A Reconquista
11 X- Apenas Uma Moça Simples (Lyora)
Notas iniciais
Lyora->
A agulha de Lyora Snow trabalhava incansavelmente, criando bordados complexos no veludo do vestido; pequenas conchas brancas surgindo no tecido verde-escuro com cada gesto de suas mãos firmes. A língua de sua senhora, Lady Fenella Manderly, também fazia hora extra, debruando as mais escabrosas fofocas de modo igualmente dedicado, enquanto Lyora costurava e escutava pacientemente.
—Desde que Regatos caiu, o Rei está tendo vários ataques de raiva, sabe? Quebrou um dos vasos de porcelana lyseni antes de ontem, e hoje jogou uma cadeira da sacada do terceiro andar— Fenella tagarelava distraidamente, os pés balançando para fora da mesa onde ela estava recostada— Parece que dessa vez o motivo da irritação foi um corvo que recebeu ontem. Mas eu só consegui descobrir o que a carta dizia hoje; fui à cozinha e fingi pegar um pedaço de bolo para ouvir o que as criadas diziam. É bolo de cenoura, inclusive, Ly, se você quiser comer deixei encima da cômoda. Não vou comer, ou vou acabar imensa, igual o meu avô; e ninguém vai querer se casar com uma donzela que mais se parece um leão marinho… mas enfim, o que eu estava dizendo?
Lyora teve de segurar uma risada, e fazer um esforço considerável para continuar bordando e simulando pouco interesse. Era engraçado como Fenella perdia o fio da meada tão facilmente, e como fazia comentários de modo tão leviano. A maioria das pessoas acharia absurda a parte sobre o avô dela e a comparação com um leão marinho, mas Lyora estava acostumada.
Talvez pela maior parte dos Manderly ter uma forte tendência à corpulência, Fenella vivesse completamente aterrorizada de supostamente arruinar sua beleza com o ganho de peso mais fácil, que ela considerava quase que uma maldição de sangue. Lyora achava essa ideia praticamente delirante, uma vez que sua senhora era uma moça esguia e de excelente aparência, mas sabia que não adiantava falar nada. Apenas se certificava de que ela não pulasse nenhuma refeição e não apertasse os corpetes demais quando ia a bailes.
—Você estava contando que descobriu o que tinha na carta do corvo que o Rei recebeu ontem— Lyora interpelou, antes que ela divagasse mais sobre a própria aparência ou sobre o avô.
—Ah, é mesmo! Bem, aparentemente, a reunião em Pontalto com a Princesa dornesa chegou à conclusão que será necessário falar com o Rei pessoalmente! Quem diria, não é mesmo? Quase como se devessem ter feito isso desde o início— opinou Fenella.
Lyora ergueu brevemente o olhar para sua senhora, e deu de ombros.
—Pontalto era um ponto de encontro melhor para as outras famílias nortenhas, e Winterfell já está sobrecarregado com tantos hóspedes— Lyora respondeu— Ao menos a comissão que virá até aqui é menor, e mais fácil de manter aquecida e alimentada.
Mas Fenella não se importava com as questões práticas e maçantes da gestão de um castelo, ou se Winterfell já abrigava tantos refugiados das invasões Blackfyre; já estava deslumbrada com outra frivolidade. Lyora esperava do fundo de seu coração que sua senhora continuasse assim, que a guerra não a mudasse ou endurecesse. Ela mesma sabia como era ser moldada pelas tragédias de uma vida difícil, e esperava que Fenella nunca precisasse saber.
—Ah, Ly! Estou tão curiosa para conhecer a Princesa! Você acha que ela é tão bela quanto dizem? Eu acho que seremos excelentes amigas! Imagine como as outras ladies vão morrer de inveja se minha melhor amiga for uma Princesa— a jovem Manderly continuou tagarelando alegremente.
Lyora tinha vinte e dois anos, Fenella, dezenove. Não era uma diferença de idade tão grande assim, mas, para Lyora, havia um abismo entre elas. Por isso se sentia tão responsável por cuidar de Fenella; além do sentimento de gratidão de ter sido tirada de uma vida de miséria pela família da Lady, sabia que ela era alguém que não sabia se virar sozinha. Lyora gostava genuinamente de Fen, e desejava poder protegê-la de todo mal. Infelizmente, com a guerra cada dia mais próxima, sabia que manter a ingenuidade luminosa de sua jovem senhora era uma tarefa quase impossível.
