A Rosa Branca

7 Quando as rosas são tingidas de vermelho


Quase duas horas depois, o rapaz ruivo chegou as docas, muito apressado. Não havia transportes àquela hora da noite, mas usou parte da sua energia para correr o mais rápido que conseguiu. Ele podia ser rápido, era um das características indispensáveis de todo o ladrão.

Pulou os portões sem nenhuma dificuldade. Sentiu um cheiro característico de sangue. Seguiu o seu olfato passando por muitos caixotes e avistou entre eles uma rosa vermelha. Pegou-a. Talvez por culpa ou remorso, sentiu uma dor no peito... pois aquela rosa não era vermelha.

Sua mão fraquejou por um segundo e a rosa deslizou entre seus dedos marcando-os com o sangue de Sassame. A rosa, agora semibranca, caiu no chão.

Percebeu próximo dali outra. Foi até ela. Avistou outra. E assim foi seguindo a rota que Kuno havia determinado.

Chegou a uma porta. Um traço de sangue feito rudemente utilizando uma das rosas marcava a porta. Ele a abriu. Era uma sala cheia de maquinários. Continuou o caminho a passos largos.

Passou por um alçapão e encontrou-se em um túnel. Correu por ele.

Sua preocupação aumentava a cada passo. Eram muitas rosas. A quantidade de sangue utilizada para tingir cada uma não era grande, mas como o número de rosas mostrava-se cada vez maior Kurama sabia que foi preciso de muito, muito sangue.

O túnel parecia interminável. A iluminação era escassa, mas ele conseguia enxergar muito bem graças ao seu lado youko.

Percebeu uma forma mais à frente. Parecia estar de pé, mas a medida em que se aproximava percebeu que era alguém amarrado em uma parede.

Num primeiro impulso avançou para desamarra-la. Mas, seus movimentos petrificaram quando os seus verdes olhos contemplaram a cena.

Os cabelos tingidos de vermelho cobriam o rosto, pois a cabeça pendia derrotada para frente. Seu pijama inteiro rasgado exibia um corpo pálido e repleto de cortes dos quais já não mais escorriam sangue, apenas deixavam a mostra a carne amarronzada. Ele não precisava toca-la para ter certeza que estava fria como gelo, sentia a falta de calor do seu corpo mesmo de longe.

Alguns ossos pareciam quebrados. Os pulsos lixados profundamente, ela devia ter forçado muito para se libertar das cordas, mas no final Kuno a desamarrou, queria que aquela marca ficasse bem a vista. Estava presa apenas por duas cordas que a suspendiam pelos braços, amarradas bem mais acima dos pulsos.

Ele deu um passo a frente e tocou o queixo da garota, levantou-o para que pudesse ver o rosto. Havia alguns cortes profundos, mas a face parecia ter sido limpada do sangue que escorreu por ele, assim como grande parte do corpo. Um olhar sem foco fitava o nada. Kurama pôde perceber que a íris estava esverdeada, não fazia idéia de como o demônio tinha conseguido fazer isso em seus olhos.

Tinha que tira-la dali. Leva-la para outro lugar, ou ao menos desamarra-la. Mas, seus sentidos estavam todos voltados para outra pessoa. A sua fúria o deixava inexpressivo. Ele queria matar o demônio maldito responsável por aquilo. Não, queria tortura-lo até que morresse. Mas não o deixaria morrer tão rápido. Não... Sentiria cada agonia do seu inimigo, aos poucos. E tentaria perdurar esse futuro momento pela eternidade.

Kurama não precisava se personificar no youko, seu coração já batia como youko, sua mente já agia como youko...

Youko, ele se lembrou, ela era uma também. Mas, nunca havia demonstrado sinas disso. Talvez fosse devido a sua falta de lembranças, mas Kurama sabia que a verdadeira natureza de uma pessoa fica com ela para sempre. Tinha essa certeza agora, que aumentava a cada passo que dava em direção a saída do túnel.

Sempre o atingiam da forma mais cruel através de outras pessoas. Das pessoas que ele amava. Se Kuno tivesse usado Shiori, teria sido tão pior para ele? Ele agiria diferente?

Mas, ele tinha a impressão de que aquele demônio não teria usado Shiori. Jamais. Havia escolhido Sassame porque, de alguma forma, era semelhante a ele. Era uma youko, assim como ele. O demônio queria sentir a cada momento em que a torturava, que torturava Kurama.

Teria atingido aquele objetivo? Apesar da mesma origem, o treinador de todas as tardes nunca viu traços de uma raposa na personalidade da garota. Sempre a observava, só conseguia enxergar inocência em seus atos, gestos, olhar...

Caminhava sem pressa. Teria muito tempo para realizar o que desejava.

