A Reconquista

2 I- Os Deuses Sabem O Que Fazem (Daeron)


Notas iniciais
Hello! Voltei cedo com o primeiro capítulo. Esse se passa em Porto Real, para já ficarmos por dentro do ninho de víboras que nos aguarda por aqui. Boa leitura ♥

Daeron->

Meses em meio a oceanos de sal e sangue não haviam sido o suficiente para quebrantar a resiliência de Daeron Waters. Um dia em Porto Real, entretanto, prometia finalmente trazer a fadiga que tantos ciclos de lua fora de casa não conseguiram trazer.

O Rei estava morrendo. Esta foi a primeira notícia que recebeu ao descer do navio, uma que não havia viajado tão longe quanto o longínquo Norte no qual ele estivera. Ali na corte, porém, já era um assunto batido. A doença do monarca era bem conhecida, alguns estavam começando a achá-la arrastada, inclusive, ansiosos pelo desfecho. Fosse a cura ou fosse a morte, embora a maioria concordasse que o segundo soava bem mais provável.

Era estranho reportar seus progressos, e falar de guerra, sem o Rei e a Princesa. É como se o vazio da presença de ambos tornasse a presença do Príncipe ainda maior e difícil de tolerar. Parado em frente à mesa repleta de mapas e maquetes dos territórios a serem conquistados, Daeron conseguia ver o Príncipe Baelon do outro lado, a expressão mal-humorada de sempre em seu rosto.

Baelon era três anos mais velho que Elaena, mas se comportava como se fosse ele o mais jovem. Naquele instante, seus cabelos estavam despenteados, a roupa, amarrotada. Mas o pior provavelmente era a marca roxa em seu pescoço, irregularmente arredondada, do tamanho exato dos lábios de uma mulher. E essa mulher era bem conhecida por todos, sua identidade não era mistério para ninguém. Allyria Lannister.

Ou melhor, Allyria Frey. Porque, para Daeron, o pior não era que o Príncipe mantivesse uma amante tão abertamente, embora isso certamente também fosse reprovável. O pior era que ela fosse uma mulher casada.

—Mestre dos Navios— a voz de Baelon era entediada, e ligeiramente rouca— Soube que não perdeu nenhum território com a nova incursão. Isso é bom.

Daeron conteve uma careta, ajeitando a postura e empertigando as costas.

—Não, Alteza, não perdemos— ele respondeu, fazendo um esforço descomunal para manter o tom humilde e solícito— Pelo contrário. Conquistamos o castelo de Regatos para Vossa Alteza.

Baelon mal reagiu, os olhos lilases ainda perdidos nas maquetes, como um menino contemplando seus brinquedos.

—Hmm— ele murmurou— Isso é melhor ainda. Regatos é o castelo dos Ryswell, não é? Vou marcar no mapa.

Então, com o maior descaso que Daeron julgava possível, Baelon estendeu a mão e posicionou o brasão dos Blackfyre sobre onde Regatos estava no mapa. Todas as vidas perdidas, semanas de cerco, e sangue derramado, se resumiram àquele simples aceno da mão do Príncipe, que teve de fazer um esforço para se lembrar onde no Norte ficava e a quem pertencia o castelo. Se perguntou se Baelon havia agido da mesma maneira quando Elaena tomou Porto Branco, alguns meses antes.

Pelos Sete, Daeron sentia falta da Princesa Elaena. Ela era taciturna, e silenciosa, mas ao menos parecia levar as coisas mais a sério. Elaena ao menos lhe perguntaria quanto tempo durou o cerco, quantos soldados Blackfyre caíram, quantos sobreviventes houve entre os nortenhos, se havia reféns. E Daeron teria uma resposta pronta, era um homem do mar, como ela também era uma mulher do mar, e ambos falavam a mesma linguagem. Uma linguagem a qual os ouvidos de Baelon eram completamente surdos.

Daeron encarou o Príncipe por alguns segundos. Ambos tinham quase a mesma altura, não eram homens pequenos, ou fracos. Mas Baelon era bem mais esguio, bem mais pálido, sua falta de disciplina e talento bélico visíveis em seu físico. Os traços do seu rosto eram finos e angulosos, com uma inflexão cruel, seus lábios tinham um constante franzido insatisfeito. Pouco admirava a Daeron que ele fosse um líder tão inefetivo, que havia perdido a maior parte das batalhas nas quais entrou. Havia uma completa displicência em sua aparência pessoal que refletia o tão pouco que se importava com qualquer um além de si mesmo; e, talvez, Allyria Frey.

