A Roda
3 Capítulo 3 - Parte 1

"Jovem encontrada morta em acidente perto do Sagittarius Club", leu a asiática na tela do seu notebook, alguns minutos depois de Brooklyn ter saído da sua casa. A notícia estava no site de um jornal local, e ela logo tratou de clicá-la, logo "devorando" a notícia e descobrindo o que tinha acontecido: a garota estava dirigindo o carro em uma alta velocidade, provavelmente embriagada, e bateu o carro num poste que ficava a uns quinze metros da boate.
Lembrou-se, então, do que ocorrera na noite anterior, pouco antes do táxi chegar, pensando em voz alta:
— Essa garota... Ontem mesmo era a Brooklyn rindo dela, né? — arregalou os olhos, só então percebendo que tinha visto uma garota bêbada entrando num carro e começando a dirigir na contramão, sem nem fazer algo para pará-la — Que droga. A culpa não é minha. Não é da Brooklyn, também, a culpa é da garota mesmo e... Mas eu podia tê-la parado. Mas a Hayley também... Okay, eu não tenho culpa de tudo. E estou falando sozinha. Tenho que parar, né? E pra que esse "né"? — Devo estar endoidando, concluiu, fechando o notebook preto e o colocando de lado na sua cama.
Levantou-se e tirou o pijama — que, sim, ainda usava —, logo resolvendo que "caminharia" sem rumo pelo bairro, tirando fotos das casas e coisas assim. Não que não estivesse acostumada com ele. Era o seu bairro. Mas, do mesmo jeito, ainda se sentia maravilhada pelos estilos das casas e percebeu que nunca escrevera nada sobre ele como jornalista e como precisava de um artigo... Já decidida de que faria isso, vestiu uma suéter preto e uma calça vinho. Calçou sapatos pretos e, para "complementar", colocou um chapéu preto que exalava uma aura hipster.
Pegou, por último, a câmera e o celular, já indo na direção da saída. Posso começar um Tumblr pr'A Roda, pensou, ajeitando seu cabelo preto e dando uma última olhada em si mesma com a câmera frontal do celular. Guardou-o no bolso e, ainda segurando a câmera, saiu de sua casa, seguindo na direção da casa dos seus vizinhos.
Enquanto andava na calçada, começou a examinar as pequenas diferenças entre as outras casas e a dela. Por mais que o tamanho das casas parecesse o mesmo, elas tinham cores diferentes e algumas portas ficavam mais altas que as outras, obrigando os moradores e visitantes delas a subir escadas de poucos degraus antes de entrar nelas, por exemplo. Outra coisa era a diversidade das cores do bairro, dada pelas cores "inusitadas" das casas.
Um forte exemplo disso era um trio de casas que estavam a sua frente: uma casa vermelha entre uma roxa e uma amarela, todas em tons claros e até mesmo escandalosos, mas nada muito estranho para os padrões do bairro. Encantada com a visão, tornou aquela "paisagem" na primeira das fotos do dia, enquadrando as casas juntamente do céu nublado e se satisfazendo com o resultado.
Voltou a andar pela rua, agora percebendo o silêncio e a calma em que o local estava, mesmo sendo uma manhã de segunda-feira. Ignorando a estranheza disso, Scarlett se limitou a sorrir e aproveitar a boa sensação que o silêncio a causava no momento. Aproveitou para tirar fotos de várias casas, algumas vezes tirando mais de uma até que conseguisse um bom resultado, enquanto poucas pessoas saíam de casa e iam para seus carros, alguns tão coloridos quanto suas casas e, claro, dignos de fotos que logo foram tiradas. Um deles tinha até mesmo a cor do carro da sua vó, que era tão colorida quanto aquele bairro.
Ah, sim, a sua vó. Isso logo a lembrou da "quebra" que dera na entrevista, ao sair do tema "bruxaria" e entrar no tema "LGBT". Se não fosse pela sua vó, ela provavelmente não teria se assumido aos seus 18 anos. Uma pena que ela tivera que morrer por isso.
