Quatro malas e duas mochilas de mão. São necessárias duas viagens de elevador para que Reid consiga levar todas as minhas coisas para o apartamento dele. Observo ele levando as coisas enquanto fico sentada na portaria. Ainda sinto muita dor para caminhar, e nem que eu quisesse, ele não iria deixar eu fazer o mínimo de esforço, ao que parece.

— Acabou. — Ele diz, parecendo cansado. — Vamos subir agora.

Ele me acompanha, ao meu lado, apesar de meus passos lentos. Abre o elevador para mim, e entra junto comigo. O espaço é pequeno, e ao invés da maioria dos elevadores, não tem um espelho que cause a sensação de que o lugar é menor. Imediatamente, sinto a claustrofobia.

— Reid, você se importa se eu apertar o seu braço? — Pergunto, agarrando o braço dele. — Sou claustrofóbica.

— Tudo bem. — Noto que ele iria dizer algo mais, porque abre a boca e suspira, desistindo.

— Fala Reid. — Digo, apertando o braço dele mais forte. — O que você ia dizer?

— Não é nada. — Ele diz. O elevador para, e se abre, exibindo um corredor com duas portas. — Chegamos.

Reid se encaminha para uma das portas e a abre.

— Bem vinda. — Ele diz, e entro no apartamento.

A sala e a cozinha são no mesmo cômodo, separadas por um bar com duas banquetas. Provavelmente é ali onde ele come quando está em casa. Na sala tem só um sofá, um hack com uma televisão e um aparelho de som. Na mesma parede onde há a porta, uma estante enorme, cheia de livros. Caminho até ela. Sempre gostei de ler, e aquela coleçao me chama a atenção.

— Quando eu quiser, você me empresta um desses livros? — Pergunto a ele, lendo os títulos pelas lombadas das obras.

— Sim, te empresto. — Ele diz, largando o molho de chaves em cima da mesa de centro da sala.

A cozinha é pequena, normal. Pelo o que posso ver, conta com todos os utensílios necessários.

— Deixei as malas no meu quarto. O que era quarto de hóspedes virou salinha da bagunça, tá desorganizado e não tem cama, então você irá dormir no meu quarto. — Ele nota minha expressão imediatamente, e sorri. — Calma, eu vou dormir no sofá.

— Eu disse, eu vou acabar te incomodando, atrapalhando sua rotina... — Digo, cruzando os braços. Porque fui aceitar essa maluquice?

— Você está aqui. Cancelou a reserva do hotel. Não pode ficar sozinha. Está machucada, o sofá não é macio o suficiente para suas costelas, precisa de alguém que a cuide, se você fizer tarefas domésticas sua concussão pode acabar voltando. Se você não fizer as tarefas domésticas, o lugar vai ficar cheio de pó e suas doenças respiratórias crônicas poderão se agravar. — Ele fala muito rápido e gesticulando. — Eu realmente não me importo em dormir no sofá, eu não sigo uma rotina específica, dificilmente sou incomodado. — Ele subitamente para de falar e ri. — Suas malas estão no quarto, e pus lençois e cobertores limpos na cama. Deixa eu te apresentar o resto da casa. Depois, se quiser deitar e descansar um pouco...

Reid me apresenta a casa. A "salinha da bagunça", como ele chamou, é um cômodo médio com uns armários, um baú e umas coisas espalhadas, aquele tipo de quinquilharia que um dia talvez será necessária. Dou uma olhada no banheiro de relance e então adentro o quarto dele, que, por hora, será meu. UAU.

A cama é de casal. Os lençois são azuis, e ela ostenta duas mesinhas de cabeceira. Tem uma cômoda no quarto, e um closet grande para um homem que mora sozinho. As janelas estão abertas, e entra uma brisa suave no quarto, que agita meus cabelos. Noto que Reid não está aqui, então percebo que ele falou algo comigo enquanto estava divagando sobre a culpa gigante que me assombra.

Vou até o banheiro. A garota que me encara de volta no espelho não se parece nem um pouco comigo. Estou com o rosto cortado em várias áreas, meu lábio inferior ainda inchado devido às bofetadas, com hematomas pelo corpo. Sinto dor ao caminhar, mesmo tomando analgésicos ministrados de oito em oito horas. Por um milagre, os chutes não quebraram minhas costelas, apenas uma trincou levemente, e a dor que sinto por causa disso é gigante. Estou despenteada, meus cabelos sem vida, opacos. Em resumo, estou horrível.

— Porque você está se analisando? — A voz de Reid, inesperada, faz com que eu dê um pulinho.

— Reid! Você me assustou. — rio, e apoio-me na pia do banheiro.

— Desculpa. — Ele se recosta no batente da porta — Mas você não respondeu minha pergunta.

— Ah... Olha bem pra mim. Estou estragada. Aquele canalha fez isso comigo. — Lágrimas ameaçam escorrer dos meus olhos, tristeza misturada com raiva. — Toda vez que eu me olhar no espelho, verei essas cicatrizes e me lembrarei daqueles três dias malditos. Acho que vou evitar espelhos ao máximo. É melhor evitar que o trauma se agrave.

— Eu também já fui mantido em cativeiro. — O quê? — O meu captor tinha distúrbio de identidade dissociativa, três pessoas dentro de uma só. O Tobias, o de verdade, me injetava Dilaudid, porque ele queria que o meu sofrimento não fosse tão grande, e segundo ele, funcionava. O Dilaudid causa alucinações, acabei me viciando na substância, e repeti a dose conscientemente. Quase fui afastado do FBI, porque meus comportamentos são peculiares, e eles mudaram, todo mundo notou que eu estava diferente. — Realmente não consigo imaginar ele inserindo uma seringa nas próprias veias para curtir um barato. — Eu superei. Todo mundo supera, porque o tempo cura tudo. Você também vai superar. Machucados físicos cicatrizam, somem, se curam. E você é equilibrada o suficiente, seu psicológico vai lidar da maneira certa com tudo isso, como sempre lidou

— Como você sabe que eu sou equilibrada? As conversas que a gente teve nunca foram profundas, você não conhece o meu passado.

— Leah, eu te perfilei mesmo antes de te conhecer. Meu trabalho é esse. Entender como a mente humana funciona, prever seus próximos passos. Para chegarmos até você, nós a perfilamos. Tomamos conhecimento de toda a sua vida e de seus hábitos particulares para achar uma conexão com os assassinatos em série. Eu sei de muitas coisas da sua vida. Tive que saber para podermos te resgatar.

— Não sei se é bom ou ruim saber que existe gente que consegue saber como a pessoa pensa de acordo com a cor favorita dela...

— É... Tá, mas agora vem comer. Pedi pizza pra gente. E... na minha casa me chame de Spencer, por favor.

— Ok. Spencer.