A Rosa Branca
6 Três poderes
O youko estranhou. Até aquele dia, Sassame nunca havia se atrasado para o treino. Se em quinze minutos não chegasse, iria atrás dela.
Ouviu um ruído, mas não vinha da estrada como ele esperava. Era o som do vento sendo cortado nos céus.
––Kurama!––chamou uma voz estridente e um pouco aflita.
––Botan! O que houve?
Geralmente ele não recebia as ordens do mundo espiritual através dela. Mas, desde que Yusuke deixou de ser detetive ela passou a mandar os recados. Talvez, até que se tornasse assistente de algum outro detetive espiritual, estivesse com o tempo meio livre.
––A turma está toda reunida no templo da Genkai. Estamos com problemas.
––O que aconteceu?
––Uhn... Eu não sei direito––disse ela, pousando o queixo no dedo indicador.––Parece que são alguns demônios que estão contra a nova política do mundo das trevas e vieram se revoltar aqui no mundo dos humanos.
––Sassame.
––Ahn?
Ele já estava se esquecendo, não devia ser muito seguro aquele local sem ele por perto. Se ele não estivesse ali, era melhor que ela não tentasse treinar sozinha.
––Você a avisou?
––Ah! A Sassame! Não, eu achei que ela estaria aqui com você. Vá para o templo, eu a aviso.
Ele acenou afirmativamente com a cabeça, correndo o caminho de volta até o templo. Botan levantou vôo, varrendo a estrada com o olhar a procura da garota.
Quase meio hora depois, o youko entrou no dojo do templo da mestra, onde Yusuke, Kuwabara, Koenma e a mestra o aguardavam em um silêncio.
Yusuke parecia muito animado, estralava os dedos com um sorriso de orelha a orelha.
––Já estão todos aqui, então eu vou começar––falou Koenma em sua forma adolescente, mas sem nunca se separar da sua chupeta.––Há dois dias, três poderes muito grandes vieram do mundo das trevas. Eles eram do país que antes pertencia a Yomi, parece que eles não estão contentes com a nova política das trevas de não se meter com o mundo espiritual e com o mundo dos humanos. Mas, eles não parecem dispostos a bater de frente com rei e pretendem formar um reino próprio deles, aqui neste mundo.
––Ah! Mas que droga!––falou Yusuke desanimando.––Eu esperava que eles fossem realmente fortes. Só porque eu estou louco para dar umas porradas em alguém...
––Do que você está falando, Yusuke?––perguntou Koenma.
––Se eles não querem enfrentar o perigo de frente, devem ser uns covardes. Não é não?
––Eles querem chegar ao objetivo deles o mais rápido possível. Mas, eu sei que são muito fortes.
––E, me diz uma coisa, o que eles fizeram até agora?––perguntou o ex-detetive.
––Por enquanto nada. Eles estão esperando a reação do mundo espiritual para com a chegada deles. Eles não guardaram segredo dos seus planos. Estão muito seguros de si.
––Bah! Pra mim eles estão parecendo uns folgados, isso sim!––comentou Kuwabara.
––É isso aí!––falou Yusuke, levantando num pulo.––Vamos mostrar para eles que isso aqui não é a casa da mãe Joana não!
––Urameshi, desde quando você voltou a receber ordens do mundo espiritual?––perguntou seu amigo topetudo, como um comentário à parte em um tom de voz meio baixo, apenas para o ex-detetive.
––E desde quando eu preciso que alguém me mande tomar conta desse mundo, seu pastel?
Kuwabara sorriu satisfeito. “Esse é o Urameshi que eu conheço!”, pensou. Kazuma estava muito mais relaxado, tendo passado os vestibulares. E obviamente radiante de alegria por ter passado em uma das faculdades.
––Koenma,––chamou Kurama.––Yomi tem alguma relação com esses demônios que vieram para cá?
––Aparentemente não. Apenas eram adeptos da sua política, até onde eu sei.
––E onde eles estão agora, heim?––perguntou Kuwabara.
––Espalhados pelo país. Apenas estudando os lugares.
––São cautelosos. Sabe quem é o líder?––murmurou Kurama.
––Não. Parece que os três são unidos pelo mesmo ideal. Não possuem um líder. Não sei se eles tem subordinados, mas eu acho bem provável––ele fez uma pequena pausa, consultando mentalmente se já tinha falando sobre todos os tópicos.––Ah sim! Já tem algumas pessoas encarregadas de encontrá-los. Assim que isso acontecer, vocês vão atrás deles. Botan vai avisar vocês.
––Pode deixar!––exclamou Yusuke animado.
Koenma saiu do dojo um pouco decepcionado, esperava que aqueles 3 anos, depois do torneio, fossem de total paz.
oOoOo
Kurama realmente não acreditava que Yomi tivesse alguma relação com o caso. Não fazia muito tempo, ao final do torneio, Yomi disse que queria treinar o filho, Shura, para que vencesse Yusuke na próxima disputa.
Chegou em casa de noite e deitou, sem mesmo antes se trocar, para fitar o teto pensativo. Estava com uma sensação estranha, um mau pressentimento.
Superficialmente havia se desligado com o seu passado aceitando totalmente a vida como humano, recusando sua imagem de youko, durante o torneio. Porém, o passado não havia se desligado dele. E, sempre, de uma maneira cruel, o perseguiria de alguma forma.
E aquele mau pressentimento que não passava?
