Notas iniciais
Hello! Muito obrigada por dar uma chance a essa história.

Recomendo dar uma olhadinha no blog antes de iniciar a leitura, para entender melhor o cenário: https://the-reconquest.tumblr.com
Senha do blog: blackfyre

Boa leitura ♥

Eliar->

O Arquimeistre pousou a máscara de aço valiriano na mesa de carvalho, soltando um suspiro pesado. Ele odiava reunir-se com os outros do Conclave da Cidadela, mas, àquela altura, isto soava como o menor dos males pelos quais passaria.

Tudo aquilo havia começado com uma visita inesperada, e que predizia ainda mais caos e derramamento de sangue em um futuro próximo. Então Eliar sabia que em breve seus suplícios pareceriam uma brincadeira de criança, o pior ainda estava por vir.

A noite em que a Princesa chegara foi uma noite escura e fria. Eliar estava sozinho em seu quarto, como sempre estava. Desde que havia se tornado um meistre, e jurado celibato eterno para servir à Cidadela, ele evitava receber visitas femininas em seus aposentos. Ainda assim, ele não esperava que, quando finalmente estivesse com uma mulher ali, seria um presságio de morte.

—Você sabe porque eu vim— a jovem havia dito, abaixando o capuz e revelando o rosto sardento— Você também tem sonhos.

Eliar não soube como responder à Princesa bastarda, pois de fato já havia sonhado com ela antes, mas nunca a havia conhecido. Ainda assim, ela havia cavalgado sozinha até Vila Velha, e ido falar com um homem que poderia ser seu inimigo para salvar sua família e seu reino.

—Alteza— Eliar se inclinou antes de mais nada, em uma mesura baixa, quase exagerada— Eu adoraria ajudá-la. Mas não faço ideia do que está me pedindo.

Elaena Blackfyre tinha um rosto oval e delicado, com longos cabelos platina e olhos violeta. Eliar tinha certeza que a maioria das pessoas a consideraria bonita, mas, naquele momento, para ele, ela parecia uma garotinha assustada.

—Meistre. Meu pai está morrendo. Meu irmão vai me usurpar. O reino está queimando. Eu não tenho tempo para enrolação— a voz da moça era firme, seus olhos, porém, estavam assustados— Eu te vi no sonho, você é a pessoa que vai me dar respostas. Porque você também viu.

—O que eu vi, Alteza?

—Que os Targaryen vão voltar para nos destruir.

Um momento de silêncio denso, grave, se estendeu entre eles. Eliar deu um passo para trás, cambaleante, sentindo como se o chão tivesse sumido de sob os seus pés. Elaena continuou parada ao batente da porta, braços caídos ao lado do corpo magro, a expressão em medidas iguais frágil e resignada.

—Alteza, os meus sonhos nunca mentiram para mim antes. Eu vi a senhorita usando uma coroa, mas eu também os vi voltando. Com fogo e sangue.

Elaena parecia carregar toda a tensão do mundo em seus ombros. Mandíbula e lábios apertados, formando uma linha fina e tesa, testa franzida, cada músculo do corpo espástico; mas, naquele momento, foi como se ela desabasse. Eliar teve de dar um passo à frente e ampará-la, pois teve a impressão de que ela iria desfalecer. O Arquimeistre conseguiu sentir a textura pegajosa de suor gelado e o tremor das mãos da jovem. A Princesa, contudo, recuperou sua compostura antes que um desmaio pudesse tombá-la, e se firmou novamente em seus pés, soltando um suspiro longo, e exausto.

—Os meus sonhos também nunca mentiram para mim. E eles também vem me mostrado fogo e sangue— a voz dela saiu pouco mais alta que um sussurro, os olhos ainda arregalados e aterrorizados, como os de uma corça prestes a ser abatida.