Mas isso não a impedia de continuar tentando enquanto pudesse.
—Acho que a Princesa Myriah vai estar ocupada demais com a guerra para fazer amizades— Lyora comentou, simplesmente.
Fenella revirou os olhos
—Não seja boba, Ly! É impossível se hospedar no castelo de alguém sem fazer ao menos alguns amigos— ela replicou— Inclusive, eu já estava esquecendo! Lady Flint me chamou para tomar chá com ela e Lady Dustin. Você quer vir comigo?
Lyora definitivamente não queria se assentar uma tarde inteira em uma mesa com mocinhas mimadas e arrogantes que a consideravam uma mera criada. Mas não poderia ser assim tão direta com Fenella.
—Eu posso te levar até lá, mas não estou com fome agora. Vou ficar por perto, se você precisar, é só me chamar— ela respondeu, largando o bordado e sorrindo para Fenella.
A jovem Lady sorriu de volta.
—Elas já devem estar me esperando na estufa— Fen disse— Vamos?
Já havia se tornado um hábito para Lyora toda vez que Fenella tinha algum evento social no qual ela seria considerada mal-nascida demais para estar ficar pelas redondezas passeando. Ela gostava do ar livre, da sensação do vento frio no seu rosto, da paz que a solidão lhe proporcionava. Era bastante conveniente que as jovens ladies abrigadas em Winterfell tivessem desenvolvido uma preferência por tomar seu chá na estufa, isso dava uma excelente desculpa para Lyora perambular sozinha pelos jardins de inverno e pelo bosque sagrado.
—É claro, Fen, vamos— Lyora respondeu, e Fenella imediatamente entrelaçou o braço no seu.
—Sabe, você deveria ficar e tomar o chá conosco algum dia! As meninas não são tão nariz em pé quanto parecem, tenho certeza que, se te conhecerem, vão mudar de ideia sobre você ser uma bastarda e tal…— Fenella voltou a tagarelar, mas Lyora já não estava mais ouvindo.
Dentro dos aposentos de Fenella, com a paz e a certeza que estavam seguras, Lyora poderia relaxar, e deixar sua jovem senhora ser tão leviana e falante quanto quisesse. Porém, quando colocavam os pés para fora, e consequentemente se expunham para os perigos do mundo, Lyora não poderia deixar-se distrair com tanta facilidade. Seus olhos permaneciam focados no ambiente ao seu redor, atentos a qualquer ameaça ou pessoa duvidosa; até mesmo sua postura mudava, tornando-se mais inquieta, e em guarda.
Fenella, com sua abençoada tendência a ser extremamente distraída, mal parecia notar essa pequena transformação de sua companheira.
—Você não pode ser tão reclusa, sabe? Como quer conseguir um bom marido se não interage?— Fenella continuava a falar, Lyora apenas assentia distraidamente. Logo Fen acharia outro assunto, e esqueceria sobre ela e sua vida amorosa. Ou a ausência de uma.
Lyora odiava como Winterfell estava cheio. Porto Branco costumava ser uma cidade lotada, e efervescente, mas Castelo Novo, o antigo lar dela e de Fenella, tinha uma certa tranquilidade. Os Manderly raramente tinham tantos hóspedes, mas a guerra havia tornado Winterfell em um refúgio para muitos, incluindo as duas, que haviam tido suas cidades e castelos invadidos pelos Blackfyre. Ainda assim, Lyora não conseguia se acostumar com tantos rostos novos e suspeitos, tantas pessoas direcionando atenções e lisonjas para Fenella. Como deveria manter a jovem Lady longe de confusão se mal poderia controlar quem se aproximava dela?
Talvez ela devesse começar a aceitar o fato de que Fenella já era uma adulta, e logo iria construir a própria vida e deixar de precisar dela. Mas que outro propósito Lyora teria, se não o de servi-la e protegê-la?
Decidiu, ao invés de se preocupar com o futuro, se focar na tarefa que tinha em mãos, que não era uma tarefa tão pequena ou simples quanto parecia. Para chegar à estufa, era necessário passar pelo pátio principal de Winterfell, e então pelo jardim. Pensar no trajeto imediatamente deflagrou toda a ansiedade de Lyora como uma onda feroz e avassaladora. Ela odiava passar pelo pátio com Fen, pois, invariavelmente, haveria lá um homem treinando esgrima ou justas. E, Fenella sendo como era, sempre daria brecha para flertes inapropriados e fofocas. Lyora suspeitava fortemente que, se não fosse sua presença, a jovem Lady já teria causado danos irreparáveis à própria honra com seu comportamento excessivamente desinibido.
