Capitulo I

Fugir havia sido a melhor coisa a se fazer, Fernando vinha tentando se convencer desde que entrara debaixo de um velho encerado na carreta de um caminhão em um posto de gasolina na cidade de São Paulo. Isso já fazia horas e ele nem tinha ideia de onde estava indo já que o seu medo de ser descoberto o impedira de dar uma olhada.

Finalmente eles estavam parando e ele tomou coragem olhando por baixo do encerado e percebendo que haviam entrado em uma fazenda com grandes silos de um lado e armazéns de outro, imaginando que o caminhão deveria buscar ali algum produto naquele e que se não saísse ia acabar sendo encontrado.

Quando o caminhão encostou, ele ficou imóvel por alguns segundos e depois levantou o encerado devagar olhando em volta. Eles estavam perto dos armazéns, mas não havia ninguém ali fora. Todavia tinha muita atividade dentro das construções.

Pulou da carroceria com a velha mochila e correu para a estrada, mas se escondeu atrás de uma velha casa quando percebeu que havia uma guarita e não tinha como ele sair sem ser visto.

Olhou em volta tremendo. Além dos silos havia grandes plantações de milho, mas perto dos armazéns, cerca de trinta metros, começava uma grande mata de eucaliptos que podia esconder sua fuga.

Correu para as grandes árvores e depois de uns dez minutos parou respirando fundo e sentando de encontro a um troco liso, olhou em volta. Ele não conseguia ver o final das fileiras de dos grandes eucaliptos cujas copas bloqueavam grande parte da luz solar. O ar tinha um doce perfume e o vento passando pelas finas folhas gemia dolorosamente. O chão era coberto de galhos e folhas secas, assim como de pequenas moitas de capim e arbustos ressecados. Na capital, de onde ele viera, não chovia há um mês a ali não devia ser diferente

Desde que correra do pai esse foi o primeiro momento que ele pode pensar com clareza no que tinha acontecido.

Seu pai era um ex policial e fora um bom pai até que a sua mãe morrera de câncer há quatro anos, Fernando na época tinha apenas dez. A luta da sua mãe foi curta, pois quando descobriram o câncer linfático já havia metástase por todo o seu corpo e foi questão de dois meses para que ela morresse.

Estranhamente seu pai o culpou por tudo o que aconteceu. Quando ele era mais novo acreditou realmente que ele era culpado, mas conforme chegava a adolescência percebeu que não tinha culpa nem uma de uma doença como aquela ter matado sua mãe e foi ai que as abrigas com seu pai começaram.

Carlos, seu pai, havia se tornado um alcoólatra e há algum tempo Fernando percebeu que ele misturava drogas mais fortes na bebida o que o deixava neurótico e violento. O rapaz conseguia ficar longe quando isso acontecia, mas naquela noite seu pai passou de todos os limites.

Ele entrou em seu quarto armado e atirou contra ele, mas estava tão drogado que acertou a parede e deixou cair a arma. Quando Carlos abaixou-se para pegar o revolver, Fernando o empurrou para fora do quarto trancando a porta e deixando a arma ali dentro.

Assustado além do possível ele pegou uma mochila colocando dentro o essencial e todo o dinheiro que guardara trabalhando em um mercadinho e o que conseguia roubar do pai.

Carlos parara de bater na porta há mais de uma hora e Fernando tinha esperança que ele estivesse jogado no sofá e dormira. Abriu com cautela a porta e olhou para a sala. Carlos estava deitado de qualquer jeito no sofá, roncava. Uma garrafa de vodca estava caída no chão vazia.

Com cautela ele pulou a garrafa indo para a cozinha onde pegou alguns salgadinhos e água e correu para fora. Eram três da manhã e a rua estava vazia, mas ele andou quarteirão atrás de quarteirão até ver o posto de gasolina cerca de duas horas depois. Ia sentar e pegar algo para comer quando viu o encerado em cima do caminhão e teve a ideia de entrar e se esconder ali, mas estava tão cansado que dormira sem nem perceber que o caminhão estava em movimento.

