A Reconquista
10 IX- Aliados Relutantes (Wylan)
Notas iniciais
Wylan->
Se havia uma coisa que Wylan Whitehill havia aprendido após tantos anos vivendo em Forte do Terror, era a ser um homem de ação. Decisivo, por vezes até mesmo brutal, quando necessário. Então nada o entediava mais que ladainhas a respeito de estratégias de guerra e estatuazinhas em mapas.
Ainda assim, aquela reunião de guerra estava longe de ser um tédio. Pois finalmente as tensões haviam chegado a um nível crítico, e as diferenças ideológicas entre eles, os nortenhos, e seus hóspedes dorneses se escancaravam.
—Os Blackfyre tomaram Regatos há menos de um mês! Está claro para mim que não planejam desacelerar as incursões, e sim continuar invadindo com cada vez mais força— seu irmão mais velho, Lewis, esbravejava— Como Vossa Alteza pode falar em trégua em um momento desses? É uma questão de tempo até que mais soldados cheguem para ocupar mais de nossas terras.
Wylan tinha que conceder uma coisa à Princesa Myriah: ela era mais durona do que ele havia inicialmente pensado. Ou ao menos capaz de manter uma fachada calma e agradável mesmo sob pressão. Ele não estava esperando por isso, achou que quem fosse absorver as porradas e a insatisfação das negociações fosse Alysanne. Em realidade, a companheira da Princesa estava envolta em um silêncio fúnebre, seus olhos intensos e violeta absorvendo cada detalhe de cada um dos presentes enquanto Myriah conduzia as conversas. Wylan sabia que era ela, não Myriah, o verdadeiro perigo daquela comissão dornesa. Soube disto desde o primeiro segundo que viu Alysanne; ela era inteligente, observadora, e leal até os ossos.
Ou ao menos parecia ser. Mas Wylan sabia como as aparências poderiam ser enganosas.
—Lorde Lewis, ao menos em Dorne nós conseguimos diminuir a frequência das incursões quando nos mostramos abertos a negociar— Myriah atingiu a proeza de sorrir apesar das circunstâncias— Não estou falando de rendição, e sim de ganhar tempo. Se conseguirmos uma trégua, por mais breve que seja, haverá uma oportunidade de nos coordenarmos.
Wylan definitivamente entendia a fascinação que a Princesa exercia nas outras pessoas, agora que a havia conhecido pessoalmente. Nenhuma descrição que havia lido em cartas, ou palavras de rumores e informantes de Lorde Bolton, haviam realmente lhe feito justiça. Havia uma ingenuidade incorruptível, irresistível, em seu rosto, e seus modos. Ela conseguia ser pura luz solar, mesmo naquela sala escura e com as janelas encrostadas de gelo, onde todos pareciam querer ofuscá-la
“Até que ponto não é tudo fingimento?”— ele se questionou, sem tirar os olhos dela.
Myriah tinha dezoito anos, o que era jovem, certamente, mas não era mais uma criança. Aquela perfeita placidez luminosa, aquele otimismo inquebrantável, não poderiam ser totalmente verdadeiros. Ou poderiam? Talvez por isso Alysanne tivesse que vestir o manto sombrio de protetora prática e realista. Talvez por isso ele precisasse tão desesperadamente desvendar aquela dinâmica se planejava seguir com os seus planos.
Wylan sabia que Lewis estava apenas papagaiando a velha retórica dos Stark. O Norte se lembra, nunca se ajoelha, e deve sempre ter um Rei Stark, etc e tal. Bem, Wylan sabia que a verdade não era assim tão simples, ou idealizada. Lorde Bolton também entendia isso, talvez por isso, desde criança, ele tenha se dado melhor em Forte do Terror do que na própria casa. E Wylan enxergava as coisas como elas realmente eram. Que oportunidade mais fortuita para mudança do que aquela guerra que parecia abalar todas as estruturas de poder do reino? Uma oportunidade para que sua família finalmente saísse por cima, e florescesse em meio ao caos. Se ao menos seu pai e irmãos não fossem tão cegos, também poderiam enxergar a verdade simples, mas brutal.
—Alteza— o emissário que os Stark haviam enviado, Corrin, interrompeu. Sua voz era respeitosa, mas carregava o mais leve subtom de enfado— Com o devido respeito, não vamos negociar com usurpadores. Estávamos sob a impressão de que esse encontro era para discutir apoio bélico mútuo, não para que tentassem nos convencer a fraquejar.
