– Fim da linha – disse Nôa e Thomas ergueu o cristal para ver melhor. Havia uma parede frente ao transfigurador, com barras de metal cravadas na pedra, levando para cima. – Eu subo primeiro!

Ele fez como dito, tomando sua forma humana no processo, e um facho de luz fraca iluminou o corredor quando ele chegou ao topo.

Thomas esperou as gêmeas transfiguradoras subirem. Os degraus estavam desgastados e enferrujados, mas eram fortes o bastante para aguentar seu peso. Seus pés estavam um pouco cansados, como se tivesse andado por horas (o que talvez fosse o caso), mas nada o impediria de sair daquele túnel escuro.

Após passar por uma baixa abertura escondida entre pedras, ele estava de volta à superfície e mais uma vez entre as árvores coloridas.

– Certo, para onde vamos agora? – perguntou Magdalenâ.

Édna desembrulhou o que Markúz tinha lhe entregado; era uma pedra lisa e azul-esverdeada, com um formato pontiagudo e achatado como a ponta de uma flecha. Inscrições a enfeitavam cá e lá, além de linhas e círculos.

– O que é isso?

– Uma bússola de pedra tsìpal. – A garota colocou a pedra na palma da mão. – Ela sempre aponta para a cidade ou casa mais próxima.

Thomas ficou ao lado de Édna, examinando a pedra, tentando entender como a garota conseguia ler o objeto, embora soubesse que não chegaria muito longe. Ele deslizou a mão pela pedra de Maes em seu pescoço, se perguntando que tipo de pedra era aquela. Uma ametista talvez?

– A pedra aponta para lá. Como a gente veio da outra direção, isso quer dizer que não está apontando para Maêrua Êkra.

– Para que está apontando então? – Nôa se aproximou. – At’knik?

– Pode ser. Mas eu acho que At’knik é mais ao sul… – Édna manteve os olhos grudados na pedra.

– O que é At’knik?

– A cidade dos Okrasiri – explicou Nôa enquanto Magdalenâ revirava os olhos. – Eles são praticamente os guardiões da floresta Sir’benét. São bem reclusos, mas a gente conhece alguns…

Magdalenâ interrompeu, falando de modo ríspido e lançando um olhar estranho para o humano. Foi a vez de Nôa revirar os olhos e reclamar com a outra transfiguradora. Até que Édna sibilou:

– Calem a boca.

Thomas mordeu o lábio para não rir com o silêncio imediato.

– Mag tem razão, não é uma boa ideia ficar parado no mesmo lugar por muito tempo, vamos seguir na direção que a bússola aponta e pronto.

Eles se puseram a andar, com Édna indo na frente e Thomas ladeado pelos outros transfiguradores. Thomas não pôde se impedir de pensar no que as gêmeas queriam dizer. Aquela área da floresta parecia mais sombria que a área em cima da toca, tanto que ele não se surpreenderia se encontrassem um Fantasma rondando por ali mesmo durante o dia.

Thomas engoliu em seco, se arrepiando de repente, e reconheceu a sensação na mesma hora.

Não, de novo não…!

Sua nuca estava formigando novamente, como se pequenos insetos corressem por sua pele.

– Espera…

– O que foi? – Os transfiguradores pararam.

– Eu acho que tem alguém nos observando…

O grupo se aproximou mais do garoto, olhando em volta junto a ele, procurando quem quer que estivesse se escondendo nas sombras.

Abaixe-se!

– Cuidado! – Thomas pulou, puxando quem estava mais próximo para o chão.

Foi tão rápido que, caso piscasse, ele teria perdido. Algo saiu voando do topo das árvores, rasgando o ar bem acima de onde Nôa estivera segundos antes; e então sumiu entre os galhos mais uma vez. Dois círculos brancos e brilhantes surgiram nas sombras, saltando de um transfigurador para outro e se demorando no garoto ruivo entre eles.

Uma voz veio da mesma direção, estranha e baixa, falando na língua do Grande Reino.

E, para a surpresa de Thomas, os transfiguradores pareceram relaxar. Édna respondeu na mesma língua e com um sorriso no rosto, seu tom casual, quase brincalhão.

Um sorriso branco surgiu embaixo dos círculos brancos.

Se-odjìma!

– Óhlem!

A forma escondida pulou até o chão e Thomas arregalou os olhos.

