A Rosa Branca
3 A proposta de Koenma
Notas iniciais
Abriu os olhos novamente. Estava sozinha no quarto.
“Ih! Caramba! Eu dormi a noite inteira aqui?”, perguntou-se ligeiramente rubra.
Levantou-se. Estava com as roupas totalmente amassadas.
Queria ir embora. Estava sem jeito por ter passado a noite inteira lá. Ainda mais na casa de um completo estranho! “Kami-Sama! Onde eu estava com a cabeça? Eu TINHA que ter ido embora assim que eu acordei”.
Ela empurrou a porta do quarto que estava encostada. Ouviu vozes: uma gentil e suave, outra estridente e muito, muito alegre.
Andou pé ante pé até se aproximar das vozes. Estavam na cozinha conversando.
––Então é isso, Kurama.
––Não é muito cedo para ela ser levada ao mundo espiritual?
––Não podemos esperar mais tempo. Ela já deve estar vendo há algum tempo demônios andando por aí. E se deixarmos para mais tarde as coisas poderão se complicar.
Nisso ela tinha razão. Quanto mais rápido a garota aprendesse a lidar com o seu poder, mais cedo ela deixaria de ser um risco para si mesma e para os outros a sua volta.
––Sem contar que o mundo espiritual está precisando de mais detetives. Principalmente agora que o rei Enma está viajando––continuou a guia espiritual.
Isso explicava tudo. Quando Enma não estava, ficava tudo para Koenma resolver. O que sempre era uma carga pesada para o pobre Enma-júnior.
Sassame apareceu timidamente na porta. Botan deu um pulo toda alegre, pegando nas mãos dela:
––Oi! Seu nome é Sassame, não é? Está pronta?
––Ahn? O que? Ahn?
Kurama, próximo das duas, não expressou a negação para com a atitude da exaltada guia. Aquela talvez não fosse a melhor forma de explicar. Mas, ele mesmo não saberia direito como fazer, se tivesse que fazer.
Botan instantaneamente mudou seu jeans e sua camiseta branca para um quimono rosa e invocou um remo, que apareceu como por magia em suas mãos.
––Vamos, Sassame! Você tem que conhecer uma pessoa!––disse já pegando no pulso da garota e a arrastando para fora da janela. Voando numa velocidade alucinante pelo céu tão azulado quanto os cabelos da guia.
“Será que o mundo espiritual trata todos os seus detetives assim?... O que é que eu ia fazer mesmo? Ah é!”, falava consigo mesmo mentalmente. Pegou o telefone discando um número muito rotineiro para ouvir a voz amada de sua mãe.
oOoOo
––Aaaaah!!!––gritava Sassame enquanto a guia a levava acima do rio Sanzu.
––Mas quanto escândalo!––reclamou Botan, como se tivesse moral para fazer aquilo.––Eu não vou te derrubar não garota!
Logo avistaram os imensos portões. Botan pousou.
––É a Botan. Trouxe Sassame Yamaguchi––disse para um interfone.
E os portões se abriram. Depois de passarem pelos seres apressados que levavam pilhas e mais pilhas de papéis de um lado para o outro, avistaram Koenma.
Sassame ficava quieta e apenas seguia Botan.
––Sejam bem vindas, relaxem.
––Essa é Sassame Yamaguchi––anunciou Botan.
––Ótimo. Uhn, ela parece bem educada. Me lembro que Yusuke já me ofendeu logo no primeiro dia!––recordou Koenma.
––Quem é esse bebê?––perguntou Sassame para Botan, que exibiu um sorriso de tensão.
Koenma sentiu uma gota percorrendo por sua testa. Botan a puxou para o lado e cochichou:
––Esse é Koenma, filho do grande rei Enma. Tome cuidado!
––Enma? Eu morri?
––Não––respondeu o exaltado e pequenino bebê.––Você está aqui porque pode fazer uma escolha.