Agora que estava ali, sozinho e longe do seu pai, se perguntou o que ia fazer da vida. Não ia mais voltar, sabia que seu pai ia acabar matando ele e seus parentes não iam ajudar. Nas poucas vezes que tentou seu pai conseguiu convencer a todos que ele não passava de um adolescente mentiroso que fazia de tudo para atormentar um homem ainda enlutado pela morte da esposa. Em casa recebeu a maior surra de sua vida.

Tentou procurar ajuda da policia, mas seu pai convenceu a todos que ele era um adolescente drogado que praticava todo tipo de ato ilícito enlouquecendo ele como pai e destruindo a pequena família que tinha.

Depois disso fugiu três vezes e todas as vezes ele foi encontrado e levado de volta, uma assistente social foi em sua casa e seu pai deu em cima dela e foram amantes todo o processo que resultou que toda a culpa era de Fernando e que ele devia ter ajuda profissional de psicólogos e psiquiatras.

Fernando nunca sentiu tanta raiva de algo como sentiu de seu pai pelo inferno que ele transformou a sua vida e como ele sentia prazer em abusar de Fernando dia após dia. Todavia agora não, agora ele ia para tão longe quanto possível e preferia viver na rua a voltar para São Paulo. Ele só precisava saber onde fora parar.

Levantou de onde sentara e resolveu ir andando para o lado de onde ele achava que era a estrada, mas depois de uma hora andando a esmo ele tinha que confessar que estava perdido no calipal. Nunca imaginara que uma mata comercial podia ter aquele tamanho, afinal não dava para ver o final em lado nem um.

Continuou andando e comeu salgadinhos e bebeu água que trouxera. A cada passo que dava seus pés faziam um barulho de trituração no chão cada vez mais coberto de folhas e galhos. Revirou os olhos pensando no seu celular que deixara em São Paulo e pensando no quanto seria útil o Google maps.

O dia já estava no fim e a escuridão era quase completa quando Fernando deu por si, ele teria que passar a noite em meio à floresta com todos os seus animais selvagens!

— Foco Fernando – ele respirou fundo tentando se acalmar – É uma mata de eucaliptos e não a floresta amazônica, não vai ter tantos bichos assim.

Ele esperava que isso fosse verdade já que não tinha como fazer fogo e os galhos finos das árvores que ficavam a vários metros de altura mostrava que não ia fugir subindo ali.

Resolveu andar até ficar escuro por completo, mesmo que já estivesse quase um breu. Foi por isso que não percebeu que saiu dos eucaliptos para uma área com grandes pinheiros, seus galhos grossos e rugosos arrastavam no chão coberto com tanta agulha de pinheiro que afundava quando ele pisava.

Ele olhou em volta, mas fora os dois pinheiros no seu campo de visão não havia luz para ver mais nada.

Fernando se arrastou para debaixo dos galhos dos pinheiros que formavam um dossel e ele se viu em uma pequena caverna feita de agulhas e galhos, o chão coberto era confortável para dormir e ele afastou alguns pequenos galhos deixando o lugar mais confortável. Era tão fechado que ele acreditava que nada podia encontrá-lo ali, incluindo animais selvagens.

Retirou uma blusa da mochila e a usando como travesseiro deitou olhando para a escuridão e pensando no que fazer. Um dia sua mãe lhe dissera que ele pensava muito no futuro para um garoto da idade dele. Sorrindo ele se lembrou de ter ficado contrariado e dito:

— Sei que sou esquisito, mãe. Gosto de tudo no lugar, de ficar lendo, de falar tudo certinho e de não ter surpresas, por isso penso no futuro. Os meninos da escola dizem que não entendem nada do que falo e que pareço um velho professor gaga!

— Você não é esquisito Nando! – sua mãe riu abraçando ele – Cada um tem o seu jeito e este é o seu, o que eu queria era que você apenas relaxasse e fosse viver a vida.

