Notas iniciais
Espero que gostem. ♥

Ao se olhar no espelho, Scarlett se sentiu como uma gueixa desfigurada: O busto pálido pelo pó branco; resultado de um esforço de três horas, tinha a aparência de fragilidade quebrada por um exagero na sombra presente nas pálpebras da garota de olhos estreitos, que era formada por tons fortes tons de azul e roxo, contrastando com o tradicional vermelho usado pelas asiáticas. O mesmo contraste brilhava nos lábios da garota, onde o batom roxo e propositalmente manchado na direção de sua bochecha esquerda se destacava, dando um aspecto insano ao seu rosto. Perfeito.

Sem se preocupar em usar um sutiã, vestiu um short preto e cobriu-se então com o longo kimono branco, que ousadamente revelava um “decote” em sua parte frontal, e era coberto por estampas de flores negras. Os sapatos que calçou, por sua vez, eram simples chinelos pretos, mas que combinavam com o conceito da fantasia. A morena de cabelos longos estava fazendo os últimos preparativos para uma festa de Halloween, e agora finalmente se sentia pronta para ela. Ligou para um táxi e logo se pôs a esperar do lado de fora, observando as horas em seu celular a cada minuto e tendo o cuidado de segurar a sua discreta bolsa de mão com força, quase sem perceber o toque de seu celular, mas conseguindo atendê-lo a tempo:

— Eu já estou indo, Brook. Pegou o que eu pedi, né? — perguntou, tentando soar educada.

“Claro que peguei! Só liguei pra avisar que estou bebendo”, respondeu a voz, “Então, já sabe onde me procurar quando chegar aqui. Logo vejo você.”

— Vê — confirmou, sorrindo. Aquele encontro seria, provavelmente, um grande passo para seu projeto. Desligou o telefone e, enquanto o táxi começava a parar para que entrasse, a garota o colocou dentro da bolsa, checando também se o batom, as chaves e a carteira que estavam dentro dela.

“A Roda”, finalmente, começaria a tomar forma. Um projeto já imaginado pela garota há tempos, um documentário idealizado pela jornalista como uma forma de tanto conhecer mais a bruxaria — apesar de não ter muitas crenças nela— e, ao mesmo tempo, mostrar o trabalho para o mundo como um filme independente. Por mais que fosse um trabalho simples, ela já imaginava um resultado final bem bonito, cheio de entrevistas sobre as vidas das mulheres que se sujeitaram a viver em um estilo “alternativo” de religiosidade.

Uma pena que esse plano tivesse que começar com uma nova-iorquina bêbada.

Realmente, Brooklyn estava bebendo. Tendo uma grande tolerância a álcool, a garota virava gole após gole de bebidas coloridas e variadas enquanto esperava ansiosamente para ver Scarlett, que ela torcia para estar tão ansiosa quanto ela. Desde que lera sobre o projeto na internet uma semana antes, havia ficado curiosa e logo se inscreveu, tendo achado a ideia da garota algo fantástico; nunca ouvira falar de um documentário feito com entrevistas de bruxas americanas, e muito menos de alguém cético (ceticismo esse que foi deduzido pela nova-iorquina, e não declarado pelo “alguém”) e ao mesmo tempo disposto a viajar pelos diversos estados do país para ouvir e organizar depoimentos de várias mulheres conectadas à magia de alguma maneira. Na verdade, a garota — que, tentando fugir da extravagância, usava um vestido curto e preto, tendo como “fantasia” uma tradicional pintura mexicana em seu rosto e uma coroa de flores — teve até mesmo uma surpresa ao perceber o quão rápido a outra percebera que tinha certa crença no pregado pelas tradicionais brujas mexicanas, fazendo seus pedidos e simpatias para santos algumas vezes, enquanto ao mesmo tempo não tentava se afastar de difundidas crenças neopagãs, e uma surpresa maior ainda quando a outra fez um pedido inusitado: pediu que levasse uma imagem da Santa Muerte, uma espécie de morte personificada e santificada, para a sua entrevista.

Mas, claro, esse sentimento de surpresa apenas a deixou ainda mais animada, e é óbvio que ela trouxera uma imagem da Santa Muerte, que acabara por ser a mesma que usara na noite anterior — a festa, apesar do tema, começara na noite do primeiro dia de novembro, e não no último de outubro — durante um ritual para a celebração do Samhain, “Ano Novo” bruxo. Esperava, assim, que as boas energias que depositara na estatueta iriam ajudá-la a dar boas respostas ou algo assim.

“Espero que me ajude, mesmo”, concluiu o pensamento, parando para prestar atenção na música que o DJ (que por sinal estava vestido de Frankenstein — ou só era feio, mesmo) começara a tocar, chegando a se mexer um pouco na cadeira do bar. Sentiu uma vibração no bolso de seu vestido e, tendo imaginando do que se tratava, se levantou do lugar onde estava e logo seguiu na direção da entrada, desviando da pista de dança com maestria e já preparando um sorriso para receber a ‘amiga virtual’.

Felizmente, Scarlett era uma asiática chamativa entre branquelos.

— Finalmente! — Disse Brooklyn, com um sorriso convidativo ao oferecer um aperto de mão à sua entrevistadora, que parecia magnificamente fodida dentro daquele kimono, aspecto criado, provavelmente, pelo batom que, mesmo enquanto sua boca estava fechada, a obrigava a sorrir. A festa ainda estava em seu início, a música não muito alta, e por isso a conversa era facilitada.