Por maior que fosse sua ansiedade, seus pensamentos catastróficos, e sua apreensão, Lyora mal sabia o quão ruim era o que a esperava no pátio. Assim que colocou seus pés no amplo espaço de pedras cinzentas, perdeu a pouca cor que tinha em seu rosto ao ver o Rei Tobin Stark em pessoa treinando esgrima.
Mesmo Lyora, que não pensava muito a respeito do Rei, deveria admitir que ele era um homem atraente. Muito atraente. Alto, forte, e com uma certa beleza rústica, que ficava ainda mais em evidência com a pouca roupa que ele fazia questão de usar para treinar. Mesmo no frio intenso, ele trajava um colete sem mangas, que destacava os braços fortes e o físico esculpido. Ele tinha olhos cinzentos, selvagens, como muitos Stark antes dele, e também o rosto anguloso e solene. Seus cabelos eram castanhos, no momento em uma desordem que apenas ressaltava os traços masculinos e simétricos. Lyora não encarou, mas, se pudesse encarar sem ser pega, talvez tivesse feito isso. Apenas segurou o braço de Fenella com mais força, e procurou apertar o passo, antes que Tobin as notasse.
—Deuses, ele é mesmo um monumento— Fenella comentou enquanto, diferente de Lyora, encarava descaradamente— Me pergunto como ainda não tem uma esposa… ou uma amante.
—Fenella!— Lyora ralhou, olhando para a Lady de cara feia.
Fenella riu alto, genuinamente entretida com a reação de sua companheira.
—Não estou dizendo que seria eu, relaxe, Ly. Bem, a menos que ele pedisse com jeitinho…
Lyora estava considerando se deveria ou não contar a Lorde Marcyl Manderly as coisas vulgares que sua neta andava aprendendo com as Flint e as Dustin, quando percebeu, tarde demais, que Tobin havia largado a espada e olhava na direção delas.
Fenella, sendo como era, e incapaz de ser de qualquer outro jeito, obviamente fez o que Lyora esperava, e mais temia: sorriu para o Rei, os dentes brancos expostos de modo doce e deslumbrado. Lyora fechou a cara, sentindo vontade de morrer, ou talvez de matar alguém. Tobin encarou Fenella, e acenou com a cabeça na direção de ambas em um breve cumprimento. Mas o Rei estava longe demais para se aproximar tão rapidamente que Lyora não pudesse impedir com o seu próprio passo apressado, e ela não queria ficar pra descobrir se ele tentaria se aproximar ou não. Continuou puxando Fenella para longe, o que lhe rendeu um resmungo e uma reclamação:
—Poxa, Lyora! Ele olhou para mim! Ia vir falar com a gente, se você não fosse tão rabugenta.
Lyora novamente fez uma careta para Fenella.
—E o que você acha que ele quer com uma mocinha bobinha igual você, Fenella? Casamento? Quando uma Princesa está chegando para propor uma aliança?— Lyora replicou— Pois eu te garanto que, se ele viesse falar com você, não seria pelos motivos certos.
Fenella revirou os olhos, tal qual uma criança birrenta, e disse:
—Você é pessimista demais, Lyora! Ele pode ter se apaixonado pelo meu sorriso. O amor não vê títulos e alianças, apenas o coração!
Lyora só se sentiu tranquila novamente quando deixou Fenella na estufa, e constatou que de fato só havia mulheres no local. Dustin e Flint a olharam com alguma petulância, mas Lyora não se irritou tanto quanto normalmente se irritaria. Ainda estava pensando em como poderia manter Tobin Stark longe de Fenella, se ele realmente tentasse alguma aproximação.
Ela vagou distraidamente pelas redondezas do bosque sagrado, fazendo seu melhor para não deixar a ansiedade consumi-la, até que se viu de frente a uma enorme árvore represeiro. Era estranha, diferente das outras. Em Castelo Novo, havia um bosque sagrado, mas muito menor, e sem nenhuma árvore tão grande e imponente. Isso era provavelmente devido aos Manderly serem a única casa do Norte a seguir a Fé dos Sete, não os deuses antigos; mas Lyora sempre preferiu os bosques aos septos. Talvez esse fosse o único legado que sua mãe lhe deixara, além de sua habilidade com a agulha. Ainda assim, ela não estava certa de que acreditava totalmente naqueles estranhos deuses de folhas e troncos.