Depois disso ela ficou doente e ele nunca mais relaxou. Estava sempre com medo do pai ou com raiva se si mesmo por não ter ajudado a mãe. Cada vez mais ele foi se retraindo, indo para o mundo dos livros, cheio de aventuras e fantasias. Ele que nunca foi sociável se tornou totalmente um antissocial.

Respirando fundo ele resolveu que naquele momento ele podia relaxar e deixar as coisas para depois, caindo em um sono profundo.

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Acordou com um raio de sol que passava pelas agulhas do pinheiro e iluminava seu rosto. O ar cheirava a umidade e pinho além de estar um pouco frio, mas era revigorante.

Fernando saiu do seu refúgio olhando para o local. Era uma mata de pinheiros misturada com outras plantas de menor porte, mas o que o estranhou era o tamanho descomunal dos pinheiros, com grossos galhos que entrelaçavam uns nos outros. Ele girou em volta tentando procurar os eucaliptos e descobriu que não os via em lugar algum. Realmente ele estava perdido e agora em uma mata mais estranha ainda que o calipal.

Percebeu que o terreno descia levemente para o oeste de acordo com a posição do sol e pensou que podia dar em um curso de água. Cursos de água podem levar até alguma civilização.

Pegou uma garrafa de água e colocou a mochila nas costas e começou a descer bebericando a sua ultima água e procurando ignorar a fome.

A descida se mostrava muito mais complicada ali. Arbustos espinhosos grudavam na sua roupa e pele como cola. Suas folhas também tinham pequenos espinhos e seus frutos vermelhos caiam quando ele passava. Curioso percebeu que eram framboesas, ele já vira as frutas no mercado e na internet, mas nunca podia imaginar que ia encontrar tantas no meio de uma mata.

As frutas eram um pouco azedas e ácidas, mas agradáveis para quem tinha comido apenas salgadinhos.

Topou com mais esquisitices como pés de maçãs amarelas muito doces, pés de pêssego suculentos e nespeiras cobertas de frutos vermelhos. Pelo visto de fomo não ia morrer e aquelas frutas não eram nativas, devia ter alguma fazenda por perto.

Conforme descia, a mata foi raleando até que ele saiu em uma estrada de chão. Ela era estreita e mostrava sinais de carros recentes indo no sentido sul dela e ele se dirigiu para lá.

Depois de alguns minutos a mata desapareceu dando lugar para uma grande plantação de trigo de um lado da estrada e de milho do outro. Ao longe um fio de fumaça saia de uma casa ao longe, uma fazenda.

Respirando aliviado Fernando foi naquela direção olhando maravilhado para o trigal com suas espigas pesadas balançando no vento fresco. Ao longe ele viu mais matas verdejantes que pareciam subir em uma serra... na verdade era uma montanha!

O menino parou abruptamente olhando para o que era impossível. Ele estava vendo uma, não, várias montanhas gigantescas se erguendo ao longe com os cumes altíssimos cobertos de neve que brilhava no sol da manhã. A cadeia de montanhas ia de norte a sul e ele não conseguia ver nem inicio ou o fim dela.

O que ele estava vendo não existia no estado de São Paulo, na verdade não existia em nem um ponto do Brasil.

Fechou os olhos os esfregando, mas as montanhas não foram embora, ainda estavam ali e ele também. Sentia o ar frio de encontra ao rosto com cheiro de terra e sabor de mato recém cortado, a luz do sol iluminava tudo em meio a nuvens finas que passeavam pelo céu, sentia o chão levemente lamacento debaixo dos seus pés e as leves dores no corpo por ter dormido ao no chão.

Ele estava ali de verdade, não era uma ilusão ou algum delírio, mas como podia ser verdade? Como fora parar em outro país?

