A Roda
2 Capítulo 2

Scarlett, apesar de estar um pouco zonza pelas bebidas, teve como sua missão chamar um táxi enquanto tentava acalmar Hayley e manter Brooklyn em pé. Enquanto o esperava, percebeu que a garota, assim como Brook (e ela própria), tinha escolhido representar a sua ancestralidade em sua fantasia, o que foi denunciado pelo tom da pele e, agora que chorava menos, outra coisa perceptível eram olhos levemente estreitos, que antes se escondiam por trás das lágrimas e manchas ainda frescas de rímel em seu rosto; estas tendo sido cuidadosamente limpas em papel toalha no banheiro. Durante esse momento de observação, Brooklyn ria de uma menina que caíra no chão, parecendo tão bêbada quanto ela, enquanto andava na direção de seu carro, nada muito importante, mas que fazia a asiática torcer para que a risada sóbria dela fosse menos escandalosa que a bêbada.
Alguns minutos depois, o táxi finalmente chegou e Scarlett posicionou as duas outras garotas no banco de trás, se sentando na frente e logo dando as direções para o taxista:
— Primeiro, vá para a delegacia mais próxima, por favor — virou o rosto para Hayley e continuou a falar, agora se dirigindo a ela e sentindo o carro começar a se movimentar — Onde você mora? É aqui em Nova Orleans mesmo?
— Na verdade, não, mas... — parecendo pensar sobre o que acontecera com ela, choramingou, conseguindo se recompor logo depois. — Mas eu moro numa irmandade... Eu vim pra cá de carro, com uma das garotas, e... Merda. Esqueci o celular. Eu sou inútil, mesmo — suspirou, percebendo o quão estúpida estava parecendo naquele dia.
— Não, não é inútil. Só não é esperta — Brooklyn se intrometeu, falando bobagens pela bebida enquanto o taxista fingia estar dormente àquela conversa.
— Hayley, eu te empresto o meu celular. Brook, fica quieta, mas antes me diz onde vai ficar.
— Eu tenho uma casa, sabia? Ela fica na... Na... Esqueci.
Scarlett respirou fundo, fechando os olhos para não dar um tapa na garota bêbada. Definiu que iria para casa e, dando seu endereço para o taxista, fixou o olhar na janela. Passaram alguns minutos em silêncio até que a nova-iorquina voltou a falar, agora questionando sobre a entrevista que faria, o que despertou a curiosidade de Hayley. Por isso, a asiática explicou que poderiam fazer a entrevista em algum outro dia "afinal, imprevistos acontecem"; e logo se pôs a falar sobre sua ideia para a garota, adorando as chances que tinha para apresentar aquilo para outras pessoas. Explicou que a Roda era um documentário independente sobre bruxas, composto principalmente por entrevistas com bruxas, e antes que pudesse explicar que o projeto era financiado com dinheiro que ganhava escrevendo colunas e notícias para um "jornal virtual" e com o dinheiro arrecadado no Kickstarter, recebeu o primeiro sorriso da havaiana, que rapidamente explicou que era uma bruxa também e que, de bom grado, aceitaria ajudar no projeto. Se surpreendendo um pouco pela rápida mudança de atitude depois de muito tempo triste pelo abuso que sofrera, Scarlett falou que a ajuda dela seria bem vinda, com um sorriso no rosto, e ao mesmo tempo o táxi chegou ao seu primeiro destino. A asiática pediu para que ele esperasse ali e pediu para que Hayley ajudasse Brooklyn a sair do carro, já que não sabia o que o taxista faria com uma garota bêbada no banco de trás — sentimento, claro, omitido na fala.
Assim que as três já estavam do lado de fora da delegacia, Scarlett segurou a garota fantasiada como uma caveira e a ajudou a subir os degraus que iam até a porta do lugar. Enquanto isso, perguntou:
— Hayley, tem certeza de que quer fazer isso? Contar para a polícia, quero dizer.