Aquele ser não era humano, mas também não parecia ser um transfigurador. Sua pele era de um vermelho vivo e ele usava uma roupa simples, feita de panos amarrados, todos com tons diferentes de vermelho; seu rosto era redondo e não possuía nem nariz nem orelhas, apenas pequenos buracos no lugar desses, uma boca e dois enormes olhos negros com pupilas brancas completavam o resto de suas feições. Thomas notou que o desconhecido tinha uma cauda e pés que pareciam mãos longas, como um macaco.

Ele desviou o olhar, antes que o outro o notasse encarando.

– Está tudo bem, é Óhlem, um amigo. – Édna sorriu para Thomas, o que o acalmou um pouco. – Que surpresa, Óhlem!

– Estava fácil demais! Vocês estavam totalmente distraídos. – Óhlem riu, falando com um sotaque mais forte que o dos transfiguradores. – E ainda falando nessa língua estranha, hum? – Thomas quase riu ao ouvir sua língua ser chamada de estranha. – Apluksédì… – Os olhos de Óhlem se focaram no único humano do grupo. Ele apontou e falou alguma coisa mais.

– Thomas. – O rapaz se apresentou, sem precisar saber a língua para entender.

Ele estendeu a mão para o ser avermelhado sem pensar, se sentindo bobo quando Óhlem a encarou por alguns segundos. Mas logo uma mão vermelha de apenas quatro dedos, segurou a mão pálida de Thomas e ficou lá, parecendo não ter certeza do que fazer em seguida.

– Você… não é daqui, é?

– Claro que não, ele é um humano. – Édna riu da expressão do outro. Era estranho pensar que humanos não eram comuns naquele lugar. – Além de ser o guerreiro escolhido por San Iak, mas talvez isso não seja assim tão importante…

Thomas tentou se impedir de fazer uma careta com a piada, mas não sabia se teve muito sucesso.

– O guerreiro! – Óhlem curvou a cabeça. – Apluksédì! Eu só estava… brincando, hum… Eu sou Óhlem-revitù, filho de Ólerámataù. Pode me chamar de Óhlem.

Magdalenâ começou a falar em sua língua, mas Nôa a interrompeu:

– O que está fazendo por aqui? Estamos perto de At’knik?

– Nem um pouco. – Óhlem balançou a cabeça. – Eu só estava colhendo alguns cogumelos pro Ôkirba quando ouvi vozes. O que vocês estão fazendo aqui?

– Êkila nos mandou para cá. – Thomas sentiu que podia responder àquela pergunta.

– Adraúde invadiu Maêrua Êkra – adicionou Édna.

– Adraúde? Isso... não é nada bom... – Óhlem ergueu os olhos para Thomas, procurando alguma coisa em seu rosto, o que o deixou inquieto. – Mas que bom que ela mandou vocês para cá! Venham, é seguro com Ôkirba. Se encontrarem alguns cogumelos no caminho, me avisem.

Óhlem se movia de modo ágil, pulando entre troncos e galhos entrelaçados e se balançando com habilidade com a ajuda da cauda, que se enrolava nos galhos grossos como a de um macaco. De vez em quando ele olhava para trás, os olhos monocromáticos se focando em Thomas, mas os desviando quando seus olhos se encontravam.

Thomas se sentiu desconfortável, mas também estava com dificuldade em desviar a atenção de Óhlem, até quando esse fez o grupo parar para poder pegar uma cesta que tinha escondido entre dois troncos.

– Édna… – chamou Thomas, timidamente, tentando manter a voz baixa. – O Óhlem é um o-kra-hã…?

– Okrasiri. – Foi Óhlem quem respondeu e Thomas corou, mas o okrasiri só sorriu. – Uma das raças mais antigas do Grande Reino.

– Nem tente. Ele não sabe nada sobre o Grande Reino. – Magdalenâ deliberadamente usou a língua do humano dessa vez.

Thomas desviou o olhar quando Óhlem o encarou.

– Mas… eu pensei que o guerreiro saberia de… tudo…?

– Estou aprendendo! – Thomas não conseguiu morder a língua.

Mèbe… – O okrasiri sorriu de leve, parecendo desconfortável. – Podemos falar sobre o Grande Reino… mais tarde.

Thomas assentiu apenas. O sorriso de Óhlem se esticou um pouco mais, mas ainda parecia pouco sincero; e, sem dizer mais nada, ele voltou a andar. Thomas não sabia como se sentir, ele só lançou um olhar desgostoso para Magdalenâ, mas essa não lhe deu atenção.

Honestamente, Thomas não estava totalmente surpreso com o tratamento que ganhava de Magdalenâ. Era de se esperar, uma vez que eles procuravam um guerreiro de verdade e Thomas claramente não era tal coisa. O quanto antes ele provasse que estavam errados, o melhor.