Uma buzina o fezele dar um pulo. Um velho jipe estava parado atrás dele e um homem acenava para ele dar passagem. Seus cabelos eram castanhos e os olhos de um azul profundo no rosto estreito com sobrancelhas arqueadas. Era como uma mistura de um europeu e um japonês.

— Ei amigo! – ele disse – Uma licença? Estou indo para a Academia e estou atrasado. O diretor vai me matar! Você sabe como ele é com seus professores.

Fernando estremeceu ao ouvir o outro percebendo que ele não falara português, mas uma estranha língua meio cantada e o pior de tudo era que ele entendia cada palavra.

— E... eu... – ele disse em uma mistura de português e o outro idioma fazendo o homem levantar uma sobrancelha curioso.

— Você está bem? – o rapaz desceu do jipe indo até Fernando que tremia olhando em volta totalmente perdido.

— Que lugar é esse? – ele arregalou os olhos para o outro.

— Menino você não é daqui, não é mesmo?

— Mas onde é aqui?

— As terras de Dragwidol em Inysh. Acho que você está muito longe da sua casa.

— Dragwidol – Fernando conhecia aquela palavra, era o nome de um reino imaginário que a sua mãe inventara para contar histórias para ele dormir quando era pequeno e vivia tendo pesadelos – Agora não tenho tanta certeza de estar são se estou tendo ilusões com terras imaginárias.

— Você é do Poente – disse o outro – e mesmo não acreditando, conhece esse lugar de algum modo.

— Das histórias que a minha mãe contava quando era criança. Passei noites ouvindo ela sobre esse lugar, a Academia Rose, as famílias principais, as terras de outros reinos. Um lugar metade na Idade Média, metade no século XXI.

— As vezes mais idade média – riu ele – Meu nome de Karl Sanderson, sou professor de botânica na Academia.

— Fernando e não tenho ideia do que sou neste mundo.

— Se está aqui é um aluno – disse Karl dando de ombros – Ninguém vem pra cá se não tem alguma ligação com esse lugar. Venha – ele foi em direção ao jipe – eu ti levo para a Academia e o diretor, ele pode ti ajudar ou pelo menos responder a suas perguntas melhor que eu.

Sem saber mais o que fazer Fernando entrou no veiculo junto com o outro. O jipe parecia velho, com bancos com o tecido puído e painéis desgastados, mas o motor era tão silencioso que nem parecia que existia.

— Motor elétrico – disse Karl como que respondendo a uma pergunta – Aqui não tem combustíveis fósseis.

A estrada de terra cortou fazendas e plantações até uma floresta que terminava em uma ponte de pedra que cortava um rio onde a água corria em meio a grandes pedregulhos. Dali em diante a estrada era mais larga e pavimentada de grandes lajes de pedras. Dos dois lados da estrada havia grandes capinas com muitas flores e alguns arbustos. Vacas preguiçosas pastavam por ali.

Depois de uma curva ele pode avistar alguns prédios ao longe. Um grande castelo tomava toda a visão. Cheio de pequenas torres e vários andares em uma parte era pintado de branco e outra era coberta por heras dando um tom verde profundo. Os telhados eram azuis e bem inclinados. Ele parecia ter sido construído em cima de um pequeno morro com uma estrada de pedra que serpenteava para chegar até os grandes portões, atrás dele mais mata e montanhas verdejantes.

— A Academia Rose – murmurou Fernando se lembrando das histórias de sua mãe e ainda sem acreditar que estava aqui – Onde os Dotados aprendem a usar... – olhou Karl – Magia? Isso é tão idiota de se dizer.

— Bem depende do que é magia para você – respondeu o outro sorrindo – Para uma pessoa do século XVIII imagino que um celular seria uma magia incrível! Para o homem do século XXI moldar a luz seja magia, mas para nós é apenas uma forma de saber como alterar a natureza da luz para que ele possa ou brilhar ou queimar. Imagine que temos como controlar o mundo quântico? Isso não seria em si uma magia?

— Você quer dizer que só tachamos de magia porque não o conhecemos a fundo o que está acontecendo?