Eliar não sabia o que responder. Toda aquela circunstância parecia inusitada e irreal demais para que ele soubesse como se comportar. Ele era conhecidamente um legalista, apoiador ferrenho dos Targaryen. Havia servido como tutor para príncipes e princesas, sancionado decretos e leis, dado conselhos, e lutado pela dinastia até o fatídico dia em que os Blackfyre conseguiram tomar o poder. Ele estar vivo era quase que um milagre, mas também fruto de muita negociação e diplomacia da sua parte. Ele deveria odiar Elaena Blackfyre, como odiava toda sua família e o que eles representavam. Mas, olhando aquela garota que teria idade para ser sua filha, e seus olhos enormes e violetas cheios de medo, ele sentiu pena.

Ela era uma Almirante, uma guerreira, uma líder. Provavelmente poderia matá-lo, se quisesse. Eliar sabia que ela estava perto de Vila Velha somente pois havia acabado de voltar de uma conquista nas Marcas de Dorne. Elaena tinha apenas dezenove anos, mas já tinha sangue em suas mãos pálidas e sardentas. Quando desposasse seu irmão, seria uma futura rainha, a mulher que continuaria a comandar o reino e a perpetuar o legado de terror de seus pais. Ela não era nenhuma santa, muito pelo contrário, e ele sabia que estava sendo tolo em sentir qualquer tipo de piedade. Mas não conseguia evitar.

—Eu tentei falar com os outros Arquimeistres— Eliar disse, a voz gentil— Eles são homens da ciência. Não acreditam em sonhos, e presságios.

—Meus pais também não acreditam. Nem meu irmão. Mas eu sei que eles estão voltando, e que não estaremos prontos— Elaena disse, os olhos se enchendo de água— Eu preciso fazer alguma coisa. Você precisa me ajudar.

“Não seja tolo, Eliar, eles não ousariam pisar nessa terra novamente”— o Arquimeistre Dovan havia garantido quando Eliar tentou avisar aos outros do Conclave. Eliar sabia que ele estava enganado, tinha certeza que suas ciências ocultas eram tão credíveis quanto as outras, mas já estava acostumado a uma dose de desconfiança vinda dos outros Arquimeistres. Todos os eles eram homens racionais, expoentes de suas áreas, e a grande maioria não dava grande crédito aos conhecimentos ocultos que Eliar estudava desde jovem. Ele poderia ter um título igual ao de todos eles, e um assento ao Conclave da Cidadela, mas ainda assim era tratado com uma dose de condescendência na maior parte do tempo.

“Não venham chorando e implorando por proteção quando o pior acontecer, então”— Eliar havia declarado, com uma firmeza que demonstrara em pouquíssimas vezes frente aos seus colegas— “Eles não são conhecidos por sua misericórdia, e duvido que nos pouparão por nossas traições”

Falar com Elaena Blackfyre era uma traição em si só. Mas Eliar já sabia que estava condenado de qualquer forma.

—Alteza, eu posso tentar apelar ao Conclave novamente— Eliar disse, ainda sem conseguir tirar os olhos de Elaena— Talvez se o aviso partir de nós, o Rei e a Rainha tomem providências.

Elaena se parecia demais com o garoto, Eliar concluiu. Era por isso que ele não conseguia evitar seu impulso de protegê-la. O garoto também costumava ter traços valirianos e olhos assustados, também era um Príncipe, também carregava aquela mesma tensão nos ombros. Como Elaena, era talentoso, e atormentado por sonhos que não conseguia controlar. Diferente da garota, que sempre teve tudo sob seu perfeito e rígido controle. Eliar havia educado ambos, o garoto e a garota, gêmeos tão parecidos que, quando menores, era difícil distingui-los. Mas o garoto sempre foi seu preferido.

Quando a invasão Blackfyre havia chegado, e a Reconquista, se iniciado, ele foi o primeiro a aconselhar que ambos fossem mandados para fora do continente. Não poderia suportar a ideia de vê-los em perigo, ou pior, mortos. Infelizmente, sabia que não pôde protegê-los como deveria. E eles haviam pagado o preço pelos pecados de seus antepassados, como Eliar um dia pagaria o preço por seus próprios pecados.

—Eu seria eternamente grata, Arquimeistre Eliar. E teria uma dívida com o senhor— a Princesa disse.

Eliar parou por um segundo, e refletiu. Em verdade, havia uma maneira com que Elaena poderia pagar a dívida, uma maneira que não traria grande risco para ela, e que poderia ser proveitosa para ambos, em longo prazo.