Nesse momento, Alysanne se levantou, os olhos faiscando ao encarar Corrin Stark. Wylan era bom em ler as pessoas, e havia notado uma coisa a respeito de Alysanne desde a primeira vez que a vira: ela não tinha medo de sujar as mãos de sangue. Não achava que ela fosse uma guerreira, na verdade duvidava que ela tivesse tido treinamento formal com armas, mas havia uma certa ferocidade em sua postura, e em seu olhar. Aqueles eram olhos que já haviam visto a morte, e que não a temiam mais.
—Lorde Stark, suponho que, mesmo aqui no Norte, seja costume ensinar a história dos reinos às crianças— ela começou, a cabeça erguida, o tom petulante— Então aprendeu qual o único dos Sete Reinos que nunca foi conquistado ou subjugado. Dorne. Nós nunca caímos porque nunca lutamos nos termos dos nossos inimigos, e sim nos nossos. Então acredite quando digo que, em uma briga direta, ambos os nossos reinos cairiam. Os Blackfyre vem por mar, e nem Dorne nem o Norte tem tradição em batalhas navais. Nossa única esperança é ganhar tempo e minar os recursos deles até que possamos coordenar um ataque conjunto por terra.
Wylan entendia o suficiente de estratégias de batalha para saber que ela estava certa, embora planejamento não fosse o maior forte dele. Dorne era um labirinto de desertos e montanhas, e os dorneses sabiam usar isto ao seu favor. Táticas de terra arrasada, envenenamento de poços, emboscadas, e toda e qualquer estratégia que utilizasse o terreno contra seus inimigos, era a especialidade deles.
Por isso a guerra fria e silenciosa que se desenrolava no extremo sul do país continuava, mesmo que formalmente houvesse negociações de trégua: os soldados Blackfyre simplesmente iam desaparecendo aos poucos e sem explicação, quase que tragados pela paisagem inóspita. Era praticamente impossível manter uma ocupação, não importava quantos homens eles enviassem.
Reparou que seu irmão Evan encarava Alysanne, completamente impressionado. Wylan gostava de seus irmãos, genuinamente se importava com cada um deles e seu bem-estar, mas não poderia deixar de se divertir com o jeito que ambos estavam perdidos naquela situação toda. Evan e seu perpétuo encantamento por coisas brilhantes, cheias de status e títulos; mas nunca com os olhos no real objetivo. E Lewis e sua rigidez cognitiva, seus limites consolidados e imóveis, preso em uma caixinha minúscula que nunca o permitiria encarar a verdade de frente. Por isso Wylan sabia que a responsabilidade de conduzir aquela família à segurança era dele, mesmo que ele sempre fosse enxergado como o filho rebelde, incoercível.
—Lorde Stark, a Princesa Myriah está correta— Wylan decidiu opinar— Nossa única esperança são ataques coordenados, e de supresa. E a única maneira de fazer isso é ganhando tempo, pelos meios que forem necessários. Porto Branco é o maior ponto de desembarque dos navios Blackfyre. Se formos capaz de expulsá-los da cidade e fortificar as defesas marítimas, vamos impedir que mandem mais homens por mar; e, por terra, teremos a vantagem nos conflitos que se seguirem.
Corrin Stark era um homem de meia-idade sério e um pouco petulante, e Wylan não era muito afeito a ele. Mas seu olhar naquele instante, um misto de supresa e desgosto, foi impagável de testemunhar. Quase teve que conter um risinho irônico ao ver o choque no rosto do outro homem.
—Sua Majestade, o Rei do Norte, não vai gostar nada disso— ele murmurou— Nenhum pouco. Vamos precisar de uma estratégia muito consistente para convencê-lo.
—Nós podemos ajudar criando distrações mais ao Sul, para evitar que os Blackfyre enviem tropas de reforço. Se os mantivermos ocupados guerreando perto de Dorne por tempo o suficiente, será possível dispersar seus homens. O suficiente para vencê-los— Myriah argumentou— Se for possível recuperar Regatos após recuperar Porto Branco, vocês terão sua fronteira praticamente toda defendida. E, com força total novamente, poderemos coordenar um ataque conjunto a Porto Real, e expulsar os Blackfyre de vez.
A frase produziu impacto na austera sala de guerra, quase reverberando nas paredes de pedra fria e cinzenta. Alysanne, ao lado de Myriah, relaxou um pouco a postura; e sorriu, satisfeita.
—Viemos autorizadas a oferecer escolta para um emissário de vocês, e podemos intermediar o início da pretensa trégua, já que estamos em melhores termos com os Blackfyres— Alysanne completou— Mas a farsa só durará pelo tempo o suficiente de coordenarmos a retomada de Porto Branco, e um ataque simultâneo na fronteira de Dorne com as Marcas.