— Exatamente isso. É muito complicado a mente humana aceitar certas coisas quando não está acostumada a ela ou quando suas regras dizem que é impossível. Há algum tempo ninguém poderia dizer que os computadores seriam tão pequenos que caberia na palma da mão.

Ele pensou nas palavras do outro. Sua mãe sempre acreditou em milagres e em forças superiores. Para ela a magia estava em viver a cada dia. Ela dizia que não tínhamos capacidade ainda de ver que o mundo tinha coisas tão incríveis que estava a nossa volta.

Passaram por duas guaritas de pedra e Fernando sentiu algo estranho, como um formigamento na pele e os pelos do seu corpo arrepiaram.

— É a eletricidade estática da barreira – riu Karl ao ver esfregando os braços – Nunca conseguimos consertar essa barreira. Tem gente que leva até choque – ele deu uma risada como ser eletrocutado fosse hilário.

Chegaram ao portão que estava aberto e entraram em um pátio de pedra. O castelo se erguia a muitos metros de altura, mas o professor não parou, contornando o prédio principal em direção aos fundos onde havia um grande estacionamento e um imenso gramado pontilhado por grandes árvores de tronco branco e folhas vermelhas. Ao longe ele viu um grande lago e ao fundo a floresta. A direita havia construções mais modernas como o domo de um ginásio, quadras, campo de futebol, algumas outras que ele não entendeu para que servia.

Foi ali que ele viu finalmente outras pessoas. Eram crianças e adolescentes em várias idades indo e vindo pelos pátios, deitados nos gramados, correndo no campo ou subindo uma grande escadaria que dava para grandes portas de madeira que estavam abertas. Todos vestiam o mesmo uniforme: os meninos de calça preta com blazer vermelho com o bolso bordado em azul e camisa branca, já as meninas vestiam saia até o joelho, pretas, os mesmos blazers dos meninos, mas camisas de mangas curtas. Algumas tinham lenços cobrindo a cabeça e vestiam calças debaixo das saias como as mulçumanas que vira na televisão.

Era como uma velha escola inglesa com aqueles estranhos uniformes, mas com mais diversidade racial.

Karl estacionou o velho jipe no estacionamento em meio a carros luxuosos e alguns mais antigos como um velho mustangue amarelo com a tinta apagada em alguns pontos.

— Vamos entrar por uma porta lateral – disse o professor olhando os alunos – Se usarmos a entrada principal nunca chegamos a diretoria com esses alunos.

Fernando não tinha opção senão seguir o outro até a lateral do estacionamento onde havia uma porta de madeira estreita, mas um complicado sistema de fechadura com uma tela onde deveria ser a maçaneta. Karl se aproximou e colocou um cartão em cima da tela e está ficou vermelha.

— A qual é? – o outro resmungou – Foram só dez minutos de atraso!

Acima da porta algo começou a brilhar e Fernando deu um pulo quando letras escritas em fogo deram um recado:

“Foda-se!”

— Que maturidade – disse Karl colocando as mãos na cintura.

A imagem mostrava o dedo do meio agora e Fernando não pode deixar de rir. Karl deu um longo e sofrido suspiro.

— É isso que eu tenho que lidar – olhou Fernando e deu um leve sorriso – Bem vindo a Academia Rose e ao castelo mais sociopata que existe.

Um arco de fogo rodeou a porta, mas o professor apenas deu uma leve batida na porta e esta abriu. Fernando percebeu que um anel na mão esquerda dele com uma pedra vermelha brilhou levemente.

“A vingança sabe esperar meu caro”

— Mas a minha paciência não, vamos Fernando!

“Carne nova no páreo? Coitado não vai estar vivo até o fim de semana!”

— Rose! – Karl parecia escandalizado – Você pode parar de assustar a todos? É por isso que você é o rei das memes por toda a rede.

Karl praticamente puxou o menino antes que aparecesse outra resposta.