Quando passou pela última rosa, a primeira que encontrou quando chegou ao local, apanhou-a. Sim. Seria com aquela rosa que o maldito ia perecer...

oOoOo

––Ai! Caramba! Não é mole não!––reclamava Koenma da pilha imensa de papéis que precisava assinar.

Uma voz bem conhecida soou do outro lado da porta:

––Entre!––berrou o adorável bebê, sem parar de carimbar e assinar.

––Sr. Koenma!

––Botan, o que que aconteceu?––perguntou parando o que fazia. A expressão da guia não era nada tranqüilizante.

––Alguém raptou a Sassame! O apartamento dela está todo destruído!

––Ai! Caramba! E agora essa? Você falou para mais alguém?

Ela acenou afirmativamente com a cabeça:

––Pro Kurama.

––É melhor eu ficar no mundo dos homens até que toda a situação esteja resolvida. Estamos com problemas demais, meu Deus do céu! Ô, seu Trapezonga! Vem pra cá!

O diabo azul, seu secretário, se aproximou correndo com mais uma pilha de papéis.

––C vai ter que cuidar das coisas por aqui, porque eu vou para o mundo dos homens. Avisa pro meu pai!

––Aaaaah! Senhor Koenma! Espere!––pediu o diabo desesperado, vendo Koenma saindo da sala.

––O mundo dos humanos está com sérios problemas. Se não sanarmos eles lá, acabarão aqui chegando mais cedo ou mais tarde.

“Sim... Não acredito que eles se contentem em dominar apenas o mundo dos humanos...”, continuou em pensamento.

––Sem contar que o mundo dos humanos é responsabilidade do mundo espiritual! Então não reclama e trabalha, seu diabo azul!––terminou energicamente, dando as costas para o pobre coitado quase soterrado de papéis.

Botan e Koenma se dirigiram rapidamente ao mundo dos humanos. Quando chegaram lá, ele tirou um estranho aparelho do bolso.

––Ah, o que que é isso?––perguntou Botan curiosa.

––É um novo aparelho feito com tecnologia de ponta do mundo espiritual––ele podia apenas responder, mas gostava tanto daquele novo item que simplesmente precisava comentar sobre ele.

––E o que ele faz, heim?

––Ele consegue localizar qualquer alma que a gente quiser. Ela estando em um corpo ou não.

––Mas, que legaaaal!!! Deixa eu ver?––perguntou a guia animada, já avançando para o instrumento.

––Sai pra lá!––disse desviando.––Esse aparelho é único, precisamos tomar cuidado porque é a partir dele que vão construir outros.

Botan estava acostumada com a sua fama de desastrada, mas pareceu ofendida daquela vez.

––Vamos lá, então––anunciou ele, ligando o aparelho. Um radar mostrou a posição.

––A gente não devia chamar a turma?

––Não, vamos ver primeiro se ela está bem. Depois pedimos ajuda.

Voaram até as docas. Quando pousaram no chão, Koenma adquiriu sua forma adolescente.

Fizeram o mesmo caminho que Kurama, e encontraram as rosas.

––O que será que significa isso?––perguntou Botan observando as rosas apoiando o queixo delicado com o seu dedo indicador.

––Anda, vamos logo seguir essa trilha.

Assim o fizeram, até chegar no túnel.

––Aaai! Aqui está escuro!––reclamou Botan.

Ela voltou para a sala de maquinários e encontrou lá duas lanternas. Voltou ao túnel.

––Aqui!––disse dando uma para o seu chefe.

Eles correram pelo túnel, até encontrar bem mais à frente o corpo da garota.

Os olhos de Botan se encheram de lágrimas. “Mas, que coisa horrível”, pensou consigo mesma, “Tadinha dela...”.

Ficaram muito tempo em silêncio. O primeiro a falar foi Koenma:

––Vamos tira-la daí––decidiu.

Ele, com a ajuda da guia trêmula, desamarrou e deitou o corpo inerte da ex-futura detetive.

––O espírito ainda não deixou o corpo––observou Botan, entre soluços.

––O espírito dela ainda está... sofrendo com a tortura. Acredita que ainda não acabou, por isso está presa ao corpo.

Botan estava acostumada com a morte e com o fato de ter que levar pessoas queridas para o outro lado, separando-as do seu mundo original. Mas, nem sempre aquela era uma tarefa fácil.

Talvez o pior de seu trabalho fosse ter que trazer as almas à realidade. Mostrar para elas que tinham que ir embora. Ficava imaginando, como conseguiria tirar Sassame do seu corpo? Mesmo que fosse capaz disso, podia lidar com todo o sofrimento daquela alma que já havia se tornado querida para ela?

Ela aguardava a ordem de Koenma para fazer o seu trabalho. Porém, ele permanecia quieto e pensativo.