Quando mãos já haviam sido apertadas, tratados, assinados, e detalhes enfadonhos, discutidos; Myriah continuou alinhando as últimas minúcias a respeito de números e datas com o pai de Wylan, Edwin, e Lorde Corrin Stark, enquanto Alysanne saiu para tomar ar. Wylan decidiu segui-la, aproveitando-se da oportunidade de conversar com ela a sós.
Ela estava caminhando, um pouco distraída, pela neve fofa e espessa do jardim. Seus passos faziam sons suaves, e seus olhos pareciam perdidos no horizonte impossivelmente branco e deserto. De repente, percebendo que não estava mais sozinha, ela se virou para trás bruscamente, e encarou Wylan.
—Está me seguindo, Whitehill?
Wylan riu, e foi uma risada genuína, embora um pouco irônica.
—Você é muito observadora, Milady— ele provocou, e Alysanne franziu o cenho— E também muito perspicaz.
Ela parecia cansada, e enfastiada. Wylan teria se arrependido do comentário, se não fosse tão divertido vê-la com raiva.
—Eu não entendo você. Me dá apoio durante a reunião, e depois zomba de mim. Demonstra interesse, e depois vai atrás da Princesa como um cachorrinho…— ela deu um passo na direção dele, a voz claramente irritada— O que quer que você ache que está conseguindo com isso, saiba que certamente não é minha boa opinião, Milorde.
Wylan não recuou, na verdade deu ele mesmo um passo em direção a ela, tornando a distância entre eles inapropriadamente curta. Abriu outro sorriso descarado, e replicou:
—Já considerou que esse pode ser meu jeito de tentar conquistá-la, Milady?
Alysanne não desviou o olhar do seu, mas ainda parecia furiosa.
—Está falhando, então— ela retrucou.
—Bem, eu não diria que é um fracasso completo. Você certamente não vai conseguir parar de pensar em mim tão cedo, Milady— ele provocou novamente.
Alysanne respirou fundo, e deu um passo para trás. Sua expressão suavizou minimamente, e ela pareceu retomar o seu tênue autocontrole.
—Apesar de você me dar nos nervos, vou reconhecer que pode ser útil às vezes, Whitehill. Sou grata pelo apoio que nos deu lá dentro, mas não ache que gratidão vai me fazer tropeçar e cair na cama com você— ela disse, agora bem mais calmamente— Não sei se é um casamento vantajoso o que você busca, ou apenas um pouco de diversão nesse castelo que parece não ter uma única mulher. Mas eu te garanto que não estou procurando nem uma coisa nem a outra, no momento. E Myriah também não.
Pronto, ali estava a verdadeira Alysanne. Sem pretensões, ou máscaras. Apenas sinceridade e um pequeno viés de agressividade latente, cruas e expostas, como uma ferida em carne viva. Wylan havia atingido o ponto que queria, e conseguido a reação que precisava conseguir. A partir dali, poderiam ser sinceros um com o outro, sem formalidades e convenções sociais. E ela achava que estava no controle novamente, mas isso não poderia passar mais longe da verdade. Ainda estava tentando entendê-lo, aplacá-lo, inconscientemente, enquanto ele já sabia exatamente com que tipo de pessoa estava lidando.
—Eu não reclamaria se a gratidão afetasse seu perfeito equilíbrio e te fizesse tropeçar pelas redondezas do meu quarto, Milady. Muito menos se o meu notável charme inspirasse ideias matrimoniais em seu coração— Wylan admitiu— Mas eu confesso que o que eu realmente quero é que possamos ser francos um com o outro. Você viu como podemos ser úteis, e nos ajudar.
Ele pôde ver no rosto de Alysanne que ela não esperava aquela resposta, e que estava intrigada. Não conseguiu tirar os olhos dele, ou abaixar as próprias sobrancelhas. Sua postura parecia hesitante; ela trocou o peso de pé, e desviou o olhar por um segundo, antes de fixá-lo novamente nele.
—Eu… olhe, Wylan. Podemos até nos ajudar enquanto essa incerteza sobre o que vai ser feito continuar. Mas preciso saber onde está sua lealdade. A minha está com Dorne, e Myriah; mas algo me diz que a sua não está com os Stark— ela disse, simplesmente, e ele quase ficou surpreso com o quanto ela foi direta.
Wylan deu de ombros.
