A Rosa Branca
13 Despedida
Yusuke parou por um momento, fitando a entrada da lanchonete. Sabia que não era justo com Keiko. Amava-a mais que tudo, mas precisava se afastar novamente. Fazia isso para proteger o mundo humano que conhecia. Proteger o mundo em que ele queria viver com Keiko.
Tomou fôlego. Não sabia como ela iria reagir daquela vez. Estavam juntos denovo há tão pouco tempo e já tinha que se despedir novamente. Ela precisava entender que era por ela. Ele precisava mostrar para ela, para que não a perdesse para sempre.
Abriu a porta.
––Já estávamos fechand... Ora! É você Yusuke!––notou o pai de Keiko.
––Oi Tio.
––Espere um pouco, vou chamar a Keiko.
––Não preci...
––Ô KEIKO! DESCE AQUI! KEIKOOO!
––Espera aí! Eu já estou indo!––afirmou uma voz feminina que vinha do andar superior.
––Ela já está vindo––anunciou o pai dela desnecessariamente.
––Obrigado––agradeceu um pouco sem jeito.
Num segundo, a garota descia as escadas:
––Yusuke!––percebeu a presença dele e esboçou um belo sorriso. Mas, logo se atenuou quando contemplou a expressão preocupada do rapaz.––O que foi? Aconteceu alguma coisa?
––Não, não––respondeu sem saber por onde começar.
O pai dela, aí perto, limpava o balcão despreocupado.
––Keiko... Vamos dar uma volta?––convidou quase como uma súplica.
Ela acenou afirmativamente com a cabeça.
––Até mais, tio––despediu-se ele.
––Cuide bem da minha filha, heim?
––Pode deixar––disse exibindo um sorriso confiante.
O pai de Keiko confiava em Yusuke. Conhecia-o desde quando o moleque era apenas um bebê. Não importava o que o mundo dissesse dele, sabia que o rapaz tinha sentimentos verdadeiros pela sua filha.
Saíram do restaurante e começaram a caminhar pela rua. Quando passaram pelo quinto quarteirão Keiko não agüentou mais o silêncio:
––Yusuke?
O silêncio dele a enlouquecia. Ele nunca antes ficou assim com ela. O rapaz decidiu falar tudo de uma vez:
––Tem alguns seres do mal que querem dominar o mundo dos homens e eu preciso ir para as Trevas impedir isso.
––Você... vai embora de novo...?
––Vou...
––E... você vai voltar?
Era diferente da última vez, porque Yusuke não tinha essa certeza. Não sabia se voltaria. O poder do seu inimigo era incrível.
––Eu...
––Sabe de uma coisa, Yusuke?––falou ela, ligeiramente agressiva.––Nem precisa mais voltar!
––Espera, Keiko, eu...
––Vai ser sempre assim entre a gente? Eu te espero por anos, e você vai embora de novo? Eu não estou dividindo a minha vida com você, eu estou esperando a minha vida toda por uma coisa que nunca vai acontecer!
––Não, Keiko, eu...––começou, tentando pegar nas delicadas mãos de Keiko, mas ela desviou.
Ele se conteve. Queria convencê-la que os seus sentimentos eram verdadeiros e que ele queria realmente ficar ao seu lado. Mas, porque faria isso se não sabia se ia voltar?
––Vê se me faz um favor, Yusuke. SOME! E se por acaso você voltar, não precisa nem vir me procurar!
Ela deu as costas para ele correndo pelo caminho de volta entre soluços e lágrimas.
Yusuke, deixado para trás, a observou correndo com um nó na garganta, contendo-se para não correr atrás dela e dar um jeito de resolver aquela situação.
Amargurado, continuou caminhando pela rua, pensando que a sua despedida com Keiko não poderia ter sido mais catastrófica.
oOoOo
A lua cheia iluminava todo o templo de Genkai.
Não foi difícil encontrar uma desculpa para a sua mãe. Como sempre se mostrou um filho muito responsável, Shiori confiava totalmente nas decisões do seu amado Shuuichi. Se ele pretendia fazer uma viagem de estudos, ela o apoiaria completamente.
Subia as escadas do templo. Queria muito conversar com Sassame antes deles se meterem numa missão. Devia ser muito complicado para ela, e ele sentia que era praticamente sua obrigação aliviar o peso de suas costas. Isso talvez por ter sido seu treinador, ou por serem tão semelhantes, ou, quem sabe, apenas porque se importar com ela.
Quase como se uma estrela cadente tivesse ouvido o seu desejo, notou a sombra da garota projetada pela lua. Estava há alguns degraus acima, bem na entrada do templo. Ela balançava uma tulipa de um lado para o outro, distraída.
Deteve-se por um segundo. Lembrou-se com remorso tudo o que ela passou por sua culpa. Talvez ela mudasse com ele depois disso.
Ela sentiu um aroma conhecido no ar. Os seus poderes de youko a deixavam cada vez mais sensitiva. Ergueu os olhos e se deparou com a imagem do rapaz ruivo. Sorriu:
––Kurama!
Os receios do youko se desmancharam no sorriso dela.
––Sassame, como você está?––perguntou subindo os últimos degraus e sentando num próximo a ela.
––Eu estou bem. Mas, e você? Genkai me disse que você tinha saído para uma missão, quando eu acordei. Fiquei preocupada.
Aquela última frase fez com que Kurama sentisse um grande conforto.
––Não precisava, não foi nada muito perigoso.
––Kurama?
––O que?
––Todas as missões são assim? Quero dizer, cheias de lutas e tudo o mais?
––Geralmente... Por que? Isso te incomoda?
––Mais ou menos...––ela parou por um instante, mas logo prosseguiu.––No começo não era assim, mas agora eu me sinto diferente quando eu luto.
––Como assim?
––Eu senti isso treinando com Genkai... É como se alguma coisa dentro de mim quisesse vir à tona. Alguma coisa que eu desconheço... e para ser bem sincera, eu tenho medo disso.
Kurama podia imaginar como era o drama de viver com um youko adormecido dentro de si querendo o tempo todo se libertar.
––Não se preocupe. Enquanto você estiver com a gente, nada vai te acontecer––disse numa tentativa de confortá-la. Mas, não sabia se poderia protege-la dela própria.
Ela sorriu para ele em agradecimento. Ficaram por um tempo em silêncio, apenas sentindo o frio da noite, observando a paisagem noturna e apreciando a presença um do outro. Nenhum dos dois havia feito isso antes, era estranhamente confortante.
––Sabe o que é?––disse a garota, cortando o silêncio.––Eu acho que eu não quero me lembrar...
––Do seu passado?
––É. Eu sinto que eu tive uma razão para esquecer de tudo... Essa sensação é muito forte.
Não era momento para consola-la, por mais que não quisesse ser duro com ela, tinha que ser sincero:
––Não tem como você fugir disso para sempre. É uma parte de você. Ao invés de esquecê-la, talvez você deva aprender a lidar com ela.
Mesmo que ela quisesse muito saber a opinião dele, acabou soando mais dura e rígida do que ela imaginava. Mas, no final das contas, acabou aceitando que deveria ser assim mesmo. Até porque ela, de certa forma, sabia disso dentro de si.
––É... Acho que você tem razão.
Ficaram em silêncio por mais alguns instantes. Logo depois, cada um foi para um quarto do templo descansar. Afinal, o dia seguinte seria cheio.
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