Lyora parou e se ajoelhou em frente ao represeiro, muito mais como um gesto de curiosidade que de adoração. O rosto esculpido em veios vermelhos na casca branca parecia preocupado, ansioso, como o dela provavelmente parecia. Pensou que era estranho, e um pouco assustador, que os traços desenhados na árvore parecessem tanto com os seus próprios. Nariz arrebitado, olhos grandes, lábios suaves e queixo afilado. Se os olhos fossem azuis ao invés de rubros, seriam praticamente iguais aos seus. Quanto mais encarava, mais se convencia de que estava sendo paranoica, até que, ao piscar, a semelhança subitamente se desfez, e ela se convenceu de que estava vendo coisas.
Ainda assim, Lyora sentiu um arrepio desagradável, ominoso, como se aquela semelhança fosse um presságio que ela não havia conseguido decifrar.
—Eu achei que os Manderly adorassem os Sete, não os deuses antigos— uma voz grave soou atrás dela, e Lyora se virou bruscamente, assustada.
Os olhos intensamente cinzentos de Tobin Stark a encararam de volta, e ela se levantou em um salto, alisando os vincos da saia com as mãos e ajeitando a postura.
—Eles adoram. Mas eu não sou uma Manderly… Majestade— ela respondeu.
Tobin se aproximou, os passos lentos, deliberados. Mantendo uma distância respeitosa, mas de um jeito ostensivo. Quase insinuando que poderia facilmente deixar de ser, se ele quisesse. O Rei era mesmo um monumento, Lyora pensou, mas não de um jeito bom. Fenella era alta, e pareceria pequena perto dele. Ela, então, que sempre estivera mais para baixa, se sentia praticamente uma criança perto de alguém tão grande. Foi uma sensação desagradável, e, se não fosse obrigada a manter um certo decoro respeitoso, certamente teria fugido dali.
—Eu sei disso, Lady Snow— ele respondeu— Você não é como sua senhora. Ela é uma ovelha; você é um lobo, e não deixa de ser um lobo só porque decide se cobrir de lã.
Estranhamente, a frase, e o estranho título que ele decidiu lhe imputar, não soaram ofensivos. Tobin tinha uma franqueza inabalável na voz; era alguém que falava exatamente o que pensava, e talvez por isso tantas pessoas o achassem instável. Pelo pouco que conhecia do Rei, Lyora sabia que isso não era verdade. Tobin tinha sangue de lobo, e lobos certamente eram selvagens, mas não imprevisíveis. Simples criaturas de instinto, que reagem ao cheiro de sangue e à fome, não monstros ensandecidos que matam pelo prazer da crueldade.
O que não os impedia de serem sanguinários. Principalmente quando viam uma ovelha. Se Lyora já não tivesse lidado com homens assim antes, ela poderia se intimidar, mas já sabia exatamente como reagir. Um homem com uma coroa não deixava de ser um homem, e um homem grita quando é apunhalado com uma agulha de tricô, independente da pretensa estirpe.
—Eu sou apenas uma moça simples, não posso discordar de Vossa Majestade— ela replicou— Lady Fen certamente é inocente como uma ovelha, e eu também acho que não sou como ela. Eu vejo as pessoas por suas intenções verdadeiras.
Tobin riu. Sua risada era seca, mas não cruel. Lyora achou que ele tinha genuinamente se divertido com o comentário, o que a desconsertou um pouco. Estava tentando soar ameaçadora, mas às vezes se esquecia do quão pouco ameaçadora realmente parecia.
—É uma coisa boa que eu não tenha interesse em ovelhas então, Lady Snow. Parece que você se apegou bastante à sua— ele comentou, um sorriso irônico ainda no rosto.
Lyora engoliu em seco, procurando as palavras certas, mas simplesmente não havia uma resposta certa para aquilo.
—Bem, se eu fosse um pouco mais tola, poderia dizer que o contrário aparenta ser verdade. Que alguém menos inteligente diria que Vossa Majestade parecia estar encarando uma ovelha hoje mais cedo, no pátio— ela respondeu.
Tobin arqueou uma sobrancelha.
—Os deuses me agraciaram com dois olhos que funcionam bem. Eu gosto de usá-los para ver coisas belas, e não acho que isso seja reprovável— ele deu de ombros, e deu um passo para mais perto— Talvez os seus não funcionem tão bem, Lady Snow; ou talvez os Manderly estejam te privando de espelhos.