—Eu não morro de amores pelos Stark, você está certa. Mas não tenho nenhum interesse pessoal em prejudicá-los, eu simplesmente priorizo minha família, e as pessoas que me criaram, os Bolton— ele respondeu, também decidindo ser direto— Se Corrin Stark não conseguir convencer o Rei do Norte, quero que saiba que os Bolton tem exércitos, e o apoio de muitos vassalos. O plano não precisa desandar devido aos caprichos de um único homem.
Alysanne pareceu refletir por um momento, os olhos violeta perdidos no castelo atrás de Wylan.
—Nós precisamos parar os Blackfyre. Eu não poderia me importar menos com as políticas e intrigas que vocês aqui do Norte decidem aprontar entre si; desde que Dorne tenha apoio nos ataques que estão por vir— ela disse, por fim— Nós não podemos vencê-los sozinhos, vocês também não. Se o Rei do Norte não cooperar, posso convencer Myriah a se aliar a quem estiver disposto a ajudar. Independente de quem seja.
Wylan abriu um enorme sorriso, e novamente deu um passo, mais curto, em direção a ela. Alysanne não recuou, mas seu olhar era duro, sustentando o dele com uma firmeza pétrea, impassível.
—É um prazer negociar com você, Milady. Eu sempre soube que você era uma pessoa prática e de bom senso— ele lisonjeou.
Alysanne arqueou uma sobrancelha.
—Não ache que isso nos torna amigos, Wylan. Aliados relutantes, talvez, e também só quando for necessário. Ainda não gosto do jeito que você fala com Myriah, ou do seu jeito em geral— ela replicou.
Wylan não deixou de sorrir, na verdade, acabou soltando uma risada.
—Foi tudo para chamar sua atenção, e funcionou— ele disse— Além disso, é difícil acreditar que não somos amigos quando você fica me chamando pelo primeiro nome… Alysanne.
Eles voltaram para a sala de guerra em momentos separados, para não chamar atenção. Alysanne foi primeiro, ele foi dez minutos depois. Assim que Wylan entrou, caminhou silenciosamente até Evan, e assentou-se ao lado dele, apurando os ouvidos para ouvir a conversa que continuava entre seu pai, Corrin e Myriah.
—Eu não sei se meu sobrinho vai gostar disso— Corrin disse— Marchar com todos os homens para Porto Branco, mesmo que seja um ataque supresa, representa um grande risco para as defesas de Winterfell.
Wylan e Evan trocaram um discreto olhar de troça. Se havia uma coisa que Wylan apreciava sobre seu irmão, era o senso de humor tão ácido quanto o seu. Não era nenhuma novidade que Evan achava os Stark tremendamente aborrecidos, e Wylan compartilhava dessa mesma opinião. Sempre havia sido assim, mas talvez isso fosse apenas a antipatia que os Bolton sentiam pelos Stark sendo refletida pelos seus vassalos. Mas tudo havia piorado desde que o Rei Cregan, irmão de Lorde Corrin, havia morrido em batalha; e o Príncipe Tobin havia assumido a coroa de inverno.
Tobin era aproximadamente da idade de Evan, e ligeiramente mais velho que Wylan. Ou seja, deveria ter quase trinta anos. Ainda assim, se comportava como um rapaz verde de verão, impulsivo, birrento, e teimoso como uma mula. Estava no trono há menos de um ano, mas esses meses haviam sido um período conturbado e instável. Tobin era o tipo de pessoa que parecia tomar péssimas decisões de propósito, só para contrariar seus conselheiros. Até mesmo seu tio, Corrin, parecia um pouco incerto sobre as escolhas que seu sobrinho fazia. Wylan achava realmente notável que um Stark, normalmente conhecidos por seu sangue de lobo, pudesse surpreender causando ainda mais caos do que o previsto.
—Não se preocupe, Milorde. Dessa vez, a batalha para convencê-lo vai ser nossa, e não do senhor— Myriah sorriu para ele, a voz calma e gentil— Eu irei conversar pessoalmente com o Sua Majestade, o Rei Tobin, sobre a nossa estratégia. Assim que ele responder ao nosso corvo e der o aval para a visita, viajaremos até Winterfell para negociar.
Wylan já sabia que deveria arranjar um jeito de estar nessa comissão que ia a Winterfell. Para manter Lorde Bolton informado, claro, mas também para garantir que Tobin não tomasse nenhuma decisão excessivamente estúpida. A última coisa que sua família precisava era ter de acatar mais uma missão suicida do jovem Rei.
—Está a fim de fazer uma viagem, Evan?— Wylan sussurrou para o irmão.
Evan sorriu, e respondeu:
—Passear em Winterfell? Dar risada de Tobin Stark? Sempre.
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