—Vossa Alteza pode saldar essa dívida hoje, se assim desejar. Prefiro ter amigos e aliados do que favores a cobrar— Eliar comentou.

—Diga, e estará feito— ela respondeu.

Eliar caminhou até uma gaveta nos fundos do quarto, e, de um compartimento secreto, retirou uma carta.

“À E. Targaryen” estava escrito no envelope branco e simples. A letra era do próprio Eliar, uma cursiva pequena e sinuosa.

—Preciso que entregue essa carta— ele disse, simplesmente— Então estaremos quites.

Elaena encarou o envelope, hesitando. O sobrenome deve tê-la pego de surpresa, mas Eliar viu reconhecimento cruzando seu olhar.

—É para a viúva de Rhys Targaryen?— ela perguntou, mais para confirmar do que qualquer outra coisa.

Eliar assentiu.

—Sim. Você a conhece?

—Conheço. A carta estará nas mãos dela assim que eu retornar para Porto Real— Elaena garantiu.

Alguns poucos detalhes adicionais foram trocados, outras palavras e preocupações, compartilhadas. Quando a Princesa estava prestes a partir, novamente puxando o capuz para tampar o rosto, Eliar a chamou:

—Alteza?

—Sim, Arquimeiste?

—Ninguém pode saber que esteve aqui. Ou sobre essa carta— ele disse.

Elaena sorriu suavemente. Eliar pôde, pela primeira vez, ver uma mulher adulta, não uma menina, à sua frente. Parecia mais segura, e confiante, a futura monarca que era, não a adolescente que parecia ser.

—Não é de meu feitio relatar minhas ações aos outros— ela garantiu— Além disso, também prefiro manter nossa amizade em segredo.

—É o mais prudente, Alteza— Eliar concordou— Viaje com cuidado. Espero receber notícias da senhorita em breve.

—Você irá— ela disse— Também irei esperar notícias suas.

Com um último aperto de mãos, se separaram, e Eliar voltou a trancar a porta.

Tudo isso havia sido uma semana antes, quando Eliar ainda estava criando coragem para convocar uma reunião do Conclave. Aquele havia sido o grande dia, e não havia sido nada como ele havia esperado.

Agora, novamente em seus aposentos, Eliar se despia de todos os acessórios de aço valiriano e seda cara que usara durante a reunião. Detestava essas formalidades, mas elas eram necessárias para impor o mínimo de respeito. Ele sentia falta dos poucos anos de real prestígio que experimentara em seu cargo, quando ficara encarregado pela educação de seus dois alunos mais promissores. Naquela época, ele era respeitado e honrado. Isso até o garoto falhar. E talvez esse tenha sido o maior erro de Eliar: desistir quando o garoto desistiu.

Um vento forte e repentino fez a janela do quarto bater, o que sobressaltou o velho Arquimeistre, o arrancando bruscamente de seus pensamentos. Ele suspirou, aliviado, ao constatar que não se passava de uma corrente de ar, e foi até a janela fechá-la. Pensar sobre os irmãos, sobretudo sobre o garoto, sempre o deixava sensível. Mas ele tentava nunca pensar sobre a garota. Ela foi seu maior fracasso, e ele não gostava de pensar o que poderia ter acontecido caso ele não tivesse sido tão cego, naquela época. De qualquer maneira, havia sido apenas um vento, e Eliar estava com sono, então não planejava ficar longe de sua cama por muito mais tempo.

—Sabe, professor, você já deveria saber a essa altura que nunca é apenas um vento— uma voz feminina escarneceu, e Eliar imediatamente estacou, sentindo os músculos travando e o sangue gelando em suas veias.

Ele se virou lentamente, e encontrou a dona da voz casualmente recostada contra janela fechada. A garota costumava ser magra e desajeitada, com traços afiados demais para um rosto tão inocente. Agora, ela era uma mulher de aparência impactante, não bonita no sentido clássico da palavra, mas também era difícil desviar o olhar dela. A filha da Donzela e do Estranho, com ângulos delicados e olhos que pareciam cortar a alma, e Eliar se pegou complemente indefeso sob a mirada pálida e invernal da moça.