—Quer falar mais alguma coisa, Waters? Se não, está dispensado— Baelon ergueu o olhar para ele após alguns segundos, uma pontada de impaciência em seu tom.

Daeron hesitou, ponderando se a pergunta que estava prestes a fazer valia a pena. Decidiu que o pior que poderia receber era mais impertinência, a qual já estava acostumado.

—Na verdade, eu gostaria de perguntar a Vossa Alteza se sua irmã, a Princesa Elaena, mandou notícias— Daeron questionou.

Baelon, cujos olhos já se encontravam novamente perdidos no mapa, parou mais uma vez para encarar Daeron. Havia uma clara irritação em seu rosto, mas algo a mais, também, que Daeron não soube identificar de imediato.

—Não estou certo se gosto do quanto você anda perguntando pela minha irmã, Waters— Baelon respondeu— Se tem algo a mais a relatar, pode falar comigo. Eu sou o Herdeiro, não ela.

Daeron ainda estava incerto se aquilo foi ciúmes, ou se ter de reconhecer a competência de Elaena como Almirante enfadava Baelon. Achou melhor não insistir no assunto.

—Não, Alteza, não tenho nada mais a relatar. Só gostaria de saber se a incursão que ela liderou às Marcas de Dorne foi bem sucedida, e se ela está em segurança— Daeron respondeu.

Baelon ainda parecia perdido nos próprios pensamentos, inquieto, correndo uma pequena estátua do mapa entre seus dedos.

—Foi bem sucedida, como sempre— o Príncipe respondeu— E minha noiva está bem, uma carta dela chegou na noite de ontem. Disse que está voltando para casa, e ansiosa para me ver.

Daeron duvidava muito que Elaena tivesse escrito qualquer coisa sequer vagamente semelhante ao que ele dizia. Era de notório saber público que Baelon e sua irmã não se davam muito bem, e que o noivado era puramente político. Ainda assim, foi estranho constatar que Baelon estava disposto a chamar Elaena de “noiva” quando pressionado. Daeron nunca tinha o ouvido se referindo a ela com essa palavra antes.

“Talvez ele me considere uma ameaça”— Daeron pensou— “Sabe que se ela não quiser mais casar-se com ele, sua pretensão ao trono enfraquece”

Ou talvez fosse ciúmes, o que seria estranho, mas não impossível. Baelon nunca havia demonstrado muito interesse por Elaena neste sentido, mas Daeron supunha que isso não queria dizer que não a considerasse sua posse.

—Os Sete são bons, Alteza. Fico feliz que ela esteja bem, e que esteja retornando para Vossa Alteza— Daeron se limitou a responder— Tenho sua licença para me retirar, então?

Baelon assentiu, e Daeron estava prestes a sair, quando o Príncipe o chamou:

—Waters?

—Sim, Alteza?

—Você faria bem em se lembrar de onde veio. Pode ser Mestre dos Navios, e tratado como um nobre, mas isso não muda o que você é. Entendeu o que eu quero dizer?

Dessa vez, Daeron não soube manter a calma que tão cuidadosamente cultivava. Deu um passo na direção do Príncipe, sustentando seu olhar cáustico com firmeza.

—Não, Alteza. Não sei se entendi o que Vossa Alteza quer dizer— ele respondeu, o tom baixo, perigoso.

Baelon não recuou, o ódio tornando o lilás de seus olhos em um tom mais escuro de índigo.

—Acho que entendeu sim, Waters. Você não é um Velaryon, não é um Príncipe. Por mais que meu pai e Elaena pareçam gostar de você, eu sei o que você realmente é. Está claro agora?— Baelon praticamente cuspiu a frase.

Daeron não conseguiu conter a risada seca que escapou de seus lábios. Sim, ele havia entendido o que Baelon queria dizer. Daeron era, de fato, um bastardo, não um Velaryon. Seu pai nunca o havia reconhecido, ele não era um Lorde, ele não herdaria Derivamarca; mas era irônico que logo um Blackfyre se agarrasse a tais preciosismos de linhagem. Todos os Blackfyres eram descendentes de um bastardo, eram uma dinastia questionável desde seu início. A única diferença entre Baelon e Daeron era que, nos cabelos prateados de um deles, havia uma coroa.

—Como a luz do dia, Alteza— Daeron respondeu.