— Quem escrevia aquilo? Era uma tela?

— São apenas magias de luz, sem calor. Quem escrevia era o castelo mesmo, Rose. Sinclair Roselim foi o construtor do castelo, quando morreu estava tão obcecado com sua criação que não foi embora, ficou assombrando todos e se tornando parte do castelo.

— Você está me dizendo que aquilo era um fantasma? – Fernando não sabia se ria, ou chorava, ou saia correndo – Acho que é demais pra mim.

— Fique com a mente aberta Fernando. O mundo é mais cheio de magia do que você pensa. No seu o que vocês veem está apagado e se perdendo, não tem mais a capacidade de ver além da realidade que criaram porque seus cérebros foram moldados assim. Imagine que aqui você pode ver além do véu da realidade.

Eles estavam em um corredor de pedra e escuro, com luzes de lede iluminando tudo. Parecia um lugar bem antigo que terminava em uma escada de pedra em espiral que subia para o andar superior. Subiram até um pequeno patamar que dava para uma grande porta de madeira vermelha que Karl abriu dando para um imenso salão. As paredes eram de pedra clara, mas o chão de mármore rosa. Havia sofás perto das paredes e pequenas mesas perto destes. O fundo do salão era coberto por um grande aparato de telas imensas de TV e caixas de som.

— O salão de festas – explicou Karl – Já tivemos festas épicas aqui.

Atravessaram e saíram por outra. Voltaram a passar por mais corredores e escadas deixando Fernando tonto e totalmente perdido. Jamais saberia sair de um lugar tão grande. Finalmente no que parecia ser o último andar chegaram a uma espécie de saleta onde havia uma mesa perto de uma janela com uma mulher sentada lendo algo em um tablete. A mesa tinha uma infinidade de papéis, agendas, livros e uma velha maquina de escrever que deveria estar em um museu.

— Lilian bom dia! – disse Karl em uma falsa jovialidade.

A mulher baixou o tablete e o olhou com enfado. Deveria ter cerca de cinquenta anos, cabelos castanhos presos em um coque e duros olhos negros. Era o tipo de pessoa que Fernando procurava irritar na escola.

— Professor Sanderson não era para estar dando aula nesse momento? Ou deixou a sala para que sua turma destrua a escola?

Karl ficou vermelho.

— Preciso ver o diretor.

— A agenda dele está lotada.

— Senhorita Belline – ele disse com uma frieza que deixou Fernando desconfortável – Eu preciso falar com o diretor agora com um assunto de grande importância. Fui claro?

— Como água professor – disse Lilian olhando Fernando – Pode entrar.

— Obrigado – Karl sorriu luminoso para ela que voltou ao tablete com um suspiro raivoso.

Eles foram até uma porta nos fundos e o professor deu uma leve batida antes de entrar. Era uma sala grande, com dois patamares. Uma escada de metal levava ao segundo piso fora feita parecendo uma árvore, com o tronco saindo do chão de pedra e os galhos se enroscando nos degraus, as folhas decoravam o corrimão.

O piso térreo parecia um escritório misturado com um observatório. Em um canto da sala perto de uma janela havia um grande globo em cima de um pedestal que lembrava uma grande engrenagem, um anel cercava o globo e em volta dele flutuavam pequenos globos de várias cores.

Enquanto Fernando observava pasmo o grande globo mostrava oceanos, continentes, ilhas, florestas, montanhas e vários outros senários em 3D como uma animação de computador. Os outros globos, três no total eram vermelho, azul e um em um misto de azul e verde e ficavam orbitando o maior. Ele não conseguiu ver fios em lugar algum segurando as esferas.

Nas paredes havia muitos mapas antigos de continentes que Fernando nunca vira. O outro lado do escritório tinha uma grande mesa coberta por livros e papeis que quase soterravam um notebook prata. Armários de madeira ocupavam as outras paredes.

O segundo piso parecia uma grande biblioteca.

— Bom dia diretor! – gritou Karl sorrindo.