—O que foi, professor, não está feliz em me ver?— ela deu um sorriso cínico, se afastando da janela e começando a rondá-lo, com a mesma paciência e graça com que um predador analisaria sua caça— Achei que eu fosse sua aluna favorita, agora que meu irmão está morto. Ou talvez o senhor esteja muito amigo de Elaena Blackfyre e tenha me esquecido.

A profecia falava sobre o sétimo filho de um sétimo filho. Mas valiriano era uma língua de pronomes neutros. Se ele ao menos tivesse enxergado na época que a profecia não era sobre o garoto, e sim sobre ela, talvez o destino dos irmãos pudesse ter sido diferente.

—Eu não tive culpa pela morte do seu irmão— Eliar finalmente conseguiu forçar as palavras entaladas a saírem de sua garganta— Permaneci leal e tentei ajudar até o último segundo, mas a Cidadela deve ser imparcial.

A mulher riu, um som gelado e cortante que fez Eliar perder todas as esperanças de encontrar misericórdia em seus olhos frios.

—Você se tornou mesmo um velhote ingênuo, não é?— ela zombou, fechando o cerco ao redor ele— É claro que você não poderia proteger meu irmão, você não tem sequer uma fração do poder deles. Mas eu poderia tê-lo protegido, se estivesse aqui. Se vocês não tivessem me forçado a fugir.

Ela parou de frente ao Arquimeistre. Costumava ser uma garotinha frágil, mas agora era quase um palmo mais alta do que ele. Eliar sabia que a constituição física era o menor dos temores que deveria ter a respeito daquela mulher, mas não pôde deixar de se sentir minúsculo e indefeso.

—Eu sinto muito pelo que aconteceu com ele. De verdade— a voz do homem saiu em um fio, à beira da quebra, mas o rosto da mulher continuou impassível— Mas eu poderia te ajudar agora. Eu poderia te ajudar a conseguir sua vingança.

A esperança quase ressuscitou no coração assustado do Arquimeistre quando a mulher ficou em silêncio por alguns segundos, o encarando no fundo dos olhos. Esperança que morreu rapidamente, pois a expressão que surgiu no rosto de sua antiga aluna foi um sorriso sádico e cruel.

—E que utilidade um velhote assustado poderia ter para mim? Ainda mais um que nunca conseguiu entender direito os próprios sonhos— ela zombou— Você poderia ter sido meu mestre, meu guia. Você poderia ter sido o professor da criança da profecia. Mas tudo o que você enxergou em mim foi uma garotinha sem valor, do mesmo modo que você enxergou em meu irmão um valor que ele não tinha. Você é tão inútil agora que eu sequer precisaria matá-lo, nem em um milhão de anos você poderia ser uma ameaça para mim. Então considere isso um privilégio, professor. O senhor irá morrer não por casualidade do destino, mas porque esse é o desejo do coração daquela que você tanto desejou encontrar.

Eliar poderia ter tentado correr, ou gritar por socorro, mas ele sentiu seu corpo subitamente desfalecendo. Ele caiu com tudo no chão, sentindo uma dor aguda e terrível em seu peito, e a respiração cada vez mais dificultosa.

—Suponho que eu tenha que te agradecer por isso, professor— a mulher sorriu, se ajoelhando do seu lado— Foi o senhor quem me ensinou a cortar cadáveres e estudar suas entranhas. Então eu sei exatamente quais órgãos afetar para que tudo pareça um lindo acidente.

A visão de Eliar começou a se turvar, e tudo o que ele conseguiu enxergar antes de ser engolido pela escuridão foram aqueles olhos pálidos e cruéis.

Notas finais
No bom e velho estilo de Asoiaf, o narrador do prólogo sempre vai jogar no Vasco kkkkk! Espero que tenham gostado! Ao longo da história, vou tentar manter certos elementos da saga original, então podem esperar muitas reviravoltas e treta kkkk!

Obrigada por ler! Comentários sempre me deixam muito feliz, então, se puder, deixe um :)

Até o próximo capítulo ♥