—Ótimo. Agora me deixe sozinho, Waters. Tenho mais o que fazer.

Daeron fez exatamente isso, e, com uma reverência final, saiu da sala de guerra. Estava indo pelo corredor o mais rápido que suas pernas permitiam, quando avistou um vulto dourado e vermelho flutuando em direção a ele.

Lady Allyria era uma perfeita Lannister, tanto que era este o sobrenome que a maioria usava ao se referir a ela, mesmo que fosse casada com um Frey. A única ressalva é que sua família costumava tender a portes mais imponentes, e ela era baixa; de resto, era uma leoa do Rochedo até os ossos. Cachos dourados fluíam em um penteado opulento por seus ombros; o rosto redondo, delicado como o de uma boneca, tinha traços suaves, e grandes olhos verdes. E, acima de tudo, ela era esperta e traiçoeira como uma víbora, com beleza e cores brilhantes ocultando dentes afiados e muito veneno.

Uma parte dele desconfiava de que ela e Baelon estavam felizes demais com a doença misteriosa do velho Rei, mas seria traição dizer isso em voz alta.

—Ah, Lorde Waters!— ela sorriu para Daeron, seus dentes brancos e brilhantes iluminando todo o seu semblante. Ele detestava admitir, mas ela era uma mulher deslumbrante, e tinha a confiança de quem sabia muito bem disso— Estava conversando com Baelon?

Daeron quase hesitou, mas concluiu que aquela era uma pergunta inofensiva o suficiente.

—Sim, Milady— ele respondeu— Ele está na sala de guerra.

Allyria assentiu, ainda mantendo o sorriso animado no rosto.

—Estou indo vê-lo agora. Espero que a conversa de vocês tenha sido boa, não o quero de mau humor hoje— ela comentou, distraída.

Allyria tinha um jeito peculiar de conversar com as pessoas, sempre um pouco mais próxima que o necessário. Daquela distância, Daeron conseguia sentir o cheiro de rosas em seu cabelo, tão vermelhas quanto o vestido que ela usava. Se ele fosse um pouco mais tolo, poderia se afogar naqueles olhos docemente erguidos para ele.

—Nós falamos sobre a última incursão que liderei, que foi bem sucedida. Não vejo motivos para que o Príncipe tenha ficado insatisfeito, Milady— Daeron respondeu.

—Hmm, isso é ótimo— Allyria murmurou— Inclusive, devo parabenizá-lo pela vitória, Lorde Waters. Nosso Mestre dos Navios continua sendo um orgulho e um exemplo para o reino.

A pequena mão pálida de Allyria se pousou sobre o braço de Daeron. Ele teve que suprimir o impulso de dar um passo para trás, e forçou um sorriso educado.

—Obrigado, Milady— ele agradeceu, voltando ao tom humilde e solícito que cultivou por tantos anos— É um prazer poder servir ao reino.

Allyria sorriu novamente. Dessa vez, seu sorriso já não era mais tão inocente ou distraído assim.

—Tenho certeza que é, Lorde Waters. E o senhor será devidamente recompensado, se continuar fazendo um serviço tão exemplar— ela tirou a mão de seu braço, e deu ela mesma um passo para trás. Daeron inconscientemente soltou o ar que nem havia percebido que estava prendendo— Bem, não irei mais gastar o seu tempo. Deve estar ansioso para ver a Princesa.

Daeron não deve ter conseguido disfarçar bem sua expressão de supresa, pois Allyria soltou uma risadinha entretida.

—Ah, eu esqueci de te dizer. Estava indo avisar a Baelon que a irmãzinha dele voltou da guerra— Allyria disse— Ela está no septo, caso queira lhe dar as boas vindas.

O tom ligeiramente sarcástico dela não lhe escapou totalmente, mas Daeron decidiu ignorar.

—Obrigado, Milady— ele disse, fazendo uma reverência.

—Eu que agradeço, Lorde Waters— Allyria mais uma vez sorriu para ele, e, dando as costas, voltou a se afastar pelo corredor.

Daeron sabia que estava sendo tolo em sua ansiedade de ver a Princesa, mas não pôde se conter. Foi até os estábulos, pegou seu cavalo, e disparou pela cidade de Porto Real em direção ao Grande Septo de Baelor.

