A Revolta Dos Olimpianos

2 Todos Odeiam a Visita de Nosso Parente Olimpiano


— Eu preciso falar com Percy Jackson.

Tânia disse com tanta convicção que achou que realmente iam atender ao pedido. Mas os ocupantes da mesa nem olharam para ela. Quíron balançou a cabeça com tristeza e o Sr. D nem teve a decência de indicar que tinha ouvido. Tânia vacilou, descruzando os braços e parecendo desesperada.

— Querida. – Quíron mal havia começado a falar e ela já sabia a onde aquilo ia dar. – Eu já te disse, isso não é possível...

— Me mandem para onde ele está! – Ela suplicou. — Não me importo.

— Mas ele se importa, criança. – Sr. D resmungou, jogando suas cartas na mesa. – Jonathan pediu especificamente para não ser incomodado.

— Jackson. – O centauro corrigiu. – Percy já passou por muita coisa, querida, ele realmente não quer...

— Então qualquer outro! Annabeth, Jason, Nico...

— Ela só esta repetindo os nomes famosos do ano passado. – Sr. D revirou os olhos, parecendo cansado daquela pequena discussão de cinco minutos. – Enfie nessa sua cabecinha, nenhum deles aguenta mais ser incomodado.

— Não tem nenhum herói disponível? – Ela perguntou, esfregando uma mão na outra com nervosismo.

— Você está em um acampamento cheio deles. – O deus disse, implacável. – É esse o problema de vocês, sabe? Não acreditam no próprio taco. Querem que alguém resolva tudo. Que foi garotinha? Papai te mandou uma missão e você não esta a fim de cumpri-la?

Tânia corou, em fúria. Ela abriu a boca para dar uma resposta mal educada, mas Quíron lhe lançou um olhar penetrante, fazendo com que ela se segurasse. Respirou fundo e disse na voz mais controlada que pode:

— Não é uma simples missão. Eu tenho tido sonhos...

— Já conversamos sobre esses sonhos. – Quíron pareceu alarmado a leve menção deles. Olhava para o Sr. D de esguelha. – Escute Tânia, se quiser sair em uma missão, é só...

— Não! Vocês não entenderam nada. Por isso eu gostaria que Percy estivesse aqui. Vocês não ouvem o resto de nós, só porque são imortais e poderosos e todo o resto! Patéticos!

Sr. D pareceu inflar. Suas bochechas já anormalmente grandes estavam muito mais coradas do que de costume, como se ele realmente tivesse exagerado no vinho. Ele apontou um dedo gorducho para Tânia e rosnou num tom muito sério:

— Agora escute aqui, pirralha. Essa sua arrogância já está me cansando. Esses sonhos são pura bobagem, o Olimpo está bem, ou eu teria ouvido alguma coisa certo? Agora suma daqui, antes que eu transforme você em uma ratazana. E a menos que um deus caia de um meteoro aqui no acampamento, eu não quero ouvir mais palavras sobre...

BUM!

Uma forma luminosa muito intensa havia colidido com a parede de escalada. Parecia uma bola de fogo muito grande, ou um meteoro muito pequeno. Os campistas pararam suas atividades imediatamente e foram para o local, gritando de empolgação e receio. Quíron bateu o casco no chão com nervosismo e olhou para o Sr. D com um olhar de “você que pediu”, indo em direção a coisa que aos poucos se apagava. Tânia também lançou um ultimo olhar ao deus, que parecia absolutamente embasbacado e seguiu o centauro.

No meio de toda balburdia e lava que saia da parede de escalada danificada, estava um carro. Uma ferrari vermelha novinha. A maioria dos campistas olhavam admirados do carro para a figura que acabara de sair dele. Era um rapaz não muito mais velho que a maioria ali, com ar de surfista, cabelos loiros até os ombros e um rosto bem, digamos, perfeito.

— Ah, isso vai dar um trabalho para vocês depois. – Apolo balançou a cabeça, mas não parecia muito triste com o ocorrido. – Ah, olá meus filhos.

Ele acenou para o grupo de campistas mais a sua esquerda. Eles arregalaram os olhos, parecendo admirados e em um instante cerca de vinte deles se ajoelharam. Os outros campistas seguiram o exemplo, mesmo os que não eram filhos do deus.

— Ótimo, ótimo. — Apolo sorriu para eles com carinho. – Agora, onde está meu irmãozinho?

— Meio irmão. – Sr. D resmungou, caminhando até eles com as mãos atrás das costas. – Não precisava dessa entrada melodramática. Você poderia avisar quando vem visitar.

— Não tive tempo, dias corridos, sabe? – o deus sol piscou. Algumas garotas abafaram risadinhas. Tânia não estava entre elas. – Temos um assunto a conversar. Creio que recebeu a carta.

— Recebi. – Dioniso parecia entediado. – Veio me convencer, é?

— Algo assim. Mas não do que você pensa. Ares...

Algumas pessoas apontaram para o céu. Outra bola de luz colidiu com o acampamento, dessa vez batendo diretamente com a quadra de basquete, deixando-a em chamas. Os campistas estreitaram os olhos por causa da luminosidade. A moto ainda pegava fogo quando outro deus saiu dela. Aquilo não deixou o diretor do acampamento nada feliz.

