A Rosa Branca
2 Descontrole
Notas iniciais
Assim que saiu da prova, dirigiu-se à enfermaria. A garota dormia tranqüilamente e sua energia parecia ter se estabilizado num nível normal de um ser humano comum.
Não tinha muito mais o que fazer ali, a não ser dar tempo ao tempo. Já havia entregado sua prova, não tinha como voltar para prossegui-la. Decidiu ir embora, e esperar uma ordem do mundo espiritual que com certeza já devia ter percebido a perturbação que a garota causava ao redor de si. Como havia previsto, pouco depois de sair do prédio, se encontrou com Yusuke que passou as ordens.
Alheia a toda a realidade, Sassame adormecida na enfermaria controlando inconscientemente todo o seu poder, retendo-o e acumulando-o gradativamente, como se formasse um núcleo poderoso de energia pouco abaixo de seu coração.
Abriu os olhos e encarou o teto.
“O que?”, murmurou em pensamento. Era aquilo, ela não estava mais fazendo a prova, tudo havia terminado. Respirou aliviada, certamente. Porém se sentia constrangida. Devia ter dormido durante a prova toda, e ao final o professor deve ter percebido que não estava bem e a levou até a enfermaria, supunha ela.
Levantou-se e tocou o chão frio com a ponta dos pés. Não havia ninguém na enfermaria. Ela calçou os sapatos e caminhou até a porta. Sentia-se bem, talvez aquilo tudo que passou tivesse sido apenas um colapso nervoso gerado pelo estresse da prova.
Alguns alunos saiam das salas de aula, todos com expressões de cansaço.
Ela saiu do prédio e foi caminhando pela rua. Esperava que ninguém tivesse ligado para a casa dela para avisar que tinha se sentido mal. Mas, que besteira! “Ninguém iria se importar com isso mesmo!”, murmurou consigo mesma.
Era fim de tarde e o sol começava a baixar.
Parou no ponto de ônibus. O sol parecia não fazer questão de acompanha-la até em casa, e caiu antes que seu transporte chegasse.
Sentiu um olhar. Virou-se para o lado e percebeu um grupo de jovens rapazes se aproximando do ponto.
“Eles só vão pegar um ônibus. Eles só vão pegar um ônibus...”, repetia mentalmente, quase como um mantra de proteção. Agarrou-se a sua bolsa como se ela fosse deixa-la invisível.
Os rapazes se aproximavam lentamente. Ela não os encavara, mas sentia seus olhares: ameaçadores, malignos...
Movimentou-se para o lado para sentir a reação deles, eles aceleraram o passo. Ela correu.
O vento noturno parecia não ajudar no calor abafado que a envolvia. Seu coração pulsava descompassado, mas seus passos eram firmes e velozes.
Eles a ofendiam, usavam palavras baixas que ela não podia e nem queria compreender. Apenas se concentrava em correr, correr e correr.
Tentou gritar, pedir uma ajuda desesperada. Mas o grito ficou entalado em sua garganta, impedido por sua respiração frenética.
Tropeçou. De joelhos, limpou o suor com a manga da blusa. Sua energia parecia sufoca-la, tentava uma respiração desesperada.
“O-o que é isso?”, indagou-se olhando as próprias mãos exalando uma energia avermelhada muito forte.
Os rapazes pararam em volta dela num círculo. Ela os observou tremendo.
“Chi-chifres?”, observou. Estava enlouquecendo só podia.
––Pa-pare, estou su-sufocando...––pediu para aquela onda de calor que a envolvia.
A sua volta os demônios já não se preocupavam mais em esconder suas formas originais, eles começavam a se aproximar zombando da garota e se sentindo superiores perto do desespero dela:
––Mas que criaturazinha deliciosa encontramos
––Sim, foi uma sorte mesmo que a tenhamos encontrado. Com a energia espiritual que ela tem, nossos poderes vão crescer muito mais rápido! Que tipo de humana será que ela é?
––E isso importa?––perguntou dando um primeiro passo na direção dela.
Os demônios estavam ocupados demais em seus sonhos de grandeza para sentirem o odor de rosas que infestava o lugar. Sim, ele estava pronto. Com o seu chicote em mãos, apenas aguardando para ver se a garota ia ou não se defender. Ela, no centro dos acontecimentos, parecia apenas lutar para conseguir colocar um pouco de ar nos pulmões.