Os degraus que levavam até o magnífico e imponente templo estavam cheios de fiéis e súditos, alguns provavelmente atraídos pela chegada da Princesa, que saiu do Porto e foi direto até o templo. Daeron sabia que ela era genuinamente uma pessoa piedosa, mas não havia como negar que seu gosto pela religião tinha a grande vantagem de fazê-la parecer ainda mais digna às massas. Ele mesmo era adepto da fé dos Sete, mas conseguia enxergar o quanto a religião tinha um peso excessivo no reino.

Toda sua expectativa e antecipação não poderiam se comparar à visão dela, finalmente ali, à sua frente, em carne e osso. Os guardas que sempre a cercavam o reconheceram imediatamente, o deixando passar, e ele foi em direção ao altar em frente ao qual Elaena estava ajoelhada.

Daeron já havia ido ao templo rezar com ela antes, e isso lhe permitiu reparar em um hábito peculiar da Princesa. Sempre antes de ir a uma batalha, ela rezava para o Guerreiro. Mas, toda vez que voltava, ela rezava para a Mãe.

“Para guerrear, é necessário coragem. Mas, para lidar com as consequências, é necessário misericórdia”— Elaena havia explicado quando Daeron a questionou.

Ele quase sempre rezava para o Guerreiro. Entretanto, quando a Princesa estava na guerra, ele sempre rezava para a Donzela. Elaena gostava do Guerreiro e da Mãe, mas era a Donzela a patrona de todas as moças jovens, e era para a Donzela que Daeron pedia que mantivesse Elaena segura.

O vitral em tons pastéis do altar da Mãe projetava uma luz multicolorida no rosto pálido da Princesa. As sardas do seu rosto pareciam se corar cada uma de uma cor, um céu estrelado repleto das mais variadas matizes. Os cabelos de um platina-dourado caíam gentilmente sobre os traços delicados, ocultando parcialmente os olhos semicerrados, mas que ele sabia serem do tom mais brilhante de violeta. Ela cheirava à água do mar e margaridas, provavelmente do buquê que havia depositado aos pés do altar. Seus cabelos estavam atrapalhados e úmidos, o rosto e as mãos tinham pequenos cortes e escoriações, mas ela estava viva, e bem, e isso já era o suficiente para ele.

—Alteza?— ele chamou, e os olhos dela se abriram, fixando-se nele.

—Lorde Waters— seu sorriso era sério e contido, mas ele soube pelo seu semblante que ela também estava feliz em vê-lo— Louvados sejam os deuses, pois nós dois voltamos em segurança para casa.

Daeron sorriu de volta, e se ajoelhou ao lado dela. Estava vestida com simplicidade, como exigia uma viagem de navio: blusa de algodão branco, calças de montaria; mas parecia tão imaculada que ele poderia confundi-la com a estátua da própria Donzela.

—Louvados sejam— ele concordou— E também por termos voltado vitoriosos.

O sorriso dela, por um segundo, se amplificou, alegria genuína tomando conta de todos seus traços. Mas, tão rápido quanto havia surgido, o sorriso desapareceu.

—Eu convocaria um grande baile de comemoração, mas meu pai está muito doente— seu tom era triste, e Daeron teve que suprimir o impulso de abraçá-la— Eu gostaria que ele estivesse aqui para ver nosso triunfo.

—Nós podemos ficar aqui por mais alguns minutos, Alteza, e rezar pela recuperação do Rei— Daeron respondeu, e isso a fez parecer um pouco menos melancólica.

—Sim, eu gostaria disso— ela concordou— Se ele não se recuperar… eu não sei bem ao certo o que vai acontecer. Temo pelo que Baelon pode decidir, ele ainda não está pronto para ser Rei.

A franqueza de Elaena o pegou desprevenido, mas ele não reagiu. Ela estava certa, e ele se sentiu honrado que confiasse sua verdadeira opinião a ele.

—Admito que também não tenho certeza sobre isso, Alteza— Daeron respondeu— Mas não vamos nos preocupar com isso. Seu pai é um homem forte, um grande guerreiro. Logo estará bem novamente.

Elaena fixou seus olhos enormes e cheios de tristeza nele. Ambos sabiam que ele estava mentindo. Mas nenhum dos dois teve coragem de dizer mais nada.

—Os deuses sabem o que fazem— ela murmurou, tão baixo que ele quase não ouviu— Ao menos eu espero que saibam.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Vou tentar manter uma frequência inicial de atualizações semanais, então final de semana que vem temos mais. Até o próximo, vejo vocês nos comentários ♥