A garota pareceu pensar por algum tempo, mas logo pareceu chegar à conclusão de que, por já estar ali, não valia a pena desistir. Limpou as próprias lágrimas e, então, abriu a porta da delegacia de polícia, deixando que suas amigas entrassem. Felizmente, a pessoa responsável por ouvir as denúncias era uma mulher, e isso pareceu deixar a havaiana ainda mais segura para falar sobre o que tinha acontecido. Achando já ter respondido a pergunta de Scarlett com suas ações, se posicionou em frente ao balcão e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu uma reclamação por parte de sua "futura interlecutora":
— Tira essa bêbada daqui — agora se dirigindo à garota que estava na sua frente, voltou a falar — O que aconteceu com você?
Bufou e, enquanto ouvia os passos das suas duas amigas saindo do local pelas ordens que receberam (Brooklyn, claro, se apoiando à outra), começou a falar:
— Hm... Eu sofri uma tentativa de estupro. No... Qual o nome do lugar? Sagittarius Club. Isso.
— Okay, uma tentativa de estupro — disse a policial, começando a digitar com certo desinteresse o crime relatado — Onde fica essa boate?
— Fica na Bourbon Street, French Quarter. Acho que lá tem câmeras, mas não sei o horário certo em que tentaram fazer algo comigo.
— Aham. Quantos agressores eram?
— Ativamente, 2, mas outro cara me perseguiu a festa toda.
— Pode os descrever?
— Era uma festa à fantasia, então não sei como eles se parecem normalmente, mas... Na hora da festa, um deles usava terno; ou seria um smoking?; mas seu rosto estava pintado como um esqueleto. Parecido com a "bêbada" que estava aqui, sabe? O outro de que me lembro tinha cabelo azul, mas usava máscara, luvas e, assim como o outro, terno. Foi esse que me observou a festa inteira, e eu vi ele conversando várias vezes com o esqueleto. Já o outro, não faço ideia de quem seja, mas tenho certeza que foram 4 as mãos que me puxaram pro banheiro masculino.
— Então nós temos 3 caras, dois fantasiados e um desconhecido?
— Sim.
— E você está me dizendo que conseguiu correr deles e que ninguém viu você sendo puxada pra dentro do banheiro masculino?
— Também.
— Vou ver o que eu posso fazer por você — respondeu, secamente, a policial loira.
— Que bom que vai — disse Hayley, que se antes estava triste, agora se encontrava cheia de ódio. Não sabia o porquê, mas tinha achado que seria diferente, apesar da deficiência de informações. Talvez estivesse vendo TV demais — E, nem ao menos perguntou meu nome. Sou Hayley Kealoha, 19 anos. Boa noite.
Virou-se e, com passos fortes, saiu da delegacia, ouvindo a risada da guarda e o flash de uma câmera enquanto fazia isso. Sentindo-se ridicularizada, desceu logo as escadas na direção de Scarlett e antes que qualquer pergunta fosse feita já começou a dizer: — Não vai dar em nada. E acho que estarei no Facebook como uma maluca que “invadiu” a delegacia com uma bêbada e, bem... O que você é?
— Não conhece gueixas? — perguntou a jornalista, enquanto ajudava Brooklyn a se levantar do degrau onde estava sentada — E pode pegar o celular da minha bolsa. Está na parte da frente.
— Ah, obrigada. Já tinha me esquecido... E, okay, gueixa —, disse a garota, finalmente percebendo o quão rápido tinha sido o desenvolvimento daquela “amizade”, mas tentando não se importar com isso enquanto pegava o celular. Deu-o para Scarlett, que colocou a senha e logo o tomou em suas mãos novamente, começando a discar o número de sua amiga.
De primeira; conseguiu ligar. Disse para a amiga onde estava, sendo recebida por risadas de “acredita que eu esqueci de você? Já estou indo!” e, tendo ficado com um pouco mais de raiva por isso, desligou o telefone sem se despedir e entregou para a asiática. Gueixa. Pff.