— CHEGA! Destruindo a propriedade, sinceramente! Os dois são palermas! – ele apontou de um deus para o outro, com um astucia incrível considerando que ambos eram maiores e mais musculosos que ele. – Agora o Pai vai dizer que a culpa é minha, vocês vão ver.

— Ora ora, pelo menos dessa vez você chegou mais cedo, irmão. – o deus da motocicleta riu, ignorando Dioniso. Ele usava óculos escuros e tinha um ar feroz. Todos se ajoelharam novamente, saudando Ares.

Menos Tânia. Seus corpo inteiro tremia. Os sonhos... Eles estavam corretos então. Ela evitou olhar para o Sr. D com um ar de eu bem que avisei, pois o diretor já parecia nervoso o suficiente.

— Mas acho que vai perder novamente. – os olhos em chamas de Ares brilharam. – O próprio Dioniso aqui acaba de admitir que a culpa sempre recai sobre ele. Injusto não? Você devia ver, maninho, o quanto os três poderosos lá são babacas. Deveria se juntar a mim.

— Sua ideia é completamente estúpida, Ares. – Apolo balançou a cabeça. – Dioniso, não o escute. Você sabe o que significaria mais uma guerra.

O Sr. D não olhou para Apolo quando falou. Seu rosto estava completamente inexpressivo.

— É claro, guerras nunca são boas. Mas ele tem razão. Há tempos demais estou preso aqui, por causa de uma ordem idiota do pai...

— Você sabia!

Tânia estava indignada. Ela encarava o Sr. D com fúria. O deus arqueou as sobrancelhas.

— Você fingiu que eu estava sonhando bobagens! Tem uma semana que eu estou tentando avisar...

— Claro que sabia, tolinha, mas isso não cabe a crianças metidas a heróis como vocês.

—Na verdade, eles também estavam em meus planos. – Ares comentou, apontando para os campistas. – Não há guerra de verdade sem semideuses envolvidos não é mesmo? A parte mais divertida!

— É melhor deixa-los fora disso. – Quíron parecia sem saber o que fazer. Ele batia o casco constantemente, formando sulcos na terra.

— Ah, mais foi Apolo que começou. Mandando planos para essa ai. – o deus da guerra indicou Tânia com o olhar. – Nem nos próprios filhos confiou! Uma filha de Zeus, novamente o favoritismo para aqueles três.

— Isso não tem nada a ver com favoritismo. – Apolo disse, parecendo pela primeira vez ameaçador. – Você está tentando virar meus próprios filhos contra mim, não vai funcionar.

Mas Tânia pensava o contrario. Alguns dos campistas de Apolo, alias, a miravam com olhares de fúria e inveja. Ela não se encolheu, recebendo os olhares de queixo erguido. Os Deuses continuavam a discutir como se não houvesse mais ninguém ali.

— Você deveria saber que depois de convencer Atena, qualquer outro seria muito simples. Algumas promessas aqui, palavras que querem ser ouvidas ali. Alguns pareciam relutar, mas todos estão sentindo a tirania no Olimpo. E logo você, Apolo, que foi castigado severamente no ano passado, esta defendendo aqueles três.

— Alguém pode, por favor, dizer o que está rolando?! – O líder do chalé de Poseidon, Gabriel Saturnino, gritou.

— É, vocês não deviam ficar ai falando da gente, nós podemos ouvir, sabe? – Quézia, de Afrodite, comentou com indignação.

Os deuses encararam os campistas como quem encara um cachorrinho relativamente irritante, mas engraçadinho. Outros semideuses começaram a protestar também. Ares ergueu as mãos e o silencio foi tão instantâneo que pareceu feito por mágica.

—A soberania dos três Grandes chegou longe demais. Esta na hora de acabarmos com isso. Juntem-se a mim, jovens semideuses, e vamos trazer a justiça! Vocês não estão cansados de terem os poderes comparados aos filhos dos Três? De serem esquecidos, ridicularizados?

— Não o ouçam. – Apolo interferiu. – Muitos de vocês não sabem o que é a guerra. Não é algo divertido. Recusem-se a lutar. Isso é uma briga entre os Deuses, não entre seus filhos.

— Ah, esqueci de mencionar. – Ares disse com um sorrisinho maldoso. – Quem não lutar será considerado igualmente traidor aos olhos da nova ordem do Olimpo.

Ele deu as costas a multidão e subiu na Harley, ciente dos sussurros que deixara para trás com sua declaração. O deus ligou o motor e deu partida, mas antes pareceu pensar em mais uma coisa e olhou diretamente para Apolo.

— Mais uma coisinha. – ele remexeu na bolsa que trazia a tiracolo. Tirou de lá uma coisa irreconhecível. – O motivo pelo qual eu atrasei.

E jogou a coisa na multidão. Uma garota do chalé de Atena pegou, mas soltou no mesmo instante com um grito agudo. A coisa rodou no chão, até os pés de Tânia. Era uma cabeça, os olhos arregalados de medo, a boca aberta em um grito já silenciado. O cabelo era verde, trançado com flores e folhas.

— Uma amostra do que acontece com quem me contraria. – Ares deu partida e saiu como um meteoro em chamas do acampamento.

Aquela era a cabeça de Deméter.