Estava no hospital, 6 anos antes d'A Roda ser colocada em prática. Era dia 25 de março, 2009. O clima era agradável, já que estavam na primavera, mas a situação que passava não tanto: sua vó, numa cama de hospital, definhava sob as regras de uma doença crônica que afetava seu pulmão. Scarlett e seu pai eram as acompanhantes da senhora no momento e uma médica e alguns enfermeiros estavam junto deles no quarto, rodeando a senhora asiática que, rouca e tossindo bastante, tentava olhar para o rosto de sua neta para dirigir a ela suas últimas palavras:
— Em algum lugar lá fora está um bom homem, minha querida — foi obrigada pela tosse a fazer uma pausa. — E ele está esperando por você.
Não tardou muito para que ela finalmente fechasse os olhos, o que despertou uma lágrima no rosto da jovem. Seu pai a envolveu com os braços fortemente enquanto os médicos pareciam tentar fazer, em vão, algo para que Usagi Souma acordasse, começando a chorar em seu ombro enquanto ela observava, atônita, toda a situação. Sua avó havia acabado de dizer que tinha um homem lá fora para ela; mas não era isso o que ela queria, por mais que nunca tivesse deixado isso explícito.
Em um choro que oscilava entre o segredo e a morte da vó, a garota se libertou do abraço do pai e correu para fora do hospital. Mais tarde, naquele dia, contou para a família sobre ser lésbica.
O choque da família a levou a ficar um mês fora de casa.
Balançou a cabeça, afastando os pensamentos sobre o seu passado e logo voltando sua atenção para a rua que estava prestes a atravessar. Mais um carro, dessa vez azul, havia acabado de passar perto dela, sendo seguido por um vermelho e um cinza, que era o único "sóbrio" que vira no dia.
♥
A garota terminava de revisar o breve artigo sobre a vida em seu bairro em seu notebook, agora colocado em cima de uma mesa e plugado ao carregador, quando recebeu uma ligação em seu celular. Bufou, irritada pelo momento infortuno da ligação. "Big Bad ♏ XO bye" e dois emojis de coração era o nome na tela. Quando tinha se descuidado e deixado o celular com Brooklyn por alguns segundos, Scarlett não se lembrava, mas achou melhor atendê-la:
— Hey.
"Oi, Scar. Tudo bem?"
— Não me chama de Scar — disse, mais uma vez tentando não soar muito rude.
"Souma, que tal?", retrucou a escorpiana.
— Não, não. Me chama de "Starlet", de novo. Eu gosto.
"Hm... Pode ser."
— Então, pra que me ligou?
"Sabe que nem eu sei?", riu a garota.
— Sério?
"Claro que não. Eu queria saber se podemos nos encontrar, finalmente, no cemitério St. Louis. O primeiro deles! Hoje às duas. Recomendo levar um tripé."
— Eu quero ir sim, mas... você não é muito imperativa não?
"Ótimo. E, meu amor, eu sou a imperatriz. Até logo, Starlet", e desligou, sem dar chance para uma resposta. Nada inesperado, pensou a jornalista.
Colocou o celular em modo avião, checando o horário antes de prosseguir com sua revisão. Pouco tempo depois, o material já estava pronto e foi enviado por e-mail para a editora do jornal. Realizada, a garota tomou liberdade para se levantar da mesa onde estava e se jogar no sofá, ligando a TV e aproveitando o ócio por reinar no resto da tarde. Levantou-se algumas vezes para pegar comida e ir ao banheiro, sempre sendo rápida para não perder nenhum pedaço do filme que passva. Em plena luz do dia, as espadas de Kill Bill — o Volume 1 — se atracavam na tela, sangue espirrando para todo lado no que era, provavelmente, seu filme favorito. E então veio o Volume 2.
Quando se lembrou do horário marcado, já estava em cima da hora. Sem tempo para trocar as roupas que usava desde a manhã, colocou os sapatos, pegou a câmera — sem se esquecer, claro, de colocar o tripé pequeno e dobrável dentro da bolsa — e seguiu na busca por um táxi.
Ela realmente precisava de um carro próprio.
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