— Ela já está vindo, então, podem ir. Obrigada por tudo. Pode me passar o seu número? — pediu por último, como uma despedida e um lembrete de que queria participar do projeto com entrevistas.
— Posso sim. Espera um pouco... — disse Scarlett, pegando seu bloco de anotações e uma caneta de sua bolsa logo depois de colocar o celular dentro dele. Anotou o número nele e arrancou a folha, a entregando para Hayley. Então, se virou e, segurando forte a mão de Brooklyn, começou a andar na direção do táxi — Até mais!
♥
A casa da jornalista em Bywater não era tão grande, mas dava para o gasto. A nova-iorquina que carregava consigo disse achar interessante o fato de muitas das casas da cidade terem cores vibrantes e gostou também do forte tom de azul que as paredes tinham, por mais que só as tivesse visto através das luzes dos postes da rua. Mas, logo em seguida, ela falou sobre a quão bonita era uma rachadura que estava no chão. Como o álcool, de repente, pareceu ter seu efeito quadruplicado na mente da garota, Scarlett resolveu levá-la logo para dentro de sua casa, tirando sua coroa de flores e colocando numa estante de sua casa.
Rapidamente a levou para o banheiro, pegando uma maleta com maquiagens e demaquilantes nunca usados. Assim que chegou lá, tirou um desses demaquilantes de dentro dela, abrindo–o e logo começando a tirar a maquiagem da amiga. Enquanto isso, informou–a de que dormiria no sofá e, depois de algumas reclamações, veio uma tentativa de dizer “Hm... Talvez não seja tão ruim”. Assim que a ‘pintura mexicana’ havia desaparecido da face da outra, levou-a para se deitar e desligou as luzes da sala — que era composta principalmente por dois sofás pretos e confortáveis, uma mesa de centro amarela, uma janela e uma TV, que se encontrava em cima de um rack vermelho — de paredes brancas.
— Boa noite — disse.
— Bom noite — “retribuiu” Brooklyn, de uma forma cômica.
Com uma risadinha, saiu da sala, indo para o banheiro e começando a tirar a própria maquiagem. Não tinha tirado nenhuma foto dela mesma, mas quando percebeu isso, já estava na metade do processo e parecia tarde demais. Resolveu despir-se do kimono de uma vez e, assim que tirou toda a sua maquiagem, tirou também as sandálias pretas, fechando a porta — afinal, tinha uma bêbada em casa, apesar desta estar aparentemente dormindo — e entrando em seu box. Ligou o chuveiro.
Logo cedo na manhã seguinte, com a latino-americana ainda usando o vestido da noite anterior — mas agora usando um casaco da “japonesa” por cima dele —, a câmera já estava em seu tripé. O cenário da entrevista era básico: A parede branca da sala, que naquela parte do dia, quando a janela era aberta, tinha uma ótima iluminação para gravação.
— Qual o seu nome e idade? — começou Scarlett, buscando ter uma imposição mais disciplinada na voz, como achava que uma entrevistadora devia ter.
— Brooklyn Hernandéz Young, mas costumo usar apenas “Brooklyn Young”. Magicamente falando, gosto de me apresentar aos deuses como “Bellarosa”. Tenho 26 anos.
— Hm... “Bellarosa”? — perguntou, com certa dificuldade e sotaque na pronúncia da palavra — Por que esse nome?
— Rosas são minhas flores favoritas e, quando comecei meus trabalhos mágicos, eu me senti muito atraída por Vênus e por toda a ideia de ser bela, mesmo sendo diferente dos padrões, além das rosas serem, claro, muito bonitas também. Resolvi juntar esses dois “fatores” e, assim, montei o nome mágico.
— Então você nem sempre trabalhou com santos católicos em suas magias?