Pegou o telefone e discou o primeiro número da discagem rápida:
––Alô! Oi mamãe. (...) Estou bem sim, só liguei para saber se estava tudo bem. (...) É lógico que eu estou me alimentando direito. (...) Sim, eu levo o agasalho de manhã para o cursinho. (...) Boa noite, mamãe.
Era isso, Shiori estava bem. De alguma forma, sempre que ele era ameaçado, usavam-na como argumento. Mas, porque o mau pressentimento não passava? Ao invés disso se intensificava.
Ouviu uma batida na janela. Era Botan que estava flutuando em cima do seu remo, em frente a janela. Ele abriu:
––Botan! O que foi?
––É melhor você vir comigo!––disse ela puxando ele para fora da janela repentinamente.
Era engraçado que sempre conseguira fugir da morte, mas se Botan fosse a morte encarregada dele teria sucesso? Ele teve suas dúvidas enquanto era levado pela guia pelas ruas.
––Botan, o que aconteceu?
––Eu fiquei o dia inteiro procurando a Sassame. Quando eu cheguei na casa dela, estava tudo destruído.
––Destruído?––perguntou preocupado.
Ela acenou afirmativamente. Logo chegaram ao apartamento, entraram pela janela.
Ele observou o trinco da janela rachado, quem arrombou não o fez com sutileza.
Alguns móveis estavam quebrados. O colchão rasgado. Sangue pelo chão. Sinais de batalha em todos os cantos.
Pelo jeito três, não, quatro demônios estiveram ali. Ela caiu em cima do tapete, provavelmente desacordada, porque não se moveu. Alguém a puxou e a jogou numa parede próxima. Ela se chocou e caiu. Mas...
Kurama parou um segundo para observar uma estranha marca na parede. “Isso é...”, murmurou em pensamento. Quase não reconheceu.
“Se ela estava lutando com isso não tinha chances”, pensou. E continuou analisando.
Vestígios de três dos demônios eram muito fáceis de detectar. Mas o quarto quase não havia deixado rastros. O pouco que ficou não dava a ele uma noção de quem, ou que tipo de demônio poderia ser.
––Eu vou avisar ao Senhor Koenma!––anunciou Botan, saindo pela janela.
Não havia mais o que fazer lá. Saiu da mesma forma que Botan, mas pulando em cima do poste de luz e depois para a calçada. Procurou por rastros pela rua, mas não havia nada.
Poderia fazer mil suposições naquele momento, mas eram tantas as possibilidades que ficava difícil saber quem poderia ter feito aquilo.
Repentinamente, uma névoa começou a tomar a rua. Pela sua rápida formação, era impossível que fosse um fenômeno natural.
O youko ficou atento. Esperava por um ataque a qualquer momento. Mas, ao invés disso, ele percebeu uma forma humanóide caminhando até ele. Não parecia que ia atacar.
––Youko Kurama––mencionou a voz de quem se aproximava.
Os olhos verdes ficaram atentos. Desconhecia aquela voz.
––Youko Kurama...––repetiu mais uma vez.––Sabe quem sou eu?
A névoa em volta dos dois diminuiu e ele pôde enxergar o ser que o chamava.
––Não––respondeu sem emoção.
Kurama pôde percebe uma perturbação no olhar do demônio.
––Você não se lembra então? Mas, que memória fraca... Se bem que eu mudei muito. Mas, não se preocupe, não vai nunca mais se esquecer de mim––disse dando um sorriso macabro.
Era óbvio que aquele homem tinha relação com o desaparecimento da garota. O youko sabia que o demônio queria provoca-lo:
––Kurama, Kurama... Eu sempre ouvi muito falar em você sabia? Um ladrão poderoso das trevas. Não... O ladrão poderoso das trevas. Calculista, impiedoso... Quanto a essas suas qualidades eu devo admitir, você merece respeito e medo.
––Onde você está querendo chegar? O que pretende fazer?
––O que eu pretendo?––perguntou rindo.––Me uni a duas pessoas muito poderosas nas trevas, com o objetivo de conquistar o mundo dos homens. Mas, devo admitir que não era bem isso o que eu desejava... O que eu mais queria, já fiz. Acho que só por diversão vou continuar com o plano e procurar eles. Já faz quase um mês que eu não os vejo...
“O que eu mais queria, já fiz”, a frase ecoava na mente do youko. Um sentimento muito estranho explodia dentro dele. Uma mistura de ódio com temor, talvez... Seu rosto ficava cada vez mais inexpressivo.
––Onde ela está?
O homem riu.
––Não se preocupe. Ela não morreu... ainda. Se você correr talvez ainda dê tempo de salva-la.
––Onde ela está?––perguntou novamente. Se não dissesse logo iria arrancar a verdade dele. Aquele ser gostava tanto do Youko? Pois bem, o Youko conhecia muitos métodos para convencer alguém a falar.
––Nas docas, aqui perto. Você encontrará sinais até ela.
Kurama não podia perder mais tempo. Correu. Depois cuidaria daquele demônio, ele podia esperar.
––Mais uma coisa!––gritou o homem, vendo o youko se afastar.––Não se esqueça do nome Kuno!
“Não, ele nunca mais vai se esquecer...”, pensou Kuno.
“Kuno?”, perguntou-se Kurama enquanto corria. Mas, não tinha tempo para pensar naquilo, realmente não se lembrava do nome. Tinha uma outra coisa muito mais importante para se preocupar naquele momento.
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