—Eu não sei se entendi o que Vossa Majestade quer dizer com isso— ela replicou.
Tobin novamente riu.
—Quero dizer que a maioria das mulheres está ciente quando é mais bela do que as outras, mas esse não parece ser seu caso, Lady Snow— ele disse— Eu garanto que não estava olhando para Lady Manderly, pois havia outra pessoa que capturou minha atenção.
Lyora detestava ser pega desprevenida, e foi precisamente o que aconteceu naquele instante. Sentiu o rosto esquentar, e só pôde imaginar o tom vergonhoso de escarlate que deve ter colorido suas bochechas.
Ele era mesmo descarado, Lyora pensou. A seguindo para o meio do bosque e dizendo aquele tipo de coisa, como se ela fosse uma mulher de vida fácil. Teria se ofendido, se não estivesse tão supresa.
—Vossa Majestade é um homem… direto— ela comentou, após se recompor minimamente.
Ele sorriu, e respondeu:
—Espero que a senhorita também seja, Lady Snow. Se não tiver interesse, nós fingiremos que essa conversa nunca aconteceu, é só dizer.
Talvez essa oferta a tivesse tentado em outras circunstâncias. Se ainda fosse uma simples costureira, ou uma criada comum, imaginava que dormir com o Rei fosse ser uma aventura empolgante, uma oportunidade que não apareceria de novo em sua vida. Talvez até mesmo um meio de ascensão social, de deixar de estar sempre abaixo de todos. Mas ela não era mais uma criada normal, era responsável por Fenella, e suas ações refletiam na honra dos Manderly.
Lyora pensou em todas os comentários que o restante dos trabalhadores dos Manderly fazia sobre ela pelas suas costas. Nariz em pé, metida, arrogante. Se achando tão melhor que todos, só porque tinha seu próprio quarto, e suas roupas eram melhores e mais caras. Iludida, delirante, pensando que era uma nobre só porque era bem quista por eles. Mas, no fundo, todos pensavam que ela ainda era apenas uma bastarda, e que o pecado e o rancor corriam pelo seu sangue; e que seria impossível para ela mudar suas origens e modos inferiores e vulgares.
E Lyora sabia que não era uma Manderly, e que tinha a boca suja demais para se confundir com uma dama; que nunca deixaria de lado o hábito de correr pela neve como um animal selvagem, ou de olhar por cima do ombro como se sempre estivesse sendo vigiada. Mas ela não era como os outros pensavam, se recusava a voltar a ser uma garotinha assustada que não tinha onde se proteger do frio, e que possuía apenas as suas agulhas de tricô para se defender. Então ela iria provar que eles estavam errados, e muito.
—Majestade… já que me pediu para ser direta, eu serei. Peço perdão pela ousadia, mas o que o senhor precisa é de uma boa esposa, não de uma amante— ela respondeu.
Tobin pareceu ainda mais entretido com sua resposta, e inclinou a cabeça para encará-la com certa curiosidade.
—Os meus conselheiros concordam com você, Lady Snow— ele disse— Tem algum outro conselho pertinente para me dar?
Lyora deu de ombros.
—A Princesa Myriah está vindo para Winterfell, e parece um bom prospecto de esposa. Ajudaria a selar a aliança entre os reinos, e dizem que ela é uma jovem bonita e agradável— ela disse.
A expressão de Tobin se tornou sombria por um momento, mas logo voltou à ligeira curiosidade de antes.
—Acredite, Lady Snow, eu não tenho interesse de me casar com Myriah Martell, e acho que ela também não tem interesse de se casar comigo— ele respondeu— Vou lidar com esses estrangeiros o mais rápido que puder, mas eles não devem criar raízes aqui. O Norte não se ajoelha, e não se molda à vontade de outros reinos.
Lyora o encarou, e, estranhamente, entendeu o que ele queria dizer.
—Vossa Majestade pode se casar com uma nortenha de bom nascimento, então— ela disse.
—Mas não Fenella Manderly?— ele provocou— Sabe, Lady Snow, a sua senhora também vai ter que se casar algum dia.
Lyora franziu o cenho.
—Eu sei disso. Mas espero que não seja alguém com sangue de lobo… Majestade— ela respondeu.
Tobin desviou o olhar do rosto de Lyora por um segundo, fixando seus olhos no represeiro. Havia uma estranha melancolia ali, e Lyora se perguntou como ninguém nunca havia reparado naquilo antes. Se sentiu perturbada, como se estivesse guardando um segredo que não deveria ter descoberto.