— Brook, você está perfeita. Sério, — recebeu como resposta — tá parecida com a Lana Del Rey em uma cena do Tropico.

— Scar, eu sou mexicana. É ela que se parece com o meu povo. E, claro, isso é incrível pra caralho. Obrigada.

— Não me chame assim. E, eu sei que é... Não estava bebendo, então? — Mudou o assunto, parecendo envergonhada por ter soado racista.

— Okay, starlet. Vou te chamar de Scarlett, como é o seu nome. Quer que te chame de Souma, também? — riu um pouco, dando a entender que estava brincando, apesar de ter sido rude — e, estava. É que eu recebi sua mensagem e resolvi te buscar, mesmo. Estava super ansiosa pra te conhecer! Temos muito sobre o que conversar ainda... Mas, onde? Quero dizer, a entrevista. Em que canto vamos fazer? Oh, desculpa. Falando demais, né? — respirou fundo, dando uma pausa brusca em sua fala rápida e com uma certa dicção latina em seu sotaque nova-iorquino.

— Hm... Isso é meio vergonhoso, certo? Haha — disse a 'gueixa', olhando para os lados. Poderiam ter certa privacidade no banheiro, mas gravar lá seria estranho. Falar sobre religião enquanto bebe uns drinques com novos amigos (talvez) machistas de bar, enquanto ignora cantadas indesejadas e segura a câmera de forma desajeitada, pensando em quanto trabalho vai dar editar todos os sons e imagens desnecessárias depois? De forma alguma! Apesar de um bom ponto de encontro, aquela boate não parecia apresentar nenhuma forma de privacidade para a conversa que as garotas queriam ter. Resolveu ser sincera. — Não tinha pensado nisso. Só achei que aqui seria um bom lugar por ser uma festa de Halloween, mas... Por que não dançamos, bebemos ou qualquer coisa assim, antes de eu fazer a entrevista? Podemos ir para outro lugar... Que tal o cemitério?

— Caricato demais... Topo — piscou a esqueleto e, quase que involuntariamente, segurou a mão da outra e a levou para a pista dança. 212, de Azealia Banks, começava a tocar. — É a minha música. Espero que entenda.

Algumas danças depois, as duas já se encontravam em um estado que beirava a embriaguez. Scarlett, sentada numa cadeira vermelha, bebia agora um daiquiri de morango e elogiava o cabelo de Brooklyn, que agora bebia algo que brilhava em azul e que, para ela, tinha um gosto bom o bastante para fazê-la dar um abraço apertado na recém conhecida. Foi então que sentiu algo se mover em seu bolso e, num baque, ouviu o celular cair do bolso do vestido para o chão. Desfez o abraço antes que este tivesse qualquer chance de ser retribuído e se abaixou com certa dificuldade para pegar o dispositivo, logo concluíndo:

— Acho que agora já estamos bêbadas o bastante para ir pro cemitério. Eu só tenho que ir pro banheiro, e... Me ajuda a levantar.

— Ajudo — saindo de sua cadeira, a jornalista estendeu a mão e ajudou a outra a se levantar, enquanto apoiava o seu próprio corpo na mesa do bar. Lembrou-se de deixar gorjeta para o bartender e logo acompanhou a outra até o banheiro, por mais que no estado físico e mental em que estava o local já parecia ficar numa distância bem maior do que realmente ficava.

Depois dos minutos que mais pareceram horas até o banheiro, a música começando a perturbar sua cabeça e um aperto forte em sua bunda que viera do nada, Brooklyn precisou de alguns segundos para raciocinar e entender o que estava acontecendo dentro dele. Viu as lágrimas negras descendo pelo rosto da garota que parecia estar a uns 20 metros e percebeu que sua fantasia estava rasgada onde não deveria, mas não conseguiu fazer nada além de cair no chão quando Scarlett a soltou e foi logo socorrer a garota.

"O que aconteceu com você?", ouviu, enquanto ainda tentava se recompor.

"Eu não quer... E...", disse a nova voz, entre soluços, parecendo realmente afetada.

Conseguiu se levantar enquanto ouvia o diálogo se desenrolar em tentativas de obter respostas por parte da asiática, e conseguiu ouvir coisas como "mãos", "abuso", "indiferentes" e "corri". Bem, isso já dava uma ideia sobre o que tinha acontecido com a garota, e também sobre o porquê as flores de seus colares havaianos estavam rasgadas, assim como uma das alças de seu biquíni de conchas brancas estava abaixada e o fato de um de seus sapatos ter se perdido.

"Vamos sair daqui. Eu vou te ajudar, de algum jeito. Prometo", ouviu, escorregando um pouco no chão, mas se sustentando na pia até chegar a "Aloha Girl".

— Você vai ficar... — tentou dizer em bom tom, sendo interrompida tanto pela própria embriaguez quanto pelo pranto da menina que acabara de encontrar — bem.

— Eu sou Scarlett, e essa é Brooklyn. Confie em nós, por favor. Qual o seu nome? — a jornalista tentou tomar conta da situação, ajudando a menina a limpar as lágrimas como uma forma de reafirmar o desejo de ajudá-la.

— Hayley — recebeu como resposta, pouco antes dos olhos da garota voltarem a lacrimejar. — Hayley Kealoha.

Notas finais
Se algo ficou confuso, podem me perguntar pelos comentários, que eu tento explicar. Sério. :v