––Que escolha?––perguntou confusa. Não conseguia levar aquilo tudo muito a sério, já achava que ainda devia estar dormindo na cama macia de Shuuichi Minamino, sendo envolvida pelo conforto e um delicioso cheiro de rosas.
––Você pode se tornar uma detetive espiritual e desenvolver os seus poderes, ou voltar para casa, sem nenhuma lembrança deste dia.
––O que é detetive espiritual?
––Uma pessoa que resolve casos que o mundo espiritual, no caso nós, determinamos.
––E o que eu ganho com isso?
Foi uma pergunta cortante, sem dúvidas. “Mas que interesseira”, pensaram Koenma e Botan em conjunto, sem se dar conta disso.
––Você irá desenvolver toda a sua habilidade e aprenderá a controlar a sua energia espiritual!––respondeu Koenma, como se fosse uma grande promoção de calçados de primeira linha.
––Uhn... Acho que quero ir para casa––falou com sinceridade.
––Pense bem!––pediu Koenma.
Um telão começou a exibir imagens de momentos em que ela usou os seus poderes sem perceber, quando sua energia era dissipada por ela não saber controlar, quando ela sufocava por não conseguir dissipa-la...
“De onde foi que surgiu esse telão?”, ela se perguntou por um instante, mas logo em seguida o adorável e elétrico bebê a sua frente puxou uma cordinha que o fez desaparecer.
––Terrível, não? Mas isso tudo pode acabar! Se nos deixar ajuda-la!
Ela pensou por um instante.
––E como vão me ajudar?
––Você receberá treinamento de um ex-youkai como você. Ele te ensinará a controlar os seus poderes.
––E-ex-youkai???
––Isso mesmo. Andei pensando em quem seria ideal para treinar você.
“Pensei em muitos detetives e ex-detetives para saber quem seria ideal para treinar você”, pensou Koenma, “Yusuke não tem nenhum talento como discípulo, como mestre deve ser um desastre total. Os detetives atuais estão empenhados em missões, não sobrou nenhum. Os ex-detetives estão vivendo suas vidas de maneira muito diferente, não posso pedir para nenhum deles que mudem suas vidas depois de terem dedicado tanto tempo e energia ao mundo espiritual. Pensei na mestra Genkai, ela treinou muitos lutadores fortes e provavelmente a treinaria se eu lhe pedisse. Mas, foi aí que eu pensei em outra pessoa. Uma pessoa que é muito semelhante a você”.
––Espere um instante!––pediu, sem saber o que passava pela mente de Koenma.––Você está me dizendo que eu sou um youkai? Um demônio?
––Investigamos o seu passado quando percebemos o seu poder espiritual e descobrimos que você é um demônio refugiado que encarnou num corpo humano. Pelo seu comportamento atual sabemos que perdeu a sua memória.
Sassame despencou na cadeira atrás dela. Era um demônio? Um ser horrendo como aqueles que a atacaram durante a noite?
––Não quero ser um demônio...––murmurou baixinho, aterrorizada pela idéia.
––Não se preocupe, você não vai deixar de ser quem é. Só vai aprender a manipular a sua energia.
Ela pensou um instante:
––Não tem como eu fugir disso? Vocês não tem um jeito de fazer essa coisa toda parar? Essa energia?––perguntou com uma leve ponta de esperança.
––O que existe em você, é seu. Só você pode manipular isso.
Ela amoleceu na cadeira:
––Er... Bem... Está bem...––concordou afinal.
––ÓTIMO!––gritou Koenma animado.
––E esse demônio que vai me treinar? Quando vou conhecer ele?––perguntou aterrorizada, imaginando um monstro com mil chifres, verde, babento e com um odor fétido.
O telão apareceu mais uma vez, agora com a imagem do gentil Shuuichi Minamino.
––Acho que já o conhece. Ele é Kurama, um youko. Ele faz alguns servicinhos aqui para o mundo espiritual de vez em quando para pagar alguns crimes que cometeu no passado. Enfim, espero que se dêem bem.
Ela olhou estática a imagem do rapaz. Era bonito demais para ser um youko.
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