— Não, não, — soltou um sorriso, logo voltando a falar — quando comecei, resolvi me livrar de qualquer relação com a religião cristã, que era a que minha mãe, a não-latina da família, tentava impor em casa. Mas, quando vi minha vó paterna praticando sua brujería para curar enfermos que buscavam sua ajuda em nosso restaurante, que fica no Brooklyn, percebi que poderia usar os santos na minha bruxaria “neopagã”. Uma espécie de sincretismo religioso, mesmo.
— Oh. Interessante. E sei que tem uma relação com a Santa Muerte. Como chegou até ela?
— Muitas pessoas não sabem, mas a Santa Muerte é, além da personificação da morte, padroeira dos LGBT, já que na morte todos nós somos iguais. Eu faço parte do “B” e como acho que qualquer outra pessoa no meu lugar ficaria, achei esse conceito bem interessante e me senti atraída pelo trabalho com ela. Eu tenho até mesmo uma estatueta dela que, como pediu para trazer, eu trouxe — respondeu, sem medo de ter chocado Scarlett com a revelação de que era bi. Pegou o objeto que estava em seu bolso, incrivelmente intacto mesmo depois das quedas e dramas da noite anterior, e o mostrou para a câmera. Era uma caveira branca, coberta com uma “túnica” azul e segurando uma balança em uma de suas mãos — Eu a usei em um dos meus rituais há poucos dias para comemorar o Samhain, então ela ainda está “cheia” de boas vibrações recentes. Não é linda? — terminou, com um sorriso.
— Sim, é muito bonita, haha. Sua mãe é cristã, o que me leva a outra questão: Como ela reagiu ao descobrir que era bi e bruxa? E como a comunidade bruxa age sobre a comunidade LGBT?
— Sobre a bruxaria, acho que minha mãe ficou mais calma do que quando contei pra ela que era bi. Por mais que vivêssemos em Nova Iorque, ela ainda tinha uma mente muito fechada. Para falar a verdade, eu me mudei pra cá para “fugir” do julgamento dela, confesso. — começou a dizer rapidamente, com um olhar triste nos olhos, tentando fugir do assunto — E os bruxos não têm uma Bíblia ou algo assim que determine esse tipo de coisa. Mas, claro, homofobia e transfobia são independentes de religião; e existem pessoas assim mesmo na bruxaria. A única diferença é que os bruxos não escondem seus preconceitos atrás de um livro sagrado e sim com outros argumentos. Por exemplo, há pessoas que falam que mulheres trans não podem fazer certas coisas relacionadas ao que é conhecido como “Sagrado Feminino” por não engravidarem, menstruarem e amamentarem. Eu não sei se é o meu lado “militante” falando, mas eu acho isso um absurdo, sabe?
— Hm... Acho que entendo o seu ponto. E não sei como minha mãe ficaria caso eu fosse bruxa, mas ela ficou em choque quanto contei pra ela que era lésbica. Sim, eu entendo mesmo o seu ponto, mas não quero falar muito sobre isso, e...
— Que horas são? E você corta essa parte depois, se quiser. — disse Brooklyn, tentando fugir do assunto ao mesmo tempo em que fazia uma pergunta “séria”.
— Ahm... 6 horas.
— Hoje é segunda? — perguntou, parecendo assustada.
— Hm... É sim.
— Puta que me pariu! — exclamou, já se levantando e assim obrigando Scarlett a virar sua câmera para a direção dela, tremendo a câmera e quase focando na mão que guardava a estatueta da santa no bolso.
— O que foi?
— Tenho que trabalhar.
— E trabalha com o quê?
— Sou psicóloga. Tenho que estar na clínica às 08:00.
— Corre! — riu Scarlett, desligando a câmera logo após daquele momento cômico.
Acompanhou a garota até a porta de entrada e a viu correr para longe, provavelmente procurando um ponto de ônibus ou algo assim, sem nem se dar conta de que o casaco que vestia não era o dela.
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