O garoto balançou a cabeça, tentando não pensar mais naquilo por enquanto, se focando no caminho.

As árvores estranhas de Sir’benét se aproximavam tanto em certos pontos que era difícil passar por entre elas. Thomas fez o melhor que pôde, mas tinha quase certeza de que acabaria preso em algum tronco mais cedo ou mais tarde…

Os transfiguradores estavam se dando bem ali. Magdalenâ e Nôa tinham se transformado em dois pequenos pássaros marrons, voando entre os galhos. Até Édna, mesmo em sua forma humana, era tão ágil que conseguia passar por frestas com a mesma facilidade de um gato.

Esse lugar me faz lembrar o bosque perto de casa… Eu devia passear mais por lá…, Thomas pulou uma raiz, quase perdendo o equilíbrio.

Thomas viu Édna atravessar uma fresta entre dois troncos e empacou. Não dava para passar pelo lado, nem por cima. Ele suspirou. Devagar, Thomas tentou se espremer pela passagem pequena, mas, até mesmo encolhendo a barriga lisa, era como se sua cintura não quisesse passar.

– Ajuda?

O garoto se virou, encontrando Óhlem ao seu lado. O okrasiri não esperou por resposta, se movendo para puxar o tronco mais fino para trás com as mãos e a cauda, dando espaço para o humano passar.

– Obrigado. – Thomas respirou fundo ao deslizar para o lado. Óhlem sorriu para ele e, dessa vez, parecia ser um sorriso sincero.

Thomas notou o modo como o okrasiri ficou ao seu lado e se sentiu ao mesmo tempo grato e sem jeito com a companhia.

Ele observou o outro, tentando acompanhá-lo ao seu próprio modo. Óhlem era confiante em seus passos, constantemente se voltando para o grupo enquanto continuava andando, como se não precisasse olhar para onde ia.

– Como você sabe para onde está indo?

– Eu nasci nessa floresta. – Óhlem desviou de galhos baixos sem se interromper. Thomas tentou fazer o mesmo, sorrindo ao ter sucesso. – Já passei muito tempo entre essas árvores e pedras. – E sorriu para uma árvore como se fosse uma velha amiga.

Thomas sorriu. Seria interessante ouvir as histórias que ele tinha para contar…

– Parem!

Thomas pulou para trás. Óhlem tinha parado tão de repente que eles quase deram uma trombada.

– O que foi?

O okrasiri fez sinal para que ficassem em silêncio. Thomas sentiu um arrepio, lembrando sua primeira noite naquele mundo, mas não havia nenhum ser encapuzado na direção em que Óhlem apontou.

Árvores se moviam, não por causa do vento, mas sim porque suas raízes estavam fora da terra, se movendo como tentáculos longos e lentos. Elas eram diferentes das outras árvores de Sir’benét, velhas e cinzentas, com galhos secos e sem folhas.

– O que são essas coisas?

– Árvores assombradas.

– Então é verdade? – O okrasiri fez um som afirmativo para Édna.

– O que é verdade…?

– Havia rumores sobre Fantasmas possuindo os troncos de árvores mortas. – Nôa foi quem explicou. – Mas a gente pensou que…

Ele foi interrompido por um urro alto, como um grito de guerra.

Thomas pulou para trás quando uma forma grande veio na direção das árvores. Uma lâmina gigantesca refletiu a luz do sol enquanto girava no ar, antes de atingir uma das árvores assombradas com um som alto. O tronco velho e carcomido não teve a menor chance, caindo de lado.

O ser colossal ergueu o machado mais uma vez, o lançando na direção de outra árvore que caiu com a mesma facilidade da primeira. Ele urrou novamente, falando alguma coisa em outra língua, diferente da que Thomas tinha ouvido até ali; sua voz soava como o rolar de pedras durante um deslizamento e fez tudo tremer como num terremoto.

As árvores pararam de se mover, e Thomas viu algo escuro deslizar pelo tronco dessas até o chão, desaparecendo como fumaça.

O monstro disse mais alguma coisa, antes de bater o punho gigante contra o peito de modo intimidador.

O silêncio a seguir foi de puro espanto e choque.

– Ôkirba! Aiózì! – Óhlem se levantou e Thomas quis o puxar para baixo, mas não se moveu quando a montanha viva se voltou para eles.

Thomas tremeu quando dois grandes olhos, de escleras marrons e pupilas brancas, se focaram nele e então uma boca enorme sorriu com dentes tortos.