Agamen aos pés da Cordilheira da Tempestade, uma região onde nem mesmo os elfos se aventuravam. As barreiras eram poderosas e a Dama do Lago cuidava daquela região. Ingreyni não era o tipo de ser a se brincar, a guardiã da excalibur tinha grandes poderes que herdara de seu pai, o mago Merlin.

Um silvo vindo do nada fez Brandon e Mark olhar para trás onde avistaram um estranho redemoinho de água bem no meio da sala. Era um pequeno tornado que girava de forma vertiginosa, mas desapareceu tão abruptamente quanto apareceu deixando para trás um imenso livro, uma mulher vestida de branco e Fernando.

O diretor e o professor correram para eles que estavam ofegantes no chão, mas totalmente secos.

— Dalla! – Brandon segurou o braço de moça que afastou os cabelos do rosto.

— Estou bem – resmungou ela levantando – O que diabos aquela Dama do Lago tem dentro da cabeça! – ela esbravejava – Desde quando ela decide pra onde eu devo ir! E ainda fazer uma criança de guardiã da espada!

Fernando, com a cabeça girando levantou com a ajuda do professor e sentou em uma poltrona se segurando para não vomitar por todo local.

— Dallina o que aconteceu? – White tentava tirar algo que fizesse sentido a sacerdotisa.

— O templo caiu. Um arconte rompeu as nossas barreiras e atacou o tempo com todo o seu poder. Tentamos um ataque em massa, mas ele estava ensandecido e quando viu que aquilo podia destruir o templo a Guardiã Mor me mandou cuidar do Livro das Eras. Quando cheguei na sala topei com o seu desgarrado e a dobra, mas ela se fechou e tivemos que descer até ao Lago da Dama. Lá Ingreyni apareceu e deu a excalibur ao menino e nos mandou embora com seu poder.

— Como ela pode dar a espada a outra pessoa que não seja descendente dos Pendragon?

— Fazendo dela o guardião da espada.

— Eu? – Fernando havia se recuperado um pouco – A espada nem veio com a gente!

— Veio sim – ela ergueu seu braço direito mostrando uma grande tatuagem no seu antebraço onde mostrava o desenho exato da estranha espada negra – A excalibur está dentro de você agora.

Fernando olhava apavorado para a imagem.

Notas finais
Espero que gostem