A Rosa Vermelha
1 Uma Pequena Rosa - Parte 1
Um jovem cavaleiro, trajando uma armadura com ornamentos verdes, aguardava em frente a uma porta num longo corredor. O símbolo entalhado da rosa no monte estrelado em seu escudo e sua longa capa verde exibiam sua fidelidade a casa Beaumont, lordes soberanos e família real da região da Campina. Seu negro cabelo cacheado era curto, com uma franja que ocultava o lado esquerdo de sua testa. Possuía uma pinta abaixo de seu olho esquerdo, olhos castanhos e sua pele era morena. Ele beirava os 180 cm, uma beleza sem igual.
Dentro do quarto, protegido pelo jovem cavaleiro, havia duas moças. Pela maneira a qual se vestiam, era fácil distinguir quem era a senhora e criada.
— É um vestido lindo, não acha? – Perguntou a criada – Ele destaca o seu cabelo loiro e seus olhos.
— ... – Segurei uma mecha do meu cabelo ondulado – Nunca gostei do meu cabelo. E meus olhos não combinaram com o vestido.
— ... – A criada ficou sem graça – Me perdoe, milady.
Voltei a me olhar no espelho e o que eu via era uma pequena garota de pele branca. Mesmo com 17 anos, era pequena para a minha idade. Meus olhos eram azuis e meu cabelo era longo e ondulado, e hoje, estava com uma coroa de tranças. Além disso, com um lindo vestido verde que usaria no próximo dia.
Em meu casamento.
— Está pronto, Milady. – Disse a criada, se afastando.
Segurei o vestido e olhei para o espelho. Olhei de diversos ângulos, mas não estava satisfeita, pois a cicatriz em minha mão continuava à vista. Lembro que quando eu era mais jovem não me importava tanto com ela, mas com o tempo, ao me tornar uma mulher, passei a não gostar. Era feia. Quando perguntei ao meu tio Roland como eu a consegui, ele disse que aos meus quatro anos havia me queimado ao brincar com fogo, mas por mais que eu tente, não consigo me lembrar. Sendo sincera, não consigo me lembrar de nada antes dos meus sete anos.
— Talvez fique melhor com uma luva, o que acha? Quero esconder a marca em minha mão.
Após minha pergunta, Mira, minha criada, passou a procurar por um par de luvas nas roupas que iria experimentar. Isso não estava nos meus planos, queria ficar sozinha.
— Mira, acredito que nenhum desses pares irão combinar com esse vestido, ele é único. – Me virei para ela – Você pode pedir ao alfaiate criar um novo par? Claro, com os ornamentos adequados a nossa casa.
— Claro, milady, irei providenciar.
Ela ficou parada por um tempo, na minha frente. Apenas depois de alguns instantes percebi que ela aguardava eu retirar o vestido.
— Sim, claro, o vestido. – Voltei a olhar para o espelho, ficando de costas para ela – Mira, você se importa de sair? Para me trocar.
— Hun? Sim... – Mira se retirou do quarto – Com sua licença. – Ela educadamente fechou a porta.
Pela sua reação, ela estranhou o pedido. Eu também estranharia, caso a pessoa que eu vestisse dezenas de vestidos, de repente, fizesse um pedido atípico. Não a culpo.
Do outro lado da porta, sir Robb, meu guarda pessoal, estranhou a saída repentina de Mira, que agora, aguardava fora do quarto. Após alguns instantes com ela ao seu lado, franziu a sobrancelha e perguntou.
— Mas o que você está fazendo?
— Lady Alice pediu para aguardar fora do quarto, para que pudesse se trocar. – Respondeu Mira, envergonhada. Ela não era muito boa em esconder as afeições que sentia pelo cavaleiro ao seu lado.
— Hun? Mas você esteve com ela até agora.
— Bom, sim, mas... Quem sou para questionar os pedidos da minha senhora? – Respondeu, com um sorriso sem graça, também confusa.
Sir Robb estranhou meu pedido inusitado, ele era esperto. Não levou muito tempo para que ligasse os pontos e descobrisse minha verdadeira intenção com aquela ordem.
“Ela não faria aquilo logo na véspera do casamento, faria?”, pensava Robb. Ele se virou para a porta e pôs sua mão na maçaneta, mas antes de abrir, bateu duas vezes na porta, anunciando sua entrada.
— Lady Alice, estou entrando. – Disse Robb, abrindo a porta.
— Mas sir, a lady Alice não deseja ser incomodada. – Disse Mira, com intenção de detê-lo, apesar de não se mover.
Ao abrir a porta e dar os primeiros passos para dentro do quarto, Robb olhou a sua volta e concluiu suas suspeitas. O quarto estava vazio. A julgar pelo vestido verde jogado no chão e a brisa que invadia o quarto e balançava a cortina através da grande janela aberta, ele chegou à conclusão de que eu havia fugido novamente.
Minha primeira fuga do castelo teria sido aos meus onze anos. Quando me perguntaram o porquê de ter feito aquilo, disse que era a única forma que havia encontrado de fugir das chatas aulas de etiqueta e história das casas. O outro motivo, que não havia contado a eles, era que gostava do ar fora do castelo. As feiras, casas e pessoas comuns que não me tratavam diferente por ser uma nobre. Apesar de não nunca terem descoberto que era uma nobre, pois sempre me vestia como um plebeu ao sair. Quando percebi, essa mania havia se tornado constante.
— A lady Alice não está no quarto. Ela fugiu – Disse Robb, repetindo “lady Alice” de propósito.
Após respirar fundo, ele deu alguns passos em direção a janela. Ao olhar para fora, não precisou procurar muito parar ver uma pequena garota loira correndo pelo telhado, ficando cada vez mais distante.
— F... Fugiu?! – Exclamou Mira.
A criada, Mira, ficou surpresa com a minha fuga. Como ela era nova e eu não havia feito aquilo desde a sua chegada, minha saída repentina foi inesperada para ela.
— Sim, pela janela. – Disse Robb, se virando para a porta.
— Janela?! Mas deve ter quase doze metros do chão de onde estamos!
— Ela não se jogou, fugiu pelo telhado. Esse é um dos talentos estranhos e inúteis da lady.
— Mas por que ela faria isso? – Mira, ao entrar no quarto, olhou para o vestido caído – O vestido! – Correu até ele, para tirá-lo do chão – Ela deixar um vestido tão fino como esse no chão, que descuidada... – Mira encarou o vestido e disse com a voz em tom baixo – Vou cuidar de você, já que ela te trata tão mal.
— Disse algo? – Perguntou Robb, saindo do quarto.
— N... Nada! – Respondeu Mira, rindo sem graça.
Após Robb sair, Mira abraçou o vestido com todas as suas forças.
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