Um homem apareceu nas grades que delimitavam o piso superior. Era alto, com uns trinta e cinco anos, cabelos castanhos curtos, olhos azuis e vestia um blazer azul e calças pretas. Parecia mais um modelo de revista que um diretor de escola.

— Pelo amor de Deus Sanderson! Seus alunos estão fazendo crescer cipó ferro por todo o castelo! Vá lá e mande eles limparem cada cipó do prédio ou vão limpar os terrenos do castelo no semestre todo. Eu falo com Fernando.

Karl deu um sorriso contrito para o menino e saiu correndo como se sua vida dependesse disso.

Fernando olhou para o diretor que parecia uma pessoa difícil de lidar. O rosto sério e a postura dura mostrava que não era uma pessoa a se brincar, mas algo chamou a atenção do menino.

— Como o senhor sabe meu nome?

— Karl me mandou uma mensagem – ele ergueu o celular enquanto descia as escadas – Venha se sentar, rapaz, temos muito que falar.

Ele se sentou atrás da mesa e Fernando na poltrona em frente temeroso com o que estava por vir.

— Meu nome é Brandon White, diretor da Academia Rose – ele cruzou os dedos em cima de uma pilha de papeis – Fernando me conte tudo o que aconteceu para entender o que o trouxe a este mundo.

O menino não sabia se era o jeito sério do diretor, mas ele se viu compelido a despejar toda a sua vida para o homem a sua frente que o ouvia concentrado com os olhos azuis tão hipnotizantes que ele não conseguia parar de olhar.

De repente Fernando engasgou e piscou ficando com o rosto vermelho.

— Você não tinha o direito de mexer com a minha mente!

— E como você saberia que estou fazendo isso? – Brandon recostou de forma calma na cadeira.

— Minha mãe dizia que era um dom e não uma magia. Auriet, o controle de mente. Algumas pessoas podiam fazer você contar praticamente qualquer coisa e eu disse coisas aqui que não falo pra ninguém.

— Mesmo assim você se libertou do meu auriet. Apenas alguns feiticeiros podem fazer isso.

— Eu não estou em seu mundo de vontade própria e não tenho culpa de estar aqui! – Fernando se sentia humilhado – Minha mente não é um livro aberto pra você ler quando quiser.

— Entenda menino, temos inimigos com que lidar deste mundo e do seu. Não ti conhecia, não sabia suas intenções. Lido com a vida de mil e oitocentas crianças e tenho essa responsabilidade como algo muito a sério. Lamento se isso o ofendeu, mas faço o que tem que ser feito para proteger a todos.

— Imagino que essa é a desculpa das pessoas para fazerem o que querem conosco – disse o menino amargurado – Posso entender o seu lado, mas não acredite que eu tenho que aceitar isso. Minha mãe me mostrou como impedir isso e mesmo depois de anos eu sei bem o que fazer. Não vai usar o auriet comigo novamente!

— Uma criança como você não consegue ainda impedir esse tipo de poder, ainda não tem disciplina suficiente – ele deu um leve sorriso – Mas sei que você é capaz de fazê-lo logo, logo. Sua mãe ensinou muito a você através de histórias para crianças e o único modo dela saber tudo é ela ser daqui, de Inysh.

Fernando já tinha chegado a essa conclusão, mas porque? O que levaria a sua mãe a deixar esse mundo para ir a outro?

— Isso é comum. Muitos partem querendo um novo começo, deixando lembranças ruis para trás. Ir para o Poente é um caminho por vezes sem volta. A energia que a pessoa usa para abrir um portal artificial de lá para cá pode matar ela, e os portais naturais são podem ser previstos na Terra como são aqui pelos feiticeiros.

— Então eu vim por um desses portais naturais?

— Não – Brandon balançou a cabeça estreitando os olhos – Não há portais previstos para os próximos dias. Alguém abriu um portal para você.

Notas finais
Primeira história. Espero que gostem.