—Você está certa, Lady Snow. Se eu pudesse escolher, também ficaria longe do tal sangue de lobo— ele disse, um misto de ironia e tristeza em sua voz— Mas acho que eu não tenho muita escolha, tenho?
Lyora o encarou, pela primeira vez percebendo que não detestava Tobin Stark. Talvez desconfiasse um pouco dele, mas não achava que fosse alguém realmente ruim.
—Majestade, para que algumas pessoas permaneçam inocentes, é necessário que outras carreguem fardos pesados— ela disse— Mas ninguém precisa aguentar tanto sozinho.
—E uma esposa me ajudaria a carregar esse fardo, Lady Snow? Por isso acha que devo me casar?
Lyora deu de ombros.
—Uma esposa boa e sábia tornaria sua vida mais fácil, Majestade. Por isso acho que deve ser cuidadoso ao escolhê-la— ela respondeu.
Tobin respirou fundo, os ombros se encolhendo.
—Eu não posso escolher, Lady Snow. Nunca pude. Acho que só agora estou percebendo o quanto eu nunca tive escolha— ele murmurou.
Lyora hesitou, mas a tristeza genuína no rosto dele era urgente demais para ignorar. Ela deu um passo para mais perto de Tobin, e colocou uma mão em seu ombro, apertando gentilmente. Como fazia quando Fenella estava triste e precisava de consolo, como sua mãe costumava fazer com ela quando era uma menina. Sentiu os músculos do Rei se contraindo, mas logo em seguida relaxando sob seu toque.
—Majestade, não acho que o senhor seja uma pessoa ruim. Então vou falar o que eu penso, e espero que não coloque minha cabeça em uma estaca pela minha ousadia— Lyora disse.
—Eu não vou— ele garantiu.
— Eu acho que os conselheiros, por melhor intencionados que sejam, não são um Rei. Eles devem obediência ao senhor, e, se até agora os Blackfyre não conseguiram tomar o Norte, Vossa Majestade deve estar fazendo algo de certo— Lyora disse.
Tobin fixou novamente o olhar no rosto dela.
—É difícil ter tanta segurança em mim mesmo quando todos dizem que sou louco— ele respondeu— Mas você está certa, Lady Snow. Os deuses me fizeram o Rei, e não eles, por um bom motivo. Sabe qual é?
Lyora negou com a cabeça.
—Não ser o Rei que vai dobrar o joelho. E eu planejo cumprir a vontade dos deuses até o final— ele disse.
Lyora tirou a mão do ombro de Tobin cuidadosamente, e ajeitou a própria postura.
—Se tem alguém teimoso o suficiente para conseguir, é Vossa Majestade— ela disse— Com todo o respeito, é claro.
Tobin riu.
—Estou vendo o tanto que me respeita— ele ironizou— Mas isso é bom. As pessoas às vezes tem medo de serem diretas com quem usa uma coroa.
—Gosto de pessoas diretas, Majestade, e não sei ser diferente— Lyora respondeu.
Tobin ainda sorria, e Lyora decidiu que não era mais sarcástico, dessa vez.
—É o que mais funciona comigo, Lady Snow— ele garantiu— Então vou ficar longe de Fenella Manderly. E de você, a não ser que mude de ideia.
—Acho pouco provável, Majestade— ela replicou.
—Eu não sei, os deuses tem maneiras estranhas de cumprir seus planos. De qualquer maneira, espero que essa não seja nossa última conversa, Lyora Snow.
—Eu certamente já tive conversas bem piores, Tobin Stark.
Tobin riu, e, com um último aceno de cabeça, se afastou, desaparecendo bosque adentro. Lyora permaneceu parada por alguns segundos, confusa e conflitada com o que havia acabado de ouvir.
Voltou a encarar o represeiro, e pensou que, se Tobin estivesse certo, e aquela fosse a vontade dos deuses, eles eram deuses estranhos. Pareciam apreciar demais tarefas perpétuas e intermináveis, e meandros confusos de honra e dever.
Isso a fez lembrar-se de Fenella, e que deveria voltar para buscá-la logo. No caminho de volta à estufa, pensou que não seria tão ruim assim ver Tobin Stark novamente. Nem que fosse para entender o que se passava pela estranha cabeça que sustentava a coroa e o destino de todo aquele reino.
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