O demônio mais próximo avançou com suas horrendas mãos, ansiando por desferir um golpe certeiro e mortal.
Kurama pulou e precipitou seu chicote para prender o braço do demônio, mas não foi necessário. Toda a energia que envolvia a garota foi enviada, voluntariamente ou não, para o chão, e logo várias plantas, provavelmente nascidas de sementes que ficaram ali em baixo por anos, destruíram o asfalto e perfuraram todos os inimigos de uma só vez.
O youko por pouco também não foi atingido, mas pousou sobre uma das plantas que crescia monstruosamente graças a energia que ela dispensara.
Concentrando-se, ele parou com o crescimento de todas elas, e a energia restante se dissipou no ar.
A garota pareceu enfim conseguir encher seus pulmões de ar. Mas perdeu os sentidos antes que pudesse se dar conta do que acabara de fazer.
oOoOo
Um calor confortável de cobertas macias a envolvia. Não era como aquele calor sufocante. Era aconchegante, confortável... Respirou e sentiu um cheiro delicioso de rosas. Não pôde deixar de sorrir, adorava plantas. Todas e de todos os tipos. Abriu os olhos com medo que fosse encarar algo com o que precisasse se preocupar, queria continuar naquele conforto para sempre...
Viu uma rosa pousada sobre o criado mudo... Engraçado, era vermelha, havia imaginado uma branca.
Moveu-se na cama para ampliar o seu ângulo de visão. Estava em um quarto, não era o dela, não estava sozinha.
Levantou-se subitamente. Onde estaria? Quem era aquela pessoa parada do lado da janela olhando a lua com uma expressão cansada e olhar... tão frio?
––Não se esforce. É melhor que descanse mais um pouco––disse o rapaz ruivo, voltando-se para ela. Sua voz era gentil e doce, e o seu olhar pareceu ter tomado as mesmas características ao perceber o seu movimento.
Ela se sentiu estranhamente familiarizada com aquela pessoa, interiormente perdeu o medo e o seu coração se abrandou. Porém, seu lado racional pedia para que fosse cautelosa:
––O que estou fazendo aqui?
––Você foi perseguida hoje à noite. Há algumas horas, na verdade. Acabou desmaiando e eu a trouxe para cá. Não sabia onde mais poderia leva-la.
Mil lugares sensatos passaram por sua mente, o primeiro: hospital. Mas, pensando em outros lugares, descobriu-se ilógica de preferir aquele à mercê de um estranho cujas intenções não conhecia. Porém sentia que não eram más.
––E... o que aconteceu?
––Nada, você simplesmente desmaiou e eu te trouxe para cá.
––E eles?
––Desapareceram.
O que era verdade num sentido simbólico. Ele não sentia a mínima vontade de mentir para ela. Mas, sem conhecer as intenções do mundo espiritual ficava difícil definir qual era a postura exata que deveria tomar. De qualquer forma, supôs que Koenma queria apenas saber se ela era uma ameaça e que o youko a controlasse.
––Quem é você?––perguntou ela afinal.
Pensou entre Shuuichi e Kurama. Não fazia muito sentido dizer seu nome humano para alguém cuja o envolvimento era causado pelo mundo espiritual. Mas, não fazia muito sentido também revelar-se um demônio raposa para alguém que levava a vida como um ser humano comum e aparentemente não mantinha mais ligações com o seu passado. Mas, provavelmente isso acabaria mudando, se ela continuasse a demonstrar tamanho descontrole sobre seus poderes. De qualquer forma, não era momento de explicar sobre demônios e humanos para ela e, entre a desconhecida vontade do mundo espiritual e a proteção da sua identidade, decidiu usar seu nome humano:
––Shuuichi Minamino.
Ela voltou a encostar a cabeça no travesseiro sentindo um odor tranqüilizante provocado pela erva que Kurama estava usando para fazer com que ela adormecesse novamente.
“Shuuichi é um nome gentil demais para alguém com um olhar tão frio...”, pensou adormecendo, com a primeira imagem de Kurama que havia visto em sua vida gravada na memória: o olhar que possuía quando pensava de forma calculista. O olhar da sua parte youko...
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